"Então, falando ele estas coisas em sua defesa, Festo disse em alta voz:
Estás louco, Paulo! As muitas letras te levam à insanidade!"
(Atos dos Apóstolos 26.24)
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terça-feira, janeiro 22, 2013

Sexualidade e erotismos nas tradições de Judá

Palestra "Sexualidade e erotismos nas tradições de Judá: o estranho caso das filhas de Ló", proferida por meu orientador no Doutorado em Teologia na Faculdades EST, Prof. Dr. Carlos Arthur Dreher, durante o III Congreso Internacional Ciencias, Tecnologías y Culturas. Diálogo entre las disciplinas del conocimiento mirando al futuro de América Latina y el Caribe. Hacia una Internacional del Conocimiento, no dia 09 de janeiro de 2013, na Universidade de Santiago de Chile, ocasião em que também estive presente como participante.

 
 
 
 

quinta-feira, novembro 19, 2009

PECADO E MORTALIDADE

Enviei as considerações abaixo ao Professor Doutor Euler Renato Westphal, docente da Universidade da Região de Joinville (SC) e da Faculdade Luterana de Teologia (SC), a respeito de uma conversa que tivemos durante um encontro de obreiros da Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil (IECLB). Na ocasião, acompanhei a minha noiva, a Pastora Carla Saueressig. Às minhas observações o Professor Euler ofereceu as suas profundas e necessárias ponderações, prevenindo-me quanto a um posicionamento absolutizante, pelo que pude agradecê-lo.

Olá, Professor Euler.

Sou o Ruben. Conversamos no intervalo de sua palestra para os obreiros da IECLB no Sínodo Rio dos Sinos, em São Leopoldo, no dia 30/09. Eu havia perguntado sobre como entender a questão do pecado, uma vez que as ciências bíblicas (principalmente a partir do método histórico-crítico e da história das formas) descobriram que Gênesis 1 - 11 é uma narrativa mítica. Ou seja, o mito não descreve com exatidão, apenas reflete a realidade social vivida através de uma construção, digamos, "fabulosa".* Minha questão é a seguinte: Não acredito que um dia os seres humanos tenham sido imortais e que tenham trazido a mortalidade, do ponto de vista biológico e fenomenológico, ao universo inteiro por causa de uma transgressão em um jardim mítico. Porém, é mais do que evidente que as ações humanas, desde que se adquire a consciência, parecem tender para o desarranjo e a destruição. Será, então, que é a consciência de si mesmo que já traz em si o potencial para o mal? Desse modo, desde que se torna consciente, o ser humano já possui essa ambiguidade moral. Se assim é, a conclusão é que Deus nos criou desse modo. Não nos tornamos assim em um determinado momento: nós sempre fomos assim. Dá a impressão de que Gênesis pode ser entendido a partir disso. O pecado no Antigo Testamento parece mais uma realidade constitutiva do ser do que adquirida em algum momento pelo ser.

Agradeço a atenção lá na reunião no Sínodo. Que Deus o abençoe em seu trabalho.

Respeitosamente,

Ruben Marcelino

* Com o termo "fabulosa", refiro-me ao caráter literário. A fábula pertence ao gênero narrativo. Nela, os animais participam do enredo e exibem características humanas - fala, sentimentos, etc. Geralmente, a fábula possui um cunho moral. Poderia ser o caso de Gênesis 3.

quinta-feira, setembro 10, 2009

EXPERIMENTAR COM O CORAÇÃO

"Nós devemos estudar um texto bíblico para experimentá-lo com o coração".

Carla Saueressig

domingo, julho 19, 2009

A Bíblia: novelas, sagas e milagres

A Bíblia é literatura. Seus textos testemunham com que modos variados os antigos hebreus desenvolviam a arte escrita para interpretar as suas sociedades e teologias. Se a Bíblia é um conjunto de peças literárias, naturalmente se pode estudar os gêneros de literatura que elas representam. Detendo-me nos gêneros narrativos, pretendo falar aqui a respeito de três deles, os quais podem ser observados no Antigo Testamento: a novela, a saga e a história de milagre.

