"Então, falando ele estas coisas em sua defesa, Festo disse em alta voz:
Estás louco, Paulo! As muitas letras te levam à insanidade!"
(Atos dos Apóstolos 26.24)

segunda-feira, dezembro 31, 2007

Antes de o Ano Novo chegar...

Desde ontem tenho estado a fim de escrever um texto hoje por ser o último dia do ano. Acredito ser a primeira vez que faço isso. Mas, sabem como é, essa mística toma conta da cabeça da gente, fazendo com que não deixe passar em branco a chance de fechar legal um ciclo mais na vida. E preciso me apressar, pois os fogos já estão estourando!

Admito, no entanto, que não está sendo fácil. O que vou dizer nessa ocasião que todo mundo já não saiba? Talvez elaborar resoluções de Ano Novo seja uma boa pedida. Convenhamos, todavia, que ninguém deve estar muito disposto a ficar lendo uma lista de metas que alguém fez, tendo em vista o ano que entra, quando cada um deve estar muito ocupado escrevendo a sua. Claro, o outro sempre pode dar umas idéias para a gente. Entretanto, acho que vocês querem ler algo mais interessante do que um punhado de coisas que estou querendo para 2008.

Em 2007, falei bastante sobre o que mais sei falar e o que mais complica a minha vida: a teologia. Sim, porque "teologar" é estabelecer referências que auxiliem a tornar a vida mais centrada e equilibrada. Bem, pelo menos deveria (?) ser assim. O que acaba acontecendo é que a teologia costuma trazer conflitos por mexer com o fundamento do ser. Trocando em miúdos, a teologia tenta pensar sobre aquilo em que a gente crê. Só que é perigoso pensar sobre isso, uma vez que, quando se trata da fé como uma referência de vida, há grande dificuldade em admitir que a realidade, de um modo geral, seja bem mais complexa do que a experiência particular de cada um. Quero dizer com isso que pensar teologicamente, ou seja, articular racionalmente a experiência da fé, significa descobrir que nossos referenciais se fazem de uma dobra do Sagrado sobre a existência humana mutável. E é da experiência que o Sagrado emerge, sendo percebido no(s) horizonte(s) de compreensão da(s) pessoa(s). Mas há muitas coisas que percebemos e inúmeras outras que nos escapam. Pelo que a teologia, se não a própria fé, surge como atividade dialética: as compreensões do que seja(m) o(s) sentido(s) da(s) existência(s) deveriam se iluminar mutuamente. Surge logo um porém: o problema da verdade. O modo como compreendo o que julgo ser o fundamento da existência se apresenta como a verdade para mim. Como a minha compreensão pode ser "a" verdadeira, no entanto, se há a compreensão do outro que ele sugere ser verdadeira da mesma forma? Perceberam a dificuldade?

Caso tenha aprendido direito do Hans Küng, teólogo alemão católico, se a fé tem a ver com a vida, então a verdade da religião deve estar relacionada com o modo pelo qual ela cuida da vida. Não se iludam: toda pessoa que crê acaba sistematizando essa fé de modo que possa viver a partir dela. Aí nasce a religião. Pois bem, praticar uma religião é acreditar. Acreditar que a vida tem sentido(s) e procurá-lo(s). Mais: fazer dessa procura um projeto de preservação da vida, em todas as suas formas. Para a consciência humana crente, portanto, a vida surge como um milagre proveniente de uma Consciência maior do que ela própria. E, para a consciência, o que há de mais elevado na existência do que uma consciência, oras?

A teologia trata de vida, de esperança. A esperança é aquilo que aposta no triunfo final da vida. Essa, talvez, seja a missão mais fundamental da fé: fazer-nos esperar, mesmo contra a esperança. A esperança, em grau maior ou menor, é que possibilita a preservação da vida. O que poderia ser, por exemplo, a luta das espécies pela própria sobrevivência que não uma manifestação de esperança, ainda que em menor nível de complexidade psicológica?

Bem, se tenho algo a dizer a mim mesmo e também a vocês é que, em 2008, a gente tente manter viva a esperança. Se temos fé, qualquer que seja ela, demos as mãos. Só é possível ter esperança quando a gente sabe que alguém nos acolhe. Crer não é, no final das contas, estar certo de que se é acolhido por Deus?

Feliz 2008!

domingo, dezembro 30, 2007

2008, tempo e Deus


Prestes a entrar o novo ano, “tempo” é uma idéia que, com freqüência, ocorre-nos. “Será que dará tempo de concluir essa atividade antes de acabar o ano?” “Quanto tempo precisarei investir para realizar tal projeto no ano que vem?” “Nossa! Falta pouco tempo para o réveillon!” Pensando ser assim, resolvi comentar a palavra “tempo” a partir da literatura bíblica, especificamente o livro de Eclesiastes.


No versículo 1 do capítulo 3, duas palavras hebraicas que podem ser traduzidas por “tempo” – zeman1 [1] e et [2] – são usadas em paralelo, uma definindo a outra: a primeira, zeman, “tempo determinado”2, define a segunda, et, “tempo”.3


Para tudo há um tempo determinado;

há, para todo desejo, um tempo sob os ceús. [3]


A idéia sugerida é a de ocasião própria. É significativo que a versão grega traduza et por καιρóς (kairós), “época”, “tempo apropriado”.


Nos sete versículos seguintes são justapostas, sempre com a palavra et, séries de circunstâncias opostas. Parece que se quer indicar com isso que as condições de possibilidade de cada uma delas impõem que cada qual possua uma ocasião própria de realização.


Importante chamar a atenção aqui para algumas circunstâncias, tais como as que aparecem no versículo 8a: Tempo para amar e tempo para odiar [4]. Por mais que a raiva, e mesmo o ódio, seja uma reação natural do ser humano em face de certas situações, não é razoável que tal sentimento dure indefinidamente. Poderíamos interpretar a menção do amor em primeiro lugar como intenção de destacar uma virtude preferível ao ódio e limite necessário para este. A raiva, ou o ódio, possui um tempo, pelo que deve ser contrabalançada pelo amor. Oportuno é trazer à memória Jesus de Nazaré: “Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; desse modo vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus, porque ele faz nascer o seu sol igualmente sobre maus e bons e cair a chuva sobre justos e injustos”4 (Mateus 5.43-45).


Este tempo, do qual fala o autor de Eclesiastes, por conseguinte, assinala o momento adequado para se fazer cada coisa durante a vida. Isso significa que, em nosso poder e vontade, haverá sempre um limite. A existência e o tempo são maiores do que nós. Quanto mais cedo se compreender isso, menos tempo se gastará procurando fazer aquilo que está fora do alcance, visto que ainda esteja distante o tempo de fazê-lo.


No versículo 11 do mesmo capítulo, diz-se que há beleza quando as coisas acontecem nas ocasiões oportunas para as quais Deus as fez.


Tudo ele faz belo em seu tempo;

também dá ao coração deles a noção de duração do tempo,

sem que o ser humano descubra a obra que Deus faz

desde o princípio até o fim. [5]


A noção de duração do tempo, da qual Deus dotou o entendimento humano, impõe à pessoa que, embora seja desejável que se lance em direção a essa reflexão, ela não poderá compreender tudo o que Deus faz. A palavra olam [6], nas acepções possíveis de “antigüidade”, “perpetuidade”, “eternidade”, poderia estar sugerindo, ao mesmo tempo, a idéia de tempo decorrido, de tempo que ainda resta e, talvez, de tempo psicológico, no âmbito do qual o ser humano medita sobre a sua experiência no mundo.


Há uma nítida relação entre discernir o tempo de que dispomos para viver e discernir a incognoscibilidade de Deus no que se refere ao nosso entendimento. Em outras palavras, o nosso curto tempo de vida é absolutamente desproporcional ao que há para ser conhecido em Deus. A noção de tempo que temos, se realmente levada a sério, obriga-nos a admitir que Deus permanecerá um contínuo mistério para nós, pois dele sempre saberemos pouquíssimo. Não foi Jesus, segundo o autor do livro de Atos dos Apóstolos, quem disse aos seus seguidores que não lhes competia “conhecer os tempos e os momentos que o Pai fixou com sua própria autoridade”5 (1.7)?


O que se pode concluir daí? Quando pensamos nosso tempo e o que faremos com ele, é necessário reverenciar Deus, cujos ser e obra são por demais elevados para nós, porém perpassam continuamente nossa própria existência para nos abençoar. Reverenciar Deus é recolher nosso ínfimo conhecimento à nossa condição temporária e abrir-se para o amor e a solidariedade, virtudes que, por Jesus de Nazaré, revelaram-se eternas.


Feliz 2008!


Notas:


1 A palavra zeman é um empréstimo lingüístico do aramaico (HARRIS, R. Laird; ARCHER JR., Gleason L.; WALTKE, Bruce. Dicionário internacional de teologia do Antigo Testamento, p. 1141).


2 Ibid., p. 396.


3 Ibid., 1141.


4 A Bíblia de Jerusalém (1985), p. 1847.


5 Ibid., p. 2046.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS



A BÍBLIA DE JERUSALÉM. Nova edição, revista. São Paulo: Paulus, 1985. 2366 p.



ELLIGER, Karl; RUDOLPH, Wilhelm. Biblia Hebraica Stuttgartensia. 4. ed. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 1990. 1574 p.


