"Então, falando ele estas coisas em sua defesa, Festo disse em alta voz:
Estás louco, Paulo! As muitas letras te levam à insanidade!"
(Atos dos Apóstolos 26.24)

quarta-feira, maio 02, 2012

BILY



Perdi um Amigo.

Eram 18h48 do último 27 de abril. Recebi um torpedo da Carla. A frase era curta. A mensagem, atordoante.

O Bili se foi.

Liguei para ela. Chorando, ela me contou. Ficamos muito tristes, muito mesmo.

O Bily era o cãozinho dos meus sogros. A Carla conviveu mais com ele do que eu, mais ou menos uns quinze anos. Conheço o Bily desde 2008, mas estive mais próximo dele a partir de 2009, quando já me mudara definitivamente para o Rio Grande do Sul.

Só tenho boas lembranças dele. Foi preparando sua comida que fui conquistando-o. Afinal, eu era recém-chegado e o Bily não me conhecia. Não demorou muito para ficarmos amigos. Ele era muito dócil.

Adorava comer e, sempre que a gente preparava a sua tigela, ele latia. Parecia dizer: "Ei, não demorem muito!" Não gostava, porém, que mexessem na comida dele. Mesmo assim, ele nitidamente tentava deixar isso claro sem nos ferir. Ele me mordeu duas vezes quando quis ajeitar o seu prato. Pelo tamanho dos seus dentes, poderia facilmente furar minha mão. Mas o que ele quis foi apenas me dizer, do jeitinho dele (procurando não machucar, já que nunca mordeu com intensidade para perfurar), que não era para mexer ali. Talvez ele também tivesse receio de que retirássemos sua comida, tamanha era a sua vontade de "papar". Todavia, estou certo de que ele acabava percebendo que lhe dar de comer também nos fazia muito felizes. Ao colocarmos o prato, ele sempre nos olhava e sabíamos que, com esse gesto, ele nos dizia "muito obrigado". No final do ano passado, a "paixão" de nosso Bily por comer provocou uma determinada situação que culminou num eficiente socorro para a Carla, quando foi diagnosticada uma doença que lhe ocosionou muito medo e mal-estar. Como ela mesma disse: "Ninguém tira de mim a ideia de que, naquele dia, o Bily, sem querer, me salvou" (Leiam o comovente relato que ela faz em sua homenagem ao Bily em http://fragmentosdeumautopia.blogspot.com.br/2012/05/bily.html).

Bily havia sobrevivido a uma cinomose anos atrás. A doença, no entanto, deixara como sequelas uma saúde debilitada e alguns tiques. Assim mesmo, toda vez que algum de nós aparecia por ali, no quintal, estivesse ele deitado ou em pé, vinha de imediato para junto. Ele gostava de acompanhar a gente. Houve ocasiões que a Carla e eu tivemos o prazer de passear com ele na rua em que ficava a casa dos pais dela. Com alguns puxões, parecia que era ele quem nos levava.

Nos últimos tempos, o Bily ganhou a companhia do Fifi, um gatinho preto que meus sogros adotaram. Bily e Fifi derrubavam completamente a ideia de que cães e gatos são necessariamente inimigos naturais. Por mais que o Fifi se irritasse em alguns momentos e batesse no focinho do Bily, este não ligava e queria continuar brincando.

Infelizmente, o Bily foi enfraquecendo. Perdeu a visão do olho direito, a audição e a força nas pernas. Por fim, o que parecia ser uma infecção no ouvido o atingiu. Sofremos muito porque ele sofria. A melhor (e mais difícil) solução acabou sendo a eutanásia. Sabemos que ele agora não sofre mais, só que nos dói muito estar sem ele. O pátio vazio é um cenário sem sentido...

Desejo demais que o Bily continue vivo num lugar onde a doença e o sofrimento não entrem. É minha esperança que ele tenha sido recebido pelos queridos da Carla e meus que também se foram. Como eu quero que eles cuidem dele e todos juntos sejam acolhidos pelo amor da Divindade! Anseio tanto que o Bily corra, brinque e lata por ver que a Divindade já prepara seu banquete! Quero muito que, um dia, ao levantar seus olhos puros para agradecer a comida, o Bily encontre os olhos eternos do Céu, mas também os meus, os da Carla e os de todos aqueles e todas aquelas que o amam!

Saudades, Amigo...

domingo, abril 08, 2012

ELISEU: PROFECIA É AÇÃO SOLIDÁRIA

Prédica proferida na Igreja Batista Central de Novo Hamburgo em 11 de março de 2012.


INTRODUÇÃO


Quero pensar sobre 2Rs 6.8-23. Trata-se de uma história do profeta Eliseu. Uma história impressionante de solidariedade em pleno contexto de uma guerra entre a Síria e Israel. Nela, quero destacar três dimensões da ação profética de Eliseu relacionadas à solidariedade.


