"Então, falando ele estas coisas em sua defesa, Festo disse em alta voz:
Estás louco, Paulo! As muitas letras te levam à insanidade!"
(Atos dos Apóstolos 26.24)
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terça-feira, fevereiro 23, 2010

BATE-PAPO ENTRE AMIGOS SOBRE O FASCINANTE FENÔMENO ÓVNI

Enviei a mensagem abaixo por e-mail para o meu amigo Renato Jover. Ele me havia repassado um artigo que mencionava um encontro promovido pela Igreja Católica em 2009 para tratar de Astrobiologia.[1] Renato perguntava a minha opinião sobre o texto. Foi então que lhe escrevi as seguintes "letras", as quais publico com algumas correções e acréscimos:


Caro amigo Renato,

Desde que lembro, sou interessado em mistérios. Óvnis, casas mal-assombradas, lendas de assombração, essas coisas sempre me cativaram ("Arquivo X" é a minha série de TV favorita!). Quando adolescente, lia e conversava sobre essas coisas com avidez, não sem uma ponta de ceticismo. Todavia, geralmente deparava-me com pessoas nada dispostas a discutir esses assuntos, considerando-se talvez "adultas e esclarecidas demais" para dar lugar à imaginação e à fantasia.

Com isso, não quero dizer que se deva ser completamente crédulo quanto a coisas como essas, mas considerá-las como objeto para pesquisa e esclarecimento. O fenômeno dos objetos voadores não identificados já foi, parece-me, tratado com mais seriedade em anos passados, principalmente nos Estados Unidos. Entretanto, tenho a impressão de que vem perdendo gradativamente o interesse de pesquisadores sérios, quando muito limitando-se à divulgação, sem análise, de fotografias e a uma mescla com ideias de cunho (pseudo)religioso.

Não deixa de ser intrigante que, como alegam os meios de comunicação "especializados", ocorram tantos avistamentos todo ano e até hoje supostamente não tenha sido apresentada uma prova concreta de que estamos sendo visitados por seres de outros planetas ou de outras dimensões. O conhecimento que temos hoje do universo também dificulta bastante admitir a possibilidade de tanta atividade extraterrena em nosso planeta, uma vez que, mesmo com a (ainda impossível) capacidade de viajar à velocidade da luz, uma nave tripulada não conseguiria atravessar as distâncias descomunais no espaço até encontrar uma outra civilização. Sondas e sinais de rádio foram enviados e o silêncio lá fora permanece, nenhuma resposta.

Diante disso, pergunto-me: O que será o fenômeno óvni? Encontros casuais de pessoas com projetos (humanos) secretos de veículos, os quais, por serem até então desconhecidos do público, são vistos como naves extraterrestres, interpretação que ocultaria ainda mais esses segredos? Muito já se falou e especulou sobre isso. E faz certo sentido porque, nas décadas de 40 e 50, quando o fenômeno tornou-se mais recorrente nos EUA, ocorreram várias mudanças políticas no globo – a 2ª Guerra, a corrida armamentista, a Guerra Fria –, acelerando, inclusive, o desenvolvimento da tecnologia bélica e nuclear.

E o que dizer das abduções por alienígenas? Há profissionais de saúde que tentam entender o que ocorre com as pessoas que dizem ter sido levadas por seres estranhos e sofrido todo tipo de experimento biológico, inclusive sexual. É o caso, por exemplo, do pesquisador David Jacobs, professor de História americana do século XX na Universidade de Temple, na Filadélfia, o qual apresenta registros dos casos que investigou no livro A vida secreta. Tudo isso terá realmente acontecido? Ou seria uma atualização dos distúrbios da psiquê descobertos por Freud no início do século XX?

Não sei. Ultimamente, vem sendo falado que os organismos da Aeronáutica de alguns países da Europa abririam seus arquivos sobre relatos de óvnis para o público.[2] Será que realmente existirá lá material que não possa ser explicado? Eu gostaria de acreditar nos óvnis. Reconheço, de tudo que li, haver pessoas com credibilidade que não teriam por que inventar histórias sobre aparições no céu. Portanto, não descarto a possibilidade, embora esteja inclinado a pensar que haja explicações bem naturais para certos fenômenos "inexplicados".

Quanto à existência de vida em outros planetas, sei que é estatisticamente impossível que o nosso seja o único mundo habitado.[3] Os astrônomos vêm descobrindo evidências no universo da realidade de condições capazes de proporcionar o surgimento da vida. Pode ser que lá fora tenham florescido bem antes que nós outras civilizações (o universo tem cerca de 14 bilhões de anos!), mas estas encontrar-se-iam separadas da gente a tal ponto que o contato não seria (até o momento) viável.

Sobre a interpretação teológica cristã a respeito de prováveis outros mundos habitados por organismos inteligentes, podemos dizer, a partir da fé, que sua existência seria obra de Deus através do Logos (a Palavra) que estava com Deus antes que tudo existisse, conforme o Evangelho de João (1.1-4). Esse documento considera que Deus (entenda-se, o Deus judaico-cristão segundo a fé judaico-cristã) criou tudo por meio do Logos (o judaísmo falará da Sabedoria, a primeira obra do Criador; cf. Provérbios 8.22-31), o qual se tornou ser humano em Jesus de Nazaré.

Ficam as questões: o que os habitantes dessas civilizações demonstrariam como traços de sua origem divina? De que modo desenvolvem suas relações pessoais? Qual será a sua ética? Possuem também, em sua essência, a possibilidade e a facticidade da corrupção?

É possível que a humanidade ainda tenha que aguardar muito...

Um abração!!!!

Ruben


Notas:

[1] Sobre esse evento, cf. http://www.gaudiumpress.org/view/show/10690-vaticano-encerra-semana-de-astrobiologia. Acesso em em 22/02/2010.

[2] http://www.dw-world.de/dw/article/0,,4789740,00.html. Acesso em 23/02/2010; http://noticias.terra.com.br/ciencia/interna/0,,OI1534451-EI301,00.html. Acesso em 23/02/2010.

[3] http://www.cienciamao.if.usp.br/aliens/drake.php. Acesso em 15/02/2010; http://ciencia.hsw.uol.com.br/programa-seti2.htm. Acesso em 15/02/2010.


Referências Bibliográficas:

JACOBS, David. A vida secreta: relatos cientificamente documentados de casos de sequestros por alienígenas. Trad. Carlos Araújo. Rio de Janeiro: Editora Rosa dos Tempos. 350 p. Coleção "Tendências do milênio", n. 3.

http://www.cienciamao.if.usp.br/aliens/drake.php. Acesso em 15/02/2010.

http://ciencia.hsw.uol.com.br/programa-seti2.htm. Acesso em 15/02/2010.

http://www.dw-world.de/dw/article/0,,4789740,00.html. Acesso em 23/02/2010.

http://www.gaudiumpress.org/view/show/10690-vaticano-encerra-semana-de-astrobiologia. Acesso em 22/02/2010.

http://noticias.terra.com.br/ciencia/interna/0,,OI1534451-EI301,00.html. Acesso em 23/02/2010.

segunda-feira, dezembro 28, 2009

EM 2010, OUVIR, (RE e ANTE)VER, CHAMAR

Apresentei esta "prédica" na Paróquia Evangélica Espírito Santo, da Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil (IECLB), em Novo Hamburgo (RS), no dia 27 de dezembro de 2009, convidado por minha querida e amada Esposa, a Pastora Carla Saueressig da Silva.