HARRIS, R. Laird; ARCHER JR., Gleason L.; WALTKE, Bruce. Dicionário internacional de teologia do Antigo Testamento. Trad. Márcio Loureiro Redondo, Luiz A. T. Sayão e Carlos Osvaldo C. Pinto. São Paulo: Vida Nova, 1998. 1789 p.


quarta-feira, dezembro 26, 2007

Fé e dúvida

Dizem-me que o que preciso é apenas acreditar.
Porém, não consigo não duvidar.
Não duvido por pedantismo
ou para bancar o diferente.
Duvido porque, desde a infância,
houve quem me desse motivos.
E a teologia nunca foi vilã de nada.
Pelo contrário, a sua pluralidade me abriu os olhos
para ver que a fé não pode ser reduzida a uma dogmática
e que a dúvida só destrói a fé que se esconde de si mesma.
Reconheço que, em relação à dúvida,
esteja sendo qual Fox Mulder, do Arquivo X:
"Eu quero acreditar".
Talvez eu queira acreditar na dúvida
e duvidar da crença.
Mas não será a fé também isso,
acreditar na incerteza
e duvidar da certeza?
Só lhes peço paciência, amigos e amigas,
caso, em minhas palavras, vocês encontrem vários "e se...?"
É possível que seja mais conveniente para mim duvidar.
É provável que me seja mais favorável acreditar.
Pode ser que as afirmações sobre Deus sejam justificáveis,
ou que tais assertivas não passem de esboços de um desenhista,
o qual retrata o seu modelo a partir de um ângulo determinado.
Todavia, alguém dirá: "Só que o modelo está lá!"
É verdade! Para quem está vendo,
o modelo existe e ele só pode estar lá.
"Andamos por fé e não por vista."
De fato! A fé está inevitavelmente envolvida
quando os nossos sentidos trabalham:
acreditamos naquilo que nossos olhos nos dizem,
que nossas mãos tocam,
que nossos narizes cheiram,
que nossos paladares degustam,
que nossos ouvidos ouvem,
que nossos corações sentem;
estímulos que nossos cérebros interpretam...
E voltamos à velha (e sempre nova) hermenêutica!
Absolutos,
relativos,
palavras,
olhares...
Talvez eu queira acreditar na dúvida
e duvidar da crença.
Mas não será a fé também isso,
acreditar na incerteza
e duvidar da certeza?
Sabem? Quero (re) encontrar a mim mesmo.

quinta-feira, dezembro 20, 2007

Textos, sentidos, idos... idos...

A leitura de textos e a preocupação com o seu sentido vêm provocando inquietações em mim desde que me envolvi de modo mais consciente com a religião. Inicialmente, minhas reflexões sobre os documentos bíblicos não se apercebiam da necessidade de um rigor literário-científico que orientasse o contato com as letras, embora não fosse ignorante em relação à utilidade e à indispensabilidade de algumas ferramentas metodológicas para uma leitura analítica e especializada. O princípio religioso-confessional de que a iluminação divina ajudaria a descobrir a verdade contida nos textos sagrados era suficiente, não obstante a investigação crítica desses documentos – primeiramente através de um exame nas línguas originais, inclusive – fosse, de igual modo, condição fundamental para encontrar o sentido, de acordo com os pressupostos teológicos oriundos da Reforma Protestante.


A experiência no Seminário e, depois, como professor iniciante de teologia, aproximou-me significativamente da hermenêutica, mesmo que minha compreensão de interpretação de textos bíblicos permanecesse restrita (mas não por muito tempo) à idéia de busca de um único sentido legítimo, a saber, aquele pretendido pelos autores. Evidentemente, a leitura de exegetas católicos e protestantes mais receptivos às metodologias modernas de análise literária (por exemplo, o método histórico-crítico), de cunho filosófico racionalista, despertava a minha curiosidade quanto às implicações de se admitir a Bíblia como um produto das mãos de seres humanos historicamente comprometidos.


Uma passagem pelo Mestrado em Teologia, ainda que não tenha culminado na conclusão do curso, sedimentou algumas percepções: a) É impossível atingir a intenção do autor, porém apenas efetuar aproximações e elaborar hipóteses de interpretação, as quais serão sempre passíveis de falseamento por ocasião de novos argumentos; b) A hermenêutica não é, de modo algum, somente uma etapa final do trabalho de análise dos textos, com vistas à contextualização de sua mensagem, todavia um processo inerente ao desenvolvimento da tradição bíblica, de cujos livros raramente se pode falar de um autor, visto que a sua transmissão envolvia o fenômeno das releituras que agregavam novos sentidos, adequados aos horizontes de compreensão contemporâneos, mediante acréscimos, omissões e atualizações dos documentos recebidos; c) Segundo a filosofia heideggeriana, o leitor, enquanto ser-no-mundo, está imbuído de “prés” – com toda a carga geradora de significação de que seu patrimônio cultural e existencial é capaz –, os quais condicionam a interpretação; d) O texto é incontornavelmente polissêmico, ou seja, portador de uma reserva de sentido que torna possíveis tantas leituras quantos forem os leitores. A polissemia do texto faz com que sua interpretação independa do sentido pretendido por seu autor.


Meu interesse pela habilitação Português-Literatura do curso de Letras da Universidade Estácio de Sá se deveu à ambição de adquirir mais conhecimentos no campo da Hermenêutica. A exposição das múltiplas correntes de análise literária fez com que eu aprendesse a ver a Literatura enquanto manifestação da dialética do ser consigo e com o mundo. Sobretudo, o texto literário, venha ele revestido de uma estrutura religiosa ou não, é linguagem(ns) de (res)significação da realidade, uma vez que o ser humano e as percepções que este constrói acerca do mundo são essencialmente linguagem.


Lembro-me de que a Profª. Angela Fabiana (de Teoria da Litetarura III) costumava dizer que já trazemos algo conosco a partir do momento em que passamos a existir no mundo. Isso me faz recordar, embora os pressupostos metodológicos-existenciais sejam distintos, da teoria gerativa de Noam Chomsky, segundo a qual o ser humano nasce com uma capacidade inata de adquirir linguagem e desenvolver competência comunicativa entre os falantes do grupo social no qual está inserido. Essa relação intrínseca entre linguagem e existência ficou bastante nítida nas aulas: os formalistas russos, interessados em estudar a forma do texto, chamavam a atenção para as funções da linguagem no processo da comunicação; os teóricos da Nova Crítica norte-americana entendiam a narrativa como um mundo em si, no qual cada elemento possuía um papel inequívoco e fundamental para a compreensão do texto; a Estilística tentava descobrir o elo entre o sentido do texto, o estilo do autor e o espírito de sua época; a Sociologia da Literatura sinalizava o caráter libertário do texto literário – por exemplo, o romance, que trataria do contraste entre valores autênticos e a degradação social; a Fenomenologia apresentava o texto literário como representação da realidade, tal qual ela aparece diante dos sentidos; a Estética da Recepção irá valorizar a experiência do leitor com a obra literária.


A leitura de textos e a preocupação com o seu sentido continuam a provocar inquietações em mim. A diferença é que, a partir dos estudos em Literatura, percebo que não há exatamente textos sagrados. Há textos. A vida é sagrada, em suas infinitas possibilidades. A Literatura dá conta dessa sacralidade da vida, na medida em que afirma esta é sempre um vir-a-ser e, portanto, pode ser sempre mais do que tem sido, abre-se continuamente para o mistério da existência.


terça-feira, dezembro 18, 2007

Natal

E se, em vez de Jesus, menino,
Nascesse uma garotinha, digamos, Ana,
Lá nos recantos tristes de Nazaré?
Tivesse, tal qual Estrela,
Refulgido a criança-mulher naquela semana,
Apareceria o Sagrado mais terno, feminino?

sábado, setembro 01, 2007

A lua

Eu estava saindo da biblioteca do seminário, ontem. Já viera de outra biblioteca, a da faculdade, e havia andado muito. No caminho, pensava, falando para mim e para Deus sobre o meu cansaço, as minhas dúvidas e as minhas insatisfações com a religião, comigo mesmo e o ser humano. Apenas da natureza não tinha ressentimentos. Parecia-me a única realidade pura e legítima neste planeta (Não obstante, a luta das espécies entre si para sobreviver, freqüentemente violenta, deixa-me perplexo. É a violência humana, porém, que me causa repulsa e indignação!). E foi a natureza que me surpreendeu, quando eu estava assim, o coração tão dolorido.

A lua estava grande, um pouco coberta pela escuridão, contudo emitia um brilho cor-de-âmbar. Uma visão incrível, belíssima, da qual eu desfrutaria algumas outras vezes até entrar em casa. No caminho, um gato (novamente preto e branco, só que, dessa vez, do lado de dentro de uma casa, o portão devidamente protegido por uma tela, sinal evidente do cuidado dos donos pelo seu animal). Ele miou para mim, só então o vi. Imagine só! E nem me conhecia! Certamente nunca me havia visto! Aproximei-me e, mesmo por entre a proteção, ele não hesitou em se mostrar amigo.

Minutos antes disso, vi que uma conhecida, adolescente, vinha pelo outro lado da rua. Tive a impressão de que ela me identificara, todavia ficou na dúvida. Embora houvesse passado, ela olhou para trás e, agora segura, acenou para mim, sorridente. Retribuí. Foi legal aquilo.

Eventos únicos, ainda que circunstanciais. Não sei dizer se foram gestos de Deus, se bem que houvesse pensado nisso. Deus, aliás, à semelhança do narrado na lenda de Jó, não deu resposta objetiva às minhas indagações, mesmo soluções para as minhas dores. Isso não é uma reclamação, apenas uma percepção (que é uma ao lado de outras igualmente possíveis). E quer saber? Os personagens dos textos bíblicos não são exatamente conhecidos por se dirigirem a Deus cheios de "não-me-toques". Basta lembrar de Moisés, farto dos israelitas que conduzia pelos desertos; de Jeremias, explodindo de raiva, disposto a abandonar tudo; de Jó, ressentido porque tudo de ruim acontecera com ele; da mulher de Jó, que dissera ao seu marido para amaldiçoar a Deus e morrer; de Jonas, aborrecido, já que o seu anúncio (sem compaixão nenhuma, é verdade) não se realizara; de Jesus, desesperado diante do abandono da última pessoa de quem ele esperaria isso; de Paulo, arrasado porque Epafrodito estava à morte.

Ao chegar em casa, a dor permanecia. Contudo, essas experiências que vivi foram significativas. Deus apenas me ouviu. Todavia, a lua cor-de-âmbar foi um espetáculo muito bonito de se ver!

segunda-feira, julho 09, 2007

O curupira

Um homem decidiu entrar numa floresta próxima para procurar alimento. Abria caminho na folhagem densa, andava com dificuldade e sujava os pés em trechos de muita lama, olhava atentamente ao redor na esperança de avistar alguma árvore com frutos ou animal que pudesse abater.

