

Fontes:
http://www.omelete.com.br/cine/100010568/Batman_.aspx
Acabara de ganhar alguns bonecos dos Transformers. Quais eles fossem – Bumblebee, Optimus Prime, Ratchet, Ironhide, Bonecrusher, Megatron, etc. – não importa tanto. Os olhos da mãe, que dera o presente, brilhavam de satisfação por causa da alegria da criança, que manuseava freneticamente os fantásticos robôs que se convertiam em veículos.
1 Veja em http://oglobo.globo.com/mundo/mat/2008/01/05/327894093.asp
2 A Bíblia de Jerusalém, p. 95s.
3 Ibid., p. 104.
4 Ibid., p. 1176.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
A BÍBLIA DE JERUSALÉM. Nova edição, revista. São Paulo: Paulus, 1985. 2366 p.
Prestes a entrar o novo ano, “tempo” é uma idéia que, com freqüência, ocorre-nos. “Será que dará tempo de concluir essa atividade antes de acabar o ano?” “Quanto tempo precisarei investir para realizar tal projeto no ano que vem?” “Nossa! Falta pouco tempo para o réveillon!” Pensando ser assim, resolvi comentar a palavra “tempo” a partir da literatura bíblica, especificamente o livro de Eclesiastes.
No versículo 1 do capítulo 3, duas palavras hebraicas que podem ser traduzidas por “tempo” – zeman1 [1] e ‘et [2] – são usadas em paralelo, uma definindo a outra: a primeira, zeman, “tempo determinado”2, define a segunda, ‘et, “tempo”.3
Para tudo há um tempo determinado;
há, para todo desejo, um tempo sob os ceús. [3]
Nos sete versículos seguintes são justapostas, sempre com a palavra ‘et, séries de circunstâncias opostas. Parece que se quer indicar com isso que as condições de possibilidade de cada uma delas impõem que cada qual possua uma ocasião própria de realização.
Importante chamar a atenção aqui para algumas circunstâncias, tais como as que aparecem no versículo 8a: Tempo para amar e tempo para odiar [4]. Por mais que a raiva, e mesmo o ódio, seja uma reação natural do ser humano em face de certas situações, não é razoável que tal sentimento dure indefinidamente. Poderíamos interpretar a menção do amor em primeiro lugar como intenção de destacar uma virtude preferível ao ódio e limite necessário para este. A raiva, ou o ódio, possui um tempo, pelo que deve ser contrabalançada pelo amor. Oportuno é trazer à memória Jesus de Nazaré: “Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; desse modo vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus, porque ele faz nascer o seu sol igualmente sobre maus e bons e cair a chuva sobre justos e injustos”4 (Mateus 5.43-45).
Este tempo, do qual fala o autor de Eclesiastes, por conseguinte, assinala o momento adequado para se fazer cada coisa durante a vida. Isso significa que, em nosso poder e vontade, haverá sempre um limite. A existência e o tempo são maiores do que nós. Quanto mais cedo se compreender isso, menos tempo se gastará procurando fazer aquilo que está fora do alcance, visto que ainda esteja distante o tempo de fazê-lo.
No versículo 11 do mesmo capítulo, diz-se que há beleza quando as coisas acontecem nas ocasiões oportunas para as quais Deus as fez.
Tudo ele faz belo em seu tempo;
também dá ao coração deles a noção de duração do tempo,
sem que o ser humano descubra a obra que Deus faz
desde o princípio até o fim. [5]
A noção de duração do tempo, da qual Deus dotou o entendimento humano, impõe à pessoa que, embora seja desejável que se lance em direção a essa reflexão, ela não poderá compreender tudo o que Deus faz. A palavra ‘olam [6], nas acepções possíveis de “antigüidade”, “perpetuidade”, “eternidade”, poderia estar sugerindo, ao mesmo tempo, a idéia de tempo decorrido, de tempo que ainda resta e, talvez, de tempo psicológico, no âmbito do qual o ser humano medita sobre a sua experiência no mundo.
Há uma nítida relação entre discernir o tempo de que dispomos para viver e discernir a incognoscibilidade de Deus no que se refere ao nosso entendimento. Em outras palavras, o nosso curto tempo de vida é absolutamente desproporcional ao que há para ser conhecido em Deus. A noção de tempo que temos, se realmente levada a sério, obriga-nos a admitir que Deus permanecerá um contínuo mistério para nós, pois dele sempre saberemos pouquíssimo. Não foi Jesus, segundo o autor do livro de Atos dos Apóstolos, quem disse aos seus seguidores que não lhes competia “conhecer os tempos e os momentos que o Pai fixou com sua própria autoridade”5 (1.7)?