1a) ELISEU MOSTRA-SE SOLIDÁRIO PARA COM A SUA COMUNIDADE


Percebemos que a ação profética de Eliseu é dirigida inicialmente à proteção do seu povo contra a ameaça dos sírios. Eliseu entende que a sua atividade de profeta está inserida no quadro maior da aliança do SENHOR com Israel e deve servir à promoção dessa aliança. Embora críticos ferozes de Israel em vários momentos, os profetas, como é o caso de Eliseu aqui, também põem-se ao lado do seu povo para solidarizarem-se com eles em momentos de crise.

É curioso que, em todo o ciclo de Eliseu (2Rs 2 - 13), haja várias histórias de milagres desse profeta em que grupos mais amplos de pessoas são beneficiados. Eliseu mostra que o SENHOR em nome de quem ele profetiza está presente quando há ações concretas de solidariedade do homem e da mulher de fé, ao mesmo tempo, em favor da comunidade de fé e também da comunidade secular. Digo isso porque a crise que Israel enfrentava era também uma crise política. Do mesmo modo, não somos somente pessoas vinculadas a um grupo religioso, mas igualmente cidadãos. Não basta dizer o que é que Deus quer para a igreja, o bairro, o município, a cidade, o país ou o mundo, seja consolo, justiça, recursos ou caridade. É preciso pessoalmente empenhar-se para que essas coisas aconteçam. O SENHOR dissera a Eliseu quais eram as pretensões dos sírios em relação a Israel. Mas Israel só foi salvo porque o profeta comunicou o que sabia ao rei.

Gostaria de sugerir que você pensasse modos pelos quais pode mostrar-se solidário em favor desta comunidade cristã da qual faz parte e em favor de outros grupos sociais nos quais você está inserido(a): Há atividades aqui na igreja em que você poderia ajudar? Há alguma coisa que você possa fazer para melhorar as condições de vida no seu bairro? Há pessoas e animais aos quais você poderia prestar assistência?


2o) ELISEU MOSTRA-SE SOLIDÁRIO PARA COM O SEU COMPANHEIRO MAIS PRÓXIMO


Na angústia do seu moço por causa do cerco dos sírios a Dotã, Eliseu amparou-o. O texto deixa claro que o profeta era o principal implicado naquela ameaça. Entretanto, Eliseu deixou a si mesmo de lado por um momento e foi cuidar do seu companheiro aflito.

O milagre fora incrível, sem dúvida! Imagine olhar as montanhas e vê-las tomadas por cavalos e carros de fogo! E mais, um exército tão surreal que está a nosso favor! O moço de Eliseu certamente foi confortado diante da ameaça do cerco das tropas dos sírios. Só que ele só pode ver o que viu porque Eliseu, o profeta, encorajou-o e, em seguida, pediu ao SENHOR por ele. A solidariedade de Eliseu "abriu os olhos" do seu moço para ver mais amplamente e, assim, devolveu-lhe a esperança. Eliseu ajudou seu moço a lidar com aquela situação de tensão e tranquilizou-o.

Há muitos, é verdade, que precisam de nossa solidariedade. E quanto àqueles que estão mais próximos de nós? São mães, pais, esposas, esposos, filhas, filhos, parentes, amigos, pessoas de nossa intimidade, animais de estimação que podem estar sofrendo sem que a gente dê pela coisa. Podemos achar que é suficiente dizer que precisam fazer isso ou aquilo para melhorar. Mas a solidariedade parece exigir que apoiemos esses nossos próximos fazendo tudo o que pudermos e, ainda, permaneçamos ao lado deles(as) mesmo que, no momento, não saibam, ou não consigam, ou não queiram fazer o necessário para melhorarem. Eliseu disse ao seu moço: Não temas, ou seja, tranquilize-se! Também disse: Você não está sozinho, eu estou do seu lado e há muito outros por nós! Depois, o próprio Eliseu faz algo em favor do rapaz: uma oração ao SENHOR. Em sua ação solidária, Eliseu move-se do seu moço para si. O companheiro do profeta não resolveria sua crise sozinho. Eliseu assegurou-lhe que havia três envolvidos na solução do problema: o moço, o SENHOR e o próprio profeta.

"Abrir os olhos" de nosso mais próximo aflito não é algo com que lidar como se fosse coisa qualquer, que não nos diz respeito. Envolve ser os olhos do outro enquanto este os tem (ou mantém) fechados.


3o) ELISEU MOSTRA-SE SOLIDÁRIO PARA COM AQUELES QUE LHE QUERIAM MAL


Os sírios haviam cercado Dotã para prender Eliseu. Diante daquele exército hostil, o profeta age em três etapas:

a) Fechando os olhos sírios: A primeira oração de Eliseu ao SENHOR em relação aos sírios, bastante específica, desencadeia uma cegueira nos seus adversários. É como se a atitude de Eliseu fizesse com que os sírios se deparassem com o que estava envolvido em sua ação agressiva. A hostilidade prejudica não apenas quem é hostilizado, mas também quem hostiliza. Isso desnorteia a pessoa, pois ela já não é capaz de enxergar mais nada além do mal que quer causar, acabando, no final, por ser atingida por suas próprias ações.