INTRODUÇÃO

Vai chegando ao fim o ano 2009. Nos últimos doze meses estivemos ocupados com muitas coisas em várias situações: preocupamo-nos com o bem-estar de nossos familiares, dedicamo-nos às nossas atividades profissionais (ou estivemos à procura de um emprego), estivemos atentos à nossa saúde, cuidamos de nossas casas, compramos, vendemos, negociamos, viajamos, sorrimos, choramos. Em nossa paróquia, fomos pastoreados pela Pastora Carla – a Pastora mais linda da IECLB –, participamos dos cultos, das reuniões de jovens, do Grupo Reviver, dos jantares dos homens e das mulheres. Talvez, muitas dessas coisas faremos novamente em 2010, porém, como diz a música, “o meu destino será como Deus quiser”.

É claro que, segundo cremos, Deus realmente faz o que quer e é nos acontecimentos da vida que somos chamados a refletir sobre o que ele está fazendo e como podemos experimentar e participar disso. Santo Agostinho dizia que Deus muda as coisas sem mudar o seu plano.[1] Em outras palavras, ainda que nunca compreendamos como, é apenas diante de Deus que o tempo e a vida, absolutamente complexos e imprevisíveis, não podem esconder as cartas do seu jogo.

2010 é um mistério ao qual estamos prestes a passar. Não somos capazes (e ninguém é) de prever o que irá acontecer e que tipo de circunstâncias iremos enfrentar. Todavia, como cristãos, podemos adotar algumas atitudes através das quais seguir pelas estradas que a vida, e nós inseridos nela, for construindo diante de nós. Com a leitura de DEUTERONÔMIO 4.1-9, convido vocês a, em 2010, OUVIR, (RE)VER E CHAMAR.


Em 2010, o que eu devo ouvir?

1o) OUVIR A LEI E AS PROMESSAS DE DEUS (v. 1-2)

O livro de Deuteronômio, o quinto do Antigo Testamento da Bíblia cristã, é um conjunto de discursos de Moisés, através dos quais este repassa a trajetória dos israelitas desde o monte Horebe (em Êxodo, chamado “Sinai”) até às fronteiras da terra de Canaã. A geração que saíra do Egito, com a exceção de Josué e Calebe, morrera durante a peregrinação, visto que, tendo chegado já antes à beira da terra prometida, descreu da palavra de Deus que Moisés trouxera (Números 14.26-30). Uma nova geração surgiu (Números 14.31) e está prestes a entrar na posse que Deus havia prometido.

Moisés recomenda-lhes, pois, a OUVIR. Ouvir o quê? Os estatutos e os juízos de Deus que o profeta ensinava e a promessa de Deus que o profeta assegurava. É claro que o OUVIR não se refere apenas à decodificação pelo nosso cérebro das ondas sonoras que nos chegam aos ouvidos. OUVIR, como diz o texto, é APRENDER (“ouve os estatutos e os juízos que eu vos ensino”), CUMPRIR (“para os cumprirdes”) e CRER (“possuiais a terra que o SENHOR, o Deus de vossos pais, vos dá”). Segundo Moisés, quando ouvimos a Lei e a Promessa de Deus encontramos a VIDA (“ouve... para que vivais”). Antes de mais nada, devemos OUVIR para que VIVAMOS, isto é, não nos tornemos reféns das circunstâncias, para bem ou para mal, mas sim agarremos a esperança de que podemos, por Deus, VIVER apesar de tudo.


Em 2010, o que eu devo (re)ver?

2o) (RE)VER OS ERROS E OS ACERTOS E (ANTE)VER O QUE SERÁ CASO TENHAMOS DEUS CONOSCO (v. 3-6)

Por que (re)ver os erros? A fim de que lembremos a dor que nos trouxeram e não cometê-los novamente. Israel envolveu-se com o povo de Moabe e seu deus Baal-Peor e pagou um preço caro (Números 25.1-9).

Por que (re)ver os acertos? Para sentirmos a alegria, nossa e dos outros, pelo que nosso bom proceder trouxe e identificarmos mais este marco da estrada por onde Deus quer que vamos. Alguns de Israel não seguiram Baal-Peor, como Finéias, neto de Arão (Números 25.6-13), e puderam permanecer até aquele momento de entrar em Canaã.

Como assim antever o que será se tivermos Deus conosco? A questão não é o que vamos ganhar ou perder, mas como lidaremos com o que vier. Se procurarmos por Deus, priorizaremos a responsabilidade e a ética em nossos caminhos e extrairemos sabedoria da vida. Era o que Deus aconselhava e prometia a Israel: sabedoria e justiça.


Em 2010, por quem eu devo chamar?

3o) CHAMAR POR DEUS SEMPRE, POIS É CERTO QUE ELE SE ACHEGARÁ A NÓS (v. 7)

Embora tivesse passado por fracassos e sofrimentos, Israel podia dizer: “O SENHOR achega-se a nós todas as vezes que o invocamos!” É um engano achar que Deus não nos receberá porque pecamos. Lutero agradecia a Cristo por este tomar o pecado dele, dando-lhe em troca a sua graça.[2] Lutero sabia que, quando vamos a Cristo em pecado, este nos recebe para conduzir-nos à confissão, ao perdão e à transformação pelo poder do Espírito Santo.

É também um engano achar que não importa que pequemos, já que Deus nos receberá. Quem pensa assim, não achará Deus, pois de fato não o está procurando.

Outro equívoco é pensar que Deus não nos ouve porque nosso sofrimento não passou. Infelizmente, mesmo que esta seja uma questão que inquietará a mente humana enquanto esta existir, o sofrimento faz parte da vida e, em meio a ele, devemos fazer como Jesus: gritar para Deus do fundo do nosso ser (Marcos 15.34; cf. Hebreus 5.7-10). Ainda que se sentisse abandonado, o Nazareno gritou na cruz porque sabia que Deus iria ouvir seu grito. O sofrimento, assim como a satisfação, vai e vem, mas a proximidade de Deus nunca desaparecerá. Em 2010, e por toda a sua vida, sempre chame por Ele.


CONCLUSÃO

Em 2010, OUÇA a Lei e as Promessas de Deus; (RE)VEJA os erros e os acertos e (ANTE)VEJA o que será se tiver Deus com você; e CHAME sempre por Deus, pois Ele está pronto para achegar-se a você. Amém


Notas:
[1] SANTO AGOSTINHO. Confissões, Livro I, 4. In: http://www.veritatis.com.br/article/2887. Acesso em 28/12/2009.
[2] “Senhor Jesus Cristo, tu és minha justiça, eu, porém, sou teu pecado: Levaste sobre ti o que é meu, e deste a mim o que é teu. Tomaste sobre ti o que não eras, e deste a mim o que eu não era.” In: http://www.luteranos.com.br/categories/Quem-Somos/Nossa-Hist%F3ria/Martim-Lutero/Ora%E7%F5es-de-Lutero/. Acesso em 28/12/2009.


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

A BÍBLIA SAGRADA: ANTIGO E NOVO TESTAMENTO. Traduzida em português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada no Brasil. 2. ed. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.

quinta-feira, novembro 19, 2009

PECADO E MORTALIDADE

Enviei as considerações abaixo ao Professor Doutor Euler Renato Westphal, docente da Universidade da Região de Joinville (SC) e da Faculdade Luterana de Teologia (SC), a respeito de uma conversa que tivemos durante um encontro de obreiros da Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil (IECLB). Na ocasião, acompanhei a minha noiva, a Pastora Carla Saueressig. Às minhas observações o Professor Euler ofereceu as suas profundas e necessárias ponderações, prevenindo-me quanto a um posicionamento absolutizante, pelo que pude agradecê-lo.

Olá, Professor Euler.