O que se pode concluir daí? Quando pensamos nosso tempo e o que faremos com ele, é necessário reverenciar Deus, cujos ser e obra são por demais elevados para nós, porém perpassam continuamente nossa própria existência para nos abençoar. Reverenciar Deus é recolher nosso ínfimo conhecimento à nossa condição temporária e abrir-se para o amor e a solidariedade, virtudes que, por Jesus de Nazaré, revelaram-se eternas.
Feliz 2008!
Notas:
1 A palavra zeman é um empréstimo lingüístico do aramaico (HARRIS, R. Laird; ARCHER JR., Gleason L.; WALTKE, Bruce. Dicionário internacional de teologia do Antigo Testamento, p. 1141).
2 Ibid., p. 396.
3 Ibid., 1141.
4 A Bíblia de Jerusalém (1985), p. 1847.
5 Ibid., p. 2046.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
A BÍBLIA DE JERUSALÉM. Nova edição, revista. São Paulo: Paulus, 1985. 2366 p.
ELLIGER, Karl; RUDOLPH, Wilhelm. Biblia Hebraica Stuttgartensia. 4. ed. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 1990. 1574 p.
HARRIS, R. Laird; ARCHER JR., Gleason L.; WALTKE, Bruce. Dicionário internacional de teologia do Antigo Testamento. Trad. Márcio Loureiro Redondo, Luiz A. T. Sayão e Carlos Osvaldo C. Pinto. São Paulo: Vida Nova, 1998. 1789 p.
A leitura de textos e a preocupação com o seu sentido vêm provocando inquietações em mim desde que me envolvi de modo mais consciente com a religião. Inicialmente, minhas reflexões sobre os documentos bíblicos não se apercebiam da necessidade de um rigor literário-científico que orientasse o contato com as letras, embora não fosse ignorante em relação à utilidade e à indispensabilidade de algumas ferramentas metodológicas para uma leitura analítica e especializada. O princípio religioso-confessional de que a iluminação divina ajudaria a descobrir a verdade contida nos textos sagrados era suficiente, não obstante a investigação crítica desses documentos – primeiramente através de um exame nas línguas originais, inclusive – fosse, de igual modo, condição fundamental para encontrar o sentido, de acordo com os pressupostos teológicos oriundos da Reforma Protestante.
A experiência no Seminário e, depois, como professor iniciante de teologia, aproximou-me significativamente da hermenêutica, mesmo que minha compreensão de interpretação de textos bíblicos permanecesse restrita (mas não por muito tempo) à idéia de busca de um único sentido legítimo, a saber, aquele pretendido pelos autores. Evidentemente, a leitura de exegetas católicos e protestantes mais receptivos às metodologias modernas de análise literária (por exemplo, o método histórico-crítico), de cunho filosófico racionalista, despertava a minha curiosidade quanto às implicações de se admitir a Bíblia como um produto das mãos de seres humanos historicamente comprometidos.
Uma passagem pelo Mestrado em Teologia, ainda que não tenha culminado na conclusão do curso, sedimentou algumas percepções: a) É impossível atingir a intenção do autor, porém apenas efetuar aproximações e elaborar hipóteses de interpretação, as quais serão sempre passíveis de falseamento por ocasião de novos argumentos; b) A hermenêutica não é, de modo algum, somente uma etapa final do trabalho de análise dos textos, com vistas à contextualização de sua mensagem, todavia um processo inerente ao desenvolvimento da tradição bíblica, de cujos livros raramente se pode falar de um autor, visto que a sua transmissão envolvia o fenômeno das releituras que agregavam novos sentidos, adequados aos horizontes de compreensão contemporâneos, mediante acréscimos, omissões e atualizações dos documentos recebidos; c) Segundo a filosofia heideggeriana, o leitor, enquanto ser-no-mundo, está imbuído de “prés” – com toda a carga geradora de significação de que seu patrimônio cultural e existencial é capaz –, os quais condicionam a interpretação; d) O texto é incontornavelmente polissêmico, ou seja, portador de uma reserva de sentido que torna possíveis tantas leituras quantos forem os leitores. A polissemia do texto faz com que sua interpretação independa do sentido pretendido por seu autor.
Meu interesse pela habilitação Português-Literatura do curso de Letras da Universidade Estácio de Sá se deveu à ambição de adquirir mais conhecimentos no campo da Hermenêutica. A exposição das múltiplas correntes de análise literária fez com que eu aprendesse a ver a Literatura enquanto manifestação da dialética do ser consigo e com o mundo. Sobretudo, o texto literário, venha ele revestido de uma estrutura religiosa ou não, é linguagem(ns) de (res)significação da realidade, uma vez que o ser humano e as percepções que este constrói acerca do mundo são essencialmente linguagem.