b) Conduzindo os sírios enquanto cegos: Eliseu leva os sírios cegos para dentro da Samaria, capital de Israel, seus adversários. O profeta procura, ironicamente, conduzi-los a "olhar mais de perto" a condição em que sua hostilidade os coloca. Isto é, através de Eliseu, os sírios percebem aonde sua agressividade vai levá-los: a mais agressividade por parte daqueles a quem têm por inimigos. Notem que o rei de Israel, logo que vê os sírios em seu poder, já quer matá-los!

c) Abrindo os olhos dos sírios (e de Israel) para que entendessem que, ao mal, responde-se com o bem: Os sírios se deram conta da enrascada em que se meteram. Foram atrás de Eliseu e caíram nas mãos de Israel. O ansioso rei de Israel, por sua vez, não podia esperar por chance melhor de acabar com a raça dos inimigos. Entre os dois lados, estava Eliseu. O profeta, porém, faz algo que surpreende os sírios e Israel. O rei de Israel, diz Eliseu, se quisesse, que matasse aqueles a quem ele próprio capturasse. Os cativos trazidos pelo profeta, entretanto, seriam alimentados e libertados. Os sírios e Israel vinham uns de encontro ao outro com ódio. Eliseu veio ao encontro de ambos com solidariedade. O último versículo do texto diz que "da parte da Síria não houve mais investidas na terra de Israel".

Solidariedade não se pratica por merecimento, mas humanidade. Não para ganhar alguma coisa, mas dar o que o outro precisa. E, mesmo que haja ódio do outro lado, os efeitos do gesto solidário podem ser incríveis.


CONSIDERAÇÕES FINAIS


Alguns estudiosos do Novo Testamento já disseram que Jesus, conforme descrito nos Evangelhos Sinóticos (Marcos, Mateus e Lucas), aproxima-se muito do estilo de Elias e Eliseu. Os três notabilizam-se pelos milagres que fazem, sim, mas também por aquilo que está envolvido em tais milagres: a solidariedade para com as pessoas. Pode-se dizer que, em certo sentido, Jesus foi discípulo de Eliseu. Como Eliseu, Jesus preocupava-se com seu povo e assistiu muitas pessoas. Como Eliseu, Jesus cuidava dos seus próximos: ele alimentou seus discípulos, ensinou-os e defendeu-os, procurando, inclusive, por aqueles que o haviam abandonado quando fora preso. Como Eliseu, Jesus não negou ajuda a pessoas consideradas indignas ou inimigas, além de não ameaçar ou reagir com violência contra aqueles que o torturavam. Jesus andou nos passos de Eliseu. Vamos junto com ele?

quarta-feira, novembro 23, 2011

FOFA


Fofa, Fofinha... Ela morreu hoje, às cinco e pouca da manhã. Acabo de receber a notícia de minha mãe. Estou triste. Lembro aquela gatinha miando na minha janela querendo entrar em casa na época em que eu era adolescente. Na ocasião, ela ainda não morava com a gente, ficava andando pelas redondezas. Conhecemos ela através da Mãezinha, a gatinha que era sua "mãe" e do Baninho, um outro lindo gato amarelo. O verdadeiro nome dela (e a gente a chamaria por vários outros depois...) era Flocky. Acho que quem deu foi a Liz, minha irmã.

Fofa era um paradoxo. Ela miou, miou, miou até que a gente pôs ela pra dentro de casa de vez. Mas aí, sempre cheia de vontade, não gostava de muita incomodação. Ficava sempre na dela. Como ela se tornou muito gorda, a gente queria apertar aquela barrigona. Só que aquele prazer tinha um preço: tomar dentadas ou unhadas dela. Doía, mas era bom. Às vezes, quando ficava com raiva, Fofa olhava pra gente com aquela boquinha entreaberta, mostrando seus dentões e seus dentinhos. Linda! Ela era dengo e brabeza. Amor em duas faces.

Outra coisa ela fazia, a qual eu também nunca vou esquecer. Se estivesse deitada e a gente deitasse de frente pra ela, em poucos segundos ela levantava e virava de costas! Aí ela tinha que aguentar: a gente a "amassava" de tanto carinho!

Vou sentir muitas saudades da minha Minguim! Descanse, minha Gordinha, minha Brabinha, minha Velhinha. Agradeço a você por toda alegria que nos deu.

Fofinha viveu cerca de dezessete anos.


I believe in the Kingdom Come
Then all the colours will bleed into one
Bleed into one
But yes I'm still running

(U2, I still haven't found what I'm looking for)

Espero que, um dia, Carla, e eu, e nossas famílias reencontremos a Fofinha na bem-aventurança que, esperamos, acolherá a todos sem distinção.

domingo, outubro 02, 2011

Coldplay e Amy Winehouse

Bonito mesmo! Antes de tocarem a música Fix You, os caras do Coldplay fizeram uma pequena homenagem à Amy Winehouse e cantaram a primeira frase de uma das canções mais famosas da saudosa artista britânica, Rehab. Eu ainda comentava com a Carla o quão triste é a cantora já não estar mais aqui. Quem sabe, se viva, ela estivesse ali no palco do Rock in Rio nessa última madrugada? Foi bonito mesmo ouvir o Coldplay e o enorme público unidos a celebrar a memória desse grande talento! Reconhecimento merecido!

domingo, março 06, 2011

Jacó e o "homem" do Jaboque: um causo pra ouvir e pensar sobre a gente

Novo Hamburgo, 06 de março de 2011.

