"Então, falando ele estas coisas em sua defesa, Festo disse em alta voz:
Estás louco, Paulo! As muitas letras te levam à insanidade!"
(Atos dos Apóstolos 26.24)

sábado, dezembro 09, 2006

O livro de Daniel.

O livro de Daniel é o único livro apocalíptico da Bíblia Judaica e do Primeiro Testamento cristão. Estima-se que ele tenha surgido no século II a.C. Para situá-lo em seu contexto histórico é preciso começar do conquistador macedônio Alexandre, o Grande.

Alexandre pretendia libertar os gregos do domínio dos persas. Suas conquistas foram desde a Ásia menor até as fronteiras da Índia. Quando Alexandre morreu (na segunda metade do século IV a.C.), o seu império foi dividido entre os seus generais. Somente dois deles interessam para a história bíblica, a saber, Ptolomeu e Seleuco. Ptolomeu assumiu o território do Egito e logo se apossou da Palestina. Seleuco tomou o controle da Babilônia e da Síria. Mais tarde, no início do século II a.C., a dinastia de Seleuco arrancou a Palestina das mãos dos governantes egípcios ptolomeus.

Posteriormente derrotado pelos romanos na Europa e na Ásia, o poder dos selêucidas entrou em decadência. As dificuldades financeiras, as pressões do Egito no sul e a constante ameaça de Roma levaram à adoção de medidas desesperadas para manter a unidade política entre os territórios dominados e providenciar sustento econômico. O governante selêucida na ocasião, Antíoco IV (175 – 164 a.C.), promoveu a cultura e a religião gregas e saqueou os tesouros de vários templos nativos. A resistência dos judeus diante das inovações de Antíoco (que deu a si mesmo o título “Epífanes” – o deus manifesto, o representante visível de Zeus) fez explodir uma perseguição violenta. As práticas religiosas judaicas, tais como a circuncisão, o sábado e as festas, foram proibidas sob pena de morte. O Templo de Jerusalém se tornou um local de sacrifícios para deuses estrangeiros.

O livro de Daniel foi escrito para os judeus que sofriam por causa da sua fé naqueles dias difíceis. Na primeira parte do livro (capítulos 1 a 6), o autor narra as experiências de Daniel, um judeu que vivera na Babilônia durante o exílio de seu povo no século VI a.C. Daniel e alguns companheiros têm a sua fé duramente testada pelos babilônicos e persas, mas superam as provas confiando no seu Deus. A esperança apocalíptica na soberania de Deus sobre a história dos reinos humanos está presente em todas as narrativas: “(...) o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens, e o dá a quem quer, e até o mais humilde dos homens constitui sobre eles” (Dn 4.17).

Na segunda parte (capítulos 7 a 12), são relacionadas com Daniel profecias sobre o plano da história que vêm a ele na forma de sonhos e visões. As revelações são feitas com o uso de vários símbolos. Eles descrevem a ascensão e a queda de quatro impérios sucessivos – babilônico, medo, persa e grego (capítulo 7), a vitória de Alexandre sobre os persas e a divisão do seu reino (capítulos 8 e 10), as medidas repressivas de Antíoco IV Epífanes (capítulo 9), as guerras entre os ptolomeus e os selêucidas, o fim de Antíoco IV Epífanes (capítulo 11), a libertação final dos judeus e a ressurreição dos justos (capítulo 12). A obra quer trazer consolo e paciência, assim também manter viva a fé na vitória definitiva do Deus judaico e seus eleitos. A mensagem de liberdade e ressurreição antecipa a proclamação do reino de Deus por Jesus e os seus apóstolos no Segundo Testamento cristão.

A versão do livro de Daniel conservada na Bíblia judaica foi elaborada em duas línguas. Os trechos 1.1 – 2.4a e 8.1 – 12.13 estão escritos em hebraico. O trecho 2.4b – 7.28 é apresentado em aramaico. Essa versão mais curta foi também adotada pelos cristãos protestantes.

A versão da Bíblia grega (a Septuaginta – LXX) destaca-se por conter material adicional: a oração de Azarias (3.24-45), uma perícope de transição (3.46-50), o cântico dos três jovens na fornalha (3.51-90), a história de Susana (capítulo 13) e a narrativa sobre Bel e o dragão (capítulo 14). O cristianismo católico considera canônicas essas adições gregas.

Sugestão de leitura:

NIEHR, Herbert. O livro de Daniel. In: ZENGER, Erich et alii. Introdução ao Antigo Testamento. Trad. Werner Fuchs. São Paulo: Loyola, 2003. Págs. 448-460. Coleção "Bíblica Loyola", n. 36.

2 comentários:

André Aguiar Lisboa disse...

Olá!
Interessante notar: alguns estudiosos fazem uma ligação entre as profecias do livro de Daniel e as revelações do Apocalipse.
Gostei do enquadramento histórico que você fez.

Tô por aqui
Abrçs
André

Leandro Ilek disse...

Olá Runben,

Espero aproveitar esse texto para mostrar para alguns dos meus alunos que ler a biblia sem entendê-la é como acumular informação sem ter conhecimento. Tenho medo do que possa acontecer com eles, uma vez que a bíblia já foi muito mal interpretada por líderes de todos os tipos e ainda pode causar conflitos intelectuais por conta de um dogmatismo que tanto nos tem feito mal.