A NOVELA descreve vários acontecimentos ligados à vida de um personagem, assim como os seus sentimentos e as suas reações. Geralmente, o personagem está destinado a preservar a vida de um clã ou grupo de famílias (p. ex. a novela de José). Também pode ser que a Providência valha-se do protagonista para evitar o extermínio de um povo (p. ex. a novela de Ester). Na novela de Rute, a protagonista é introduzida na linhagem de um personagem ilustre da história de Israel, o rei Davi (Rute 4.13-22).

Tomo como exemplo a história de José (Gênesis 37; 39 – 50) para ilustrar os três tempos nos quais se desenrola a trama da novela: A) INÍCIO (uma situação de conflito) – José é odiado e vendido por seus irmãos (37); B) MEIO (o conflito se complica cada vez mais) – José é caluniado e preso (39 – 40); C) FIM (a resolução do conflito) – José se torna governador do Egito, reconcilia-se com seus irmãos e reencontra Jacó, seu pai (41 – 50).

A SAGA quer explicar alguma situação no presente a partir de um acontecimento do passado. A história da transgressão dos primeiros seres humanos (Gênesis 3) esclarece o porquê da inimizade entre a serpente e o homem (versículo 15), da maneira como a serpente se locomove (versículo 14), das dores de parto da mulher (versículo 16), da canseira do trabalho do ser humano (versículos 17-19), etc. Já a narrativa da construção da torre de Babel quer desvendar a origem da cidade de Babilônia e do fenômeno da multiplicidade das línguas dos habitantes da região do Mediterrâneo e do Crescente Fértil (Gênesis 11.1-9). A história da prova de Abraão (Gn 22) mostra por que os israelita resgatam seus filhos primogênitos ao invés de sacrificá-los à divindade.

A HISTÓRIA DE MILAGRE tem o propósito de incitar ou fortalecer a fé. No centro da narrativa pode estar um profeta (p. ex. Elias), um mártir (p. ex. Os amigos de Daniel), um local sagrado (p. ex. Betel) ou um rito (p. ex. a circuncisão). Na história de 1Reis 17.7-16, a palavra de Iavé por meio de Elias tornou-se acontecimento real: o óleo e a farinha da viúva de Sarepta foram multiplicados. Os três amigos de Daniel escaparam ilesos das chamas da fornalha onde tinham sido lançados por terem se recusado a curvar-se diante da estátua de ouro de Nabucodonosor (Dn 3). Jacó consagrou uma estela que erigira em certo lugar como uma casa de Deus (heb. Beit-El – Betel), porquanto ali sonhara com uma escada em que os mensageiros celestes de Deus subiam e desciam (Gn 28.10-22). A narrativa quer explicar por que Betel era considerado um lugar sagrado. Em Gênesis 17, o rito da circuncisão foi instituído por ocasião de uma aparição de Iavé a Abraão.

Há outros gêneros literários narrativos no Antigo Testamento. Os três expostos – a novela, a saga e a história de milagre – podem ajudar o leitor a identificar e compreender trechos bíblicos nos quais sejam identificadas as mesmas características.

sexta-feira, julho 10, 2009

A Bíblia: o geral ilumina o particular.

No Novo Testamento grego encontramos formas do verbo hermeneuein, cujo significado é precisamente “interpretar”, “explicar”. Veja-se, por exemplo, Lc 24.27, em que o autor diz que Jesus “explicava” aos discípulos que estavam a caminho da aldeia de Emaús aquilo que dizia respeito a ele nas Escrituras. O Jesus lucano confere um novo sentido às palavras do Antigo Testamento e assim o interpreta tomando como chaves de compreensão a sua vida, a sua morte e a sua ressurreição (v. 26).