Sou o Ruben. Conversamos no intervalo de sua palestra para os obreiros da IECLB no Sínodo Rio dos Sinos, em São Leopoldo, no dia 30/09. Eu havia perguntado sobre como entender a questão do pecado, uma vez que as ciências bíblicas (principalmente a partir do método histórico-crítico e da história das formas) descobriram que Gênesis 1 - 11 é uma narrativa mítica. Ou seja, o mito não descreve com exatidão, apenas reflete a realidade social vivida através de uma construção, digamos, "fabulosa".* Minha questão é a seguinte: Não acredito que um dia os seres humanos tenham sido imortais e que tenham trazido a mortalidade, do ponto de vista biológico e fenomenológico, ao universo inteiro por causa de uma transgressão em um jardim mítico. Porém, é mais do que evidente que as ações humanas, desde que se adquire a consciência, parecem tender para o desarranjo e a destruição. Será, então, que é a consciência de si mesmo que já traz em si o potencial para o mal? Desse modo, desde que se torna consciente, o ser humano já possui essa ambiguidade moral. Se assim é, a conclusão é que Deus nos criou desse modo. Não nos tornamos assim em um determinado momento: nós sempre fomos assim. Dá a impressão de que Gênesis pode ser entendido a partir disso. O pecado no Antigo Testamento parece mais uma realidade constitutiva do ser do que adquirida em algum momento pelo ser.

Agradeço a atenção lá na reunião no Sínodo. Que Deus o abençoe em seu trabalho.

Respeitosamente,

Ruben Marcelino

* Com o termo "fabulosa", refiro-me ao caráter literário. A fábula pertence ao gênero narrativo. Nela, os animais participam do enredo e exibem características humanas - fala, sentimentos, etc. Geralmente, a fábula possui um cunho moral. Poderia ser o caso de Gênesis 3.

quarta-feira, outubro 07, 2009

O QUE SIGNIFICA CONHECER DEUS?

Apresentei esta "prédica" na Paróquia Evangélica Espírito Santo, da Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil (IECLB), em Novo Hamburgo (RS), no dia 04 de outubro de 2009, convidado pela Pastora Carla Saueressig, com quem vou casar.


INTRODUÇÃO

Uma pergunta importante deve estar presente durante toda a vida de um cristão: “Quem é Deus?” Mais do que uma questão filosófica, essa pergunta tem a ver com aquilo que faz de alguém um cristão realmente. Jesus deu respostas fundamentais. “Deus é espírito”, disse ele à mulher samaritana, de acordo com o Evangelho de João (4.24). Assim, Deus é uma realidade superior à vida simplesmente terrena. Por isso, o ser humano só pode se aproximar dele espiritualmente, isto é, pela adoração.

“Eu e o Pai somos um”, afirmou Jesus para os judeus de sua época, ainda segundo o Evangelho de João (10.30). O Pai e Jesus, Seu Filho, possuem um relacionamento eterno e indivisível. Por isso, a Igreja irá confessar que Deus é triúno: Deus é Pai, Filho e Espírito Santo. O Deus triúno trabalha para a nossa salvação: o Pai enviou Jesus Cristo ao mundo. Jesus Cristo morreu pelos nossos pecados e ressuscitou para nos dar vida nova. O Espírito Santo nos leva a crer em Jesus e, a partir dessa fé, passa a habitar em nós, confirmando que somos filhos de Deus (Romanos 8.16).

A Reforma Protestante afirmou que Deus se manifesta por meio de Sua Palavra. De acordo com Lutero, Deus faz tudo por meio de sua palavra.[1] Daí, a importância da pregação bíblica para que o cristão conheça quem é Deus. Sendo assim, que outros exemplos na Bíblia podem nos dar lições sobre o conhecimento de Deus em nossa vida? O profeta Oséias trata dessa questão. Vamos ler os seguintes textos: Oséias 4.6; 5.15 – 6.6. A partir deles, quero refletir com vocês sobre o seguinte tema: "O que significa conhecer Deus?"


1. CONHECER DEUS É MAIS DO QUE DESEJAR CONHECÊ-LO

O profeta Oséias viveu no reino de Israel, ao norte da Palestina, durante o reinado de Jeroboão II (Oséias 1.1; 2Reis 14.23-29). Nessa época, o povo adorava Iavé, o SENHOR, o Deus de Israel, mas também cultuava outros deuses (Oséias 4.17; 14.8). Baal, um deus associado à chuva, era um desses (Oséias 2.13; 13.1). Assim, o que Iavé fazia por Israel era atribuído a Baal (Oséias 2.8).

Quando Oséias ameaça seus ouvintes com o castigo, eles logo respondem com uma declaração de fé em Deus aparentemente sincera, de que a solução para eles era buscar conhecer a Deus (Oséias 5.15 – 6.3). Mas, apesar do que diziam, Deus lhes fala: “Porque o vosso amor é como a nuvem da manhã e como o orvalho da madrugada, que cedo passa” (Oséias 6.4).

É importante que nosso conhecimento de Deus não fique apenas em palavras sobre o desejo que temos de conhecê-lo. As pessoas costumam dizer que acreditam em Deus. Só que acreditar que Deus existe e que pode fazer algo por nós não garante que o conheçamos. Israel dizia: “Conheçamos e prossigamos em conhecer ao SENHOR (...) ele descerá sobre nós como a chuva (...)” (Oséias 6.3). Mas o profeta exigia deles algo mais.


2. REJEITAR A PALAVRA DE DEUS É REJEITAR CONHECER DEUS

Deus, através de Oséias, diz ao povo que eles estão sendo destruídos por falta de conhecimento (Oséias 4.6). E por que lhes faltava o conhecimento? O profeta diz que os sacerdotes rejeitaram a Lei de Deus. Faltava a Israel o conhecimento da Palavra de Deus que o sacerdote deveria ensinar. Nela, o povo aprenderia a adorar a Deus e a agir de acordo com sua vontade (Oséias 4.9-10). No Novo Testamento, Paulo irá dizer: “Qual, pois, a razão de ser da lei? Foi dada por causa das transgressões, até que viesse o descendente a quem se fez a promessa (...)” (Gálatas 3.19). Através da Lei, Deus quer prevenir o seu povo contra o pecado e também revelar o Salvador, Jesus Cristo. Através da palavra de Cristo, recebemos o evangelho da salvação (Romanos 10.13-17).

Assim, conhecer Deus significa conhecer Sua Palavra, isto é, a Lei e o Evangelho. A Lei revela que somos pecadores e precisamos da graça de Deus. O Evangelho nos anuncia que somos salvos do pecado através da obra de Cristo (Romanos 3.19-28). Infelizmente, o Israel de então permaneceu longe da Lei de Iavé e o resultado foi esse: atacados pelo povo assírio, morreram ou tornaram-se escravos (2Reis 17, especialmente v. 22 e 23).


3. CONHECER DEUS SIGNIFICA DEMONSTRAR MISERICÓRDIA COMO SUA PALAVRA RECOMENDA

Israel, na época de Oséias, oferecia sacrifícios ao seu Deus (Oséias 6.6; 8.13). Mas Iavé, o SENHOR, não os aceitava, pois não vinham acompanhados do conhecimento de Deus. Este conhecimento, requerido por Deus na palavra do profeta, é a misericórdia. A palavra hebraica para misericórdia é hesed[2], que pode também ser traduzida por amor[3] e comprometimento[4]. Conhecer Deus é amar Deus e, portanto, comprometer-se com a Palavra de Deus. Lemos isso em Deuteronômio 6.5-6: “Amarás, pois, o SENHOR, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força. Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração”.

Conhecer Deus é também amar o próximo e comprometer-se com ele. Em Levítico 19.18 está dito: “Não te vingarás, nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o SENHOR”. Deus é conhecido e reconhecido quando amamos o próximo e nos comprometemos com ele.

O profeta Oséias estava reagindo contra algo muito diferente da misericórdia, do amor e do comprometimento desejados por Deus: “O que prevalece é perjurar[5], mentir, matar, furtar e adulterar, e há arrombamentos e homicídios sobre homicídios (...) Como hordas de salteadores que espreitam alguém, assim é a companhia dos sacerdotes, pois matam no caminho para Siquém; praticam abominações” (Oséias 4.2; 6.9).

