"Então, falando ele estas coisas em sua defesa, Festo disse em alta voz:
Estás louco, Paulo! As muitas letras te levam à insanidade!"
(Atos dos Apóstolos 26.24)

terça-feira, novembro 23, 2010

O deus-anão

Um anãozinho faceiro,
dançava, cantava, divertia toda a gente.
Era Bés, o deusinho do recreio,
protetor do bebê e da parturiente.

Mas, não se engane, companheiro:
a magia do pequenino era surpreendente!
Repelia leão, escorpião, serpente,
até fantasmas o nanico careteiro!

Bés fazia careta lá no Antigo Egito
e na Palestina também tocou seu pandeiro:
era o riso da mulher, da criança e do solteiro!

Contra os males que acometiam o homem finito
arreganhava os dentes e a língua zombeteiro.
Como é curioso e fascinante esse mito!

Imagem: Estela de calcário mostrando Bés e sua companheira Beset (664 - 332 A.E.C.).

BÈS et sa compagne Béset. Site officiel du musée du Louvre. Disponível em: http://cartelfr.louvre.fr/cartelfr/visite?srv=car_not_frame&idNotice=20280&langue=fr. Acesso em: 23 nov. 2010.

quarta-feira, março 31, 2010

TEMPESTADE DE IDEIAS SOBRE CONHECIMENTO

Conhecimento é experiência: encontrar e ler o mundo e ser lido por ele. É o acúmulo de percepções sobre a vida e a própria identidade e uma constante reavaliação do que se sabe e do que se acredita.

Conhecer é um paradoxo, pois é um exercício fascinante e assustador. O fascínio vem da possibilidade de descobrir coisas novas e interagir com a existência de uma forma que não fora pensada antes. Por outro lado, o conhecimento assusta quando mexe com as nossas certezas, sobre as quais imaginamos estarem construídos incondicionalmente o nosso ser, a nossa estrutura psíquica, a visão que possuímos de nós mesmos.

terça-feira, fevereiro 23, 2010

BATE-PAPO ENTRE AMIGOS SOBRE O FASCINANTE FENÔMENO ÓVNI

Enviei a mensagem abaixo por e-mail para o meu amigo Renato Jover. Ele me havia repassado um artigo que mencionava um encontro promovido pela Igreja Católica em 2009 para tratar de Astrobiologia.[1] Renato perguntava a minha opinião sobre o texto. Foi então que lhe escrevi as seguintes "letras", as quais publico com algumas correções e acréscimos:


Caro amigo Renato,

Desde que lembro, sou interessado em mistérios. Óvnis, casas mal-assombradas, lendas de assombração, essas coisas sempre me cativaram ("Arquivo X" é a minha série de TV favorita!). Quando adolescente, lia e conversava sobre essas coisas com avidez, não sem uma ponta de ceticismo. Todavia, geralmente deparava-me com pessoas nada dispostas a discutir esses assuntos, considerando-se talvez "adultas e esclarecidas demais" para dar lugar à imaginação e à fantasia.

Com isso, não quero dizer que se deva ser completamente crédulo quanto a coisas como essas, mas considerá-las como objeto para pesquisa e esclarecimento. O fenômeno dos objetos voadores não identificados já foi, parece-me, tratado com mais seriedade em anos passados, principalmente nos Estados Unidos. Entretanto, tenho a impressão de que vem perdendo gradativamente o interesse de pesquisadores sérios, quando muito limitando-se à divulgação, sem análise, de fotografias e a uma mescla com ideias de cunho (pseudo)religioso.

Não deixa de ser intrigante que, como alegam os meios de comunicação "especializados", ocorram tantos avistamentos todo ano e até hoje supostamente não tenha sido apresentada uma prova concreta de que estamos sendo visitados por seres de outros planetas ou de outras dimensões. O conhecimento que temos hoje do universo também dificulta bastante admitir a possibilidade de tanta atividade extraterrena em nosso planeta, uma vez que, mesmo com a (ainda impossível) capacidade de viajar à velocidade da luz, uma nave tripulada não conseguiria atravessar as distâncias descomunais no espaço até encontrar uma outra civilização. Sondas e sinais de rádio foram enviados e o silêncio lá fora permanece, nenhuma resposta.

Diante disso, pergunto-me: O que será o fenômeno óvni? Encontros casuais de pessoas com projetos (humanos) secretos de veículos, os quais, por serem até então desconhecidos do público, são vistos como naves extraterrestres, interpretação que ocultaria ainda mais esses segredos? Muito já se falou e especulou sobre isso. E faz certo sentido porque, nas décadas de 40 e 50, quando o fenômeno tornou-se mais recorrente nos EUA, ocorreram várias mudanças políticas no globo – a 2ª Guerra, a corrida armamentista, a Guerra Fria –, acelerando, inclusive, o desenvolvimento da tecnologia bélica e nuclear.

E o que dizer das abduções por alienígenas? Há profissionais de saúde que tentam entender o que ocorre com as pessoas que dizem ter sido levadas por seres estranhos e sofrido todo tipo de experimento biológico, inclusive sexual. É o caso, por exemplo, do pesquisador David Jacobs, professor de História americana do século XX na Universidade de Temple, na Filadélfia, o qual apresenta registros dos casos que investigou no livro A vida secreta. Tudo isso terá realmente acontecido? Ou seria uma atualização dos distúrbios da psiquê descobertos por Freud no início do século XX?

Não sei. Ultimamente, vem sendo falado que os organismos da Aeronáutica de alguns países da Europa abririam seus arquivos sobre relatos de óvnis para o público.[2] Será que realmente existirá lá material que não possa ser explicado? Eu gostaria de acreditar nos óvnis. Reconheço, de tudo que li, haver pessoas com credibilidade que não teriam por que inventar histórias sobre aparições no céu. Portanto, não descarto a possibilidade, embora esteja inclinado a pensar que haja explicações bem naturais para certos fenômenos "inexplicados".

Quanto à existência de vida em outros planetas, sei que é estatisticamente impossível que o nosso seja o único mundo habitado.[3] Os astrônomos vêm descobrindo evidências no universo da realidade de condições capazes de proporcionar o surgimento da vida. Pode ser que lá fora tenham florescido bem antes que nós outras civilizações (o universo tem cerca de 14 bilhões de anos!), mas estas encontrar-se-iam separadas da gente a tal ponto que o contato não seria (até o momento) viável.

Sobre a interpretação teológica cristã a respeito de prováveis outros mundos habitados por organismos inteligentes, podemos dizer, a partir da fé, que sua existência seria obra de Deus através do Logos (a Palavra) que estava com Deus antes que tudo existisse, conforme o Evangelho de João (1.1-4). Esse documento considera que Deus (entenda-se, o Deus judaico-cristão segundo a fé judaico-cristã) criou tudo por meio do Logos (o judaísmo falará da Sabedoria, a primeira obra do Criador; cf. Provérbios 8.22-31), o qual se tornou ser humano em Jesus de Nazaré.