Paróquia Evangélica de Confissão Luterana Espírito Santo


INTRODUÇÃO


Nesta época, as pessoas vão às ruas ou às passarelas do samba para participar do espetáculo do carnaval. As escolas de samba vão embalar as multidões contando histórias com muita criatividade. E se a gente também ouvisse uma boa história hoje? Vamos ler Gênesis 32.23-33.

Essa é uma história popular, muito antiga, mais antiga que a Bíblia. É como os “causos” que nossos avós e outros parentes contavam. Ao querer atravessar o rio Jaboque por um vau, isto é, um trecho mais raso, Jacó briga com um “homem” misterioso durante a noite toda e termina com a coxa machucada. O tal homem desaparece pouco antes de surgir o sol.

Isso me parece um conto de assombração. Ué? Mas na Bíblia tem isso? Tem! E sabe o que é mais legal? Israel soube ler, nesses “causos que o povo contava”, como os seus antepassados e Deus aproximaram-se e estiveram juntos no dia-a-dia da vida. Porque as histórias que a gente conta e que a gente ouve são sobre nós mesmos, nossos medos, nossas dores, nossas superações, nossas crenças, nossas espiritualidades.

Que tal saborear um pouco essa história e pensar algumas coisas sobre as espiritualidades da gente? Digo “espiritualidades” porque cada um de nós tem a sua, com a cara de cada um de nós, embora haja sempre elementos comuns e a base de todas elas pretenda ser a mesma: a fé em Deus orientada pela vida de Jesus.



  1. CUIDAR DAQUELES A QUEM AMAMOS (23-24)


Se bem que seja possível pensar nela como um conto de assombração, essa é, também, a história de um homem e das pessoas que lhe são importantes. Jacó encarrega-se da travessia da sua comitiva, composta por suas mulheres, suas escravas domésticas, seus filhos, seus servidores e seus animais.

Aqui há um jogo de palavras no hebraico, o qual, caso traduzíssemos literalmente, seria: “vadearam o vau”. É possível que, ao mostrar Jacó fazendo-os vadear, a história queira dizer que ele estava preocupado em cuidar deles, da sua segurança. Mesmo que por um local pouco profundo, cruzar um rio sempre envolve um risco. Desse modo, Jacó mantém-se ao lado dos seus queridos quando eles precisam atravessar.

A nossa família, os nossos amigos, as nossas comunidades estão vadeando vaus toda hora. São experiências escolares, emocionais, financeiras, lutuosas, enfim, de todo tipo. Onde estamos nessas horas? Ao lado deles, amparando-os quando vadeiam esses vaus?



  1. QUERER COISAS BOAS PARA NÓS E PERSISTIR EM BUSCÁ-LAS (25-29)


Depois de ajudar a comitiva a passar para o outro lado, Jacó depara-se com um “homem” e eles começam a brigar. Nas culturais mais ancestrais, acreditava-se que a natureza toda era um ser animado. A natureza não era feita de matéria-prima, mas de vida. Sendo assim, junto às árvores, aos desertos, aos rios havia poderes que vigiavam esses lugares e, de certo modo, personificavam toda a força e todo o movimento que se notavam ali. Daí, nesse relato, a força de vida do riacho ser personificada por “um homem”, como quer que queiramos chamá-lo: “ser divino”, “aparição”, “fantasma”, etc.

Ele opõe-se a Jacó, os dois brigam e Jacó termina machucado. A história acaba aqui? Não. Ela continua a ser contada ao longo do tempo e outros vão reconhecendo nela a evidência de algo maior, que passa a fazer parte do texto de forma mais explícita.

Em primeiro lugar, apesar de machucado, Jacó não se deu por vencido, pois queria algo bom para si: receber a bênção daquele ser. Isso não deve nos surpreender, pois, a essa altura, a fé no Deus dos hebreus como a autoridade última sobre todas as coisas já está a enriquecer o sentido do nosso conto. Inclusive, Jacó havia orado antes ao Deus de seus pais, pois precisava que este o protegesse de seu irmão, Esaú, que ele estava indo encontrar (Gn 32.9-11).

Em segundo lugar, a persistência de Jacó em experiências passadas fez dele uma pessoa mais robusta diante da vida. Talvez seja esse o significado que a história queira dar ao nome “Israel”, com o qual o ser renomeia Jacó: ele tornou-se um homem melhor, na medida em que persistiu em buscar coisas saudáveis, positivas (família, trabalho, fé, bons relacionamentos), mesmo diante das dificuldades. A etimologia popular da história faz o homem misterioso lhe dizer: “Com deuses e homens tu te desentendeste, mas prevaleceste.”

Qualquer tempo é tempo de procurar por aquilo que é digno de ser buscado, que nos tornará pessoas melhores, que dará rumo e sentido à nossa vida. Não importa se formos mais rápidos ou mais lentos para alcançar, o fundamental é querer coisas boas e persistir em buscá-las.



