"Então, falando ele estas coisas em sua defesa, Festo disse em alta voz:
Estás louco, Paulo! As muitas letras te levam à insanidade!"
(Atos dos Apóstolos 26.24)
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quarta-feira, maio 02, 2012

BILY



Perdi um Amigo.

Eram 18h48 do último 27 de abril. Recebi um torpedo da Carla. A frase era curta. A mensagem, atordoante.

O Bili se foi.

Liguei para ela. Chorando, ela me contou. Ficamos muito tristes, muito mesmo.

O Bily era o cãozinho dos meus sogros. A Carla conviveu mais com ele do que eu, mais ou menos uns quinze anos. Conheço o Bily desde 2008, mas estive mais próximo dele a partir de 2009, quando já me mudara definitivamente para o Rio Grande do Sul.

Só tenho boas lembranças dele. Foi preparando sua comida que fui conquistando-o. Afinal, eu era recém-chegado e o Bily não me conhecia. Não demorou muito para ficarmos amigos. Ele era muito dócil.

Adorava comer e, sempre que a gente preparava a sua tigela, ele latia. Parecia dizer: "Ei, não demorem muito!" Não gostava, porém, que mexessem na comida dele. Mesmo assim, ele nitidamente tentava deixar isso claro sem nos ferir. Ele me mordeu duas vezes quando quis ajeitar o seu prato. Pelo tamanho dos seus dentes, poderia facilmente furar minha mão. Mas o que ele quis foi apenas me dizer, do jeitinho dele (procurando não machucar, já que nunca mordeu com intensidade para perfurar), que não era para mexer ali. Talvez ele também tivesse receio de que retirássemos sua comida, tamanha era a sua vontade de "papar". Todavia, estou certo de que ele acabava percebendo que lhe dar de comer também nos fazia muito felizes. Ao colocarmos o prato, ele sempre nos olhava e sabíamos que, com esse gesto, ele nos dizia "muito obrigado". No final do ano passado, a "paixão" de nosso Bily por comer provocou uma determinada situação que culminou num eficiente socorro para a Carla, quando foi diagnosticada uma doença que lhe ocosionou muito medo e mal-estar. Como ela mesma disse: "Ninguém tira de mim a ideia de que, naquele dia, o Bily, sem querer, me salvou" (Leiam o comovente relato que ela faz em sua homenagem ao Bily em http://fragmentosdeumautopia.blogspot.com.br/2012/05/bily.html).

Bily havia sobrevivido a uma cinomose anos atrás. A doença, no entanto, deixara como sequelas uma saúde debilitada e alguns tiques. Assim mesmo, toda vez que algum de nós aparecia por ali, no quintal, estivesse ele deitado ou em pé, vinha de imediato para junto. Ele gostava de acompanhar a gente. Houve ocasiões que a Carla e eu tivemos o prazer de passear com ele na rua em que ficava a casa dos pais dela. Com alguns puxões, parecia que era ele quem nos levava.

Nos últimos tempos, o Bily ganhou a companhia do Fifi, um gatinho preto que meus sogros adotaram. Bily e Fifi derrubavam completamente a ideia de que cães e gatos são necessariamente inimigos naturais. Por mais que o Fifi se irritasse em alguns momentos e batesse no focinho do Bily, este não ligava e queria continuar brincando.

Infelizmente, o Bily foi enfraquecendo. Perdeu a visão do olho direito, a audição e a força nas pernas. Por fim, o que parecia ser uma infecção no ouvido o atingiu. Sofremos muito porque ele sofria. A melhor (e mais difícil) solução acabou sendo a eutanásia. Sabemos que ele agora não sofre mais, só que nos dói muito estar sem ele. O pátio vazio é um cenário sem sentido...

Desejo demais que o Bily continue vivo num lugar onde a doença e o sofrimento não entrem. É minha esperança que ele tenha sido recebido pelos queridos da Carla e meus que também se foram. Como eu quero que eles cuidem dele e todos juntos sejam acolhidos pelo amor da Divindade! Anseio tanto que o Bily corra, brinque e lata por ver que a Divindade já prepara seu banquete! Quero muito que, um dia, ao levantar seus olhos puros para agradecer a comida, o Bily encontre os olhos eternos do Céu, mas também os meus, os da Carla e os de todos aqueles e todas aquelas que o amam!

Saudades, Amigo...

quarta-feira, novembro 23, 2011

FOFA


Fofa, Fofinha... Ela morreu hoje, às cinco e pouca da manhã. Acabo de receber a notícia de minha mãe. Estou triste. Lembro aquela gatinha miando na minha janela querendo entrar em casa na época em que eu era adolescente. Na ocasião, ela ainda não morava com a gente, ficava andando pelas redondezas. Conhecemos ela através da Mãezinha, a gatinha que era sua "mãe" e do Baninho, um outro lindo gato amarelo. O verdadeiro nome dela (e a gente a chamaria por vários outros depois...) era Flocky. Acho que quem deu foi a Liz, minha irmã.