Depois de algum tempo, frustrado e ressentido porque não obtivera sucesso, amaldiçoou aquela floresta que se lhe mostrava tão hostil. Subitamente, ouviu detrás de si um barulho. Virou-se e percebeu um movimento em alguns arbustos ali perto. Aproximou-se devagar. Quando afastou os ramos, não viu nada. Inclinou-se ainda um pouco e notou marcas de pés que seguiam mata adentro. "Talvez seja alguém procurando comida também", disse consigo. E sem pensar muito mais, começou a acompanhar as pegadas.

Não entendia o que estava acontecendo. Já caminhava há bastante tempo, todavia não alcançara o autor das marcas. Curiosamente, as pegadas desenhavam uma trajetória confusa, que parecia levar mais para o interior da floresta. A vegetação se fechava ameaçadoramente em cima do homem, seu fôlego estava no fim. Para piorar, escurecia. Então, vencido pelo cansaço, faminto, em pânico, desmaiou.

Sentiu um calor no rosto, levantou-se com um grito. Uma fogueira! Cheirou algo que fê-lo desviar avidamente o olhar. Ao seu lado, um pouco acima de onde estivera apoiada a sua cabeça, havia um animal assado, talvez um porco do mato. Sobre as folhas que acomodavam a carcaça, encontravam-se algumas lascas de pedra, polidas, pontiagudas. Pegou-as e foi logo cortando pedaços de carne, os quais punha na boca com sofreguidão.

Quase engasgou! Um vulto no canto de seu campo visual chamara a sua atenção. Uma coisa o fitava, tinha olhos grandes, amarelos, esbugalhados. Possuía forma ligeiramente humana, baixa estatura, pele grossa como o tronco de uma árvore. O corpo era todo coberto de pêlos esverdeados, espessos, feito musgo. A cabeça precipitava até o chão uma longa cabeleira vermelha, na qual embolavam-se várias folhas secas. Da boca entreaberta, pendiam dentes enormes.

– Beba um pouco d'água, balbuciou a voz rouca. O homem permaneceu mudo. Um instante infinito, e esticou o braço para recolher o líquido das mãos espalmadas do bicho, que avançara em sua direção.

A água aliviara a garganta seca, o homem permanecia com a vista cravada naquele ser, de alto a baixo. Seus pés eram virados para trás! Entendeu tudo! Topara com o curupira!


– Vo-você é... é o curupira! Um demônio das matas!


A coisa baixou a cabeça, soltou um grunhido.


– Demônios não habitam florestas. Eles odeiam a vida. Costumam infestar lugares desertos e os corações dos homens.


O sujeito ficou surpreso com a resposta. Antes que pensasse em dizer algo, o bicho continuou:


– Amaldiçoaste a mata, certo de que ela te negava o que precisavas. Porém, a tua própria espécie, ainda que da natureza provinda, perpetrou contra ela traição cruel, negando-lhe o direito à vida.


Atordoado, o homem começou, trêmulo:


– Não tinha o que comer... entrei aqui... meu Deus...


– Deus? explodiu a coisa. Que sabes dele? Nosso Pai, de quem vós, homens, usurpastes a criação? Amada Mãe, cujos seios de amor tendes secado com vossa ganância, esgotando a terra, supliciando animais e plantas, matando os vossos semelhantes, reduzindo tudo aos interesses de vossas relações de compra e venda? Não! Não conheces a Deus! Tudo o que enxergas são os teus próprios demônios e por isso proferes maldições com a tua boca!


Um choro convulsivo ecoou por entre as árvores. O homem soluçava. Ali, sentado, sentiu o ser tocá-lo. Ergueu o olhar e foi confortado por um semblante terno. O curupira estava com pena dele.


– Essas lágrimas umedecem o teu interior. Reconheces que tu e os teus precisais reconciliar-vos com vossos irmãos?


O sujeito assentiu. A coisa o convidou a servir-se novamente da carne assada, a fim de que saciasse a fome. Adormeceu aos pés da criatura.


A claridade da manhã, que se esforçava por penetrar a mata fechada, despertou-o. Levantou-se. Olhou ao redor, o curupira desaparecera. Só restaram as cinzas da fogueira e os restos do animal que comera. Chegou a cogitar a possibilidade de ter sonhado, mas experiência alguma lhe parecera tão real. Adiante de si, havia uma trilha aberta na floresta. Seguiu por ela e logo encontrou uma clareira, na qual o sol forte fazia doer a vista. Alguns poucos minutos e avistava a civilização. Sentia-se revigorado. No corpo e no espírito.





terça-feira, julho 03, 2007

Exclusivismo na educação teológica?

Comentário elaborado a partir da postagem "As (in)utilidades da educação teológica" e dos comentários que a seguem. O material pode ser lido em http://www.israelbelo.blogspot.com.

Caro Pr. Israel,

À luz dos comentários expostos, preciso fazer algumas considerações.

Considero indispensável a pesquisa teológica democrática, que seja capaz de colocar em diálogo perspectivas de análise bíblica distintas, sendo que não existe hermenêutica que dê conta de todos os problemas e possibilidades que podem ser descobertos nessa tarefa.

Lamento que, em nome de uma suposta piedade e da "defesa" da revelação, alguns não só pretendam que certas propostas de análise filosófica, literária e científica legítimas sejam excluídas das discussões teológicas porque soam "pouco" ortodoxas, como também as estigmatizem perante a igreja (transmitindo informações distorcidas), em vez de apresentá-las com transparência (ao invés de rotulá-las de "perigos para a fé") e levar a comunidade à discussão sadia. O único perigo para a fé é a própria fé, quando pretexto para o fanatismo e a falta de reflexão e bom senso.

Conheço alguns dos professores atuais do Seminário do Sul (que não são da minha época), com os quais já conversei sobre questões da fé, e nunca ouvi nada que soasse como indiferença ou deboche em relação à fé cristã e mesmo negação do sobrenatural. Entendo, sim, que eles têm o direito de possuir e expor suas posições teológicas e que a sua atitude deve provocar as consciências dos educandos, inclusive para demolir uma arrogância dissumulada que diz submeter-se ao mistério de Deus, porém o tempo todo insiste em enquadrá-lo nessa ou naquela perspectiva teológica, como se única e suficiente fosse. E daí que haja aqueles que não considerem a Bíblia a Palavra de Deus letra por letra? A meu ver, fazer equivaler o texto da Bíblia, produto da lavra humana, à Palavra de Deus é idolatria. Coisa bem diferente é aproximar-se dela com fé por saber que ela contém testemunhos de pessoas que encontraram Deus em sua própria experiência e, baseado nesse mesmo testemunho, considerar que o Espírito Santo trará ao coração daquele que lê a presença do Senhor, embora trabalhando sobre a letra do homem falível.

Penso que o Seminário do Sul não deveria ser responsabilizado por aquilo que alunos (ditos "liberais" ou "ortodoxos") dizem, muitas vezes irrefletidamente, ao que parece preocupados não com o diálogo e a fraternidade, mas tão somente em fazer prevalecer a própria opinião. E sobre se há alguma utilidade em estudar a formação do Pentateuco: sou da posição de que há sim; toda a formação da literatura bíblica! O avanço nas pesquisas sobre a história da produção, transformação e estruturações teológicas dos textos pode desvendar intencionalidades (políticas e teológicas) ainda não notadas e, conseqüentemente, chamar a atenção para os modos de interpretação e culto com os quais Israel proclamava transcendência de sua divindade e representava uma expressão (limitada) à ação imanente dela. Desse modo, talvez consigamos iluminar as nossas próprias compreensão e atualização prática desse patrimônio da fé.

Parabenizo o sr., Pr. Israel, por seu trabalho e agradeço a sua amizade, por causa da qual ouve minhas perguntas e se dispõe a discuti-las comigo. Que Deus o abençoe!


segunda-feira, julho 02, 2007

Sobre o Código Da Vinci

22.02.2007


Caríssima Luíza,


Tenho alguns comentários a fazer sobre esse texto:


1. Não acho que o livro de Dan Brown queira provar que Jesus não era divino e que constituiu família e deixou descendentes. Que o autor se aproveitou de um tema que ano após ano provoca a ebulição da curiosidade das pessoas, não há dúvida. Mas o autor deixa bem claro, se bem me lembro do prefácio, que o livro é uma obra de ficção. Só embarca na idéia de que é um documento científico ou uma prova quem não leu direito e não quer se dar ao trabalho de pesquisar os vastíssimos dados científicos disponíveis sobre o Jesus histórico, a diversidade dos cristianismos dos primeiros três séculos da nossa era e o processo de formação dos evangelhos canônicos.


2. Eu não diria que o livro reforça a incredulidade do mundo, mas certamente, devido a todo aparato midiático construído para divulgá-lo, pode reforçar a ignorância a respeito da matéria, na medida em que leitores desprovidos de consciência crítica não se dispuserem a pesquisá-la. Ou o inverso também pode ocorrer: o livro pode instigar algumas pessoas a quererem se aprofundar no conhecimento da vida de Jesus e do material dos evangelhos. Além do mais, não é preciso ser crédulo para agir com ceticismo diante de um livro como este: um erudito do Novo Testamento que não seja crente (e há gente assim) dificilmente não denunciaria as incongruências da obra. Se o livro é uma investida do diabo, foi extremamente ingênua, ainda mais se valendo desse assunto que envolve uma das ciências mais avançadas do mundo.


3. A afirmação de Paulo em Gálatas 1.6-8 não se refere a evangelhos gnósticos, mesmo porque o gnosticismo é uma tendência que se estabelece em ambiente cristão a partir do século II. O "outro evangelho" ao qual Paulo se refere é o ensino de missionários judaico-cristãos que insistiam na observância da lei judaica como instrumento de justificação diante de Deus (Cf. At 15).


4. Atualmente é arriscado falar de "Igreja primitiva", sugerindo que os cristãos fossem um grupo homogêneo. A pesquisa recente tem apontado para a provável coexistência de "cristianismos" no Mediterrâneo dos primeiros três séculos, a começar (partindo dos dados dos documentos canônicos do Novo Testamento) pelas comunidades judaico-cristã e cristã helenística. Além disso, conhecemos, de outras fontes, grupos variados: nazarenos, ebionitas, gnósticos e montanistas.


