"Então, falando ele estas coisas em sua defesa, Festo disse em alta voz:
Estás louco, Paulo! As muitas letras te levam à insanidade!"
(Atos dos Apóstolos 26.24)

terça-feira, janeiro 27, 2009

Da morte

Recebo ultimamente notícias de que uma gatinha que nasceu na casa de minha família está perto de morrer. Ela viveu cerca de 17 anos conosco, mas já vai partindo... Para alguns, isso eventualmente não terá a menor importância. Afinal de contas, diriam, é só uma gata. Isso sem contar que o gato há muito é bastante estigmatizado: dá azar, está relacionado à feitiçaria, não gosta de pessoas e outras idiotices do gênero. Todavia, quando se vive muitos anos com um animal de estimação, pode-se sofrer a sua morte tanto quanto a de um parente. Os gatos também amam. O seu amor e presença fazem falta para aqueles que com eles conviveram.

Agora ela vai embora e eu fico desconcertado. Novamente, a morte se impõe, tão certa quanto a vida. E como a gente não pede para nascer, também não pode evitar morrer. Só que, enquanto a vida é uma possibilidade (eu, como todo mundo, nasci por vontade alheia e, pela mesma vontade, poderia não ter nascido), a morte é um evento indubitável. Para morrer, basta estar vivo, dizia a minha avó Lucy, Érico Veríssimo e Machado de Assis. E os três já foram...

Por que a gente tem que morrer? No âmbito da biologia, a morte é perfeitamente natural e necessária para a sobrevivência das espécies e a manutenção do equilíbrio ambiental. No campo da física, ela é estabelecida pelas leis que regem a transformação da matéria. Na exegese bíblica (e aqui há muita discordância), ela pode ser o salário do pecado, mas também uma condição que acompanha o homem desde o seu surgimento. Nos mitos da criação e da trangressão em Gênesis (2 e 3), morrer não parece tanto a conseqüência de uma ação moral que provocou a decadência de seres outrora imortais e perfeitos, porém a pena capital para a desobediência ao mandamento do SENHOR Deus, uma antecipação de algo que naturalmente viria a acontecer, semelhante à pena de morte aplicada por alguns países a certos condenados pela justiça. Não acredito que um dia humanos, animais e plantas foram imortais. O texto sugeriria, na minha opinião, que morrer faz parte da vida desde que o mundo é mundo. O mais importante, contudo: nossas ações podem apressar a nossa morte e, mais do que numa morte por inconseqüência, Deus estaria interessado em que os seres humanos vivam e promovam a vida. Do contrário, não teria deixado de aplicar a pena capital, poupando o homem e Eva.

Aqui no Sul do Brasil, venho tendo a oportunidade de visitar alguns cemitérios. Eu já fazia isso em minha infância e adolescência lá em Rio Pomba, acompanhado de meu primo Marcos. Recentemente, acompanhei a Carla e o pastor de sua comunidade em um sepultamento num local parecido com o Jardim da Saudade no Rio. Voltei lá com ela outro dia e observávamos as placas para marcar as sepulturas na terra, os nomes e as fotografias que expunham. Estivemos por duas vezes em um outro cemitério que fica no terreno atrás de um templo cristão católico. Após a primeira vez, que foi à noite, comentava com a Carla uma idéia que tive. É possível que o medo causado por esse ambiente em tantas pessoas, seja um temor de almas do outro mundo, seja um mal-estar sem muita explicação, tenha a sua origem na consciência de que a morte é um caminho do qual não há desvio. O cemitério nos provoca pavor porque ali se revela a nossa transitoriedade. Morremos sempre porque mudamos a todo tempo. E, um dia, o tempo deixará de existir para nós, visto que passaremos pela última mudança: de vivos para mortos. Os fantasmas nos dão calafrios porque não queremos sê-los, intangíveis, gélidos, solitários, sem rumo, sem mundo, sem vida... O Qohélet, entretanto, é categórico: "É para a sepultura que tu vais" (Eclesiastes 9.10).

Não sei por que temos que morrer. É claro que a expressão "ter que" é metafísica. Do ponto de vista natural, não se trata de um "ter que", porém de um "quando" e um "como". De qualquer modo, a questão ontológica permanece: por que ser e não-ser? Mais teologicamente (cristão): Por que o Criador criou seres que morrem? Por que a separação definitiva e o sofrimento decorrente dela? (Minha mãe acaba de me dizer, via MSN, que uma senhora conhecida nossa de muitos anos faleceu ontem) Por que a dor, a saudade, apenas a lembrança? Na certa, quando o Quarto Evangelho diz que Jesus chorou a morte do amigo Lázaro (João 11.35), não há ali um teatro. "Por que chorou se iria ressuscitá-lo", perguntaríamos. Acredito que a narrativa queira sugerir que o leitor enfrente o fato da morte com a esperança da fé. É possível que para o próprio Jesus a morte fosse mais concreta do que supomos e um verdadeiro desafio à sua mensagem da chegada do Reinado de Deus. De que modo ele procede então? Vive o luto e, solidário àqueles que choravam, assume a esperança de que o Pai trará de volta o querido. Não vou dizer que é fácil acreditar nisso (Marta que o diga!), mais difícil, talvez, seja se conformar com a morte.

Será que a saída é cultivar as boas lembranças dos momentos que passamos com aqueles que se foram? E aproveitar a vida enquanto ainda estamos entre as pessoas, e os animais, e as naturezas que amamos? E duvidar, perguntar, discutir, pensar, repensar?

Por que a morte?

Para Molequinha

4 comentários:

Luiza Pinheiro disse...

Meu caro amigo e irmão,
Em meus atendimentos tive e tenho oportunidade de receber pessoas em que a morte física parece ser a única solução que trará vida, já que em vida, não têem perspctiva da mesma assim com seu antônimo, poderiam enfim desfrutá-la.
Saudade? E como. Acredito que esse é modo que encontramos para abster-nos, de alguma forma, a morte, e pensarmos na/em vida.
Acho que o pior de tudo é nos depararmos com nossa fragilidade e limitação diante dela, pois, a fonte da juventude, em que o tempo mortal pára, não existe (embora vejamos pessoas que tentam incessantemente dizer que são jovens, rsrsrsr). Gosto do livro de Tiago, capítulo 4, versos de 13-15, citarei o 14: "Que é a sua vida? Vocês são como a neblina que aparece por um pouco de tempo e depois se dissipa."(NVI)
Quanto aos animais, tive um cachorro que cedo foi arrancado de mim, até hoje sinto sua falta; não dá para explicar. Minha avó disse-me uma vez que o ruim de durar tanto tempo (ela viveu até os 97 anos e 10 meses), era ver seus amigos morrerem e perceber-se só. Morte, corte, má sorte, seja lá o que for, é melhor pensar em agente de transformação, porque se a vida é o movimento contínuo, a morte é de fato a hora do descanso.
Bjk
Luiza

Marquinhos disse...

Bom, cara, primeiro, lamento pelo felino que jaz de miar no céu dos gatos. (vc esperava outro comentário de mim? sério mesmo?)

Você se esqueceu de pensar na vida na Terra como um tempo de aprendizado. Aqui definimos se queremos ou não passar nossa eternidade com Deus, como cristão eu creio nisso, e já fiz minha escolha, diga aaaaaaaalllleeeeeeeellllllluuuuuuuuiiiiiiiiaaaaaaaaa!!!!!!!!!!!!
O que é legal nisso é que nem o próprio Deus te obriga a escolher viver com Ele, embora ninguém queira ir pra o raio que o parta no inferno, mas Deus ainda te dá o direito de escolha. (sua gatinha serviu ao Senhor? calma, brincadeira essa parte, antes que me xingue!)

OBS.: seu cretino, pilantra, vc diz que visitou o cemitério de Rio Pomba, mas não diz quem era o Robin, o fiel escudeiro Sancho Pança, o Tonto (aquele índio do oeste, amigo da cópia do Zorro), nessas andanças, né?

Ruben Marcelino disse...

Meu caro primo,

Você tem razão! Acabo de corrigir o texto para registrar aquelas ocasiões legais da história da nossa amizade. Sobre a sorte eterna das pessoas, Carla e eu discutimos muito isso ontem e encontramos mais perguntas do que respostas. O inferno é problema se existir e se não existir. E o céu, do mesmo modo.

Leila Bento disse...

Essa é pra vc, Marquinhos:
vc nunca teve um animalzinho do qual vc tenha se apegado realmente, e tb não deve ter lido aquele versículo de provérbios que diz"que o homem bom cuida de seus animais". Na Bíblia tb tem muitos outros versículos alertando os cristãos a respeitarem e amarem os animais. Eles foram criados por Deus e nós temos o dever de respeitá-los e cuidar deles, mesmo que não sejam nossos. Tenho o maior orgulho dos meus filhos terem essa noção do que Deus pede para nós em relação às suas criaturas. Seria tão bom se os pastores ensinassem isso tb nas igrejas ao invés de ficarem contando historinhas que na maioria das vezes não leva a nenhuma atitude prática de nossa parte. Bjs!!