Lembro-me de que a Profª. Angela Fabiana (de Teoria da Litetarura III) costumava dizer que já trazemos algo conosco a partir do momento em que passamos a existir no mundo. Isso me faz recordar, embora os pressupostos metodológicos-existenciais sejam distintos, da teoria gerativa de Noam Chomsky, segundo a qual o ser humano nasce com uma capacidade inata de adquirir linguagem e desenvolver competência comunicativa entre os falantes do grupo social no qual está inserido. Essa relação intrínseca entre linguagem e existência ficou bastante nítida nas aulas: os formalistas russos, interessados em estudar a forma do texto, chamavam a atenção para as funções da linguagem no processo da comunicação; os teóricos da Nova Crítica norte-americana entendiam a narrativa como um mundo em si, no qual cada elemento possuía um papel inequívoco e fundamental para a compreensão do texto; a Estilística tentava descobrir o elo entre o sentido do texto, o estilo do autor e o espírito de sua época; a Sociologia da Literatura sinalizava o caráter libertário do texto literário – por exemplo, o romance, que trataria do contraste entre valores autênticos e a degradação social; a Fenomenologia apresentava o texto literário como representação da realidade, tal qual ela aparece diante dos sentidos; a Estética da Recepção irá valorizar a experiência do leitor com a obra literária.
A leitura de textos e a preocupação com o seu sentido continuam a provocar inquietações em mim. A diferença é que, a partir dos estudos em Literatura, percebo que não há exatamente textos sagrados. Há textos. A vida é sagrada, em suas infinitas possibilidades. A Literatura dá conta dessa sacralidade da vida, na medida em que afirma esta é sempre um vir-a-ser e, portanto, pode ser sempre mais do que tem sido, abre-se continuamente para o mistério da existência.
– Beba um pouco d'água, balbuciou a voz rouca. O homem permaneceu mudo. Um instante infinito, e esticou o braço para recolher o líquido das mãos espalmadas do bicho, que avançara em sua direção.
A água aliviara a garganta seca, o homem permanecia com a vista cravada naquele ser, de alto a baixo. Seus pés eram virados para trás! Entendeu tudo! Topara com o curupira!
– Vo-você é... é o curupira! Um demônio das matas!
A coisa baixou a cabeça, soltou um grunhido.
– Demônios não habitam florestas. Eles odeiam a vida. Costumam infestar lugares desertos e os corações dos homens.
O sujeito ficou surpreso com a resposta. Antes que pensasse em dizer algo, o bicho continuou:
– Amaldiçoaste a mata, certo de que ela te negava o que precisavas. Porém, a tua própria espécie, ainda que da natureza provinda, perpetrou contra ela traição cruel, negando-lhe o direito à vida.
Atordoado, o homem começou, trêmulo:
– Não tinha o que comer... entrei aqui... meu Deus...
– Deus? explodiu a coisa. Que sabes dele? Nosso Pai, de quem vós, homens, usurpastes a criação? Amada Mãe, cujos seios de amor tendes secado com vossa ganância, esgotando a terra, supliciando animais e plantas, matando os vossos semelhantes, reduzindo tudo aos interesses de vossas relações de compra e venda? Não! Não conheces a Deus! Tudo o que enxergas são os teus próprios demônios e por isso proferes maldições com a tua boca!
Um choro convulsivo ecoou por entre as árvores. O homem soluçava. Ali, sentado, sentiu o ser tocá-lo. Ergueu o olhar e foi confortado por um semblante terno. O curupira estava com pena dele.
– Essas lágrimas umedecem o teu interior. Reconheces que tu e os teus precisais reconciliar-vos com vossos irmãos?
O sujeito assentiu. A coisa o convidou a servir-se novamente da carne assada, a fim de que saciasse a fome. Adormeceu aos pés da criatura.
A claridade da manhã, que se esforçava por penetrar a mata fechada, despertou-o. Levantou-se. Olhou ao redor, o curupira desaparecera. Só restaram as cinzas da fogueira e os restos do animal que comera. Chegou a cogitar a possibilidade de ter sonhado, mas experiência alguma lhe parecera tão real. Adiante de si, havia uma trilha aberta na floresta. Seguiu por ela e logo encontrou uma clareira, na qual o sol forte fazia doer a vista. Alguns poucos minutos e avistava a civilização. Sentia-se revigorado. No corpo e no espírito.
A mensagem central do Novo Testamento é a de que Deus ama. Os Evangelhos Sinóticos, os Atos dos Apóstolos, as cartas paulinas, as cartas católicas, a literatura joanina e o Apocalipse proclamam que o amor de Deus pelo ser humano se humanizou em Jesus de Nazaré. Em Jesus, afirma-se, conhecemos que Deus é o sujeito primeiro e original do verbo amar.