5. Não diria que Jesus sempre foi tido como divino. Os evangelhos sinóticos e a primeira parte dos Atos dos Apóstolos parecem descrevê-lo como enviado de Deus para anunciar o seu reino escatológico, servo de YHWH à luz de textos do Segundo Isaías (40 - 55). Ainda de acordo com os sinóticos, o próprio Jesus nem mesmo utiliza para si o título "Cristo" e procura deixar claro que há diferença entre ele e o Pai, o qual, e somente ele, é bom e o único que conhece a ocasião da consumação escatológica. Entretanto, as cristologias joanina e paulina já o representam como divino.


6. "E como ele era Divino, esta questão de casamento não lhe era própria". Eu seria cauteloso quanto à ênfase dada à natureza divina ao falar do Jesus histórico. É provavelmente fora de dúvida que, a partir da experiência com Espírito Santo vivida tão logo se tenha feito batizar por João, Jesus compreendeu a si próprio como eleito de Deus para anunciar a vinda do seu reinado. A teologia da divindade de Jesus, entretanto, é um desenvolvimento posterior a ele. Não se deve esquecer que os evangelhos não são biografias, mas memória histórica "e" teologia. A afirmação de Damy Ferreira, a meu ver, é problemática por três razões: Em primeiro lugar, pode sugerir que casamento e divindade são elementos mutuamente excludentes. Noutras palavras, uma união conjugal (por envolver a "carne") profanaria a santidade da divindade. Em segundo lugar, Deus não se casa, mas o ser humano sim. E por mais divino que Jesus fosse, ele não era menos ser humano. Afirmando a humanidade real de Jesus, penso que devemos encarar a questão do seu estado civil do modo como exigem as fontes disponíveis: informação não declarada. Em terceiro lugar, em nenhuma parte do Novo Testamento se afirma que Jesus 1) não se casou, e isso pode demonstrar que os autores não tinham interesse sobre esse assunto, mas também, claro, que Jesus não foi casado e 2) que Jesus não se casou por se considerar divino.


7. "O Evangelhos foram livros históricos, feitos por autores despretensiosos, inspirados pelo Espírito Santo". Os evangelhos canônicos nunca foram escritos por autores despretensiosos. Cada um deles tinha, sim, intenções teológicas ao escreverem as suas obras. Eles não apenas selecionam e organizam, mas também dão forma ao material que têm em mãos: combinam e modificam livremente não somente a tradição de Jesus, porém textos do Antigo Testamento utilizando versões conhecidas (tradições textuais hebraicas e gregas) e desconhecidas por nós, além de revestirem esses textos de novos sentidos, obviamente retirando-os do seu contexto original (procedimento exegético não pouco usual à época). Isso não significa, entretanto, que não tivessem reverência pela preservação e transmissão das tradições de Jesus. Evidentemente, enquanto imbuídos da compreensão religiosa de suas comunidades de fé, consideravam que o seu trabalho era feito sob a iluminação do Espírito Santo, também chamado nos Atos dos Apóstolos de "Espírito de Jesus". Isso, no entanto, não deve fechar os nossos olhos para o fato de que os evangelistas eram seres humanos que vivenciavam, compreendiam e transmitiam suas experiências religiosas através de linguagem humana e, por isso mesmo, não estavam isentos de "si próprios" na composição dos textos. Isso é razão suficiente para analisar os textos de modo crítico. Apenas uma informação nesse sentido para instigar a reflexão: apesar de Maria Madalena e outras mulheres terem sido testemunhas oculares da ressurreição, elas desaparecem completamente de cena já nos relatos da ascensão do Senhor, inclusive na abertura do livro dos Atos dos Apóstolos: no capítulo 1, menciona-se, já no ambiente do cenáculo, apenas "as mulheres" e Maria, mãe de Jesus. E apesar de os resultados das pesquisas recentes, pouquíssima atenção é dada à liderança feminina nas comunidades cristãs nos documentos do Novo Testamento. Por quê?


8. Com todo respeito, acho que o Pr. Damy se excedeu ao afirmar: "É lá [no inferno] o lugar de [Dan] Brawn (sic) e todo o seu elenco". Não é papel do cristão condenar as pessoas ao inferno, mas aproximá-las de Deus. E este é o único que tem o direito de julgar quem quer que seja. Diante de uma obra como essa, penso que devemos estimular a investigação científica e o debate inteligente, sem medo, considerando que temos colocado a nossa fé em Jesus Cristo por causa de nossa experiência com os testemunhos dos autores bíblicos, sob a orientação do Espírito Santo. E essa fé consiste na esperança das coisas eternas que os olhos não podem ver. Ela se apóia, no entanto, na tradição cristã que surge na história. E se a tradição cristã surge na história, deve-se assumir não só as suas realidades, porém, do mesmo modo, as suas ambigüidades. A fé se constrói dialeticamente.


9. Espero que minhas reflexões tenham sido úteis.


Um grande abraço!


Ruben Marcelino


Site original: www.batistacentralosasco.com. br

Pessoal, procurei o texto no site e não encontrei. Por essa razão, vou reproduzi-lo abaixo, tal qual está no e-mail que recebi.

O CÓDIGO DA VINCI À LUZ DA VERDADE

2 Co. 13.8 (NVI) “Pois nada podemos contra a verdade, mas somente em favor da verdade”. Tradução da Bíblia de Jerusalém: “Nada podemos contra a verdade, mas só temos poder em favor da verdade”. A idéia do texto é que a verdade triunfa. Ninguém consegue derrotar a verdade. Temos aqui um tema mentiroso, mas a verdade o derrotará.

Rm. 3.4. “...Antes seja Deus verdadeiro e todo homem mentiroso”. É o grande tema das Testemunhas de Jeová, mas que nós vamos usar no seu sentido correto.

Na década de 60, este autor pastoreou em Araguari, Minas Gerais, uma cidade próxima a famosa cidade dos garimpos, Estrela do Sul. Acostumei-me a visitar garimpos para evangelizar aqueles homens humildes, mas fascinados pela busca de pedras preciosas. Certo dia, observando aquele monte de cascalho, que era peneirado em três peneiras, contendo muitas pedras brancas, perguntei a um dos garimpeiros: “Ei, como você pode distinguir um diamante no meio de tantas outras pedras brancas semelhantes”. O humilde homem, cheio de sabedoria, respondeu rapidamente: “Bem, pastor, duas coisas: a primeira, como o diamante é uma pedra mais pesada do que as outras, ele vai sempre para o meio da peneiragem. A segunda, é que o diamante tem um brilho que não confunde; quando ele brilha lá no centro, qualquer um pode notar que é o diamante”. Maravilhosa sabedoria prática.

A verdade é assim: Primeiro, ela está no centro de tudo; segundo, ela tem um brilho inconfundível. Quando ela aparece, ela brilha e ninguém tem mais dúvida. Como disse o grande sábio Victor Hugo: “A verdade é como a túnica de Cristo; não tem costura”.

INTRODUÇÃO

Que seria do cristianismo se ficasse provado que os Evangelhos que temos não são autênticos e nem são as mais antigas fontes de informação sobre Jesus? Que seria do cristianismo se ficasse provado que Cristo não é divino; que Ele, como qualquer outro profeta ou líder religioso constituiu família e seus descendentes vivem entre nós, secretamente? Ainda mais: que seria do mundo se ficasse provado que Cristo, mesmo divino, constituiu família e gerou filhos de natureza meio-humana, meio-divina?

É isto, e muito mais do que isto, que se pretende fazer nestes últimos tempos com o livro intitulado: Código Da Vinci, que já virou filme e está vendendo horrores. O livro já vendeu quase 50 milhões de cópias e está traduzido em 44 idiomas diferentes. Seu autor, Dan Brawn, já foi classificado pela Revista Time como uma das 100 pessoas mais importantes do mundo.
O livro, escrito por Dan Brown , foi lançado em 2003.

O ENREDO

A trama começa com o assassinato do curador do museu de Louvre, em Paris, Jacques Saunière, morto pelo monge albino Silas, um integrante do Prelado Opus Dei. O cadáver foi encontrado nu, de braços e pernas abertos, à semelhança de um clássico desenho feito por Da Vinci, denominado Homem Vitruviano, ao lado do quadro de Mona Lisa. No cadáver, e ao seu redor, várias mensagens em código, escritas pela vítima, antes de morrer, com o seu próprio sangue.

O livro, para ter jeito de novela e cinema, vai revelando seus objetivos aos poucos, à proporção em que o leitor vai se envolvendo com os fatos, num clássico estilo policial. O resumo da história é o seguinte:

Quando Jesus estava sendo crucificado em Jerusalém, Maria Madalena, sua esposa, estava grávida. Para evitar problemas para os futuros cristãos, ela fugiu para um lugar da Europa chamado Gália naquele tempo, que mais tarde veio a se chamar Paris. Ali, Maria Madalena teve uma filha que se chamou Sara. Ela recebeu toda ajuda de judeus pois, ao contrário do que dizem os Evangelhos canônicos, ela não era ex-prostituta, mas uma importante mulher de linhagem nobre, da tribo de Benjamim. (Na verdade, a idéia de prostituta, é um erro evangélico da própria interpretação da Igreja Católica, que confunde Maria Madalena com outra Maria). Casada com Jesus, da linhagem de Davi, ela merecia todo apoio possível.

Maria madalena passou a viver escondida, em segredo e seus descendentes continuaram a se multiplicar. Mais tarde foi criada uma sociedade secreta, que passou a se chamar Prelado de Sião, da qual fizeram parte grandes luminares da arte e da cultura, como Newton, Leonardo Da Vinci e outros, que bancavam a proteção dos descendentes de Maria Madalena.

Ultimamente, a Igreja Católica, sabedora do segrego, procurava, também secretamente, eliminar os descendentes do grupo, para acabar com a história, que prejudicava os conceitos mais fundamentais do cristianismo.