  1. PROCURAR POR DEUS E PELO BEM NAS DIVERSAS SITUAÇÕES (30-31)


Na forma como a recebemos hoje, nossa história reconhece que Jacó encontrou-se com o próprio Deus que será o Deus de seus descendentes, os israelitas.

É curioso observar que Jacó saiu ferido da luta. No entanto, ele conseguiu perceber que Deus esteve envolvido no episódio, de modo que a sua vida fora tirada do perigo. Em outras palavras, Jacó foi conservado vivo.

Obter respostas para o sofrimento quase nunca é possível. Entender como Deus está relacionado às coisas ruins que acontecem também é uma equação difícil de resolver. Mas procurar pelo bem, isto é, avaliar o que pode ser (ou permanecer, ou resultar) positivo numa situação ruim talvez ajude a lidar melhor com ela.

Procurar pela companhia de Deus poderá auxiliar-nos com nossas dores, na medida em que lhe dizemos o que sentimos. Jacó estava com a coxa deslocada, mas disse que, ao encontrar-se com Deus, sua vida havia sido salva. Pode ser que as “faces de Deus” não representem para nós um direito de receber todas as respostas, porém um convite para dirigirmo-lhe todas as perguntas e todo o desconsolo, ao mesmo tempo, ampliando nosso olhar para ver que bem há em meio às circunstâncias nas quais nos encontramos.


CONCLUSÃO


Através desse conto bíblico de “assombração”, pudemos pensar na importância de cuidarmos daqueles a quem amamos. Fomos também incentivados a querer coisas boas para nós e persistir em buscá-las. Quanto às diversas situações que nos sobrevêm, consideramos a oportunidade de procurar por Deus e pelo bem que pode haver nelas, a fim de vivermos melhor.

Fiquem com Deus e uns com os outros.

domingo, dezembro 12, 2010

POEMA PARA O PRIMEIRO ANO

Carlinha,

Aí desabrocha o nosso primeiro ano!

Rompeu do tempo o tênue pano!

Leve, floreava cuidadoso do amor a casinha.

Admirável e misterioso paradoxo!


Misturaram-se nossos corações neste universo ortodoxo.

Iam-se, por mão da religião astronômica, os dias, é verdade!

No que, porém, nossos olhares um do outro sentiam saudade,

Havia o fenômeno: como na Bíblia, o sol parava,

Almas em riso, corpos em fogo, a gente se amava!


Querida,

Um ano faz de nossa melodia conjugal!

Escuta a época, encantada, o nosso madrigal.

Ressoam singelos acordes quando moves teus olhos claros,

Infinita coletânea das mais belas composições!

Dedicamos as vozes à sinfonia da nossa vida,

Aclama o coro cordial a harmonia de nossas canções!


Eu e Tu, assim intitulamos nossa obra.

Somos anáforas na sintaxe desse escrito:

Poderia o meu “Eu” o teu “Tu” não anunciar

Ou o meu “Tu” o teu “Eu” não revelar?

Sabe, Amor, quero que um permaneça no outro inscrito,

A poesia dos enamorados, a todo momento,

[uma antologia da felicidade se descubra!

terça-feira, novembro 23, 2010

O deus-anão

Um anãozinho faceiro,
dançava, cantava, divertia toda a gente.
Era Bés, o deusinho do recreio,
protetor do bebê e da parturiente.

Mas, não se engane, companheiro:
a magia do pequenino era surpreendente!
Repelia leão, escorpião, serpente,
até fantasmas o nanico careteiro!

Bés fazia careta lá no Antigo Egito
e na Palestina também tocou seu pandeiro:
era o riso da mulher, da criança e do solteiro!

Contra os males que acometiam o homem finito
arreganhava os dentes e a língua zombeteiro.
Como é curioso e fascinante esse mito!

Imagem: Estela de calcário mostrando Bés e sua companheira Beset (664 - 332 A.E.C.).

BÈS et sa compagne Béset. Site officiel du musée du Louvre. Disponível em: http://cartelfr.louvre.fr/cartelfr/visite?srv=car_not_frame&idNotice=20280&langue=fr. Acesso em: 23 nov. 2010.

quarta-feira, março 31, 2010

TEMPESTADE DE IDEIAS SOBRE CONHECIMENTO

Conhecimento é experiência: encontrar e ler o mundo e ser lido por ele. É o acúmulo de percepções sobre a vida e a própria identidade e uma constante reavaliação do que se sabe e do que se acredita.