Hermeneuein dá origem à palavra “hermenêutica” em nossa língua portuguesa. Ela faz parte do vocabulário de algumas áreas do conhecimento, a saber, a Teologia, a Filosofia, a Linguística, a Literatura e o Direito. Designa a arte e a ciência da interpretação de textos. Hermenêutica é arte porque implica o exercício da criatividade do(a) intérprete no manejo do instrumental técnico para alcançar uma compreensão do que se lê. Hermenêutica é ciência porque opera a busca pelos sentidos de um texto mediante a utilização de metodologias científicas de análise. Não há espaço para fazer uma exposição das perspectivas hermenêuticas que têm sido sugeridas atualmente e a partir das quais se pretende ler a Bíblia e “escutar” o que ela tem a dizer para o mundo de hoje. Embora considere fundamental que você, leitor(a), busque conhecer tais propostas, não é o meu objetivo ocupar-me delas neste artigo. O que quero é apenas pensar rapidamente sobre um aspecto importante no que se refere ao entendimento do conteúdo da Bíblia.

Os livros bíblicos foram escritos com finalidades específicas. Isso significa que os diversos textos que os compõem foram elaborados e organizados de modo a favorecer a compreensão das intenções com que os seus autores os produziram e deram forma a eles. Não se pode, portanto, desviar da tarefa de ler e compreender bem TODO UM LIVRO BÍBLICO caso se queira entender suas partes menores. É necessário prestar bastante atenção às expressões que orientam diretamente para o objetivo do livro, bem como às frases ou ideias que se repetem.

No livro do Gênesis, por exemplo, é comum deparar-se repetidas vezes com as expressões “eis as origens de”, “este é o livro da genealogia de”, “esta é a história de”. Por meio delas, podemos supor que esse livro quer esclarecer aspectos ligados ao estabelecimento de determinadas realidades, ao surgimento de certa variedade de nações ou aos registros “biográficos” a respeito de indivíduos específicos. Deve-se sempre lembrar que tais informações querem principalmente fundamentar conceitos sociais e religiosos familiares aos leitores que pela primeira vez receberam o livro. Observe como a narrativa da criação de Gênesis 1.1 – 2.4a confere uma razão teológica para a organização social e religiosa apresentada em Êxodo 20.8-11 (cf. Dt 5.12-15) e 31.12-17. Trabalhar seis dias e descansar no sétimo seria como reviver o próprio acontecimento da criação: “Eis as origens do céu e da terra quando foram criados” (Gn 2.4a).

O propósito do Evangelho de João está exposto de forma bem clara no final do livro: “Jesus, na verdade, operou na presença de seus discípulos ainda muitos outros sinais que não estão escritos neste livro; estes, porém, estão escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (Jo 20.30-31). Se tiver um olhar atento, o(a) leitor(a) perceberá ao longo de toda a obra este convite a crer em Cristo como o enviado de Deus que dá a vida eterna àqueles que aderem à sua mensagem.

O livro dos Atos dos apóstolos já de início elucida a proposta teológica e o itinerário narrativo que irão condicionar a estrutura do conteúdo apresentado: “Mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra” (At 1.8). O livro mostra como o dom do Espírito Santo tornou judeus (cap. 2), samaritanos (cap. 8), romanos (cap. 10), os discípulos de João em Éfeso (cap. 18) unidos sob a fé em Cristo. Apresenta também o crescimento do evangelho começando em Jerusalém (cap. 1 – 7), atingindo outras regiões da Judéia e passando pela Samaria (cap. 8 – 12), estendendo-se até à Ásia menor (cap. 13 – 20) e chegando em Roma (cap. 21 – 28).

Para compreender, portanto, uma passagem bíblica, deve-se examiná-la à luz do contexto do livro ao qual ela pertence.

quinta-feira, julho 09, 2009

Espiritualidade?

O texto a seguir, de 08 de setembro de 2008, é uma contribuição para uma "rodada" do café teológico virtual do qual participaram: Carla Saueressig, Marlova Schneider, Dionata Oliveira, Vanderlei Schneider, Renato Jover, Ruben Marcelino, Marcos Romão Vichi e Israel. Publicação na íntegra.