OS CÓDIGOS

No desenrolar do conteúdo do livro, permanece a busca frenética para decifrar códigos que vão surgindo. É uma espécie de caça ao tesouro, sofisticada. E então podemos resumir a questão dos códigos como segue:

- Da Vinci pertenceria a uma ordem denominada Priorado de Sião, similar à tão falada ordem Opus Dei, da Igreja Católica.

- Como Da Vinci era muito dado às ciências, além de artista, era olhado com cautela pelos líderes católicos, que o vigiavam.

- Assim, muita coisa que tinha na cabeça botava em código ou em termos de segredo em suas telas.

- Alguns acham que até o helicóptero aparece disfarçado em suas obras de arte.

- Dentre outras obras importantes, pintou Mona Lisa e o quadro da chamada Santa Ceia, que são a base do enredo do livro.

- Neste quadro teria posto, como que disfarçadamente, em código, Maria Madalena, ao lado de Jesus, no lugar em que normalmente se identifica o apóstolo João.

- O cálice usado por Jesus na Ceia, chamado Santo Graal, foi também usado para conter sangue de Cristo vertido na cruz. Mas para Da Vinci o cálice simbolizava o útero de Maria Madalena, e este cálice é o símbolo de todo o segredo.

Na verdade, a maioria dos críticos acha que Da Vinci jamais pensou em tal coisa. Tudo não passa de interpretação subjetiva do que seria Maria Madalena no lugar de João, ao lado de Jesus. Nem mesmo o sinal que Jesus faz com as mãos sobre a mesa, que seria a figura do útero de uma mulher.

A MONTAGEM DA HISTÓRIA

O autor juntou vários fatores, como segue:

1. Menção espúria de um Evangelho Apócrifo, que ele denomina “gnóstico”, chamado Evangelho de Filipe, em que se refere a Maria Madalena como companheira de Jesus, à qual Jesus freqüentemente beijava na boca (Nota: o beijo na boca naquele tempo não tinha o sentido sensual que tem home).

2. Usou também referências de outro evangelho apócrifo, denominado Evangelho de Maria Madalena, do qual existe apenas uma parte (faltam folhas) que, no entanto, não faz nenhuma alusão especial ao fato da união conjugal dela com Jesus.

3. Interpretação grosseiramente errada de João 2.1-12, que registra um casamento em Caná da Galiléia, dizendo que este foi o casamento de Jesus.

4. A suposta pintura de Maria Madalena, o quadro da “Santa Ceia”, do lado de Jesus, à mesa, no lugar que tradicionalmente se identifica com João.

5. A informação infundada de que o cálice único que Jesus usou e no qual beberam todos os apóstolos, foi usado por José de Arimatéia para conter o sangue de Cristo, e que passou a se chamar: “Santo Graal”. Este cálice passou a significar todo o conteúdo do segredo, de modo que passou a ser procurado por muitos ao longo da história.

6. A concepção de que Maria Madalena, ao contrário do que informam os Evangelhos Canônicos, não era uma prostituta, mas pertencente à linhagem nobre da Tribo de Benjamim e herdeira, com Jesus, que era da linhagem de Davi, do Reino Judaico.

7. Sua prole teria dado origem à dinastia merovíngia, que veio a fundar a cidade de Paris.

A montagem de tudo isto, resultou num enredo realmente fascinante, capaz de mudar a cabeça de muita gente. Mas um teólogo católico, Pedro Lima de Vasconcellos, em entrevista concedida à Revista Época, disse que o livro “é um queijo suiço, está cheio de buracos” (Revista Época no. 415, 1o de maio, p. 118).

A leitura do livro, e o filme montado à moda de Hollywood, causam impacto no povo de Deus, e reforça a incredulidade do mundo. Os cristãos menos avisados podem ficar estremecidos na fé.

Esta parece ser talvez a mais poderosa investida do Diabo contra o cristianismo nestes últimos tempos.

SERIA VÁLIDO ESTE CONTEÚDO?

1. Os Evangelhos denominados “gnósticos” realmente começaram a circular nos primórdios do cristianismo. Já o apóstolo Paulo dizia: “Admiro-me de que vocês estejam abandonando tão rapidamente aquele que os chamou pela graça de Cristo, para seguirem outro evangelho que, na realidade, não é o evangelho. O que ocorre é que algumas pessoas os estão perturbando, querendo perverter o evangelho de Cristo. Mas ainda que nós ou um anjo dos céus pregue um evangelho diferente daquele que lhes pregamos, que seja amaldiçoado” (Gálatas 1.6-8 – NVI).

2. Ademais, nenhum desses evangelhos eram aceitos pela Igreja primitiva, que só confiava, é evidente, em escritos que provinham daqueles que viveram com Jesus, principalmente dos apóstolos.

3. É claro que há duas citações na carta de Judas vs. 9 e 14, (meio-irmão de Jesus – filho de Maria, mãe de Jesus, com José), que aparecem também no livro apócrifo de Enoque. No entanto, entende-se que este conhecimento fazia parte das tradições orais que circulavam entre judeus e cristãos. Ademais, muitos desses livros apócrifos tinham muitas informações importantes, apesar de não terem sido aceitos pela Igreja. De qualquer maneira, a carta de Judas levou muito tempo para ser aceita no Cânon do N.T. Menciono isto por uma questão de honestidade intelectual, que nunca aparece no autor do livro Código Da Vinci. Afinal, mentira é mentira.

4. A respeito da figura de Maria Madalena ao lado de Jesus no quadro da “Santa Ceia”, é apenas uma interpretação subjetiva ou maliciosa do autor do livro em questão. Os melhores críticos asseguram que Da Vinci jamais teve tal intenção. Mesmo porque ele não deixaria de incluir também João, um dos discípulos mais queridos de Jesus que, juntamente com Pedro, Tiago, sempre estava com ele nas missões mais importantes, como foi o caso do Monte da Transfiguração. Portanto, a interpretação é tendenciosa e não faz sentido.

5. Sobre a figura do cálice, Santo Graal, que teria contido sangue de Cristo e que passou a ser o símbolo de todo o segredo, também não há nenhuma informação histórica fidedigna, muito menos nenhuma menção no N.T. Na verdade, no relato dos Evangelhos Canônicos, quando José de Arimatéria e Nicodemos conseguiram o corpo de Jesus para um sepultamento decente, Jesus já estava morto. O texto sagrado diz que, para comprovar que ele estava morto mesmo, um soldado enfiou uma lança no seu lado e saiu água e sangue, o que denuncia que seu sangue já estava totalmente decomposto (João 19.31-37; 38-42). Por outro lado, agindo apressadamente, para um procedimento demorado, pois já despontava o sábado, não tinham tempo para esses detalhes. E mais: teria José de Arimatéia tido tempo para buscar esse cálice? E, também, o texto do Evangelho de João não menciona nada sobre o assunto. Portanto, a idéia do Santo Graal é uma boa invencionice do autor do livro em questão.

6. Quanto a Maria Madalena, vamos escrever uma página especial intitulada: A Maria Madalena dos Evangelhos Canônicos.

OS SETE ERROS DO LIVRO

Evidentemente, muitos “scolars” americanos têm produzido críticas ao livro de Dan Brawn. Um deles, O Dr. Bem Witherington III, escreveu um livro 208 páginas, intitulado The Gospel Code, editado pela InterVarsity Press, de Illinois, Estados Unidos, onde, dentre outros argumentos contrários ao Código Da Vinci, apresenta sete erros do livro, que quero resumir aqui:

Primeiro erro: Os Evangelhos canônicos: Mateus, Marcos Lucas e João, não são os mais antigos evangelhos. Diz ele que os evangelhos ginósticos como de Filipe e de Maria Madalena são mais antigos.

1. Realmente, havia muitos evangelhos espúrios circulando já no tempo de Paulo. Por isso Paulo disse: Gl. 1.6-8.

2. Mas esses foram rejeitados pela Igreja Primitiva

3. Todos eles trazem mensagens que discrepam totalmente da realidade dos fatos do cristianismo.

Segundo erro: Jesus era apenas um profeta nos seus dias. Só foi proclamado divino no Concílio de Nicea.

1.Só mesmo para quem quer distorcer a verdade. Jesus sempre foi tido como divino. A leitura de 1 João 5.18-20 atesta isto.

2.O que o concílio de Nicéia fez foi oficializar esta verdade, uma vez que heresias estavam surgindo a respeito do assunto. Só se abala com isto quem não conhece nada de Bíblia.

Terceiro erro: O Imperador Constantino, ao se tornar cristão, suprimiu os evangelhos gnósticos, “mais antigos”, e impôs os evangelhos canônicos e a doutrina da divindade de Cristo.

1.os chamados evangelhos gnósticos na verdade nunca foram aceitos e reconhecidos pela Igreja.

2.Os canônicos eram reconhecidos por todos os eruditos cristãos desde 130 AD, muito antes de Constantino. É querer torcer a história.

3.Constantino, realmente, como Imperador, declarado cristão, à semelhança dos imperadores que eram o sacerdote principal do paganismo, convocou o concílio para decidir a respeito da polêmica sobre a natureza da pessoa de Cristo. Mas não foi ele quem decidiu. Foi o grupo de bispos presentes.

4.O personagem Teabing, inventado por Dan Brawn, diz que Constantino, depois do Concílio de Nicéia (325) fez uma Bíblia novinha, como ela é hoje, mas antes não era assim. Isto não é verdade. Mesmo porque seria impossível fazê-lo. O Novo Testamento, para não falarmos da declaração leviana do personagem da “Bíblia toda”, que incluiria o Antigo Testamento todo, provém de manuscritos antigos com idade devidamente testada pelos mais modernos recursos de averiguação na área, principalmente o sistema de carbono 14. É realmente uma irresponsabilidade fazer uma declaração destas.

Quarto erro: Jesus era casado com Maria Madalena.

1.Os Evangelhos Canônicos nunca falaram ou mesmo insinuaram nada sobre o assunto.

2.Os adversários de Jesus nunca levantaram o problema e, se assim fosse, tê-lo iam feito, uma vez que se preocupavam muito com as declarações de que Jesus era filho de Deus.