Conhecer é um paradoxo, pois é um exercício fascinante e assustador. O fascínio vem da possibilidade de descobrir coisas novas e interagir com a existência de uma forma que não fora pensada antes. Por outro lado, o conhecimento assusta quando mexe com as nossas certezas, sobre as quais imaginamos estarem construídos incondicionalmente o nosso ser, a nossa estrutura psíquica, a visão que possuímos de nós mesmos.

terça-feira, fevereiro 23, 2010

BATE-PAPO ENTRE AMIGOS SOBRE O FASCINANTE FENÔMENO ÓVNI

Enviei a mensagem abaixo por e-mail para o meu amigo Renato Jover. Ele me havia repassado um artigo que mencionava um encontro promovido pela Igreja Católica em 2009 para tratar de Astrobiologia.[1] Renato perguntava a minha opinião sobre o texto. Foi então que lhe escrevi as seguintes "letras", as quais publico com algumas correções e acréscimos:


Caro amigo Renato,

Desde que lembro, sou interessado em mistérios. Óvnis, casas mal-assombradas, lendas de assombração, essas coisas sempre me cativaram ("Arquivo X" é a minha série de TV favorita!). Quando adolescente, lia e conversava sobre essas coisas com avidez, não sem uma ponta de ceticismo. Todavia, geralmente deparava-me com pessoas nada dispostas a discutir esses assuntos, considerando-se talvez "adultas e esclarecidas demais" para dar lugar à imaginação e à fantasia.

Com isso, não quero dizer que se deva ser completamente crédulo quanto a coisas como essas, mas considerá-las como objeto para pesquisa e esclarecimento. O fenômeno dos objetos voadores não identificados já foi, parece-me, tratado com mais seriedade em anos passados, principalmente nos Estados Unidos. Entretanto, tenho a impressão de que vem perdendo gradativamente o interesse de pesquisadores sérios, quando muito limitando-se à divulgação, sem análise, de fotografias e a uma mescla com ideias de cunho (pseudo)religioso.

Não deixa de ser intrigante que, como alegam os meios de comunicação "especializados", ocorram tantos avistamentos todo ano e até hoje supostamente não tenha sido apresentada uma prova concreta de que estamos sendo visitados por seres de outros planetas ou de outras dimensões. O conhecimento que temos hoje do universo também dificulta bastante admitir a possibilidade de tanta atividade extraterrena em nosso planeta, uma vez que, mesmo com a (ainda impossível) capacidade de viajar à velocidade da luz, uma nave tripulada não conseguiria atravessar as distâncias descomunais no espaço até encontrar uma outra civilização. Sondas e sinais de rádio foram enviados e o silêncio lá fora permanece, nenhuma resposta.

Diante disso, pergunto-me: O que será o fenômeno óvni? Encontros casuais de pessoas com projetos (humanos) secretos de veículos, os quais, por serem até então desconhecidos do público, são vistos como naves extraterrestres, interpretação que ocultaria ainda mais esses segredos? Muito já se falou e especulou sobre isso. E faz certo sentido porque, nas décadas de 40 e 50, quando o fenômeno tornou-se mais recorrente nos EUA, ocorreram várias mudanças políticas no globo – a 2ª Guerra, a corrida armamentista, a Guerra Fria –, acelerando, inclusive, o desenvolvimento da tecnologia bélica e nuclear.

E o que dizer das abduções por alienígenas? Há profissionais de saúde que tentam entender o que ocorre com as pessoas que dizem ter sido levadas por seres estranhos e sofrido todo tipo de experimento biológico, inclusive sexual. É o caso, por exemplo, do pesquisador David Jacobs, professor de História americana do século XX na Universidade de Temple, na Filadélfia, o qual apresenta registros dos casos que investigou no livro A vida secreta. Tudo isso terá realmente acontecido? Ou seria uma atualização dos distúrbios da psiquê descobertos por Freud no início do século XX?

Não sei. Ultimamente, vem sendo falado que os organismos da Aeronáutica de alguns países da Europa abririam seus arquivos sobre relatos de óvnis para o público.[2] Será que realmente existirá lá material que não possa ser explicado? Eu gostaria de acreditar nos óvnis. Reconheço, de tudo que li, haver pessoas com credibilidade que não teriam por que inventar histórias sobre aparições no céu. Portanto, não descarto a possibilidade, embora esteja inclinado a pensar que haja explicações bem naturais para certos fenômenos "inexplicados".

Quanto à existência de vida em outros planetas, sei que é estatisticamente impossível que o nosso seja o único mundo habitado.[3] Os astrônomos vêm descobrindo evidências no universo da realidade de condições capazes de proporcionar o surgimento da vida. Pode ser que lá fora tenham florescido bem antes que nós outras civilizações (o universo tem cerca de 14 bilhões de anos!), mas estas encontrar-se-iam separadas da gente a tal ponto que o contato não seria (até o momento) viável.

Sobre a interpretação teológica cristã a respeito de prováveis outros mundos habitados por organismos inteligentes, podemos dizer, a partir da fé, que sua existência seria obra de Deus através do Logos (a Palavra) que estava com Deus antes que tudo existisse, conforme o Evangelho de João (1.1-4). Esse documento considera que Deus (entenda-se, o Deus judaico-cristão segundo a fé judaico-cristã) criou tudo por meio do Logos (o judaísmo falará da Sabedoria, a primeira obra do Criador; cf. Provérbios 8.22-31), o qual se tornou ser humano em Jesus de Nazaré.

Ficam as questões: o que os habitantes dessas civilizações demonstrariam como traços de sua origem divina? De que modo desenvolvem suas relações pessoais? Qual será a sua ética? Possuem também, em sua essência, a possibilidade e a facticidade da corrupção?

É possível que a humanidade ainda tenha que aguardar muito...

Um abração!!!!