Nos Sinóticos, vemos Jesus amando com o olhar, a compaixão, a surpresa, a ressurreição. Ele fitou e amou o jovem rico que se aproximara dele e alegara cumprir desde a juventude os mandamentos da lei de Moisés (Mc 10.21). Ao leproso que se arrastara até ele dizendo que podia curá-lo se quisesse, Jesus disse “Quero”, sem hesitar, sem exigir condição para que o fizesse (Mc 1.40-42). Uma mulher estrangeira chegara até ele pedindo por sua filha atormentada. Jesus recusou, dizendo aos seus discípulos que fora enviado a Israel. “Não fica bem tirar o pão dos filhos e atirá-lo aos cachorrinhos”, falou para ela Jesus. “Senhor, mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa de seus donos”, ela respondeu. Certamente surpreso, Jesus exaltou a fé que a mulher demonstrou e curou-lhe a filha (Mt 15.21-28). Comovido pelo sofrimento de uma viúva da cidade de Naim, a qual acompanhava os que levavam o seu filho morto, Jesus aproximou-se dela e quis consolá-la: “Não chores!” Dando uma ordem ao jovem morto, este voltou à vida. Jesus, então, o reconduziu à sua mãe (Lc 7.11-18). Um jovem com vestes brancas ordenou às mulheres que encontraram o túmulo vazio na manhã da ressurreição de Jesus: “Ide dizer aos seus discípulos e a Pedro que ele vos precede na Galiléia. Lá o vereis, como vos tinha dito” (Mc 16.7). Os céus não se lembravam do Pedro que negara Jesus, apenas queriam Pedro perto de Jesus novamente.
Nos Atos, dentre os exemplos de curas, exorcismos e outros milagres operados por mãos de apóstolos como Pedro, João e Paulo, a história de Tabita sobressai como um registro ímpar de manifestação concreta do Deus-Amor. Essa mulher, que morava na cidade costeira de Jopa, e cujo nome é traduzido para o grego no texto, Dorcas, é chamada de “notável pelas boas obras e esmolas que fazia” (At 9.36). Ela adoeceu e morreu. Então, alguns discípulos mandaram chamar Pedro. Fico comovido com a cena das viúvas chorando e mostrando a Pedro as roupas que Tabita havia feito para elas (v. 39). É como se dissessem daquela discípula de Jesus: “Era ela que cuidava de nós! O que será de nós agora sem ela?” A ressurreição de Tabita não foi só um sinal miraculoso, mas um testemunho do quanto o amor expresso pela solidariedade reflete o cuidado do próprio Deus.
Nas Cartas Paulinas, o hino ao amor (1Co 13) fundamenta de modo magistral as recomendações do apóstolo a respeito do exercício dos carismas ou dons dados pelo Espírito Santo. Por mais extraordinário que seja o carisma que alguém manifesta, se nisso falta o amor, isso é nada, não tem nenhum proveito (v. 1-4). O que o amor é revela o objetivo dos carismas: eles devem proporcionar a paciência, o serviço, o respeito, a humildade, o perdão, a justiça, a fé e a esperança (v. 4-7). Os carismas terminarão, mas o amor permanecerá (v. 8). É a maior das virtudes teologais (v. 13).
Nas Cartas Católicas, afirma-se que a lei régia segundo a Escritura é “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Tg 2.8). Isso está em completo desacordo com uma postura discriminatória, que acolhe os ricos e rejeita os pobres, e que é condenada por Deus (v. 9). Recomenda-se que os cristãos demonstrem amor uns pelos outros, perdoem-se, pois “o amor cobre uma multidão de pecados” (1Pd 4.8).
A literatura joanina ensina que foi Deus quem primeiro nos amou (1Jo 4.19), tendo enviado seu único filho ao mundo, para que o mundo fosse salvo por ele (Jo 3.16-17). Como Cristo deu a vida por nós, devemos dar a vida pelos irmãos (1Jo 3.16); não apenas morrer por eles, mas socorrê-los em suas necessidades (v. 17). Somente nasceu de Deus e conhece a Deus aquele que ama, pois Deus é amor (1Jo 4.7-8, 20-21).
O livro do Apocalipse encerra o Novo Testamento animando os cristãos de Éfeso a recobrarem o amor que outrora possuíam, agora apagado, decerto por causa da perseguição (Ap 2.1-5). As tribulações passarão e o Deus-amor enxugará as lágrimas dos seus santos e com eles habitará para sempre (21.3-4).
Que Deus me ajude a ser aquele que devo ser, alguém que ama. Amém!