Ficam as questões: o que os habitantes dessas civilizações demonstrariam como traços de sua origem divina? De que modo desenvolvem suas relações pessoais? Qual será a sua ética? Possuem também, em sua essência, a possibilidade e a facticidade da corrupção?

É possível que a humanidade ainda tenha que aguardar muito...

Um abração!!!!

Ruben


Notas:

[1] Sobre esse evento, cf. http://www.gaudiumpress.org/view/show/10690-vaticano-encerra-semana-de-astrobiologia. Acesso em em 22/02/2010.

[2] http://www.dw-world.de/dw/article/0,,4789740,00.html. Acesso em 23/02/2010; http://noticias.terra.com.br/ciencia/interna/0,,OI1534451-EI301,00.html. Acesso em 23/02/2010.

[3] http://www.cienciamao.if.usp.br/aliens/drake.php. Acesso em 15/02/2010; http://ciencia.hsw.uol.com.br/programa-seti2.htm. Acesso em 15/02/2010.


Referências Bibliográficas:

JACOBS, David. A vida secreta: relatos cientificamente documentados de casos de sequestros por alienígenas. Trad. Carlos Araújo. Rio de Janeiro: Editora Rosa dos Tempos. 350 p. Coleção "Tendências do milênio", n. 3.

http://www.cienciamao.if.usp.br/aliens/drake.php. Acesso em 15/02/2010.

http://ciencia.hsw.uol.com.br/programa-seti2.htm. Acesso em 15/02/2010.

http://www.dw-world.de/dw/article/0,,4789740,00.html. Acesso em 23/02/2010.

http://www.gaudiumpress.org/view/show/10690-vaticano-encerra-semana-de-astrobiologia. Acesso em 22/02/2010.

http://noticias.terra.com.br/ciencia/interna/0,,OI1534451-EI301,00.html. Acesso em 23/02/2010.

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

HÁ TEMPO...

Em Eclesiastes 3.1-8, o famoso poema sobre o tempo, o autor (Qohélet) demarca a existência do ser humano entre vida e morte, ser e não-ser, alegria e dor. Ele faz isso com algumas ilustrações, nas quais está sempre contrapondo experiências opostas.

Assim é a vida da pessoa: ela nasce e morre; de igual modo, aquilo que é cultivado no campo: germina, amadurece e, então, mete-se-lhe a foice. Mas é triste que haja gente disposta a ceifar vidas ao invés de colher alimento. Mata-se mesmo! E não se percebe que as mãos também são capazes de curar. Gente destrói; todavia, gente é capaz de (re)construir.

Qohélet sabe que a vida, por mais dura que seja, não é só choro; mas também não é só riso. Ora sofremos, impotentes diante de situações que não podemos mudar, ora ficamos alegres, bons momentos nos encorajam a (re)fazer nosso caminho. Vamos recolher as pedras do campo e plantar a esperança! Encontrar os amigos e abraçá-los forte! Porém, se a distância for grande, dê um telefonema, mande uma carta, um e-mail...

Perder, ganhar... às vezes um, às vezes o outro. Mas é preciso ir em busca dos sonhos, de si mesmo. A prudência, todavia, nunca é demais! Entre rasgar as vestes de tristeza e vestir as melhores roupas para uma festa, um detalhe pode fazer toda a diferença. Não tem algo de bom para dizer? Então, fique calado!

Estão postas as alternativas: amar ou odiar; partir para a guerra ou levantar a bandeira da paz. E aí? Vai escolher o quê?

domingo, fevereiro 14, 2010

QUER APROFUNDAR A FÉ? FAÇA FACULDADE!

No dia 08 de fevereiro de 2010, enviei por e-mail o texto abaixo para o Richarles e o meu primo Marcos em resposta a um desejo expresso pelo primeiro de conversarmos mais sobre religião. Basicamente orientei-me pelo que ele escrevera no final da mensagem que remeteu para mim e o Marcos: "Rubinho, em termos de fé e igreja, assumi algumas idéias que me apareceram após refletir sobre um monte de coisas. Bem que me falaram um dia: Quer manter sua fé inabalada? Não faça faculdade!" Publico minha resposta a esses dois grandes amigos após fazer algumas correções.


Charlinho,

Isso que lhe falaram "um dia" (rsrs) é um equívoco bastante comum. Na minha opinião, por que há pessoas que acham que perderão a fé se forem estudar na universidade? Porque o fundamento da fé que essas pessoas têm encontra-se naquilo que é forma ou detalhe e não no essencial.

Explico: De acordo com a Bíblia, o mundo e o ser humano foram criados por Deus durante um período de sete dias. Todavia, desde o século XIX, a ciência vem desvendando os processos biológicos por meio dos quais a vida, em suas mais variadas formas, evoluiu no planeta. Além do mais, os estudos da geologia, da paleontologia e da astronomia mostram que o universo e o planeta passam por transformações constantes que se estendem por um período de mais ou menos 14 bilhões de anos (a Terra teria 4.5 bilhões).[1] Levou milênios até que o planeta adquirisse a forma que tem hoje, a vida explodisse em milhares de espécies diferentes e o ser humano surgisse sobre a terra (e houve várias espécies de hominídeos, por exemplo: Australopitecus afarensis, Homo erectus, Homo sapiens neanderthalensis, Homo sapiens sapiens).[2] A pergunta (equivocada) seria a seguinte: Qual dos dois está certo: a Bíblia ou a ciência?

Os textos bíblicos foram escritos durante um período de aproximadamente 1400 anos. Uma das passagens mais antigas que foram conservadas seria o cântico de Débora (Juízes 5), datado talvez do século XII a.C.[3] Os diferentes autores, fazendo registros da tradição oral de Israel, escreveram textos de certo modo independentes em uma variedade de gêneros literários (crônicas, hinos, provérbios, parábolas, contos, novelas, etc.) e fizeram-no para estabelecer as relações entre religiosidade(s) e identidade(s) social(ais). Ao longo do processo, alguns textos se perderam, outros receberam acréscimos, comentários ou tiveram parte do conteúdo removido ou corrigido de acordo com a perspectiva teológica de quem trabalhava com o texto.

Assim sendo, por exemplo, o livro de Gênesis possui dois relatos independentes e diferentes da criação do mundo: Gênesis, capítulo 1, versículo 1 ao capítulo 2, versículo 4, parte "a" ("Estas são as origens dos céus e da terra, quando foram criados") e Gênesis, capítulo 2, versículo 4, parte "b" ("No dia em que o SENHOR Deus fez a terra e os céus"), ao versículo 25. O primeiro descreve a criação como uma semana de trabalho que finaliza no descanso sabático e, assim, justifica a semana litúrgica judaica fazendo-a remontar ao "princípio", isto é, àquele momento que os chamados "mitos cosmogônicos" descrevem como de atividade dos deuses para dar origem àquilo que as sociedades que compõem essas narrativas reconhecem como norma. O segundo relato apresenta a criação como o surgimento de um oásis (jardim do Éden) no meio da terra seca após uma chuva. É curioso que, neste caso, o Deus de Israel é chamado pelo nome "Yahweh" (que geralmente aparece traduzido, por uma questão linguística que não vem ao caso, como SENHOR). E associa-se esse Deus à chuva e à fertilidade da terra, coisa que as populações mais primitivas da Palestina conheciam como obra de divindades locais, por exemplo, o deus Baal (cf. 1Reis 18.22-46).