Ruben


Notas:

[1] Sobre esse evento, cf. http://www.gaudiumpress.org/view/show/10690-vaticano-encerra-semana-de-astrobiologia. Acesso em em 22/02/2010.

[2] http://www.dw-world.de/dw/article/0,,4789740,00.html. Acesso em 23/02/2010; http://noticias.terra.com.br/ciencia/interna/0,,OI1534451-EI301,00.html. Acesso em 23/02/2010.

[3] http://www.cienciamao.if.usp.br/aliens/drake.php. Acesso em 15/02/2010; http://ciencia.hsw.uol.com.br/programa-seti2.htm. Acesso em 15/02/2010.


Referências Bibliográficas:

JACOBS, David. A vida secreta: relatos cientificamente documentados de casos de sequestros por alienígenas. Trad. Carlos Araújo. Rio de Janeiro: Editora Rosa dos Tempos. 350 p. Coleção "Tendências do milênio", n. 3.

http://www.cienciamao.if.usp.br/aliens/drake.php. Acesso em 15/02/2010.

http://ciencia.hsw.uol.com.br/programa-seti2.htm. Acesso em 15/02/2010.

http://www.dw-world.de/dw/article/0,,4789740,00.html. Acesso em 23/02/2010.

http://www.gaudiumpress.org/view/show/10690-vaticano-encerra-semana-de-astrobiologia. Acesso em 22/02/2010.

http://noticias.terra.com.br/ciencia/interna/0,,OI1534451-EI301,00.html. Acesso em 23/02/2010.

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

HÁ TEMPO...

Em Eclesiastes 3.1-8, o famoso poema sobre o tempo, o autor (Qohélet) demarca a existência do ser humano entre vida e morte, ser e não-ser, alegria e dor. Ele faz isso com algumas ilustrações, nas quais está sempre contrapondo experiências opostas.

Assim é a vida da pessoa: ela nasce e morre; de igual modo, aquilo que é cultivado no campo: germina, amadurece e, então, mete-se-lhe a foice. Mas é triste que haja gente disposta a ceifar vidas ao invés de colher alimento. Mata-se mesmo! E não se percebe que as mãos também são capazes de curar. Gente destrói; todavia, gente é capaz de (re)construir.

Qohélet sabe que a vida, por mais dura que seja, não é só choro; mas também não é só riso. Ora sofremos, impotentes diante de situações que não podemos mudar, ora ficamos alegres, bons momentos nos encorajam a (re)fazer nosso caminho. Vamos recolher as pedras do campo e plantar a esperança! Encontrar os amigos e abraçá-los forte! Porém, se a distância for grande, dê um telefonema, mande uma carta, um e-mail...

Perder, ganhar... às vezes um, às vezes o outro. Mas é preciso ir em busca dos sonhos, de si mesmo. A prudência, todavia, nunca é demais! Entre rasgar as vestes de tristeza e vestir as melhores roupas para uma festa, um detalhe pode fazer toda a diferença. Não tem algo de bom para dizer? Então, fique calado!

Estão postas as alternativas: amar ou odiar; partir para a guerra ou levantar a bandeira da paz. E aí? Vai escolher o quê?

domingo, fevereiro 14, 2010

QUER APROFUNDAR A FÉ? FAÇA FACULDADE!

No dia 08 de fevereiro de 2010, enviei por e-mail o texto abaixo para o Richarles e o meu primo Marcos em resposta a um desejo expresso pelo primeiro de conversarmos mais sobre religião. Basicamente orientei-me pelo que ele escrevera no final da mensagem que remeteu para mim e o Marcos: "Rubinho, em termos de fé e igreja, assumi algumas idéias que me apareceram após refletir sobre um monte de coisas. Bem que me falaram um dia: Quer manter sua fé inabalada? Não faça faculdade!" Publico minha resposta a esses dois grandes amigos após fazer algumas correções.


Charlinho,

Isso que lhe falaram "um dia" (rsrs) é um equívoco bastante comum. Na minha opinião, por que há pessoas que acham que perderão a fé se forem estudar na universidade? Porque o fundamento da fé que essas pessoas têm encontra-se naquilo que é forma ou detalhe e não no essencial.

Explico: De acordo com a Bíblia, o mundo e o ser humano foram criados por Deus durante um período de sete dias. Todavia, desde o século XIX, a ciência vem desvendando os processos biológicos por meio dos quais a vida, em suas mais variadas formas, evoluiu no planeta. Além do mais, os estudos da geologia, da paleontologia e da astronomia mostram que o universo e o planeta passam por transformações constantes que se estendem por um período de mais ou menos 14 bilhões de anos (a Terra teria 4.5 bilhões).[1] Levou milênios até que o planeta adquirisse a forma que tem hoje, a vida explodisse em milhares de espécies diferentes e o ser humano surgisse sobre a terra (e houve várias espécies de hominídeos, por exemplo: Australopitecus afarensis, Homo erectus, Homo sapiens neanderthalensis, Homo sapiens sapiens).[2] A pergunta (equivocada) seria a seguinte: Qual dos dois está certo: a Bíblia ou a ciência?