Temos demonstrado conhecimento de Deus, mostrando misericórdia e comprometimento em nossos relacionamentos?


CONCLUSÃO

Aprendemos com o profeta Oséias que conhecer Deus não é apenas desejar conhecê-lo, mas encontrá-lo em sua Palavra. A Palavra de Deus revela a vontade de Deus para nós. Nesta Palavra reconhecemos que Deus deseja de nós amor e comprometimento uns para com os outros. Que Deus nos ajude a viver assim. Amém!


Notas:

[1] JUNGHANS, Helmar. Temas da teologia de Lutero, p. 17.
[2] חֶסֶד
[3] A Bíblia de Jerusalém, p. 1723.
[4] KIRST, Nelson et.alii. Dicionário hebraico-português e aramaico-português, p. 73.
[5] Perjurar: jurar falso; quebrar o juramento. Cf. http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues. Acesso em 03 de outubro de 2009.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

A BÍBLIA DE JERUSALÉM. Nova edição, revista. São Paulo: Paulus, 1985. 2366 p.

A BÍBLIA SAGRADA: ANTIGO E NOVO TESTAMENTO. Traduzida em português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada no Brasil. 2. ed. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.

JUNGHANS, Helmar. Temas da teologia de Lutero. Trad. Ilson Kayser, Ricardo W. Rieth, Luís M. Sander e Letícia Schach. São Leopoldo: Sinodal, 2001. 188 p.

KIRST, Nelson et.alii. Dicionário hebraico-português e aramaico-português. 16. ed. São Leopoldo: Sinodal; Petrópolis: Vozes, 2003. 305 p.

http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues. Acesso em 03 de outubro de 2009.

domingo, agosto 02, 2009

Homem de Deus?

No dia 22 de abril, minha tia Angélica mandou-me o recado que transcrevo abaixo:

Rubinho, seja sempre um homem de Deus. Você, pequenino, gostava de dizer: Bem-aventurado o varão que põe no Senhor a sua confiança. Pratique sempre essa verdade.

A citação é do Salmo 40.5(4) [cf. Jeremias 17.7].

Sabe o que é curioso? Eu não me lembro de ter dito isso. Nada fora do normal. Eu era uma criança. Todavia, essa "revelação" causou-me um certo impacto. Afinal, vai já muito tempo e eu mudei tanto...

Em minha ingenuidade infantil (quando para a gente tudo é simples), essas palavras deviam soar naturalmente, como uma verdade que não precisava ser demonstrada. Talvez eu nem mesmo me preocupasse com que esses dizeres viessem acompanhados de uma verificação posterior, a famosa "experiência de fé", cuja concretização deveria ser objeto de testemunho público. Na certa, "Bem-aventurado o varão que põe no Senhor a sua confiança" era tão tranquilo para mim quanto sair a brincar, que é o que eu provavelmente fui fazer logo após ter recitado o versículo para a minha tia.

É engraçado que eu fui crescendo e Deus se tornando algo cada vez mais difícil. Sim, eu conheço bastante (embora sempre insuficientemente) a Bíblia, já fiz jornadas de oração e acreditei em tantas coisas. Ouvi vários sermões, uns bons, outros ruins, porém que, geralmente, sinalizavam que continuamente faltava algo. Em mim, no mundo, na existência.

Aos poucos, também por meus estudos e observações pessoais, ia possuindo conteúdo de mais e segurança de menos. O que venho sabendo é de uma pequenez infinitesimal, porém Deus foi tornando-se uma crescente incógnita e a espiritualidade um quebra-cabeças. Deus se expressa através de uma única religião? Há destino? Por que as pessoas são boas "e" más? Como Deus pode permanecer impassível perante o sofrimento no universo? O ser humano dotado de consciência e liberdade não é um risco demasiadamente alto? A transitoriedade decorrente da contínua transformação da matéria não dá a impressão de que, por mais elevado que seja o grau de nossa inserção no mundo, somos apenas como plástico, papel, restos orgânicos ou latinhas de refrigerante dentro de uma astronômica usina de reciclagem?

Geração vai e geração vem; mas a terra permanece para sempre.
Todas as coisas são canseiras tais, que ninguém as pode exprimir; os olhos não se fartam de ver, nem se enchem os ouvidos de ouvir.
O que foi é o que há de ser; e o que se fez, isso se tornará a fazer; nada há, pois, novo debaixo do sol.

(Eclesiastes 1.4, 8-9) [1]

É evidente a falta de algo. "É o pecado original que faz isso", dirão alguns. Acontece que justamente é o pecado, o mal, a decrepitude, a impotência que parece representarem o que há de mais "original" em nós. Como começou tudo isso? Arriscaria que, enquanto intenção, começou, tragicamente, com o surgimento da faculdade da consciência.

A consciência, todavia, anda inquieta com sua própria condição, uma vez que a bondade e a felicidade ela também é capaz de experimentar e expressar. Mas por que tais coisas não são perenes? Por que hoje somos benevolência e amanhã malevolência?

Aconselhou-me minha tia a ser sempre um homem de Deus. Se intuo que Deus criou o mundo, estou incluído nessa criação e, por isso, não há como deixar de ser um homem "de Deus". Por outro lado, sempre um "homem de Deus" tal quais as exigências da fé judaico-cristã sinto que há de envolver continuamente a devoção mas também a crítica dos pressupostos de minha crença: Deus revelou-se ao ser humano porque este, sendo pecador, precisa ser salvo.

A revelação (que não é exclusividade do Judaísmo e do Cristianismo) é um fenômeno, isto é, dá-se pela percepção humana da realidade do sagrado. Desnecessário dizer que a ideia de que a pessoa apenas percebe porque Deus tomou a iniciativa já está incluída na compreensão mesma dessa experiência. Em outras palavras, integra o acontecimento da revelação (que é sempre biopsicoespiritual) já tornado "discurso", discurso da fé. E como a fé é atividade humana e se traduz em linguagem, será historicamente condicionada por esta linguagem, visto que toda a interação do ser humano com o mundo é linguagem.

As "fés" testemunhadas pelos livros canônicos da Bíblia são quadros históricos somente possíveis e compreensíveis naqueles momentos históricos em que se produziram os testemunhos. As linguagens bíblicas são linguagens próprias daquelas circunstâncias históricas. Algo dessas expressões filosófico-linguísticas tornou-se padrão "técnico" de discurso das espiritualidades decorrentes ao longo dos séculos: Deus Pai; Cristo; céu e terra; Reinado de Deus; corpo, alma e espírito; predestinação; Espírito Santo; diabo; anjos; Escrituras; etc.

De que modo compreender, à luz do conhecimento cada vez mais extenso sobre a natureza (e "revelador" de nosso insistente desconhecimento) e da pluralidade de formas e cosmovisões filosóficas e religiosas, a proposta cristã que se estabeleceu no Ocidente? E que dizer dos cristianismos que se perderam (gnósticos, ebionitas, docetas, etc.)? Os conceitos comunicados pelas expressões filosófico-linguísticas supracitadas são capazes de dar conta das questões colocadas pelo mundo moderno? Dizia Drummond que, por trás da porta, a Verdade se compunha de metades diferentes umas das outras, por cujas belezas só era possível optar. [2] Que espiritualidade(s) responderá(ão) a um mundo (parece) irrevogavelmente percebido como um conjunto de "meias verdades" não coincidentes?