Desse modo, a Bíblia não está interessada em relatar cientificamente o surgimento do universo e da vida. Trata-se de uma coletânea de registros (só posteriormente reunidos num único volume) de como o antigo Israel experimentou e compreendeu seu(s) Deus(es). E esses registros são feitos numa linguagem absolutamente enraizada no cotidiano daquelas populações: a linguagem da terra, da chuva, do culto, do mito. A maneira de compreender o universo mudou com o desenvolvimento científico moderno. A realidade não é mais constituída de três andares: os céus (morada dos deuses), a terra (morada dos homens) e o Xeol (morada dos mortos).[4] Sabemos que o nosso planeta é um entre milhares em nossa galáxia, que é uma entre bilhões no universo. Possuímos indícios de que a vida surgiu e desenvolveu-se gradativamente através de processos naturais de evolução. A maneira de "ler" a natureza hoje é outra, mas as indagações existenciais do ser humano permanecem. A ciência avança em demonstrar naturalmente o "como"; a fé pretende estabelecer o sentido, isto é, o "porquê".

Se a linguagem da Bíblia foi ultrapassada pela ciência, a experiência de Deus que ela testemunha recorrendo a variados encontros com o sagrado permanece necessária para a paz dos seres humanos consigo mesmos e com a natureza.

Um abraço, amigos!

Ruben


Notas:

[1] Para mais informações sobre o assunto, confira: http://wwo.uai.com.br/UAI/html/sessao_11/2009/10/26/em_noticia_interna,id_sessao=11&id_noticia=133416/em_noticia_interna.shtml. Acesso em 14/02/2010.

[2] Para mais informações sobre o assunto, confira: http://www1.folha.uol.com.br/folha/publifolha/ult10037u358172.shtml. Acesso em 14/02/2010.

[3] Para mais informações sobre o assunto, confira: http://www.bibliacatolica.com.br/historia_biblia/3.php. Acesso em 14/02/2010. http://www.metodista.br/ppc/caminhando/caminhando-16/o-conceito-de-justica-no-antigo-testamento-a-partir-de-juizes-5-9-12. Acesso em 14/02/2010.

[4] Para mais informações sobre o assunto, confira o verbete “Mundo” em http://www.bibliacatolica.com.br/dicionario/12.php. Acesso em 14/02/2010.

quinta-feira, janeiro 14, 2010

MEL

"Deus salvou a Melzinha da melhor forma que Ele tem: levou-a para junto de si!" Foi assim que minha mãe deu-me a notícia da morte de nossa gatinha branca, peludinha, de olhinhos azuis. Às vezes, quando passávamos perto, ela pulava em nossas pernas ou vinha atrás dando "pancadinhas" nos nossos pés. Ultimamente, a Nininha, a mais nova do pedaço, vivia "infernizando-a", correndo atrás o tempo todo. E a "Branquinha", mais que depressa, tratava de catar um lugar para se esconder! Brincadeiras divertidas de felinos domésticos adoráveis. E quando ela bebia água e ficava com gotinhas de água sobre o narizinho? Como minha Carla costuma dizer: "Coisa mais querida"!

Mel morreu devido a um problema renal. Ainda lembro quando a vi pela primeira vez. Eu morava com meus familiares na rua Dona Maria, em Vila Isabel. Ela chegara do veterinário e estava no quarto de minhas irmãs, deitada, bem "grogue". Como todas as outras, Mel era gata de rua. Alegro-me por ela ter vindo para o nosso lar. Desde então viveu feliz. E felizmente morreu cercada de carinho e amor.

Vá, Melzinha, viver agora junto de Quem, na Terra e no Céu, é Pai e Mãe de todos nós. Lamentamos que você não esteja mais conosco, porém nossos corações não a esquecerão.

quarta-feira, janeiro 13, 2010

ANJO DA MINHA VIDA

Carla, minha esposa, fez esse poema para mim. Minha resposta encontra-se na postagem anterior.

Anjo, amigo, amante...
Nada mais sou sem você...

Seu amor enche meu caminho de flores, meu coração de sorrisos,
Minha vida de lindas cores e ternos sabores.

Seu amor, tão gratuito, é caríssimo à minha alma.
Tão profundo e genuíno,
Preenche com a mais pura alegria meu coração pequenino.

Você excede o valor de tudo o que tem valor no Universo.
Faz fluir água em meus desertos, faz da minha vida poesia e verso.

Viver com você... Quanta paz e felicidade.
O opaco se faz brilho e vivacidade.

Tudo o que eu sempre sonhei, um amor singelo e imaculado,
Somente em você encontrei.

Cada momento ao seu lado é aprazível e belo.
Amar você é e será sempre meu maior anelo.

AGUARDO MINHA POETISA CHEGAR

Sua poesia é sentimento e dedicação
Da alma pura que é toda coração!

Suas palavras adoçam-me a vidência
E os ouvidos, enfim, podem enxergar sua voz
Mesmo que, em certos instantes entre nós,
As circunstâncias imponham alguma (e breve) ausência.

São as coisas que precisamos fazer,
E então você vai e eu permaneço.
Da solidão, porém, logo esqueço
Porque quando você chega tudo é prazer!

“[...] meu coração é pequenino” você dizia com carinho.
“Eu não existiria se não estivesses em mim”, orava Santo Agostinho.
Se Deus, que tudo contém, criou você para habitá-la, Coraçãozinho,
Fez-me ele a fim de encontrar também nesse Paraíso o meu cantinho.

Espero voltarem seus olhos água-marinha,
Abertos de sofreguidão e surpresa.
Quero roubar o mais belo sorriso da natureza,
Do qual seus lábios são fonte exclusiva, Esposa minha!

quarta-feira, janeiro 06, 2010

O QUE MINHA ESPOSA É PARA MIM

Jardim de flores de paixão,
Mosaico de pedrinhas de amor,
Alegria de sorrisos de humor,
Coral de vozes de canção.

Em uma vida ou em um segundo,
Você é tudo isso, um universo e um mundo
Coberto pelas águas do carinho,
Pontilhado de estrelas que orientam meu caminho:

Ser o homem da sua vida,
Assim como da minha você é a mulher, querida!

segunda-feira, janeiro 04, 2010

ABECEDÁRIO (Y?)

A benéfica capacidade de escrever favorece geralmente humanos inquietos, justapondo know-how, labor, maturidade nalgumas obras peculiares que ressaltam suas teimosias, urgências, vacilos, weltanschauungs, xingações, zoeiras.