Os textos bíblicos foram escritos durante um período de aproximadamente 1400 anos. Uma das passagens mais antigas que foram conservadas seria o cântico de Débora (Juízes 5), datado talvez do século XII a.C.[3] Os diferentes autores, fazendo registros da tradição oral de Israel, escreveram textos de certo modo independentes em uma variedade de gêneros literários (crônicas, hinos, provérbios, parábolas, contos, novelas, etc.) e fizeram-no para estabelecer as relações entre religiosidade(s) e identidade(s) social(ais). Ao longo do processo, alguns textos se perderam, outros receberam acréscimos, comentários ou tiveram parte do conteúdo removido ou corrigido de acordo com a perspectiva teológica de quem trabalhava com o texto.

Assim sendo, por exemplo, o livro de Gênesis possui dois relatos independentes e diferentes da criação do mundo: Gênesis, capítulo 1, versículo 1 ao capítulo 2, versículo 4, parte "a" ("Estas são as origens dos céus e da terra, quando foram criados") e Gênesis, capítulo 2, versículo 4, parte "b" ("No dia em que o SENHOR Deus fez a terra e os céus"), ao versículo 25. O primeiro descreve a criação como uma semana de trabalho que finaliza no descanso sabático e, assim, justifica a semana litúrgica judaica fazendo-a remontar ao "princípio", isto é, àquele momento que os chamados "mitos cosmogônicos" descrevem como de atividade dos deuses para dar origem àquilo que as sociedades que compõem essas narrativas reconhecem como norma. O segundo relato apresenta a criação como o surgimento de um oásis (jardim do Éden) no meio da terra seca após uma chuva. É curioso que, neste caso, o Deus de Israel é chamado pelo nome "Yahweh" (que geralmente aparece traduzido, por uma questão linguística que não vem ao caso, como SENHOR). E associa-se esse Deus à chuva e à fertilidade da terra, coisa que as populações mais primitivas da Palestina conheciam como obra de divindades locais, por exemplo, o deus Baal (cf. 1Reis 18.22-46).

Desse modo, a Bíblia não está interessada em relatar cientificamente o surgimento do universo e da vida. Trata-se de uma coletânea de registros (só posteriormente reunidos num único volume) de como o antigo Israel experimentou e compreendeu seu(s) Deus(es). E esses registros são feitos numa linguagem absolutamente enraizada no cotidiano daquelas populações: a linguagem da terra, da chuva, do culto, do mito. A maneira de compreender o universo mudou com o desenvolvimento científico moderno. A realidade não é mais constituída de três andares: os céus (morada dos deuses), a terra (morada dos homens) e o Xeol (morada dos mortos).[4] Sabemos que o nosso planeta é um entre milhares em nossa galáxia, que é uma entre bilhões no universo. Possuímos indícios de que a vida surgiu e desenvolveu-se gradativamente através de processos naturais de evolução. A maneira de "ler" a natureza hoje é outra, mas as indagações existenciais do ser humano permanecem. A ciência avança em demonstrar naturalmente o "como"; a fé pretende estabelecer o sentido, isto é, o "porquê".

Se a linguagem da Bíblia foi ultrapassada pela ciência, a experiência de Deus que ela testemunha recorrendo a variados encontros com o sagrado permanece necessária para a paz dos seres humanos consigo mesmos e com a natureza.

Um abraço, amigos!

Ruben


Notas:

[1] Para mais informações sobre o assunto, confira: http://wwo.uai.com.br/UAI/html/sessao_11/2009/10/26/em_noticia_interna,id_sessao=11&id_noticia=133416/em_noticia_interna.shtml. Acesso em 14/02/2010.

[2] Para mais informações sobre o assunto, confira: http://www1.folha.uol.com.br/folha/publifolha/ult10037u358172.shtml. Acesso em 14/02/2010.

[3] Para mais informações sobre o assunto, confira: http://www.bibliacatolica.com.br/historia_biblia/3.php. Acesso em 14/02/2010. http://www.metodista.br/ppc/caminhando/caminhando-16/o-conceito-de-justica-no-antigo-testamento-a-partir-de-juizes-5-9-12. Acesso em 14/02/2010.

[4] Para mais informações sobre o assunto, confira o verbete “Mundo” em http://www.bibliacatolica.com.br/dicionario/12.php. Acesso em 14/02/2010.

quinta-feira, janeiro 14, 2010

MEL

"Deus salvou a Melzinha da melhor forma que Ele tem: levou-a para junto de si!" Foi assim que minha mãe deu-me a notícia da morte de nossa gatinha branca, peludinha, de olhinhos azuis. Às vezes, quando passávamos perto, ela pulava em nossas pernas ou vinha atrás dando "pancadinhas" nos nossos pés. Ultimamente, a Nininha, a mais nova do pedaço, vivia "infernizando-a", correndo atrás o tempo todo. E a "Branquinha", mais que depressa, tratava de catar um lugar para se esconder! Brincadeiras divertidas de felinos domésticos adoráveis. E quando ela bebia água e ficava com gotinhas de água sobre o narizinho? Como minha Carla costuma dizer: "Coisa mais querida"!

Mel morreu devido a um problema renal. