"Então, falando ele estas coisas em sua defesa, Festo disse em alta voz:
Estás louco, Paulo! As muitas letras te levam à insanidade!"
(Atos dos Apóstolos 26.24)

quarta-feira, dezembro 26, 2007

Fé e dúvida

Dizem-me que o que preciso é apenas acreditar.
Porém, não consigo não duvidar.
Não duvido por pedantismo
ou para bancar o diferente.
Duvido porque, desde a infância,
houve quem me desse motivos.
E a teologia nunca foi vilã de nada.
Pelo contrário, a sua pluralidade me abriu os olhos
para ver que a fé não pode ser reduzida a uma dogmática
e que a dúvida só destrói a fé que se esconde de si mesma.
Reconheço que, em relação à dúvida,
esteja sendo qual Fox Mulder, do Arquivo X:
"Eu quero acreditar".
Talvez eu queira acreditar na dúvida
e duvidar da crença.
Mas não será a fé também isso,
acreditar na incerteza
e duvidar da certeza?
Só lhes peço paciência, amigos e amigas,
caso, em minhas palavras, vocês encontrem vários "e se...?"
É possível que seja mais conveniente para mim duvidar.
É provável que me seja mais favorável acreditar.
Pode ser que as afirmações sobre Deus sejam justificáveis,
ou que tais assertivas não passem de esboços de um desenhista,
o qual retrata o seu modelo a partir de um ângulo determinado.
Todavia, alguém dirá: "Só que o modelo está lá!"
É verdade! Para quem está vendo,
o modelo existe e ele só pode estar lá.
"Andamos por fé e não por vista."
De fato! A fé está inevitavelmente envolvida
quando os nossos sentidos trabalham:
acreditamos naquilo que nossos olhos nos dizem,
que nossas mãos tocam,
que nossos narizes cheiram,
que nossos paladares degustam,
que nossos ouvidos ouvem,
que nossos corações sentem;
estímulos que nossos cérebros interpretam...
E voltamos à velha (e sempre nova) hermenêutica!
Absolutos,
relativos,
palavras,
olhares...
Talvez eu queira acreditar na dúvida
e duvidar da crença.
Mas não será a fé também isso,
acreditar na incerteza
e duvidar da certeza?
Sabem? Quero (re) encontrar a mim mesmo.

3 comentários:

marcos disse...

estou preocupado com vc...
o pior pra um ser humano dentro de uma comunidade evangélica não é perder sua alma, é esquecer do seu Senhor... vc ainda duvida que ele exista? vc duvida que ele te conhece? vc duvida que Deus está ao seu lado? é fiote, eu achei que vc fosse mais forte...

cara, te falta ver um milagre? ele está mais próximo do que vc imagina...

Pedro Grabois disse...

Ae Ruben, interessante isso, me lembrou o Paulo Brabo.
Vc já leu alguma vez? Entra lá no site dele quando puder... são muitas coisas interessantes, textos curtos e interessantes! Lá tem o que ele chama de 'heresias sensacionais', é muito bom! htt://www.baciadasalmas.com

Abração,
Pedro.

Marcos Vichi disse...

Estou contente por sua coragem de abrir o coração e expressar as suas dúvidas. Creio que isto é extremamente positivo e me lembra uma citação:

"O apóstolo Tomé declarou que não acreditaria enquanto não visse; em seguida diz: Meu Senhor e meu Deus! Fôra o milagre que o obrigara a crer? Muito provavelmente não, mas ele acreditava únicamente porque desejava crer; talvez já tivesse a fé inteira nas dobras ocultas de seu coração, mesmo quando declarava: Só acreditarei depois que tiver visto".(Dostoiévsky F. Irmãos Karamázovi pp.25,26 ed. Abril - 1970)

A vida é repleta de incertezas e precisamos enfrentá-las de coração aberto. Somente assim seguiremos em frente de forma saudável, mesmo que muitos questionamentos legítimos permaneçam sem resposta.

Eu considero o versículo abaixo ogrande exemplo da atitude de Jesus diante de alguém que vacila em suas incertezas:

“(...) se podes fazer alguma coisa, tem compaixão de nós e ajuda-nos. Ao que lhe disse Jesus: Se podes! - tudo é possível ao que crê. Imediatamente o pai do menino, clamando, [com lágrimas] disse: Creio! Ajuda a minha incredulidade” Marcos 9.22-24.

Cristo contempla até a dúvida quando ela é sincera e parte de um coração que tem sede de encontrá-lo.

Conte comigo sempre nesta caminhada.

Um grande abraço,

Marcos Vichi.