Segundo a Bíblia Hebraica, o homem de Deus que viera de Judá a Betel, visto que falhara, o leão encontrou e matou (1Reis 13.21-24). Se toda linguagem é metafórica, já que estabelece a "comparação" como mecanismo de compreensão da(s) realidade(s), tal narrativa comporta alguma razoabilidade dentro da era da física quântica, da astronomia, das pesquisas da evolução das espécies, da engenharia genética, do "livre-arbítrio" individual e da diversidade de pensamentos? Nas esquinas do século XXI, o homem de Deus e o leão ainda se encontram, mesmo que pacificamente?

Notas:

[1] Almeida Revista e Atualizada.

[2] http://www.memoriaviva.com.br/drummond/poema072.htm

quinta-feira, julho 09, 2009

Espiritualidade?

O texto a seguir, de 08 de setembro de 2008, é uma contribuição para uma "rodada" do café teológico virtual do qual participaram: Carla Saueressig, Marlova Schneider, Dionata Oliveira, Vanderlei Schneider, Renato Jover, Ruben Marcelino, Marcos Romão Vichi e Israel. Publicação na íntegra.

Olá para todos! A iniciativa da Carla de começar esse café teológico merece ser parabenizada, já que esse diálogo, mesmo que ao redor de uma mesa virtual (por enquanto), pode aproximar os participantes, os quais terão acesso a diversas perspectivas sobre os mais variados assuntos relacionados à espiritualidade.

Li todas as respostas dadas até aqui e notei que, seguindo o fio da mensagem da Carla, o amor e o respeito à diferença receberam o principal destaque. Comentários sobre a prática pessoal do cristianismo também ocuparam lugar na fala dos interlocutores.

O que é a espiritualidade? Ainda estou tentando descobrir. Será amar e respeitar o próximo? Ou orientar a própria a vida a partir de (e em direção a) um referencial estabelecido a priori, através de um comportamento regido ritualística e disciplinadamente pela observância de regras? Ou as duas coisas? Ou nem isso nem aquilo?.

Não há dúvida de que exemplos como o desse rapaz com o qual a Carla conversou podem impressionar. Afinal, religioso ou não, o ser humano parece ter uma necessidade intrínseca de ordenar a realidade à sua volta, de modo a vencer o caos externo com o qual se defronta e superar a aparente falta de sentido incontornavelmente percebida na luta pela sobrevivência e na morte. Desse modo, na sua relação com a realidade externa, observa aquilo que se repete, demarcando ocasiões específicas pelas quais consiga estruturar a sua trajetória no mundo. Do que acontece em seu próprio corpo (e notando outros corpos) estabelece conclusões a respeito da vida e de como e por que ela vem a ser. Ao ordenar o mundo pela observação e considerar que há corpos dos quais a vida surge (isto é, tem um começo), talvez tenha chegado a raciocinar que todas as coisas teriam a sua origem última em uma força ordenadora, viva e consciente. A vida social, conforme evolui e se especializa, empresta as imagens que vão tornando essa força cada vez mais parecida com as estruturas de poder criadas pelo homem: pai, rei, sacerdote, educador, etc. No entanto, diferente dos limites da condição transitória humana, essa força controla permanentemente a natureza, a vida de pequenos grupos, o destino de grandes impérios e, por fim, a história humana, compreendida (assim como a vida individual) entre uma origem e um fim.

Essas estruturas de poder não apenas fornecem as tintas com as quais se pinta esse poder transcendental (que pode se fragmentar em forças menores, conforme a cultura: ancestrais falecidos que ainda se comunicam, animais fantásticos, seres celestes, fantasmas, demônios e, mais modernamente, alienígenas), mas também são fundamentadas por ele: costumes, referenciais éticos e legislações elaborados pelas próprias sociedades são atribuídos originalmente à força primeva que os impõe à vontade dos indivíduos.

Não é de estranhar que culturas como a islâmica, tão distinta do secularismo ocidental, reverenciem avidamente tal poder, visto que é absolutamente necessário para manter coesa a própria organização das sociedades até as suas microestruturas. Admiramos o temor e a devoção desses irmãos nossos de humanidade e vemos que também o cristianismo compartilha dessa atitude em alguns contextos. Mas pergunto mais especificamente: isso é espiritualidade legítima? Em que medida não estamos presenciando a divindade como espelho da cultura? A divindade está além da cultura ou sempre esteve reduzida a ela? Alguém poderá dizer: mas a consciência de um deus sempre existiu. E eu, se me permitem, pergunto: qual deus? Mudam as culturas, mudam os deuses. Ainda um supostamente único deus é representado de maneiras distintas, conforme variam os grupos que o veneram. Se as culturas se tornam hegemônicas, o(s) seu(s) deus(es) do mesmo modo.

Será que há algo inscrito em nossa constituição humana desde sempre que poderia ser associado a um deus? Diria (provisoriamente) que talvez espiritualidade seja nada mais que relação com (e em) o mundo. Os deuses e as deusas, criá-los-íamos para representar essa relação, uma relação com o eu e com o outro que está diante de nós, presente em presença ou ausência.

A espiritualidade é o quê?

terça-feira, abril 28, 2009

PRECE NUM TEMPLO DE TRIPAS

Jonas 2. 1-11 (1.17 - 2.10)

2.1 (1.17)
[Aa] E então o SENHOR separou um peixe grande
[Ab] para engolir Jonas.
[Ba] Assim, Jonas ficou nas tripas do peixe
[Bb] três dias e três noites.


2.2 (2.1)
[Aa] Então Jonas suplicou
[Ab] ao SENHOR, seu Deus,
[ B ] das tripas do peixe.


2.3 (2.2)

[A] Ele disse:
Desde a minha angústia gritei
para o SENHOR e ele me respondeu.


[B] Desde a barriga do Xeol (o lugar dos mortos) gritei por socorro;
tu ouviste a minha voz.



2.4 (2.3)
[Aa] Então ele me lançou na profundeza, no coração dos mares,
[Ab] e um rio me cercou.

[ B ] Todas as tuas enormes ondas e todos os teus vagalhões
passaram sobre mim.



2.5 (2.4)
[Aa] Aí eu disse:

[Ab] Fui expulso
para longe de teus olhos.

[Ba] Como voltarei a olhar
[Bb] para o templo de tua santidade?


2.6 (2.5)
[Aa] Águas me envolveram até a garganta,
[Ab] um abismo me cercou;
[ B ] uma alga se enroscou em minha cabeça.


2.7 (2.6)
[Aa] Desci aos alicerces das montanhas,

[Ab] à terra
cujas trancas permaneciam atrás de mim
continuamente.


[ B ] Mas tu levantaste a minha vida da cova,
SENHOR, meu Deus.



2.8 (2.7)
[Aa] Ao desfalecer meu fôlego sobre mim,
[Ab] lembrei-me do SENHOR.
[Ba] Então, minha súplica chegou a ti,
[Bb] ao templo de tua santidade.


2.9 (2.8)
[A] Os que se apegam a bafejos de nada
[B] abandonam-se ao favor deles.


2.10 (2.9)
[Aa] Mas eu, com voz de gratidão,
te oferecerei um sacrifício;


[Ab] pagarei o voto que fiz.

[ B ] Ao SENHOR, a salvação.


2.11 (2.10)

[A] Então o SENHOR falou ao peixe
[B] e ele vomitou Jonas na terra seca.

* Tradução a partir da Biblia Hebraica Stuttgartensia





quarta-feira, janeiro 28, 2009

Molequinha: amo você!


Minha Molequinha morreu hoje. Lamento não ter podido vê-la. Lamento a brevidade da vida. Embora grato por ter sido um animalzinho tão alegre e especial, que ofereceu à minha família tantas felicidades, e havermos recebido a honra de vê-la nascer e cuidar dela, lamento o fato de nossa gatinha não mais viver. Só posso me calar e aceitar.