MINHA CARLA, TERNURA, BEIJO, ALEGRIA, AMOR, DOÇURA

Ternura,
Minha gratidão é imensa
Porque me deram você
os sonhos, as estrelas, o Céu.
Seu beijo é chocolate e mel,
De seus braços aconchego encontro à mercê,
Sua alegria é intensa,
Inunda-me de amor e doçura.

segunda-feira, dezembro 28, 2009

EM 2010, OUVIR, (RE e ANTE)VER, CHAMAR

Apresentei esta "prédica" na Paróquia Evangélica Espírito Santo, da Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil (IECLB), em Novo Hamburgo (RS), no dia 27 de dezembro de 2009, convidado por minha querida e amada Esposa, a Pastora Carla Saueressig da Silva.


INTRODUÇÃO

Vai chegando ao fim o ano 2009. Nos últimos doze meses estivemos ocupados com muitas coisas em várias situações: preocupamo-nos com o bem-estar de nossos familiares, dedicamo-nos às nossas atividades profissionais (ou estivemos à procura de um emprego), estivemos atentos à nossa saúde, cuidamos de nossas casas, compramos, vendemos, negociamos, viajamos, sorrimos, choramos. Em nossa paróquia, fomos pastoreados pela Pastora Carla – a Pastora mais linda da IECLB –, participamos dos cultos, das reuniões de jovens, do Grupo Reviver, dos jantares dos homens e das mulheres. Talvez, muitas dessas coisas faremos novamente em 2010, porém, como diz a música, “o meu destino será como Deus quiser”.

É claro que, segundo cremos, Deus realmente faz o que quer e é nos acontecimentos da vida que somos chamados a refletir sobre o que ele está fazendo e como podemos experimentar e participar disso. Santo Agostinho dizia que Deus muda as coisas sem mudar o seu plano.[1] Em outras palavras, ainda que nunca compreendamos como, é apenas diante de Deus que o tempo e a vida, absolutamente complexos e imprevisíveis, não podem esconder as cartas do seu jogo.

2010 é um mistério ao qual estamos prestes a passar. Não somos capazes (e ninguém é) de prever o que irá acontecer e que tipo de circunstâncias iremos enfrentar. Todavia, como cristãos, podemos adotar algumas atitudes através das quais seguir pelas estradas que a vida, e nós inseridos nela, for construindo diante de nós. Com a leitura de DEUTERONÔMIO 4.1-9, convido vocês a, em 2010, OUVIR, (RE)VER E CHAMAR.


Em 2010, o que eu devo ouvir?

1o) OUVIR A LEI E AS PROMESSAS DE DEUS (v. 1-2)

O livro de Deuteronômio, o quinto do Antigo Testamento da Bíblia cristã, é um conjunto de discursos de Moisés, através dos quais este repassa a trajetória dos israelitas desde o monte Horebe (em Êxodo, chamado “Sinai”) até às fronteiras da terra de Canaã. A geração que saíra do Egito, com a exceção de Josué e Calebe, morrera durante a peregrinação, visto que, tendo chegado já antes à beira da terra prometida, descreu da palavra de Deus que Moisés trouxera (Números 14.26-30). Uma nova geração surgiu (Números 14.31) e está prestes a entrar na posse que Deus havia prometido.

Moisés recomenda-lhes, pois, a OUVIR. Ouvir o quê? Os estatutos e os juízos de Deus que o profeta ensinava e a promessa de Deus que o profeta assegurava. É claro que o OUVIR não se refere apenas à decodificação pelo nosso cérebro das ondas sonoras que nos chegam aos ouvidos. OUVIR, como diz o texto, é APRENDER (“ouve os estatutos e os juízos que eu vos ensino”), CUMPRIR (“para os cumprirdes”) e CRER (“possuiais a terra que o SENHOR, o Deus de vossos pais, vos dá”). Segundo Moisés, quando ouvimos a Lei e a Promessa de Deus encontramos a VIDA (“ouve... para que vivais”). Antes de mais nada, devemos OUVIR para que VIVAMOS, isto é, não nos tornemos reféns das circunstâncias, para bem ou para mal, mas sim agarremos a esperança de que podemos, por Deus, VIVER apesar de tudo.


Em 2010, o que eu devo (re)ver?

2o) (RE)VER OS ERROS E OS ACERTOS E (ANTE)VER O QUE SERÁ CASO TENHAMOS DEUS CONOSCO (v. 3-6)

Por que (re)ver os erros? A fim de que lembremos a dor que nos trouxeram e não cometê-los novamente. Israel envolveu-se com o povo de Moabe e seu deus Baal-Peor e pagou um preço caro (Números 25.1-9).

Por que (re)ver os acertos? Para sentirmos a alegria, nossa e dos outros, pelo que nosso bom proceder trouxe e identificarmos mais este marco da estrada por onde Deus quer que vamos. Alguns de Israel não seguiram Baal-Peor, como Finéias, neto de Arão (Números 25.6-13), e puderam permanecer até aquele momento de entrar em Canaã.

Como assim antever o que será se tivermos Deus conosco? A questão não é o que vamos ganhar ou perder, mas como lidaremos com o que vier. Se procurarmos por Deus, priorizaremos a responsabilidade e a ética em nossos caminhos e extrairemos sabedoria da vida. Era o que Deus aconselhava e prometia a Israel: sabedoria e justiça.


Em 2010, por quem eu devo chamar?

3o) CHAMAR POR DEUS SEMPRE, POIS É CERTO QUE ELE SE ACHEGARÁ A NÓS (v. 7)

Embora tivesse passado por fracassos e sofrimentos, Israel podia dizer: “O SENHOR achega-se a nós todas as vezes que o invocamos!” É um engano achar que Deus não nos receberá porque pecamos. Lutero agradecia a Cristo por este tomar o pecado dele, dando-lhe em troca a sua graça.[2] Lutero sabia que, quando vamos a Cristo em pecado, este nos recebe para conduzir-nos à confissão, ao perdão e à transformação pelo poder do Espírito Santo.

É também um engano achar que não importa que pequemos, já que Deus nos receberá. Quem pensa assim, não achará Deus, pois de fato não o está procurando.

Outro equívoco é pensar que Deus não nos ouve porque nosso sofrimento não passou. Infelizmente, mesmo que esta seja uma questão que inquietará a mente humana enquanto esta existir, o sofrimento faz parte da vida e, em meio a ele, devemos fazer como Jesus: gritar para Deus do fundo do nosso ser (Marcos 15.34; cf. Hebreus 5.7-10). Ainda que se sentisse abandonado, o Nazareno gritou na cruz porque sabia que Deus iria ouvir seu grito. O sofrimento, assim como a satisfação, vai e vem, mas a proximidade de Deus nunca desaparecerá. Em 2010, e por toda a sua vida, sempre chame por Ele.