3.O Evangelho genóstico e apócrifo de Filipe só apareceria no final do terceiro século da nossa era. E esse Evangelho tem várias palavras apagadas que não dá para traduzir. Quando ele chama Maria Madalena de “companheira”, não quer dizer “esposa”. A expressão “beijo na boca” usada por esse falso evangelho é um beijo santo, como Paulo o chamou, e era comum naquele tempo (1 Co. 16). Portanto, a afirmação não procede e é mentirosa.

Quinto erro: Jesus deveria ser casado porque ele era um “judeu novo” – nova geração, deveria ser casado.

1.Não consta que um judeu tinha que ser casado. Apenas um membro do Sinédrio tinha que ser casado, mas não o cidadão comum.

2.Isto não prova que Jesus era casado

3.Se a história faz silêncio do fato é porque não era.

4.Como João Batista, na pior das hipóteses, Jesus seria celibatário

5.E como ele era Divino, esta questão de casamento não lhe era própria

6.O argumento, de qualquer maneira, é muito pobre.

Sexto erro: Referência aos manuscritos do Mar Morto como mais antigos do que documentos cristãos.

1.Menção a um documento chamado Nag Hammadi, que na verdade surgiu no IV século, descoberto no deserto do Egito em 1945, escrito em cóptico.

2.Os manuscritos do Mar Morto só têm documentos judaicos, do tempo do V.T. e não documentos cristãos.

Sétimo erro: Erro teológico. O autor diz que a Igreja Cristã Primitiva tinha que esconder o fato de que Jesus era casado porque “um filho de Jesus poderia prejudicar o conceito da divindade de Cristo e prejudicar também a Igreja cristã”

1.esta é apenas uma suposição para tentar fundamentar um falso argumento.

2.Este assunto nunca esteve em debate na Igreja primitiva. A divindade começou a ser debatida mais tarde.

3.Mas a Igreja cristã sabia das duas naturezas de Jesus, e isto era indiscutível.

4.Os Evangelhos foram livros históricos, feitos por autores despretensiosos, inspirados pelo Espírito Santo. Se houvesse algum problema desta ordem ele seria levantado, com certeza, ou pelo menos combatido. Imagine um Lucas, que escreveu o Evangelho de Lucas e o livro de Atos dos Apóstolos. No prólogo do Evangelho de Lucas, o autor que era também medico e companheiro de Paulo nas suas viagens missionárias, escreve: “Tendo pois muitos empreendido por em ordem a narração dos fatos que entre nós se cumpriram, segundo nos transmitiram os mesmos que os presenciaram desde o princípio, e foram ministros da palavra, pareceu-me também a mim conveniente descrevê-los a ti, ó excelente Teófilo, por sua ordem, havendo-me já informado minuciosamente de tudo desde o princípio, para que conheças a certeza das coisas de que já estás informado” (Lc. 1.1-4). Notem, por favor, que o texto inteiro fala de pesquisa diligente, de testemunhas oculares, de ordem dos fatos, com finalidade de ter certeza das informações. Ora, quem trabalha com crítica literária sabe muito bem da força desses dados. Como é que o mundo fica encantado com um livro que se baseia em declarações tão rasas e superficiais como as que aparecem no livro Código Da Vinci.

A QUESTÃO DAS BODAS DE CANÁ – João 2.1-12

Brawn diz que o casamento relatado em Jo. 2, é o próprio casamento de Jesus. Esta é mais uma declaração simples, sem qualquer tentativa de fundamentar. A novela trabalha sempre com uma espécie de narcótico para anestesiar a razão e o espírito inquiridor da assistência. Vejamos:

1. A mãe de Jesus estava lá porque a família deveria ser amiga dos nubentes (v. 1). O relato da presença dela é como convidada e não como mãe do noivo.

2. Jesus foi convidado também com os seus discípulos – (v. 2). Se foi convidado, não era o noivo, claro. Como poderia ele ter sido convidado para o seu próprio casamento? O argumento é bonito, mas não merece fé. É uma covardia intelectual.

3. O verso 12 diz que após a festa, Jesus desceu para Cafarnaum, ele, e sua mãe, e seus irmãos, e seus discípulos. Não fala de esposa. Não parece estranho?

4. Este é um erro grosseiro. Só mesmo para quem quer torcer a verdade.

A QUESTÃO DOS CÓDIGOS E DOS SEGREDOS

1. No episódio do Museu de Louvre, aparece uma especialista em códigos, a criptóloga Sophie Neveu, que é neta da vítima, e acaba sendo descendente do casamento de Jesus com Maria Madalena.

2. Os símbolos postos no quadro da “Santa Ceia”, nem deveriam ser mencionados.

a) Primeiro, porque ninguém viu a fisionomia de qualquer dos apóstolos, muito menos de Maria Madalena, para pintá-los. Portanto, nada original.

b) Sabe-se que Da Vinci teve que usar modelos humanos para pintar aqueles personagens. E que modelos!

c) Segundo, porque a Bíblia proíbe a reprodução de imagens, principalmente a imagem de Jesus, jamais poderia ter sido reproduzida.

3. Deus não deixou o Evangelho em códigos, mas em palavras claras e nítidas:

a) Jesus disse que tudo quanto ouvira do Pai, revelou aos discípulos

b) “Tudo o que ouvi do Pai vos tenho feito conhecer”

c) O apóstolo Paulo fala diversas vezes do “mistério” que foi revelado: Ef. 3.5.

d) E na ascenção de Cristo do Monte das Oliveiras, temos mais de 500 testemunhas da ida de Jesus para o Céu. O testemunho claro de dois Anjos que anunciaram sua volta – tudo foi dito em termos claros e não em código.

4. Deus não deixou sua verdade em código

5. Mentiras bem montadas começaram a surgir logo depois da ressurreição de Cristo: veja a mentira dos judeus sobre o corpo de Jesus, registrada por Mateus 28.11-15.

A MARIA MADALENA DOS EVANGELHOS

O sobrenome “madalena” provém de uma aldeia da Galiléia de nome Magdala. Poucas vezes seu nome aparece nos Evangelhos e, antes dos fatos da crucificação e ressurreição, a única menção aparece em Lucas 8.2, que diz que ela era uma das mulheres que serviam a Jesus com seus bens e dela haviam saído sete demônios. Marcos menciona o fatos dos demônios que saíram dela, quando relata sua ida ao sepulcro (Marcos 16.9). Muito se tem procurado identificar Maria Madalena com a mulher pecadora de Lucas 7.50, cujo nome não aparece no texto. Como é o mesmo autor, Lucas, que menciona Maria Madalena no capítulo 8.2, se se tratasse da mesma pessoa, com certeza Lucas te-la-ía identificado.

Mas a passagem talvez mais importante é a de João 19. 25, 26. Na hora da crucificação, João estava junto à cruz, com a Mãe de Jesus, a irmã da mãe de Jesus, Maria de Cleofas, e Maria Madalena. Aqui há dois aspectos interessantes. O primeiro é que o livro em questão diz que quando Jesus foi crucificado Maria Madalena fugiu de Jerusalém para Gália para não criar problemas. No entanto, João, que estava ao pé da cruz, testifica que ela lá estava com as outras mulheres. Um segundo aspecto importante é que Jesus tomou providências, antes de morrer, sobre sua mãe, entregando-a aos cuidados de João, o discípulo amado (vv. 26,27). Ora, se Maria Madalena fosse sua mulher ou esposa, já que o grupo era bem íntimo, não teria ele também dado providências sobre ela? Com certeza que sim.

No episódio da ressurreição, Maria Madalena vai alcançar proeminência. Todos os evangelistas falam dela. Mateus relata que ela e outra Maria foram ao sepulcro e ali viram a pedra removida da boca do túmulo e um Anjo lhes falou que Jesus havia ressuscitado, e mandou que elas avisassem aos outros. E indo elas, o próprio Jesus lhes apareceu (Mateus 28.1-10). O Evangelho de Marcos, igualmente, fala de Maria Madalena e outras mulheres indo ao sepulcro bem cedo. Vêem o Anjo e este lhes dá ordem para avisarem os outros (Marcos 16.1-8). Lucas começa antes da ressurreição, registrando que as mulheres que tinham vindo com ele da Galiléia observaram onde José de Arimatéia e Nicodemos haviam posto o corpo de Jesus. Relatando a ressurreição, Lucas informa que essas mulheres foram muito cedo ao sepulcro e ali constatam a ressurreição. Os nomes da mulheres só são especificados em Lucas 24.10, mas Maria Madalena aparece em primeiro lugar (Lucas 23.49-56; 24.1-12). João estende mais a narrativa. Menciona que Maria Madalena foi ao sepulcro de madrugada, viu a pedra revolvida e correu para avisar a Pedro e a João. Voltaram ao túmulo e ali constataram que o túmulo estava vazio. Quando Pedro e João se retiraram, o próprio Jesus aparece a Maria, que estava chorando e recebe dele a ordem para avisar aos demais. Ela, pois, foi a primeira missionária da ressurreição – uma mulher (João 20.1-18). Em Atos dos apóstolos, entre o grupo que ficou no cenáculo em oração esperando a vinda prometida do Espírito Santo, estava Maria, Mãe de Jesus, com as outras mulheres e os irmãos de Jesus (Atos 1.13-14).

À luz destes relatos dos Evangelhos canônicos, algumas observações são evidentes:

1. Maria Madalena teve uma conversão profunda ao Evangelho e por isso dedicou-se a Jesus e seu ministério, com outras mulheres e com a própria Mãe de Jesus. Essa dedicação era comum e nada há de anormal nisto.

2. A denominação de “prostituta” não é apropriada a ela, e nem aparece explicitamente nos Evangelhos. Esta qualificação acontece em alguns escritos, quando ela é confundida com a mulher pecadora de Lucas 7. Mas já dissemos que se essa fosse Maria Madalena, Lucas o teria informado, mas ele fala da pecadora no capítulo 7 e de Maria Madalena no capítulo 8, e pronto. Esta designação de prostituta só vai ser oficializada pela Igreja Católica, através do Papa Gregório, o Grande (590-604 DC), quando a mulher pecadora do capítulo 7 de Lucas passou a ser festejada como Santa Maria Madalena (Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, Vol. 4, p. 135, R.N. Champlin, Editora Agnos).