Olá para todos! A iniciativa da Carla de começar esse café teológico merece ser parabenizada, já que esse diálogo, mesmo que ao redor de uma mesa virtual (por enquanto), pode aproximar os participantes, os quais terão acesso a diversas perspectivas sobre os mais variados assuntos relacionados à espiritualidade.

Li todas as respostas dadas até aqui e notei que, seguindo o fio da mensagem da Carla, o amor e o respeito à diferença receberam o principal destaque. Comentários sobre a prática pessoal do cristianismo também ocuparam lugar na fala dos interlocutores.

O que é a espiritualidade? Ainda estou tentando descobrir. Será amar e respeitar o próximo? Ou orientar a própria a vida a partir de (e em direção a) um referencial estabelecido a priori, através de um comportamento regido ritualística e disciplinadamente pela observância de regras? Ou as duas coisas? Ou nem isso nem aquilo?.

Não há dúvida de que exemplos como o desse rapaz com o qual a Carla conversou podem impressionar. Afinal, religioso ou não, o ser humano parece ter uma necessidade intrínseca de ordenar a realidade à sua volta, de modo a vencer o caos externo com o qual se defronta e superar a aparente falta de sentido incontornavelmente percebida na luta pela sobrevivência e na morte. Desse modo, na sua relação com a realidade externa, observa aquilo que se repete, demarcando ocasiões específicas pelas quais consiga estruturar a sua trajetória no mundo. Do que acontece em seu próprio corpo (e notando outros corpos) estabelece conclusões a respeito da vida e de como e por que ela vem a ser. Ao ordenar o mundo pela observação e considerar que há corpos dos quais a vida surge (isto é, tem um começo), talvez tenha chegado a raciocinar que todas as coisas teriam a sua origem última em uma força ordenadora, viva e consciente. A vida social, conforme evolui e se especializa, empresta as imagens que vão tornando essa força cada vez mais parecida com as estruturas de poder criadas pelo homem: pai, rei, sacerdote, educador, etc. No entanto, diferente dos limites da condição transitória humana, essa força controla permanentemente a natureza, a vida de pequenos grupos, o destino de grandes impérios e, por fim, a história humana, compreendida (assim como a vida individual) entre uma origem e um fim.

Essas estruturas de poder não apenas fornecem as tintas com as quais se pinta esse poder transcendental (que pode se fragmentar em forças menores, conforme a cultura: ancestrais falecidos que ainda se comunicam, animais fantásticos, seres celestes, fantasmas, demônios e, mais modernamente, alienígenas), mas também são fundamentadas por ele: costumes, referenciais éticos e legislações elaborados pelas próprias sociedades são atribuídos originalmente à força primeva que os impõe à vontade dos indivíduos.

Não é de estranhar que culturas como a islâmica, tão distinta do secularismo ocidental, reverenciem avidamente tal poder, visto que é absolutamente necessário para manter coesa a própria organização das sociedades até as suas microestruturas. Admiramos o temor e a devoção desses irmãos nossos de humanidade e vemos que também o cristianismo compartilha dessa atitude em alguns contextos. Mas pergunto mais especificamente: isso é espiritualidade legítima? Em que medida não estamos presenciando a divindade como espelho da cultura? A divindade está além da cultura ou sempre esteve reduzida a ela? Alguém poderá dizer: mas a consciência de um deus sempre existiu. E eu, se me permitem, pergunto: qual deus? Mudam as culturas, mudam os deuses. Ainda um supostamente único deus é representado de maneiras distintas, conforme variam os grupos que o veneram. Se as culturas se tornam hegemônicas, o(s) seu(s) deus(es) do mesmo modo.

Será que há algo inscrito em nossa constituição humana desde sempre que poderia ser associado a um deus? Diria (provisoriamente) que talvez espiritualidade seja nada mais que relação com (e em) o mundo. Os deuses e as deusas, criá-los-íamos para representar essa relação, uma relação com o eu e com o outro que está diante de nós, presente em presença ou ausência.