CONCLUSÃO

Em 2010, OUÇA a Lei e as Promessas de Deus; (RE)VEJA os erros e os acertos e (ANTE)VEJA o que será se tiver Deus com você; e CHAME sempre por Deus, pois Ele está pronto para achegar-se a você. Amém


Notas:
[1] SANTO AGOSTINHO. Confissões, Livro I, 4. In: http://www.veritatis.com.br/article/2887. Acesso em 28/12/2009.
[2] “Senhor Jesus Cristo, tu és minha justiça, eu, porém, sou teu pecado: Levaste sobre ti o que é meu, e deste a mim o que é teu. Tomaste sobre ti o que não eras, e deste a mim o que eu não era.” In: http://www.luteranos.com.br/categories/Quem-Somos/Nossa-Hist%F3ria/Martim-Lutero/Ora%E7%F5es-de-Lutero/. Acesso em 28/12/2009.


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

A BÍBLIA SAGRADA: ANTIGO E NOVO TESTAMENTO. Traduzida em português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada no Brasil. 2. ed. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.

terça-feira, dezembro 08, 2009

VÉSPERAS DO CASÓRIO

É gostoso reunir-se aos amigos
E observar os passarinhos briguentos
Disputando aguinha açucarada,
E, em um de raros momentos,
Avezinha lépida numa cordinha de varal empoleirada,
O beija-flor ansiando matar a sede, instinto dos mais antigos.


Já puderam ouvir o au-au de um cãozinho simpático
Ao pé da mesa de um casal fantástico,
cuja bondade e amizade convidaram-nos para o almoço?
Minha Gaúcha e eu nem sentimos o tempo passar
Aconchegados nas vozes e recordações que habitam aquele lar,
Da graça divina presenteados com o endosso.


Nesse tempo, o casório aguarda-nos com expectativa
Recomendando-nos à companhia das flores:
Azaleias, gérberas, amores-perfeitos, margaridas, um florilégio!.
As hortênsias abrem-se neste dezembro de emoção festiva
E, ao lado das irmãs, vivificam com suas cores
A estradinha dos noivos que vão alegres à igrejinha do relógio!

sexta-feira, novembro 27, 2009

FRAGMENTOS DE IDEIAS SOBRE TEMPO, ETERNIDADE E RESSURREIÇÃO

De vez em quando, penso nas noções de tempo e eternidade. Na relação do tempo com a matéria, esta sofre contínua transformação no transcorrer daquele. Essa transformação parece partir da organização para a desorganização, da agregação para a desagregação, da harmonia para o caos. Se considerarmos, inclusive, o pensamento, concluiremos que este também sofre mudança com o passar do tempo. O efeito do tempo sobre a matéria, portanto, é a deterioração, o desgaste, o colapso molecular.

Se algum físico ou biólogo ou teólogo ler esses apontamentos, não repare a minha ignorância. Trata-se de reflexões livres, abertas às correções de quem eventualmente entenda melhor esses assuntos.

Bem, se o tempo traz consigo a decrepitude, e a duração impõe às coisas um prazo de validade, a morte é resultado da passagem do tempo. Diante disso, ponho-me a questão da ressurreição de Jesus e, por extensão, a ressurreição prometida pelo Novo Testamento.

Não há dúvida de que, do ponto de vista natural, a transformação da matéria é uma lei irrevogável. O tempo nada mais é do que mudança, não-permanência. Desse modo, eternidade poderia ser entendida como permanência, não-mudança?

Acredito que a Bíblia judaica (e sua variante, o Antigo Testamento cristão) não conhece, em relação a este universo, a ideia de eternidade. A palavra עוֹלָם ('olam) seria talvez melhor traduzida por "perpetuidade", isto é, a permanência de um costume, de uma lei ou de uma etnia através do tempo pela transmissão ou pela renovação, sempre dentro da realidade humana, que é terrena e finita.

O Novo Testamento, por sua vez, trabalha com a noção de αιων (aion), porém, é claro, utiliza as categorias de tempo e espaço inscritas na linguagem humana. Aqueles que "vivem" ou "reinam para sempre", cantam, suplicam, são elevados da terra ao céu (1Tessalonicenses 4.13-18; Apocalipse 7.9-17; 11.3-14; 22.1-5) - imagens nas quais está incrustada a dimensão da duração.

Todavia, se eternidade for permanência, não-mudança, logo, dentro das categorias deste universo, isso implicaria um congelamento, isto é, ausência de movimento, transformação e, no caso humano, pensamento. Caso eternidade seja o contrário do tempo, não pode haver vida na eternidade. Contudo, caso liguemos o conceito à promessa neotestamentária, restará compreender a eternidade como algo que não faz parte desta realidade e, por conseguinte, não tem nada a ver com movimento, ou tempo, ou espaço, ou sentimento! A metáfora que ouvi certa vez, segundo a qual, quando um passarinho terminasse de levar o último grão de areia da Terra à Lua, seria o começo da eternidade, é completamente inadequada para descrever o conceito. Eternidade e tempo não são noções antitéticas, já que, até onde sabemos, no universo não existe o contrário do tempo, um antitempo. Eternidade não é tempo sem fim. O tempo é a realidade que conhecemos. A eternidade é, em nossa experiência, apenas abstração.

Jesus ressuscitou e tornou-se eterno? Supondo que isso tenha acontecido, não teria sido o caso de um cadáver que voltou à vida nesta realidade. É provável que o túmulo vazio seja uma imagem a indicar que, após a sua morte, Jesus não pertence mais a este mundo. Entretanto, as suas aparições representariam a convicção de que Jesus continua a ser uma presença viva e atuante entre aqueles que crêem nele e, para estes, também no mundo. Na experiência de seus adeptos, Jesus teria se tornado um poder que transcendera a realidade de um defunto numa tumba: "(...) um jovem (...) vestido de branco (...) lhes disse: Não vos atemorizeis; buscais a Jesus, o Nazareno, que foi crucificado; ele ressuscitou, não está mais aqui; vede o lugar onde o tinham posto." (Marcos 16.5, 6)

Não se trata de defender qualquer visão gnóstica. Não estou dizendo que outro morreu em lugar de Jesus. Estou admitindo que o homem Jesus morreu. Também não estou afirmando que um Cristo cósmico desligou-se do ser humano Jesus no momento da morte deste. Assumo o que diz o Novo Testamento: o Crucificado é o Ressuscitado!

Por outro lado, o que aconteceu historicamente com o corpo de Jesus não dá para saber. Deteriorou-se? Caso admitamos a lei incontornável da transformação da matéria, sim. Foi sepultado num túmulo desconhecido? É curioso que a tradição do túmulo vazio foi preservada nos quatro evangelhos canônicos (Mateus 28.1-10; Marcos 16.1-8; Lucas 24.1-12; João 20.1-10). Sim, preservou-se a tradição do túmulo vazio (que não aparece fora dos evangelhos), mas a localização do túmulo, não. Localizar o túmulo de Jesus para verificar se ele realmente não está lá negaria a crença no que Deus fez com ele.