3. Pelos relatos dos Evangelhos, ainda, Maria Madalena, com outras mulheres, acompanhou todo o processo de julgamento de Cristo e teve coragem de estar ao pé da cruz no momento da Sua morte. Portanto, não fugiu para Gália, como quer Dan Brawn, em seu livro O Código Da Vinci.

4. Ainda mais: Maria Madalena foi a primeira a testemunhar a ressurreição de Cristo – sua fé era, realmente espiritual, e não conjugal ou marital. Sobretudo, ela foi a primeira pessoa a proclamar aos demais que Jesus havia ressuscitado.

5. É curioso observar, no entanto que, tanto a Mãe de Jesus, como Maria Madalena, não são mais mencionadas nos escritos Sagrados além de Atos capítulo 1.

Assim, se os Evangelhos são mais fidedignos relatos dos fatos sobre a vida de Jesus, uma vez que foram feitos por aqueles que conviveram com Ele, e se eles relatam as atividades de Maria Madalena dessa maneira, tudo o mais que corre por esta falsa literatura é falso.

CONCLUSÕES

1. Assim como o Diabo distorceu a Palavra de Deus no Éden para enganar Eva e Adão, assim ele continua distorcendo verdades para enganar hoje.

2. A novela de Brawn fundamenta-se em filosofias esotéricas, muito comuns nos primeiros séculos e muito comuns ainda hoje – a fascinação pelas coisas ocultas.

3. Jesus disse: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Pessoas que ainda estão presas ao erro, ao pecado, ao Diabo, precisam, isto sim, sere libertas por Cristo.

4. Não foi sem razão que o apóstolo Pedro nos advertiu contra “fábulas artificialmente compostas” (2 Pd. 1.16-21).

5. O objetivo de Brawn é destruir o conceito da Divindade de Jesus, destruir o conceito da necessidade de Salvação e desviar as pessoas do Céu, indo para o inferno. É lá o lugar de Brawn e todo o seu elenco.

Damy Ferreira

domingo, junho 24, 2007

Um gato abandonado...

Ele apareceu de repente, saído das grades do estacionamento do Extra Boulevard. Ele miou para mim. Voltei e fiz um afago em sua cabecinha. Difícil esquecer aquele olhar, ao mesmo tempo inocente e ávido. Estava um pouco sujinho. Gato de rua...

Prossegui em meu caminho, voltava da igreja para casa. Ele ficou lá. Um turbilhão de pensamentos inundou a minha cuca! Como eu quis ter condições de levar aquele gatinho preto e branco para casa! Fiquei pensando em como esses animais de rua se viram para sobreviver. E tive uma grande esperança de que o Pai dos céus cuide deles. Como seria bom, todavia, se mais pessoas se dispusessem a adotá-los! São seres vivos, criados por Deus também, e que sentem falta de amor. Não sei se havia muitos animais abandonados no tempo de Jesus, porém acredito que, para ele ter falado de Deus cuidando das aves, um gatinho de rua, assustado e com fome, sensibilizaria bastante o nosso mestre galileu.

Você nunca pensou em adotar um animal de rua? Posso dizer com experiência que eles sabem retribuir amor com amor. Das três gatinhas que temos aqui em casa, duas eram gatas de rua e uma nasceu de outra gata de rua que tivemos há muito tempo. Amo todas elas, dão muita alegria para nós. Além delas, temos uma cadelinha. Mais festa ainda!

Quem sabe algo assim não mudaria a sua vida? Decerto isso só lhe faria bem. Os animais são nossos irmãos. Por que deixá-los largados ou maltratá-los? Podemos ajudar o Pai dos céus a "cuidar das aves". Pense nisso! Adote um animal de rua!

sábado, junho 16, 2007

As virtudes teologais [7]: O amor

A mensagem central do Novo Testamento é a de que Deus ama. Os Evangelhos Sinóticos, os Atos dos Apóstolos, as cartas paulinas, as cartas católicas, a literatura joanina e o Apocalipse proclamam que o amor de Deus pelo ser humano se humanizou em Jesus de Nazaré. Em Jesus, afirma-se, conhecemos que Deus é o sujeito primeiro e original do verbo amar.


Nos Sinóticos, vemos Jesus amando com o olhar, a compaixão, a surpresa, a ressurreição. Ele fitou e amou o jovem rico que se aproximara dele e alegara cumprir desde a juventude os mandamentos da lei de Moisés (Mc 10.21). Ao leproso que se arrastara até ele dizendo que podia curá-lo se quisesse, Jesus disse “Quero”, sem hesitar, sem exigir condição para que o fizesse (Mc 1.40-42). Uma mulher estrangeira chegara até ele pedindo por sua filha atormentada. Jesus recusou, dizendo aos seus discípulos que fora enviado a Israel. “Não fica bem tirar o pão dos filhos e atirá-lo aos cachorrinhos”, falou para ela Jesus. “Senhor, mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa de seus donos”, ela respondeu. Certamente surpreso, Jesus exaltou a fé que a mulher demonstrou e curou-lhe a filha (Mt 15.21-28). Comovido pelo sofrimento de uma viúva da cidade de Naim, a qual acompanhava os que levavam o seu filho morto, Jesus aproximou-se dela e quis consolá-la: “Não chores!” Dando uma ordem ao jovem morto, este voltou à vida. Jesus, então, o reconduziu à sua mãe (Lc 7.11-18). Um jovem com vestes brancas ordenou às mulheres que encontraram o túmulo vazio na manhã da ressurreição de Jesus: “Ide dizer aos seus discípulos e a Pedro que ele vos precede na Galiléia. Lá o vereis, como vos tinha dito” (Mc 16.7). Os céus não se lembravam do Pedro que negara Jesus, apenas queriam Pedro perto de Jesus novamente.


Nos Atos, dentre os exemplos de curas, exorcismos e outros milagres operados por mãos de apóstolos como Pedro, João e Paulo, a história de Tabita sobressai como um registro ímpar de manifestação concreta do Deus-Amor. Essa mulher, que morava na cidade costeira de Jopa, e cujo nome é traduzido para o grego no texto, Dorcas, é chamada de “notável pelas boas obras e esmolas que fazia” (At 9.36). Ela adoeceu e morreu. Então, alguns discípulos mandaram chamar Pedro. Fico comovido com a cena das viúvas chorando e mostrando a Pedro as roupas que Tabita havia feito para elas (v. 39). É como se dissessem daquela discípula de Jesus: “Era ela que cuidava de nós! O que será de nós agora sem ela?” A ressurreição de Tabita não foi só um sinal miraculoso, mas um testemunho do quanto o amor expresso pela solidariedade reflete o cuidado do próprio Deus.


Nas Cartas Paulinas, o hino ao amor (1Co 13) fundamenta de modo magistral as recomendações do apóstolo a respeito do exercício dos carismas ou dons dados pelo Espírito Santo. Por mais extraordinário que seja o carisma que alguém manifesta, se nisso falta o amor, isso é nada, não tem nenhum proveito (v. 1-4). O que o amor é revela o objetivo dos carismas: eles devem proporcionar a paciência, o serviço, o respeito, a humildade, o perdão, a justiça, a fé e a esperança (v. 4-7). Os carismas terminarão, mas o amor permanecerá (v. 8). É a maior das virtudes teologais (v. 13).


Nas Cartas Católicas, afirma-se que a lei régia segundo a Escritura é “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Tg 2.8). Isso está em completo desacordo com uma postura discriminatória, que acolhe os ricos e rejeita os pobres, e que é condenada por Deus (v. 9). Recomenda-se que os cristãos demonstrem amor uns pelos outros, perdoem-se, pois “o amor cobre uma multidão de pecados” (1Pd 4.8).


A literatura joanina ensina que foi Deus quem primeiro nos amou (1Jo 4.19), tendo enviado seu único filho ao mundo, para que o mundo fosse salvo por ele (Jo 3.16-17). Como Cristo deu a vida por nós, devemos dar a vida pelos irmãos (1Jo 3.16); não apenas morrer por eles, mas socorrê-los em suas necessidades (v. 17). Somente nasceu de Deus e conhece a Deus aquele que ama, pois Deus é amor (1Jo 4.7-8, 20-21).


O livro do Apocalipse encerra o Novo Testamento animando os cristãos de Éfeso a recobrarem o amor que outrora possuíam, agora apagado, decerto por causa da perseguição (Ap 2.1-5). As tribulações passarão e o Deus-amor enxugará as lágrimas dos seus santos e com eles habitará para sempre (21.3-4).


Que Deus me ajude a ser aquele que devo ser, alguém que ama. Amém!

quinta-feira, março 29, 2007

As virtudes teologais [6]: A esperança


Esperança: ocupei-me desta palavra no tópico anterior; ela representa uma das três virtudes teologais apresentadas em 1Co 13.13. Finalizo aqui o estudo sobre a esperança, que vocês poderão talvez prosseguir em suas reflexões bíblicas pessoais. Conforme já fizera, irei atrás de ocorrências de palavras que possuam esse significado para ver o que se pode descobrir sobre essa virtude.