Fofa era um paradoxo. Ela miou, miou, miou até que a gente pôs ela pra dentro de casa de vez. Mas aí, sempre cheia de vontade, não gostava de muita incomodação. Ficava sempre na dela. Como ela se tornou muito gorda, a gente queria apertar aquela barrigona. Só que aquele prazer tinha um preço: tomar dentadas ou unhadas dela. Doía, mas era bom. Às vezes, quando ficava com raiva, Fofa olhava pra gente com aquela boquinha entreaberta, mostrando seus dentões e seus dentinhos. Linda! Ela era dengo e brabeza. Amor em duas faces.

Outra coisa ela fazia, a qual eu também nunca vou esquecer. Se estivesse deitada e a gente deitasse de frente pra ela, em poucos segundos ela levantava e virava de costas! Aí ela tinha que aguentar: a gente a "amassava" de tanto carinho!

Vou sentir muitas saudades da minha Minguim! Descanse, minha Gordinha, minha Brabinha, minha Velhinha. Agradeço a você por toda alegria que nos deu.

Fofinha viveu cerca de dezessete anos.


I believe in the Kingdom Come
Then all the colours will bleed into one
Bleed into one
But yes I'm still running

(U2, I still haven't found what I'm looking for)

Espero que, um dia, Carla, e eu, e nossas famílias reencontremos a Fofinha na bem-aventurança que, esperamos, acolherá a todos sem distinção.

quinta-feira, janeiro 14, 2010

MEL

"Deus salvou a Melzinha da melhor forma que Ele tem: levou-a para junto de si!" Foi assim que minha mãe deu-me a notícia da morte de nossa gatinha branca, peludinha, de olhinhos azuis. Às vezes, quando passávamos perto, ela pulava em nossas pernas ou vinha atrás dando "pancadinhas" nos nossos pés. Ultimamente, a Nininha, a mais nova do pedaço, vivia "infernizando-a", correndo atrás o tempo todo. E a "Branquinha", mais que depressa, tratava de catar um lugar para se esconder! Brincadeiras divertidas de felinos domésticos adoráveis. E quando ela bebia água e ficava com gotinhas de água sobre o narizinho? Como minha Carla costuma dizer: "Coisa mais querida"!

Mel morreu devido a um problema renal. Ainda lembro quando a vi pela primeira vez. Eu morava com meus familiares na rua Dona Maria, em Vila Isabel. Ela chegara do veterinário e estava no quarto de minhas irmãs, deitada, bem "grogue". Como todas as outras, Mel era gata de rua. Alegro-me por ela ter vindo para o nosso lar. Desde então viveu feliz. E felizmente morreu cercada de carinho e amor.

Vá, Melzinha, viver agora junto de Quem, na Terra e no Céu, é Pai e Mãe de todos nós. Lamentamos que você não esteja mais conosco, porém nossos corações não a esquecerão.

quarta-feira, janeiro 28, 2009

Molequinha: amo você!


Minha Molequinha morreu hoje. Lamento não ter podido vê-la. Lamento a brevidade da vida. Embora grato por ter sido um animalzinho tão alegre e especial, que ofereceu à minha família tantas felicidades, e havermos recebido a honra de vê-la nascer e cuidar dela, lamento o fato de nossa gatinha não mais viver. Só posso me calar e aceitar.

Não sei se há vida após a morte para os animais. Se há, o Criador deve ter ficado muito feliz porque agora poderá brincar com a Molequinha. E há de sorrir ainda mais quando chegar a hora de brincarmos todos juntos: Molequinha, minha família e o SENHOR. Eu queria tanto acreditar! Eu queria tanto encontrar a minha Molequinha de novo um dia!

"Então louvei eu a alegria, porquanto para o homem nada há melhor debaixo do sol do que alegrar-se" (Eclesiastes 8.15)*
Notícia enviada por minha mãe sobre a Molequinha:
Ruben, a Nên morreu ontem às 18h30. Enviei duas msgs p o celular da Carla, vc viu? Hoje o seu pai levou-a à Mangueira para ser cremada. Chorei muito e estou morrendo de saudades dela, apesar de saber que ela agora não sofre mais. Até o final ela queria ficar comigo; nunca perdeu a fome, só não conseguia comer muito. Ontem sua última refeição foi um danoninho (é claro que comeu só um pouquinho!). Logo depois começou a passar mal e morreu na minha mão. A Brenda foi vê-la assim que ela morreu e ficou com uma cara de espanto. Acho que eles sabem o que está acontecendo.
* Almeida Corrigida e Revisada Fiel. Apud. http://www.bibliaonline.com.br/

terça-feira, janeiro 27, 2009

Da morte

Recebo ultimamente notícias de que uma gatinha que nasceu na casa de minha família está perto de morrer. Ela viveu cerca de 17 anos conosco, mas já vai partindo... Para alguns, isso eventualmente não terá a menor importância. Afinal de contas, diriam, é só uma gata. Isso sem contar que o gato há muito é bastante estigmatizado: dá azar, está relacionado à feitiçaria, não gosta de pessoas e outras idiotices do gênero. Todavia, quando se vive muitos anos com um animal de estimação, pode-se sofrer a sua morte tanto quanto a de um parente. Os gatos também amam. O seu amor e presença fazem falta para aqueles que com eles conviveram.