O cadáver de Jesus negaria a fé em sua ressurreição? Se a ressurreição for assumida como evento historicamente literal de revivescência de um cadáver, sim. Se for confessada como esperança acerca da entrada numa forma de existir em relação à qual "as antigas coisas" deste cosmo (o tempo e seus efeitos de mutação sobre a matéria) passaram, não. É como se a imagem da tumba sem o cadáver fosse um sinal da fé: não se procura o Jesus que se crê onde termina a vida humana, já que ele não pode ser detido por aquilo que põe um ponto final à existência dos seres orgânicos. Nem mesmo se deve tentar achá-lo na mente humana, já que a fé não teria sido criada por esta. A fé surge do encontro. A Igreja crê que Jesus, após sua morte, voltou a encontrar-se com seus seguidores. Ele fê-lo (e, na fé, certamente o faz) numa modalidade de existência completamente diferente, que não é deste universo, porém, de algum modo, toca-o.

A ressurreição imortalizou Jesus, por ela Deus fez dele eterno. E, sendo eterno, não é deste mundo, não está no tempo, mas apresenta-se aos seres humanos temporais. Somente seres temporais têm fé. A fé espera por aquilo que será quando tudo mais deixar de ser. Contudo, como será aquilo que a fé espera é um mistério. Tampouco é possível perguntar quando será, já que o tempo, conforme foi dito, não está incluído nesse mistério. A vida, a partir do que sabemos, está ligada ao tempo e à mudança. A eternidade está ligada à fé. A fé espera por Deus, embora o que quer que ele venha a fazer (e como quer que queira fazer) continue desconhecido.


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
A BÍBLIA SAGRADA: ANTIGO E NOVO TESTAMENTO. Traduzida em português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada no Brasil. 2. ed. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.

quinta-feira, novembro 19, 2009

PECADO E MORTALIDADE

Enviei as considerações abaixo ao Professor Doutor Euler Renato Westphal, docente da Universidade da Região de Joinville (SC) e da Faculdade Luterana de Teologia (SC), a respeito de uma conversa que tivemos durante um encontro de obreiros da Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil (IECLB). Na ocasião, acompanhei a minha noiva, a Pastora Carla Saueressig. Às minhas observações o Professor Euler ofereceu as suas profundas e necessárias ponderações, prevenindo-me quanto a um posicionamento absolutizante, pelo que pude agradecê-lo.

Olá, Professor Euler.

Sou o Ruben. Conversamos no intervalo de sua palestra para os obreiros da IECLB no Sínodo Rio dos Sinos, em São Leopoldo, no dia 30/09. Eu havia perguntado sobre como entender a questão do pecado, uma vez que as ciências bíblicas (principalmente a partir do método histórico-crítico e da história das formas) descobriram que Gênesis 1 - 11 é uma narrativa mítica. Ou seja, o mito não descreve com exatidão, apenas reflete a realidade social vivida através de uma construção, digamos, "fabulosa".* Minha questão é a seguinte: Não acredito que um dia os seres humanos tenham sido imortais e que tenham trazido a mortalidade, do ponto de vista biológico e fenomenológico, ao universo inteiro por causa de uma transgressão em um jardim mítico. Porém, é mais do que evidente que as ações humanas, desde que se adquire a consciência, parecem tender para o desarranjo e a destruição. Será, então, que é a consciência de si mesmo que já traz em si o potencial para o mal? Desse modo, desde que se torna consciente, o ser humano já possui essa ambiguidade moral. Se assim é, a conclusão é que Deus nos criou desse modo. Não nos tornamos assim em um determinado momento: nós sempre fomos assim. Dá a impressão de que Gênesis pode ser entendido a partir disso. O pecado no Antigo Testamento parece mais uma realidade constitutiva do ser do que adquirida em algum momento pelo ser.

Agradeço a atenção lá na reunião no Sínodo. Que Deus o abençoe em seu trabalho.

Respeitosamente,

Ruben Marcelino

* Com o termo "fabulosa", refiro-me ao caráter literário. A fábula pertence ao gênero narrativo. Nela, os animais participam do enredo e exibem características humanas - fala, sentimentos, etc. Geralmente, a fábula possui um cunho moral. Poderia ser o caso de Gênesis 3.

quarta-feira, novembro 04, 2009

O ZUMBI

Saiu da cova o zumbi
para festejar o Dia de Finados.
"Talvez" – pensava – "hoje e aqui,
os mortos não sejam mais desprezados."

quarta-feira, outubro 07, 2009

O QUE SIGNIFICA CONHECER DEUS?

Apresentei esta "prédica" na Paróquia Evangélica Espírito Santo, da Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil (IECLB), em Novo Hamburgo (RS), no dia 04 de outubro de 2009, convidado pela Pastora Carla Saueressig, com quem vou casar.


INTRODUÇÃO

Uma pergunta importante deve estar presente durante toda a vida de um cristão: “Quem é Deus?” Mais do que uma questão filosófica, essa pergunta tem a ver com aquilo que faz de alguém um cristão realmente. Jesus deu respostas fundamentais. “Deus é espírito”, disse ele à mulher samaritana, de acordo com o Evangelho de João (4.24). Assim, Deus é uma realidade superior à vida simplesmente terrena. Por isso, o ser humano só pode se aproximar dele espiritualmente, isto é, pela adoração.

“Eu e o Pai somos um”, afirmou Jesus para os judeus de sua época, ainda segundo o Evangelho de João (10.30). O Pai e Jesus, Seu Filho, possuem um relacionamento eterno e indivisível. Por isso, a Igreja irá confessar que Deus é triúno: Deus é Pai, Filho e Espírito Santo. O Deus triúno trabalha para a nossa salvação: o Pai enviou Jesus Cristo ao mundo. Jesus Cristo morreu pelos nossos pecados e ressuscitou para nos dar vida nova. O Espírito Santo nos leva a crer em Jesus e, a partir dessa fé, passa a habitar em nós, confirmando que somos filhos de Deus (Romanos 8.16).

A Reforma Protestante afirmou que Deus se manifesta por meio de Sua Palavra. De acordo com Lutero, Deus faz tudo por meio de sua palavra.[1] Daí, a importância da pregação bíblica para que o cristão conheça quem é Deus. Sendo assim, que outros exemplos na Bíblia podem nos dar lições sobre o conhecimento de Deus em nossa vida? O profeta Oséias trata dessa questão. Vamos ler os seguintes textos: Oséias 4.6; 5.15 – 6.6. A partir deles, quero refletir com vocês sobre o seguinte tema: "O que significa conhecer Deus?"


1. CONHECER DEUS É MAIS DO QUE DESEJAR CONHECÊ-LO

O profeta Oséias viveu no reino de Israel, ao norte da Palestina, durante o reinado de Jeroboão II (Oséias 1.1; 2Reis 14.23-29). Nessa época, o povo adorava Iavé, o SENHOR, o Deus de Israel, mas também cultuava outros deuses (Oséias 4.17; 14.8). Baal, um deus associado à chuva, era um desses (Oséias 2.13; 13.1). Assim, o que Iavé fazia por Israel era atribuído a Baal (Oséias 2.8).