Não sei se há vida após a morte para os animais. Se há, o Criador deve ter ficado muito feliz porque agora poderá brincar com a Molequinha. E há de sorrir ainda mais quando chegar a hora de brincarmos todos juntos: Molequinha, minha família e o SENHOR. Eu queria tanto acreditar! Eu queria tanto encontrar a minha Molequinha de novo um dia!

"Então louvei eu a alegria, porquanto para o homem nada há melhor debaixo do sol do que alegrar-se" (Eclesiastes 8.15)*
Notícia enviada por minha mãe sobre a Molequinha:
Ruben, a Nên morreu ontem às 18h30. Enviei duas msgs p o celular da Carla, vc viu? Hoje o seu pai levou-a à Mangueira para ser cremada. Chorei muito e estou morrendo de saudades dela, apesar de saber que ela agora não sofre mais. Até o final ela queria ficar comigo; nunca perdeu a fome, só não conseguia comer muito. Ontem sua última refeição foi um danoninho (é claro que comeu só um pouquinho!). Logo depois começou a passar mal e morreu na minha mão. A Brenda foi vê-la assim que ela morreu e ficou com uma cara de espanto. Acho que eles sabem o que está acontecendo.
* Almeida Corrigida e Revisada Fiel. Apud. http://www.bibliaonline.com.br/

terça-feira, janeiro 27, 2009

Da morte

Recebo ultimamente notícias de que uma gatinha que nasceu na casa de minha família está perto de morrer. Ela viveu cerca de 17 anos conosco, mas já vai partindo... Para alguns, isso eventualmente não terá a menor importância. Afinal de contas, diriam, é só uma gata. Isso sem contar que o gato há muito é bastante estigmatizado: dá azar, está relacionado à feitiçaria, não gosta de pessoas e outras idiotices do gênero. Todavia, quando se vive muitos anos com um animal de estimação, pode-se sofrer a sua morte tanto quanto a de um parente. Os gatos também amam. O seu amor e presença fazem falta para aqueles que com eles conviveram.

Agora ela vai embora e eu fico desconcertado. Novamente, a morte se impõe, tão certa quanto a vida. E como a gente não pede para nascer, também não pode evitar morrer. Só que, enquanto a vida é uma possibilidade (eu, como todo mundo, nasci por vontade alheia e, pela mesma vontade, poderia não ter nascido), a morte é um evento indubitável. Para morrer, basta estar vivo, dizia a minha avó Lucy, Érico Veríssimo e Machado de Assis. E os três já foram...

Por que a gente tem que morrer? No âmbito da biologia, a morte é perfeitamente natural e necessária para a sobrevivência das espécies e a manutenção do equilíbrio ambiental. No campo da física, ela é estabelecida pelas leis que regem a transformação da matéria. Na exegese bíblica (e aqui há muita discordância), ela pode ser o salário do pecado, mas também uma condição que acompanha o homem desde o seu surgimento. Nos mitos da criação e da trangressão em Gênesis (2 e 3), morrer não parece tanto a conseqüência de uma ação moral que provocou a decadência de seres outrora imortais e perfeitos, porém a pena capital para a desobediência ao mandamento do SENHOR Deus, uma antecipação de algo que naturalmente viria a acontecer, semelhante à pena de morte aplicada por alguns países a certos condenados pela justiça. Não acredito que um dia humanos, animais e plantas foram imortais. O texto sugeriria, na minha opinião, que morrer faz parte da vida desde que o mundo é mundo. O mais importante, contudo: nossas ações podem apressar a nossa morte e, mais do que numa morte por inconseqüência, Deus estaria interessado em que os seres humanos vivam e promovam a vida. Do contrário, não teria deixado de aplicar a pena capital, poupando o homem e Eva.

Aqui no Sul do Brasil, venho tendo a oportunidade de visitar alguns cemitérios. Eu já fazia isso em minha infância e adolescência lá em Rio Pomba, acompanhado de meu primo Marcos. Recentemente, acompanhei a Carla e o pastor de sua comunidade em um sepultamento num local parecido com o Jardim da Saudade no Rio. Voltei lá com ela outro dia e observávamos as placas para marcar as sepulturas na terra, os nomes e as fotografias que expunham. Estivemos por duas vezes em um outro cemitério que fica no terreno atrás de um templo cristão católico. Após a primeira vez, que foi à noite, comentava com a Carla uma idéia que tive. É possível que o medo causado por esse ambiente em tantas pessoas, seja um temor de almas do outro mundo, seja um mal-estar sem muita explicação, tenha a sua origem na consciência de que a morte é um caminho do qual não há desvio. O cemitério nos provoca pavor porque ali se revela a nossa transitoriedade. Morremos sempre porque mudamos a todo tempo. E, um dia, o tempo deixará de existir para nós, visto que passaremos pela última mudança: de vivos para mortos. Os fantasmas nos dão calafrios porque não queremos sê-los, intangíveis, gélidos, solitários, sem rumo, sem mundo, sem vida... O Qohélet, entretanto, é categórico: "É para a sepultura que tu vais" (Eclesiastes 9.10).

Não sei por que temos que morrer. É claro que a expressão "ter que" é metafísica. Do ponto de vista natural, não se trata de um "ter que", porém de um "quando" e um "como". De qualquer modo, a questão ontológica permanece: por que ser e não-ser? Mais teologicamente (cristão): Por que o Criador criou seres que morrem? Por que a separação definitiva e o sofrimento decorrente dela? (Minha mãe acaba de me dizer, via MSN, que uma senhora conhecida nossa de muitos anos faleceu ontem) Por que a dor, a saudade, apenas a lembrança? Na certa, quando o Quarto Evangelho diz que Jesus chorou a morte do amigo Lázaro (João 11.35), não há ali um teatro. "Por que chorou se iria ressuscitá-lo", perguntaríamos. Acredito que a narrativa queira sugerir que o leitor enfrente o fato da morte com a esperança da fé. É possível que para o próprio Jesus a morte fosse mais concreta do que supomos e um verdadeiro desafio à sua mensagem da chegada do Reinado de Deus. De que modo ele procede então? Vive o luto e, solidário àqueles que choravam, assume a esperança de que o Pai trará de volta o querido. Não vou dizer que é fácil acreditar nisso (Marta que o diga!), mais difícil, talvez, seja se conformar com a morte.

Será que a saída é cultivar as boas lembranças dos momentos que passamos com aqueles que se foram? E aproveitar a vida enquanto ainda estamos entre as pessoas, e os animais, e as naturezas que amamos? E duvidar, perguntar, discutir, pensar, repensar?

Por que a morte?

Para Molequinha

domingo, novembro 02, 2008

Falar sobre Deus

Ao falar sobre Deus, estranho.
Este signo que uso, Deus,
É coisa que muda como muda tudo.
A gente muda, muda o deus da gente,
Ainda que haja muita gente dizendo haver sempre um só.
Deus, palavrinha que fala sobretudo de mim,
Da minha esperança que o Ser nunca se extingua
E os seres continuem a viver nele.
Todavia, se o Ser é o Deus do meu dizer
Permanecerei sem saber.
Minha teologia, com sua palavra Deus, é possível que toque o Ser.
O mais importante, porém, é que toque os seres.
O Ser permanecerá, a minha teologia e os seres passarão.
Que a minha teologia preserve os seres enquanto durarem
E eles sejam a sua inspiração o tempo que eu durar.
Desse modo, possa eu falar de fé, esperança, caridade e Deus.
Mas ainda me é estranho falar sobre Deus.

domingo, dezembro 30, 2007

2008, tempo e Deus


Prestes a entrar o novo ano, “tempo” é uma idéia que, com freqüência, ocorre-nos. “Será que dará tempo de concluir essa atividade antes de acabar o ano?” “Quanto tempo precisarei investir para realizar tal projeto no ano que vem?” “Nossa! Falta pouco tempo para o réveillon!” Pensando ser assim, resolvi comentar a palavra “tempo” a partir da literatura bíblica, especificamente o livro de Eclesiastes.