Agora ela vai embora e eu fico desconcertado. Novamente, a morte se impõe, tão certa quanto a vida. E como a gente não pede para nascer, também não pode evitar morrer. Só que, enquanto a vida é uma possibilidade (eu, como todo mundo, nasci por vontade alheia e, pela mesma vontade, poderia não ter nascido), a morte é um evento indubitável. Para morrer, basta estar vivo, dizia a minha avó Lucy, Érico Veríssimo e Machado de Assis. E os três já foram...

Por que a gente tem que morrer? No âmbito da biologia, a morte é perfeitamente natural e necessária para a sobrevivência das espécies e a manutenção do equilíbrio ambiental. No campo da física, ela é estabelecida pelas leis que regem a transformação da matéria. Na exegese bíblica (e aqui há muita discordância), ela pode ser o salário do pecado, mas também uma condição que acompanha o homem desde o seu surgimento. Nos mitos da criação e da trangressão em Gênesis (2 e 3), morrer não parece tanto a conseqüência de uma ação moral que provocou a decadência de seres outrora imortais e perfeitos, porém a pena capital para a desobediência ao mandamento do SENHOR Deus, uma antecipação de algo que naturalmente viria a acontecer, semelhante à pena de morte aplicada por alguns países a certos condenados pela justiça. Não acredito que um dia humanos, animais e plantas foram imortais. O texto sugeriria, na minha opinião, que morrer faz parte da vida desde que o mundo é mundo. O mais importante, contudo: nossas ações podem apressar a nossa morte e, mais do que numa morte por inconseqüência, Deus estaria interessado em que os seres humanos vivam e promovam a vida. Do contrário, não teria deixado de aplicar a pena capital, poupando o homem e Eva.

Aqui no Sul do Brasil, venho tendo a oportunidade de visitar alguns cemitérios. Eu já fazia isso em minha infância e adolescência lá em Rio Pomba, acompanhado de meu primo Marcos. Recentemente, acompanhei a Carla e o pastor de sua comunidade em um sepultamento num local parecido com o Jardim da Saudade no Rio. Voltei lá com ela outro dia e observávamos as placas para marcar as sepulturas na terra, os nomes e as fotografias que expunham. Estivemos por duas vezes em um outro cemitério que fica no terreno atrás de um templo cristão católico. Após a primeira vez, que foi à noite, comentava com a Carla uma idéia que tive. É possível que o medo causado por esse ambiente em tantas pessoas, seja um temor de almas do outro mundo, seja um mal-estar sem muita explicação, tenha a sua origem na consciência de que a morte é um caminho do qual não há desvio. O cemitério nos provoca pavor porque ali se revela a nossa transitoriedade. Morremos sempre porque mudamos a todo tempo. E, um dia, o tempo deixará de existir para nós, visto que passaremos pela última mudança: de vivos para mortos. Os fantasmas nos dão calafrios porque não queremos sê-los, intangíveis, gélidos, solitários, sem rumo, sem mundo, sem vida... O Qohélet, entretanto, é categórico: "É para a sepultura que tu vais" (Eclesiastes 9.10).

Não sei por que temos que morrer. É claro que a expressão "ter que" é metafísica. Do ponto de vista natural, não se trata de um "ter que", porém de um "quando" e um "como". De qualquer modo, a questão ontológica permanece: por que ser e não-ser? Mais teologicamente (cristão): Por que o Criador criou seres que morrem? Por que a separação definitiva e o sofrimento decorrente dela? (Minha mãe acaba de me dizer, via MSN, que uma senhora conhecida nossa de muitos anos faleceu ontem) Por que a dor, a saudade, apenas a lembrança? Na certa, quando o Quarto Evangelho diz que Jesus chorou a morte do amigo Lázaro (João 11.35), não há ali um teatro. "Por que chorou se iria ressuscitá-lo", perguntaríamos. Acredito que a narrativa queira sugerir que o leitor enfrente o fato da morte com a esperança da fé. É possível que para o próprio Jesus a morte fosse mais concreta do que supomos e um verdadeiro desafio à sua mensagem da chegada do Reinado de Deus. De que modo ele procede então? Vive o luto e, solidário àqueles que choravam, assume a esperança de que o Pai trará de volta o querido. Não vou dizer que é fácil acreditar nisso (Marta que o diga!), mais difícil, talvez, seja se conformar com a morte.

Será que a saída é cultivar as boas lembranças dos momentos que passamos com aqueles que se foram? E aproveitar a vida enquanto ainda estamos entre as pessoas, e os animais, e as naturezas que amamos? E duvidar, perguntar, discutir, pensar, repensar?

Por que a morte?

Para Molequinha