Quando Oséias ameaça seus ouvintes com o castigo, eles logo respondem com uma declaração de fé em Deus aparentemente sincera, de que a solução para eles era buscar conhecer a Deus (Oséias 5.15 – 6.3). Mas, apesar do que diziam, Deus lhes fala: “Porque o vosso amor é como a nuvem da manhã e como o orvalho da madrugada, que cedo passa” (Oséias 6.4).

É importante que nosso conhecimento de Deus não fique apenas em palavras sobre o desejo que temos de conhecê-lo. As pessoas costumam dizer que acreditam em Deus. Só que acreditar que Deus existe e que pode fazer algo por nós não garante que o conheçamos. Israel dizia: “Conheçamos e prossigamos em conhecer ao SENHOR (...) ele descerá sobre nós como a chuva (...)” (Oséias 6.3). Mas o profeta exigia deles algo mais.


2. REJEITAR A PALAVRA DE DEUS É REJEITAR CONHECER DEUS

Deus, através de Oséias, diz ao povo que eles estão sendo destruídos por falta de conhecimento (Oséias 4.6). E por que lhes faltava o conhecimento? O profeta diz que os sacerdotes rejeitaram a Lei de Deus. Faltava a Israel o conhecimento da Palavra de Deus que o sacerdote deveria ensinar. Nela, o povo aprenderia a adorar a Deus e a agir de acordo com sua vontade (Oséias 4.9-10). No Novo Testamento, Paulo irá dizer: “Qual, pois, a razão de ser da lei? Foi dada por causa das transgressões, até que viesse o descendente a quem se fez a promessa (...)” (Gálatas 3.19). Através da Lei, Deus quer prevenir o seu povo contra o pecado e também revelar o Salvador, Jesus Cristo. Através da palavra de Cristo, recebemos o evangelho da salvação (Romanos 10.13-17).

Assim, conhecer Deus significa conhecer Sua Palavra, isto é, a Lei e o Evangelho. A Lei revela que somos pecadores e precisamos da graça de Deus. O Evangelho nos anuncia que somos salvos do pecado através da obra de Cristo (Romanos 3.19-28). Infelizmente, o Israel de então permaneceu longe da Lei de Iavé e o resultado foi esse: atacados pelo povo assírio, morreram ou tornaram-se escravos (2Reis 17, especialmente v. 22 e 23).


3. CONHECER DEUS SIGNIFICA DEMONSTRAR MISERICÓRDIA COMO SUA PALAVRA RECOMENDA

Israel, na época de Oséias, oferecia sacrifícios ao seu Deus (Oséias 6.6; 8.13). Mas Iavé, o SENHOR, não os aceitava, pois não vinham acompanhados do conhecimento de Deus. Este conhecimento, requerido por Deus na palavra do profeta, é a misericórdia. A palavra hebraica para misericórdia é hesed[2], que pode também ser traduzida por amor[3] e comprometimento[4]. Conhecer Deus é amar Deus e, portanto, comprometer-se com a Palavra de Deus. Lemos isso em Deuteronômio 6.5-6: “Amarás, pois, o SENHOR, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força. Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração”.

Conhecer Deus é também amar o próximo e comprometer-se com ele. Em Levítico 19.18 está dito: “Não te vingarás, nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o SENHOR”. Deus é conhecido e reconhecido quando amamos o próximo e nos comprometemos com ele.

O profeta Oséias estava reagindo contra algo muito diferente da misericórdia, do amor e do comprometimento desejados por Deus: “O que prevalece é perjurar[5], mentir, matar, furtar e adulterar, e há arrombamentos e homicídios sobre homicídios (...) Como hordas de salteadores que espreitam alguém, assim é a companhia dos sacerdotes, pois matam no caminho para Siquém; praticam abominações” (Oséias 4.2; 6.9).

Temos demonstrado conhecimento de Deus, mostrando misericórdia e comprometimento em nossos relacionamentos?


CONCLUSÃO

Aprendemos com o profeta Oséias que conhecer Deus não é apenas desejar conhecê-lo, mas encontrá-lo em sua Palavra. A Palavra de Deus revela a vontade de Deus para nós. Nesta Palavra reconhecemos que Deus deseja de nós amor e comprometimento uns para com os outros. Que Deus nos ajude a viver assim. Amém!


Notas:

[1] JUNGHANS, Helmar. Temas da teologia de Lutero, p. 17.
[2] חֶסֶד
[3] A Bíblia de Jerusalém, p. 1723.
[4] KIRST, Nelson et.alii. Dicionário hebraico-português e aramaico-português, p. 73.
[5] Perjurar: jurar falso; quebrar o juramento. Cf. http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues. Acesso em 03 de outubro de 2009.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

A BÍBLIA DE JERUSALÉM. Nova edição, revista. São Paulo: Paulus, 1985. 2366 p.

A BÍBLIA SAGRADA: ANTIGO E NOVO TESTAMENTO. Traduzida em português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada no Brasil. 2. ed. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.

JUNGHANS, Helmar. Temas da teologia de Lutero. Trad. Ilson Kayser, Ricardo W. Rieth, Luís M. Sander e Letícia Schach. São Leopoldo: Sinodal, 2001. 188 p.

KIRST, Nelson et.alii. Dicionário hebraico-português e aramaico-português. 16. ed. São Leopoldo: Sinodal; Petrópolis: Vozes, 2003. 305 p.

http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues. Acesso em 03 de outubro de 2009.

quinta-feira, setembro 24, 2009

UMA ALMA PENADA NA COZINHA

Os cinco primos preparavam-se para dormir na sala do segundo piso do sobrado em que três deles moravam. O edifício, uma construção bem antiga, estava localizado bem em frente à praça do centro da pequena cidade de Riacho das Rolinhas, na Zona da Mata de Minas Gerais.

A noite estava agradável, levemente fria. Os sinos da igreja matriz, que ficava a poucos metros do sobrado, parcialmente encoberta pelas palmeiras da praça, há pouco badalavam: eram onze horas. Após muita conversa, risos e televisão, os garotos trouxeram os colchões, estendendo-os no chão do cômodo espaçoso, coisa que eles costumavam fazer várias vezes, sempre que podiam estar juntos.

A ocasião era toda vez especial. Dormir naquela sala parecia de novo uma experiência diferente. Olhar ao redor e perceber todo aquele espaço tinha um sabor de aventura: o teto alto, as paredes com vigas de madeira, o corredor que dava para os quartos e a cozinha mais para os fundos do andar, o chão de tábuas meio rangentes, os janelões com topo em semicírculo virados para a praça. As luzes dos faróis dos veículos que, de vez em quando, passavam lá fora projetavam-se para dentro do recinto já escuro assumindo o formato desses janelões. O movimento delas, orientado pelo deslocamento de sua fonte, fazia parecerem foguetes a percorrer o universo das paredes e do teto até se dissiparem nas sombras de um canto da sala. Para a imaginação daqueles amigos, era um espetáculo excitante, um verdadeiro "cinema". A sessão daquela noite, entretanto, foi curta. Cansados à beça, logo pegaram no sono.