No versículo 1 do capítulo 3, duas palavras hebraicas que podem ser traduzidas por “tempo” – zeman1 [1] e ‘et [2] – são usadas em paralelo, uma definindo a outra: a primeira, zeman, “tempo determinado”2, define a segunda, ‘et, “tempo”.3


Para tudo há um tempo determinado;

há, para todo desejo, um tempo sob os ceús. [3]


A idéia sugerida é a de ocasião própria. É significativo que a versão grega traduza ‘et por καιρóς (kairós), “época”, “tempo apropriado”.


Nos sete versículos seguintes são justapostas, sempre com a palavra ‘et, séries de circunstâncias opostas. Parece que se quer indicar com isso que as condições de possibilidade de cada uma delas impõem que cada qual possua uma ocasião própria de realização.


Importante chamar a atenção aqui para algumas circunstâncias, tais como as que aparecem no versículo 8a: Tempo para amar e tempo para odiar [4]. Por mais que a raiva, e mesmo o ódio, seja uma reação natural do ser humano em face de certas situações, não é razoável que tal sentimento dure indefinidamente. Poderíamos interpretar a menção do amor em primeiro lugar como intenção de destacar uma virtude preferível ao ódio e limite necessário para este. A raiva, ou o ódio, possui um tempo, pelo que deve ser contrabalançada pelo amor. Oportuno é trazer à memória Jesus de Nazaré: “Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; desse modo vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus, porque ele faz nascer o seu sol igualmente sobre maus e bons e cair a chuva sobre justos e injustos”4 (Mateus 5.43-45).


Este tempo, do qual fala o autor de Eclesiastes, por conseguinte, assinala o momento adequado para se fazer cada coisa durante a vida. Isso significa que, em nosso poder e vontade, haverá sempre um limite. A existência e o tempo são maiores do que nós. Quanto mais cedo se compreender isso, menos tempo se gastará procurando fazer aquilo que está fora do alcance, visto que ainda esteja distante o tempo de fazê-lo.


No versículo 11 do mesmo capítulo, diz-se que há beleza quando as coisas acontecem nas ocasiões oportunas para as quais Deus as fez.


Tudo ele faz belo em seu tempo;

também dá ao coração deles a noção de duração do tempo,

sem que o ser humano descubra a obra que Deus faz

desde o princípio até o fim. [5]


A noção de duração do tempo, da qual Deus dotou o entendimento humano, impõe à pessoa que, embora seja desejável que se lance em direção a essa reflexão, ela não poderá compreender tudo o que Deus faz. A palavra ‘olam [6], nas acepções possíveis de “antigüidade”, “perpetuidade”, “eternidade”, poderia estar sugerindo, ao mesmo tempo, a idéia de tempo decorrido, de tempo que ainda resta e, talvez, de tempo psicológico, no âmbito do qual o ser humano medita sobre a sua experiência no mundo.


Há uma nítida relação entre discernir o tempo de que dispomos para viver e discernir a incognoscibilidade de Deus no que se refere ao nosso entendimento. Em outras palavras, o nosso curto tempo de vida é absolutamente desproporcional ao que há para ser conhecido em Deus. A noção de tempo que temos, se realmente levada a sério, obriga-nos a admitir que Deus permanecerá um contínuo mistério para nós, pois dele sempre saberemos pouquíssimo. Não foi Jesus, segundo o autor do livro de Atos dos Apóstolos, quem disse aos seus seguidores que não lhes competia “conhecer os tempos e os momentos que o Pai fixou com sua própria autoridade”5 (1.7)?


O que se pode concluir daí? Quando pensamos nosso tempo e o que faremos com ele, é necessário reverenciar Deus, cujos ser e obra são por demais elevados para nós, porém perpassam continuamente nossa própria existência para nos abençoar. Reverenciar Deus é recolher nosso ínfimo conhecimento à nossa condição temporária e abrir-se para o amor e a solidariedade, virtudes que, por Jesus de Nazaré, revelaram-se eternas.


Feliz 2008!


Notas:


1 A palavra zeman é um empréstimo lingüístico do aramaico (HARRIS, R. Laird; ARCHER JR., Gleason L.; WALTKE, Bruce. Dicionário internacional de teologia do Antigo Testamento, p. 1141).


2 Ibid., p. 396.


3 Ibid., 1141.


4 A Bíblia de Jerusalém (1985), p. 1847.


5 Ibid., p. 2046.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS



A BÍBLIA DE JERUSALÉM. Nova edição, revista. São Paulo: Paulus, 1985. 2366 p.



ELLIGER, Karl; RUDOLPH, Wilhelm. Biblia Hebraica Stuttgartensia. 4. ed. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 1990. 1574 p.


HARRIS, R. Laird; ARCHER JR., Gleason L.; WALTKE, Bruce. Dicionário internacional de teologia do Antigo Testamento. Trad. Márcio Loureiro Redondo, Luiz A. T. Sayão e Carlos Osvaldo C. Pinto. São Paulo: Vida Nova, 1998. 1789 p.


quarta-feira, janeiro 17, 2007

Homilia [3]: Jesus, o presente de Deus para você

O sermão abaixo foi apresentado por mim como modelo para elaboração de pequenos sermões de evangelização para cultos nos lares durante o PROMIBI, realizado por ITA no início de 2005.

TEMA – Jesus, o presente de Deus para você.
TEXTO – João 3.16-21.
IDÉIA CENTRAL DO TEXTO – Deus amou o mundo e por isso entregou o seu Filho único para salvá-lo. Todo aquele que crê no Filho único de Deus tem a vida eterna e anda na luz e na verdade.

INTRODUÇÃO – Todos nós gostamos de receber presentes. Eles são uma demonstração do carinho de nossos parentes e amigos por nós. Quando somos presenteados por alguém nos sentimos gratos e a nossa relação com essa pessoa é fortalecida. Deus também faz assim. Ele quer lhe dar o maior presente de todos. JESUS É O PRESENTE DE DEUS PARA VOCÊ. Gostaria de convidá-los a me acompanharem na leitura de João 3.16-21. Por que posso dizer que Jesus é o presente de Deus para você?

Jesus é o presente que Deus oferece...

1 – COMO PROVA DO GRANDE AMOR QUE TEM POR VOCÊ (v. 16).

Aplicação: Que resposta você pode dar a esse amor de Deus por você?

2 – PORQUE DESEJA QUE VOCÊ CONFIE EM JESUS (v. 18).

Aplicação: Em que você tem colocado a esperança de sua vida? Não gostaria de confiar em Jesus a partir de agora?

3 - PARA DAR A VOCÊ UMA NOVA VIDA (v. 19-21).
Aplicação: Você acha que precisa mudar algo em sua vida? Gostaria que Jesus o(a) ajudasse?

CONCLUSÃO – Jesus é o presente que Deus lhe oferece como prova do grande amor que tem por você. Ele deseja que você confie em Jesus, colocando nele a esperança da sua vida. Deus quer dar a você uma nova vida através de Jesus.

Homilia [2]: Quando o temporal se levanta...

O sermão abaixo foi apresentado por mim na Igreja Batista em Piracanjuba, Goiás, quando visitava meu amigo e colega de turma no seminário, Pr. Luciano Sardinha.


Piracanjuba - GO, 19 de maio de 2002.

Domingo (noite)

Tema: QUANDO O TEMPORAL SE LEVANTA...

Texto: Marcos 4.35-41.


INTRODUÇÃO

O cristão já participa antecipadamente do Reino de Deus através da fé em Cristo. No entanto, ele ainda vive neste mundo, em uma sociedade dominada pelo pecado, pelo mal e pela morte, onde as coisas podem, de repente, perder o controle e tudo ao redor ficar tumultuado. Talvez não haja imagem melhor para ilustrar isso do que o temporal. Esse fenômeno natural demonstra tremenda força e, por vezes, arrasta tudo pela frente desconcertando qualquer um.