A espiritualidade é o quê?

terça-feira, abril 28, 2009

PRECE NUM TEMPLO DE TRIPAS

Jonas 2. 1-11 (1.17 - 2.10)

2.1 (1.17)
[Aa] E então o SENHOR separou um peixe grande
[Ab] para engolir Jonas.
[Ba] Assim, Jonas ficou nas tripas do peixe
[Bb] três dias e três noites.


2.2 (2.1)
[Aa] Então Jonas suplicou
[Ab] ao SENHOR, seu Deus,
[ B ] das tripas do peixe.


2.3 (2.2)

[A] Ele disse:
Desde a minha angústia gritei
para o SENHOR e ele me respondeu.


[B] Desde a barriga do Xeol (o lugar dos mortos) gritei por socorro;
tu ouviste a minha voz.



2.4 (2.3)
[Aa] Então ele me lançou na profundeza, no coração dos mares,
[Ab] e um rio me cercou.

[ B ] Todas as tuas enormes ondas e todos os teus vagalhões
passaram sobre mim.



2.5 (2.4)
[Aa] Aí eu disse:

[Ab] Fui expulso
para longe de teus olhos.

[Ba] Como voltarei a olhar
[Bb] para o templo de tua santidade?


2.6 (2.5)
[Aa] Águas me envolveram até a garganta,
[Ab] um abismo me cercou;
[ B ] uma alga se enroscou em minha cabeça.


2.7 (2.6)
[Aa] Desci aos alicerces das montanhas,

[Ab] à terra
cujas trancas permaneciam atrás de mim
continuamente.


[ B ] Mas tu levantaste a minha vida da cova,
SENHOR, meu Deus.



2.8 (2.7)
[Aa] Ao desfalecer meu fôlego sobre mim,
[Ab] lembrei-me do SENHOR.
[Ba] Então, minha súplica chegou a ti,
[Bb] ao templo de tua santidade.


2.9 (2.8)
[A] Os que se apegam a bafejos de nada
[B] abandonam-se ao favor deles.


2.10 (2.9)
[Aa] Mas eu, com voz de gratidão,
te oferecerei um sacrifício;


[Ab] pagarei o voto que fiz.

[ B ] Ao SENHOR, a salvação.


2.11 (2.10)

[A] Então o SENHOR falou ao peixe
[B] e ele vomitou Jonas na terra seca.

* Tradução a partir da Biblia Hebraica Stuttgartensia





terça-feira, janeiro 27, 2009

Da morte

Recebo ultimamente notícias de que uma gatinha que nasceu na casa de minha família está perto de morrer. Ela viveu cerca de 17 anos conosco, mas já vai partindo... Para alguns, isso eventualmente não terá a menor importância. Afinal de contas, diriam, é só uma gata. Isso sem contar que o gato há muito é bastante estigmatizado: dá azar, está relacionado à feitiçaria, não gosta de pessoas e outras idiotices do gênero. Todavia, quando se vive muitos anos com um animal de estimação, pode-se sofrer a sua morte tanto quanto a de um parente. Os gatos também amam. O seu amor e presença fazem falta para aqueles que com eles conviveram.

Agora ela vai embora e eu fico desconcertado. Novamente, a morte se impõe, tão certa quanto a vida. E como a gente não pede para nascer, também não pode evitar morrer. Só que, enquanto a vida é uma possibilidade (eu, como todo mundo, nasci por vontade alheia e, pela mesma vontade, poderia não ter nascido), a morte é um evento indubitável. Para morrer, basta estar vivo, dizia a minha avó Lucy, Érico Veríssimo e Machado de Assis. E os três já foram...