Lá pelas duas da madrugada, Benedito sentiu tocarem seu ombro.

- Bene. Bene. Tá acordado? - sussurrou Márcio querendo saber.

- Agora tô! - respondeu o primo contrariado - Que foi?

- Maior vontade de ir ao banheiro.

- Ué, esqueceu onde fica?

- Não é isso. Vamos lá comigo?

- Quê?! Que história é essa?!

- Tá escuro pra caramba.

- Já ouviu falar em lâmpada elétrica?

- Só tem lâmpada lá nas outras salas, depois do corredor. E ainda tem a sala de jantar e a cozinha antes de chegar no banheiro.

- E...?!

- Aquele lugar é assustador. Já ouvi dizer que viram vultos ali à noite.

Benedito não estava acreditando.

- Peraí, cê atrapalha o meu sono por causa de medo de fantasmas?

- Vai dizer que tem coragem de ir lá sozinho!

- Claro! Só que eu não quero mijar!

- Mas eu sim. Vamos lá! Tô apertado!

- Cara, não tem nada lá. Pode ir tranquilo.

- E se eu passo ali nas escadas que vão lá pra baixo e dou de cara com alguma coisa me olhando?

- Só faltava essa!

- Tô falando sério, Bene! Essas histórias que contam sobre esta casa fazem a gente cagar nas calças! Sabia que a tia Santinha morreu aqui?

- Sim, sabia. A irmã do vovô morreu no dia em que eu fiz um ano.

- Viu?

- Então, tá! Com tanta coisa melhor pra fazer no outro mundo, a tia Santinha vai ficar na escada e esperar você passar só pra ficar olhando a sua cara?

- Ah, sei lá! E aí?

Benedito sabia que Márcio não iria parar de perturbar. Levantou-se. Virado para o corredor, contra a parede dos janelões, olhou para a direita. Francisco, Fábio e Zé, os outros primos, os que moravam na casa, estavam ferrados no sono. Virou de novo e ergueu o braço bruscamente:

- Não acenda a luz! Vamos logo!

- Tá. - concordou Márcio.

Saíram pelo corredor escuro em direção às escadas que ficavam no meio da primeira das duas salas que possuíam iluminação. "Isso aqui tá escuro mesmo", pensou Benedito. De repente, firmando os olhos, percebeu que o primo não estava na sua frente. Mesmo sem luz, dava pra ver a silhueta, mas, num relance, já não a percebia mais. Ficou confuso por uns brevíssimos mas eternos segundos, subitamente ouviu um fio de voz atrás de si:

- Bene.

Caraca, que susto! Benedito virou e, mesmo baixa, sua voz estava furiosa:

- BOSTA!!!! Que cê pensa que tá fazendo?!

- Calma aí! Eu só parei porque pensei ter ouvido um barulho. Cheguei pro lado e aí você passou na minha frente. Se assustou?

- Mas é lógico que não! Anda logo!

Márcio passou à frente e, em seguida, chegaram às escadas. Ao passar por elas, deu uma olhada lá pra baixo, mais por nervosismo do que por coragem. O corredor que dava para a porta da rua era só sombras. Parece que a escuridão por um momento o hipnotizara, só que o empurrão do primo logo o tirou do transe:

- Vai!

Entraram na outra sala. Por ela chegariam à sala de jantar. Benedito acendeu a luz.

- Bem, vai lá.

- Hã?! O banheiro é só depois da cozinha.

- Então! Eu fico aqui esperando cê voltar.

- Ah, sim! De que adianta ter vindo só até aqui? Pois se é lá que os monstros estão!

- Eu nunca escutei tanta idiotice junta!

- Ah, é? E por que não vai comigo até lá?

- Cara, dá um jeito de ir mijar de uma vez! Eu quero dormir!

- Você tá aí se borrando! Quem diria!

- Quem diria o caramba! Tu é que prefere se mijar a encarar o caminho até o banheiro! E tudo por causa de fantasminhas! Seja macho!

Lá nos fundos, a porta do banheiro rangeu. O vento começou a assoviar. Os dois garotos pararam de discutir imediatamente e se voltaram para a direção dos sons. O que viram os deixou petrificados. Do umbral de uma parede que separava a cozinha de uma pequena área usada como depósito de coisas velhas, e onde também ficava o banheiro, surgira alguma coisa. Parecia uma figura humana, mas estava recurvada. Os pés, arrastando no assoalho, faziam um ruído de gelar a espinha. Movendo-se lentamente, a criatura se confundia com o ambiente lúgubre, ora sumia ora aparecia. A cada passo que dava, gemia como alma penada, feito alguém que era torturado. E seguia direto para os meninos.

Os troncos e braços de Benedito e Márcio não acompanharam suas pernas e um caiu por cima do outro. Desembestados, levantaram de qualquer jeito e trombando um no outro correram de volta aonde dormiam e fecharam a porta. Desabaram nos colchões, cobrindo-se da cabeça aos pés. Deu uma dor de barriga em Benedito, mas ele não podia sair dali. Márcio, que quase molhara as calças, decidiu fazer de tudo para segurar a vontade de urinar. Ficariam onde estavam até amanhecer.

Enquanto saía da cozinha, tia Teresinha, a mãe dos três garotos que dormiam tranquilamente lá no cômodo de frente do sobrado, notou adiante uma luz acesa. Passou a sala de jantar, por cujas janelas penetrava um luar fraco, e entrou no local iluminado. Ao apagar a luz, lembrou que deixara a janela do banheiro aberta. Havia sentido um vento frio assim que saíra de lá. Não se preocupou. Estava bem cansada. E o repouso da noite não estava sendo bom, já que o lumbago castigava-lhe as costas. A dor era tanta que até andar era custoso. Ah, mas no dia seguinte iria querer saber que barulhão era aquele que ouvira! Só podiam ter sido aqueles meninos capetados! Em tempo de atrapalhar o descanso dos outros, sô! Uma falta de consideração!

Voltando por onde viera, a senhora entrou à direita numa porta e foi para o quarto se deitar.

quinta-feira, setembro 10, 2009

EXPERIMENTAR COM O CORAÇÃO

"Nós devemos estudar um texto bíblico para experimentá-lo com o coração".

Carla Saueressig

A ASSOMBRAÇÃO DO CASARÃO

Lá, naquele casarão
Triste e envelhecido,
Mora uma assombração,
Um vulto esquecido.

Se acontece, nas noites escuras,
De uns gaiatos ali se aventurarem,
Fazendo ela pavorosos ruídos soarem,
Põe pra correr as pobres criaturas!

Dizem que fora uma alma rabugenta,
Que não gostava de outras gentes,
Sempre enclausurada na mansão cinzenta.

E agora, como não tem mais dentes,
Remói com o vazio uma solidão morrinhenta,
Arrastando-a pelos cantos como correntes.