E quando, na experiência do dia-a-dia, o temporal se levanta? O que pensar diante dos vultosos imprevistos com os quais a vida nos surpreende? Gostaria de pensar com os irmãos, nesta noite, sobre o tema: QUANDO O TEMPORAL SE LEVANTA...


Quando o temporal se levanta...

1º) Ele também atinge os que estão com Cristo (v. 36-37). Os discípulos de Jesus, que haviam deixado tudo para segui-lo, estavam com ele no barco quando o temporal começou. A tormenta apanhou tanto os outros barcos que também navegavam pelo mar da Galiléia como aquele em que eles e Jesus se encontravam. O fato de alguém ser crente em Jesus não o livra de passar por situações desagradáveis e momentos de angústia na vida.


Quando o temporal se levanta...

2º) É preciso contemplar a presença de Cristo pela fé para não fraquejar (v. 38). Debaixo da maior tempestade, com os discípulos desesperados, Jesus estava dormindo. Sim, ele estava dormindo, mas estava com eles ali. Aqueles homens temiam a força do vento e estavam admirados de Jesus não despertar, porém o Filho de Deus estava com eles ali. Eles deviam apegar-se à certeza da presença de Jesus com eles no barco e enfrentar seu medo, ao invés de se encolher diante da violência das ondas. Mesmo que a vida nos reserve circunstâncias tão duras, devemos concentrar a nossa atenção na presença de Jesus conosco. Isso se chama fé em Deus.


Quando o temporal se levanta...
3º) Faz-se necessário perseverar na esperança do socorro de Jesus, mesmo que de imediato a situação pareça não mudar (v. 38). Jesus estava no barco, porém os discípulos não viam as coisas melhorarem. Seus olhos estavam fixos na tempestade. Sua fé era pequena porque se orientava por aquilo que o instante lhes fazia sentir. Não conseguiam enxergar, para além disso, a proteção do Jesus com o qual há algum tempo andavam e que tantas coisas espantosas já tinha feito em presença deles. Se as circunstâncias ao nosso redor não mudam de imediato, isso não significa que Jesus está ausente, não tem poder ou nos esqueceu. A fé em Deus é provada na perseverança. Se os problemas persistem, a nossa fé também deve persistir. Deus certamente virá em nosso socorro.

Quando o temporal se levanta...

4
º) Deus poderá agir, ainda que nossa fé seja menor que o temporal (v. 38-39; Mt 8.26). Mesmo com a pequena fé dos discípulos, Jesus realizou o milagre e o mar se acalmou. É verdade que Deus exige que tenhamos fé nele. Entretanto, seu poder não está limitado ao tamanho de nossa fé, tampouco a sua misericórdia. Deus nos ama, e tudo o que Ele faz por nós é por pura bondade e não porque merecemos alguma coisa. O Senhor dá provas do seu amor, mostra que podemos confiar nele em toda ocasião, qualquer que seja a imensidão do nosso problema. A única resposta, pois, que podemos dar a Ele é entregar as nossas vidas em suas mãos.

Quando o temporal se levanta...
5º) E, logo após, a bonança chega, devemos avaliar a nossa fé diante da exigência de Jesus a respeito da confiança absoluta em Deus (v. 40). Jesus perguntou aos seus discípulos por sua fé. A experiência do temporal deve, portanto, levar-nos a refletir sobre a nossa própria fé. A mensagem de Jesus aos seus discípulos era: “Tenham fé em Deus” (Marcos 11.22). A fé declara que Deus é verdadeiro (Jo 3.31-36). Quando cremos em Deus, acreditamos que tudo o que Ele nos diz é verdade e temos a garantia de que Ele fará conosco tudo o que prometeu (Hebreus 11.6). Ainda que tenhamos fraquejado diante da tempestade, devemos lembrar do que Deus fez, como nos ajudou, agradecer e procurar recorrer a Ele “quando os tempos mudarem” daqui por diante. Na Bíblia sempre encontraremos mensagens para fortalecer a nossa fé. A oração será o meio de contarmos a Deus tudo o que está acontecendo e pedir ajuda. Os irmãos da igreja também poderão nos consolar e amparar. Deus está sempre perto, e será achado por aqueles que o buscarem (Mateus 7.7-11).


CONCLUSÃO


Quando o temporal se levanta ele também atinge aqueles que estão com Cristo. Nesse momento é preciso contemplar a presença de Cristo pela fé para não fraquejar. E faz-se necessário perseverar na esperança do socorro de Jesus, mesmo que de imediato a situação pareça não mudar. Ainda que nossa fé seja menor que o temporal, Deus poderá agir em nosso favor. Então, com a chegada da bonança, devemos avaliar nossa própria fé diante da exigência de Jesus a respeito da confiança absoluta em Deus. Amém!

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Homilia [1]: Igreja, por que e para quê?

O texto abaixo é um pequeno sermão que apresentei no retiro ITA-Mendes 2004 (30/10 a 02/11).

TEMA: IGREJA, POR QUE E PARA QUÊ?
TEXTO: EVANGELHO SEGUNDO MATEUS, CAPÍTULO 16, DO VERSÍCULO 13 AO 23.

A pergunta que tematiza o nosso encontro é, na verdade, duas perguntas. A pergunta "Igreja, por quê?" tem a ver com possibilidade - O que é que torna a Igreja possível? A pergunta "Igreja, para quê?" diz respeito à finalidade - O que é que orienta a existência da Igreja? Com o exame da passagem de Mateus 16.13-23, procurarei sugerir algumas respostas a essas perguntas.

I. IGREJA, POR QUÊ?

Por causa dos dois movimentos que caracterizam a história da salvação:

1. A REVELAÇÃO - O movimento divino (v. 16-17). Nas palavras de Jesus, de acordo com o evangelista, o seu Pai celeste foi quem revelou a Pedro o que este acabara de dizer: Jesus é o Cristo, o Filho de Deus! O Filho de Deus no mundo, Deus no mundo, Deus com os homens.

2. A CONFISSÃO - O movimento humano (v. 16). Deus revelou que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e Pedro assim o confessou. A Igreja é uma comunidade confessante, conquanto responde à revelação que Deus faz de seu Filho. E, na medida em que responde, compromete-se com o para quê de sua existência.

II. IGREJA, PARA QUÊ?

1. PROCLAMAÇÃO (v. 19). A Igreja deve dizer às pessoas que elas são convidadas a participar do reino dos céus por meio de Cristo.

2. COMPREENSÃO (v. 20-21). A Igreja precisa continuamente compreender o Cristo que proclama. Jesus não autorizou os discípulos a proclamarem-no como o Cristo sem antes explicar-lhes o que isso significava.

3. TRANSFORMAÇÃO (v. 18, 21-23). A Igreja deve identificar-se com a mensagem de Cristo, procurar nela o sentido para a vida. Os homens e as mulheres que compõem a Igreja falham, equivocam-se. O propósito de Cristo é reorientar o foco de suas preocupações, levá-los a pensar em e a esperar por "as coisas que são de Deus". Deus nos quer para nos transformar.

CONCLUSÃO

A Igreja encontra o seu porquê nos dois movimentos que caracterizam a história da salvação: a revelação de Jesus como o Cristo, o Filho do Deus vivo (o movimento divino) e a confissão de fé nessa revelação (o movimento humano).

A partir de sua confissão, a Igreja defronta-se com o seu para quê: proclamação (da salvação em Cristo), compreensão (do significado de Cristo) e transformação (pelo propósito de Cristo).

Que Deus a todos e a todas abençoe! Amém!