No Antigo ou Primeiro Testamento da Bíblia cristã, a palavra tiqeváh [1] – sobre a qual falei a propósito de Rt 1.12-13aα e 4.14aβ-15 – reaparece várias vezes no livro de Jó. Pretendo destacar aqui a sua utilização em Jó 19.10: “Ele me quebrou por todos os lados e eu vou; ele arrancou a minha esperança como uma árvore.” Jó se refere a Deus. Pode-se constatá-lo no versículo 6: “Sabei, então, que Eloáh me torceu; ele fez sua rede cair sobre mim.” “Eloáh” [2] é a palavra hebraica para “Deus” nessa passagem. O protesto de Jó sempre me surpreende. Mostra o quanto dói ser vítima de uma fatalidade, ser acusado injustamente ou sentir-se abandonado. A mágoa de Jó é contra os seus amigos e contra Deus. De um lado, Elifaz, Bildad e Zofar punham em dúvida a integridade do sofredor. De outro lado, Deus o massacrava sem ele nem mesmo saber por quê. O livro de Jó pergunta pela justiça de Deus diante do sofrimento de um inocente. Não há a preocupação de desresponsabilizar Deus pela desgraça de algum modo, embora seja preciso levar em conta a ação direta de uma personagem que fica entre o Senhor e Jó tentando pôr à prova a credibilidade da devoção deste. Chamada de “o satã” (hassatân) [3], isto é, “o adversário”, essa figura se mostra hostil a Jó. “A permissão do sofrimento por Deus, contudo, atende à finalidade de refutar uma acusação levantada contra Jó, a saber, de que a religiosidade de Jó não seria desinteressada.” (1) – Cf. Jó 1 e 2. Todavia, o justo Jó crê num Deus ao qual se pode apelar, mesmo que com violência e ressentimento. E mais: a fé que Jó possui não admite que Deus fique impassível diante da injustiça. “Eu sei: o meu resgatador está vivo e por fim ficará de pé sobre o pó. Depois de destruírem minha pele, mesmo em minha carne verei Eloáh” (19.25-26). Esses versículos, muito difíceis de traduzir, parecem sugerir que Jó acreditava numa intervenção de Deus em seu favor, por pior que se tornasse o seu estado de saúde. O go'el [4] (resgatador), de cuja menção no livro de Rute já tratei, era, no antigo direito israelita, aquela pessoa que deveria comprar a propriedade de um parente endividado para evitar a alienação do bem e que também assegurava a continuação da descendência no caso de uma viuvez sem filhos (cf. Lv 25.24-25; Dt 25.5-10). Na compreensão de Jó, ainda que não sem choro ou revolta diante da calamidade, Deus não o deixaria desamparado.


O Salmo 40 abre-se com a forma verbal qaváh [5], que dá origem à palavra tiqeváh. O verbo é utilizado de modo intensivo e é repetido “[...] para intensificar a idéia verbal.” (2) Poderia traduzir, então, o primeiro verso assim: “Eu esperei, esperei YHWH e ele se voltou para mim e ouviu o meu grito por socorro” (40.2). A leitura pode nos ajudar a partilhar dessa atitude do salmista, isto é, a esperança de que o Senhor ouve e salva. Experimente, leia o salmo!


Notas:


(1) ZENGER, Erich. Introdução ao Antigo Testamento, p. 303.


(2) “Muitas vezes o infinitivo absoluto é colocado na frente de uma forma conjugada da mesma raiz para reforçar ou intensificar a idéia verbal.” KELLEY, Page H. Hebraico bíblico: uma gramática introdutória, p. 221.


Referências Bibliográficas:


KELLEY, Page H. Hebraico bíblico: uma gramática introdutória. Trad. Marie Ann Wangen Krahn. São Leopoldo: Sinodal, 1998. 456 p.


RÜGER, H. P. Biblia Hebraica Stuttgartensia. 4. ed. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 1990. 1574 p.


ZENGER, Erich. Introdução ao Antigo Testamento. Trad. Werner Fuchs. São Paulo: Loyola, 2003. 557 p. Coleção Bíblica Loyola, n. 36.


quarta-feira, março 07, 2007

Jogue!

16.10.2006

Um dia, enquanto falava com o Romão por e-mail, considerava que a Bíblia não se preocupa em decidir categoricamente sobre se a história humana toma os seus rumos apenas a partir daquilo que Deus determina ou daquilo que o ser humano escolhe. E aí me veio uma imagem interessante à mente. Talvez alguém já tenha pensado nisso, mas, de todo modo, foi algo que eu visualizei e é SOMENTE um ensaio de compreensão: A história é um jogo, cujas estratégias e possibilidades foram já determinadas por Deus. Só que Deus organizou o jogo de tal modo que o objetivo que ele quer atingir será inevitavelmente atingido. Entretanto, mesmo que o resultado do jogo já esteja definido, Deus disponibilizou no tabuleiro várias jogadas que, diferentes nos movimentos e nos desdobramentos, levarão aonde Deus quer. Aí é que está: Deus nos chama para fazer as jogadas! O movimento histórico que fizermos não vai impedir que o planejamento de Deus para ganhar o jogo alcance êxito, porém implicará em resultados favoráveis ou desfavoráveis a nós. Somos livres para fazer as jogadas que quisermos, pois as possibilidades são inúmeras. Mas Deus poderá ganhar e a gente se dar bem ou Deus poderá ganhar e a gente se dar mal. Deus propõe a cada um de nós: Jogue! A questão é: Que movimento(s) faremos?

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

As virtudes teologais [5]: A esperança



O que o Antigo ou Primeiro Testamento da Bíblia cristã diz sobre esperança? Com o objetivo de apresentar algumas respostas, utilizarei este procedimento: mapear as ocorrências de algumas palavras nos textos hebraicos que assinalem ou sugiram esse conceito.


A primeira palavra que desejo destacar é tiqevah [a]. Essa palavra é oriunda de uma raiz (qavah [b]), cujo significado seria “[...] esperar ou procurar com grande expectativa” (1). Entre outras passagens, ela aparece em Rute 1.12-13aα, nas palavras de Noomi dirigidas às suas noras Orpá e Rute, ambas estrangeiras, de Moabe: “Voltai, minhas filhas, ide, pois eu estou velha para ser de um homem. Ainda que eu tivesse dito: 'Há para mim uma esperança: nesta noite fui novamente de um homem e gerei filhos', por isso esperaríeis até que eles crescessem?”. A palavra “esperança” surge para enfatizar o contrário: Até então não restava a Noomi uma perspectiva de vida, já que perdera seu marido e filhos, e considerava assim que YHWH, o Todo-Poderoso, fizera-lhe um mal (1.21bγ). De modo surpreendente, contudo, a moabita Rute se recusa a abandonar a sua sogra judia Noomi, conjurando em prejuízo próprio a intervenção de YHWH caso não permanecesse com ela até a morte. Graças à fidelidade de Rute (nome cujo significado é “amiga”), após todo o desenlace da história com Boaz, um parente do marido de Noomi que se casa com Rute e exerce a função de go'el [c] – aquele que garantia o direito de propriedade e a continuidade da descendência (2) –, a outrora amargurada e desamparada judia pôde ouvir das mulheres de Belém: “Bendito seja YHWH que não fez cessar para ti um goe'l hoje; seja proclamado o seu nome em Israel! Ele será para ti um retorno de vida e uma provisão na tua velhice, pois tua nora que te ama o gerou. Ela é melhor para ti do que sete filhos” (4.14aβ-15). A passagem se refere ao nascimento de Obed, filho de Rute com Boaz. Reconhece-se, portanto, que YHWH trouxe para Noomi a esperança novamente porque a sua nora estrangeira, provinda de um povo que é estigmatizado em outros textos (p.ex. Nm 25), foi uma amiga leal, disposta a abdicar de sua identidade nacional e religiosa em favor de sua sogra. É possível que se costume enfatizar nesse texto a conversão de Rute ao verdadeiro Deus. Eu prefiro chamar a atenção para a idéia de que Deus não está limitado às fronteiras de um grupo social, podendo nos abençoar por meio de pessoas das quais menos esperamos. Além disso, quero notar que as pessoas podem ser mais do que os estigmas que colocamos sobre elas. Lembro-me de ter lido no livro de C. S. Lewis, “Cristianismo puro e simples”, um pensamento que jamais esqueci: de que há pessoas que, embora não confessando Cristo, podem estar mais próximas dele do que alguns que o confessam.


Nos Salmos há muitas declarações de esperança. Eu encontro no Salmo 146 a palavra sever [d], a segunda que desejo tomar em consideração aqui. Ela provém de uma raiz (savar [e]), cujo sentido mais intensivo seria o de “aguardar” ou “esperar”. (3) “Avante, os passos daquele cujo auxílio é o Deus de Jacó; cuja esperança está em YHWH, seu Deus” (146.5). Percorre um caminho direito a pessoa que crê no auxílio de YHWH em seu favor, porque o agir de Deus manifesta-se em justiça e salvação. Nesta esperança precisamos permanecer. Amém!


Notas:


  1. HARRIS, R. Laird; ARCHER, JR., Gleason; WALTKE, Bruce K. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, p. 1328.

  2. "Os membros da família em sentido amplo devem uns aos outros ajuda e proteção. [...] O go'el é um redentor, um defensor, um protetor dos interesses do indivíduo e do grupo. [...] Quando um israelita precisa vender seu patrimônio, o go'el tem direito preferencial na compra, pois é muito importante evitar a alienação dos bens da família. A lei está codificada em Lv 25.25. [...] O costume é ilustrado também na história de Rute, mesmo que aí a compra da terra se complique por um caso de levirato. Noemi tem uma posse que a pobreza a obriga a vender; sua nora Rute é viúva e sem filhos. Boaz é um go'el de Noemi e de Rute, Rt 2.20; mas há um parente mais próximo que pode exercer o direito de go'el antes que Boaz, Rt 3.12; 4.4. Esse primeiro go'el estaria disposto a comprar a terra, mas não aceita a dupla obrigação de comprar a terra e casar com Rute, pois o filho que nascesse dessa união levaria o nome do defunto e herdaria a terra, Rt 4.4-6. Boaz adquire então a posse da terra e se casa com Rute, Rt 4.9,10". DE VAUX, Roland. Instituições de Israel no Antigo Testamento, p. 43-44. Sobre a lei do levirato (do latim levir, "cunhado"), cf. Gn 38; Dt 25.5-10; Mc 12.18-27 par.
  3. HARRIS, R. Laird; ARCHER, JR., Gleason; WALTKE, Bruce K. Op. Cit., p. 1465.


Referências Bibliográficas:


DE VAUX, Roland. Instituições de Israel no Antigo Testamento. Trad. Daniel de Oliveira. São Paulo: Editora Teológica, 2003. 622 p.


HARRIS, R. Laird; ARCHER, JR., Gleason; WALTKE, Bruce K. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. Trad. Márcio Loureiro Redondo, Luiz A. T. Sayão e Carlos Osvando C. Pinto. São Paulo: Vida Nova, 1998. 1789 p.


RÜGER, H. P. Biblia Hebraica Stuttgartensia. 4. ed. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 1990. 1574 p.