Por que a gente tem que morrer? No âmbito da biologia, a morte é perfeitamente natural e necessária para a sobrevivência das espécies e a manutenção do equilíbrio ambiental. No campo da física, ela é estabelecida pelas leis que regem a transformação da matéria. Na exegese bíblica (e aqui há muita discordância), ela pode ser o salário do pecado, mas também uma condição que acompanha o homem desde o seu surgimento. Nos mitos da criação e da trangressão em Gênesis (2 e 3), morrer não parece tanto a conseqüência de uma ação moral que provocou a decadência de seres outrora imortais e perfeitos, porém a pena capital para a desobediência ao mandamento do SENHOR Deus, uma antecipação de algo que naturalmente viria a acontecer, semelhante à pena de morte aplicada por alguns países a certos condenados pela justiça. Não acredito que um dia humanos, animais e plantas foram imortais. O texto sugeriria, na minha opinião, que morrer faz parte da vida desde que o mundo é mundo. O mais importante, contudo: nossas ações podem apressar a nossa morte e, mais do que numa morte por inconseqüência, Deus estaria interessado em que os seres humanos vivam e promovam a vida. Do contrário, não teria deixado de aplicar a pena capital, poupando o homem e Eva.

Aqui no Sul do Brasil, venho tendo a oportunidade de visitar alguns cemitérios. Eu já fazia isso em minha infância e adolescência lá em Rio Pomba, acompanhado de meu primo Marcos. Recentemente, acompanhei a Carla e o pastor de sua comunidade em um sepultamento num local parecido com o Jardim da Saudade no Rio. Voltei lá com ela outro dia e observávamos as placas para marcar as sepulturas na terra, os nomes e as fotografias que expunham. Estivemos por duas vezes em um outro cemitério que fica no terreno atrás de um templo cristão católico. Após a primeira vez, que foi à noite, comentava com a Carla uma idéia que tive. É possível que o medo causado por esse ambiente em tantas pessoas, seja um temor de almas do outro mundo, seja um mal-estar sem muita explicação, tenha a sua origem na consciência de que a morte é um caminho do qual não há desvio. O cemitério nos provoca pavor porque ali se revela a nossa transitoriedade. Morremos sempre porque mudamos a todo tempo. E, um dia, o tempo deixará de existir para nós, visto que passaremos pela última mudança: de vivos para mortos. Os fantasmas nos dão calafrios porque não queremos sê-los, intangíveis, gélidos, solitários, sem rumo, sem mundo, sem vida... O Qohélet, entretanto, é categórico: "É para a sepultura que tu vais" (Eclesiastes 9.10).

Não sei por que temos que morrer. É claro que a expressão "ter que" é metafísica. Do ponto de vista natural, não se trata de um "ter que", porém de um "quando" e um "como". De qualquer modo, a questão ontológica permanece: por que ser e não-ser? Mais teologicamente (cristão): Por que o Criador criou seres que morrem? Por que a separação definitiva e o sofrimento decorrente dela? (Minha mãe acaba de me dizer, via MSN, que uma senhora conhecida nossa de muitos anos faleceu ontem) Por que a dor, a saudade, apenas a lembrança? Na certa, quando o Quarto Evangelho diz que Jesus chorou a morte do amigo Lázaro (João 11.35), não há ali um teatro. "Por que chorou se iria ressuscitá-lo", perguntaríamos. Acredito que a narrativa queira sugerir que o leitor enfrente o fato da morte com a esperança da fé. É possível que para o próprio Jesus a morte fosse mais concreta do que supomos e um verdadeiro desafio à sua mensagem da chegada do Reinado de Deus. De que modo ele procede então? Vive o luto e, solidário àqueles que choravam, assume a esperança de que o Pai trará de volta o querido. Não vou dizer que é fácil acreditar nisso (Marta que o diga!), mais difícil, talvez, seja se conformar com a morte.

Será que a saída é cultivar as boas lembranças dos momentos que passamos com aqueles que se foram? E aproveitar a vida enquanto ainda estamos entre as pessoas, e os animais, e as naturezas que amamos? E duvidar, perguntar, discutir, pensar, repensar?

Por que a morte?

Para Molequinha

terça-feira, setembro 30, 2008

Hermenêutica

Após a morte só há o leitor.
Não há mais pranto, nem dor,
Nem mesmo do meu sentido a cor,
Pois o texto matou o autor.