"Então, falando ele estas coisas em sua defesa, Festo disse em alta voz:
Estás louco, Paulo! As muitas letras te levam à insanidade!"
(Atos dos Apóstolos 26.24)

quarta-feira, janeiro 28, 2009

Molequinha: amo você!


Minha Molequinha morreu hoje. Lamento não ter podido vê-la. Lamento a brevidade da vida. Embora grato por ter sido um animalzinho tão alegre e especial, que ofereceu à minha família tantas felicidades, e havermos recebido a honra de vê-la nascer e cuidar dela, lamento o fato de nossa gatinha não mais viver. Só posso me calar e aceitar.

Não sei se há vida após a morte para os animais. Se há, o Criador deve ter ficado muito feliz porque agora poderá brincar com a Molequinha. E há de sorrir ainda mais quando chegar a hora de brincarmos todos juntos: Molequinha, minha família e o SENHOR. Eu queria tanto acreditar! Eu queria tanto encontrar a minha Molequinha de novo um dia!

"Então louvei eu a alegria, porquanto para o homem nada há melhor debaixo do sol do que alegrar-se" (Eclesiastes 8.15)*
Notícia enviada por minha mãe sobre a Molequinha:
Ruben, a Nên morreu ontem às 18h30. Enviei duas msgs p o celular da Carla, vc viu? Hoje o seu pai levou-a à Mangueira para ser cremada. Chorei muito e estou morrendo de saudades dela, apesar de saber que ela agora não sofre mais. Até o final ela queria ficar comigo; nunca perdeu a fome, só não conseguia comer muito. Ontem sua última refeição foi um danoninho (é claro que comeu só um pouquinho!). Logo depois começou a passar mal e morreu na minha mão. A Brenda foi vê-la assim que ela morreu e ficou com uma cara de espanto. Acho que eles sabem o que está acontecendo.
* Almeida Corrigida e Revisada Fiel. Apud. http://www.bibliaonline.com.br/

terça-feira, janeiro 27, 2009

Da morte

Recebo ultimamente notícias de que uma gatinha que nasceu na casa de minha família está perto de morrer. Ela viveu cerca de 17 anos conosco, mas já vai partindo... Para alguns, isso eventualmente não terá a menor importância. Afinal de contas, diriam, é só uma gata. Isso sem contar que o gato há muito é bastante estigmatizado: dá azar, está relacionado à feitiçaria, não gosta de pessoas e outras idiotices do gênero. Todavia, quando se vive muitos anos com um animal de estimação, pode-se sofrer a sua morte tanto quanto a de um parente. Os gatos também amam. O seu amor e presença fazem falta para aqueles que com eles conviveram.

Agora ela vai embora e eu fico desconcertado. Novamente, a morte se impõe, tão certa quanto a vida. E como a gente não pede para nascer, também não pode evitar morrer. Só que, enquanto a vida é uma possibilidade (eu, como todo mundo, nasci por vontade alheia e, pela mesma vontade, poderia não ter nascido), a morte é um evento indubitável. Para morrer, basta estar vivo, dizia a minha avó Lucy, Érico Veríssimo e Machado de Assis. E os três já foram...

Por que a gente tem que morrer? No âmbito da biologia, a morte é perfeitamente natural e necessária para a sobrevivência das espécies e a manutenção do equilíbrio ambiental. No campo da física, ela é estabelecida pelas leis que regem a transformação da matéria. Na exegese bíblica (e aqui há muita discordância), ela pode ser o salário do pecado, mas também uma condição que acompanha o homem desde o seu surgimento. Nos mitos da criação e da trangressão em Gênesis (2 e 3), morrer não parece tanto a conseqüência de uma ação moral que provocou a decadência de seres outrora imortais e perfeitos, porém a pena capital para a desobediência ao mandamento do SENHOR Deus, uma antecipação de algo que naturalmente viria a acontecer, semelhante à pena de morte aplicada por alguns países a certos condenados pela justiça. Não acredito que um dia humanos, animais e plantas foram imortais. O texto sugeriria, na minha opinião, que morrer faz parte da vida desde que o mundo é mundo. O mais importante, contudo: nossas ações podem apressar a nossa morte e, mais do que numa morte por inconseqüência, Deus estaria interessado em que os seres humanos vivam e promovam a vida. Do contrário, não teria deixado de aplicar a pena capital, poupando o homem e Eva.

Aqui no Sul do Brasil, venho tendo a oportunidade de visitar alguns cemitérios. Eu já fazia isso em minha infância e adolescência lá em Rio Pomba, acompanhado de meu primo Marcos. Recentemente, acompanhei a Carla e o pastor de sua comunidade em um sepultamento num local parecido com o Jardim da Saudade no Rio. Voltei lá com ela outro dia e observávamos as placas para marcar as sepulturas na terra, os nomes e as fotografias que expunham. Estivemos por duas vezes em um outro cemitério que fica no terreno atrás de um templo cristão católico. Após a primeira vez, que foi à noite, comentava com a Carla uma idéia que tive. É possível que o medo causado por esse ambiente em tantas pessoas, seja um temor de almas do outro mundo, seja um mal-estar sem muita explicação, tenha a sua origem na consciência de que a morte é um caminho do qual não há desvio. O cemitério nos provoca pavor porque ali se revela a nossa transitoriedade. Morremos sempre porque mudamos a todo tempo. E, um dia, o tempo deixará de existir para nós, visto que passaremos pela última mudança: de vivos para mortos. Os fantasmas nos dão calafrios porque não queremos sê-los, intangíveis, gélidos, solitários, sem rumo, sem mundo, sem vida... O Qohélet, entretanto, é categórico: "É para a sepultura que tu vais" (Eclesiastes 9.10).

Não sei por que temos que morrer. É claro que a expressão "ter que" é metafísica. Do ponto de vista natural, não se trata de um "ter que", porém de um "quando" e um "como". De qualquer modo, a questão ontológica permanece: por que ser e não-ser? Mais teologicamente (cristão): Por que o Criador criou seres que morrem? Por que a separação definitiva e o sofrimento decorrente dela? (Minha mãe acaba de me dizer, via MSN, que uma senhora conhecida nossa de muitos anos faleceu ontem) Por que a dor, a saudade, apenas a lembrança? Na certa, quando o Quarto Evangelho diz que Jesus chorou a morte do amigo Lázaro (João 11.35), não há ali um teatro. "Por que chorou se iria ressuscitá-lo", perguntaríamos. Acredito que a narrativa queira sugerir que o leitor enfrente o fato da morte com a esperança da fé. É possível que para o próprio Jesus a morte fosse mais concreta do que supomos e um verdadeiro desafio à sua mensagem da chegada do Reinado de Deus. De que modo ele procede então? Vive o luto e, solidário àqueles que choravam, assume a esperança de que o Pai trará de volta o querido. Não vou dizer que é fácil acreditar nisso (Marta que o diga!), mais difícil, talvez, seja se conformar com a morte.

Será que a saída é cultivar as boas lembranças dos momentos que passamos com aqueles que se foram? E aproveitar a vida enquanto ainda estamos entre as pessoas, e os animais, e as naturezas que amamos? E duvidar, perguntar, discutir, pensar, repensar?

Por que a morte?

Para Molequinha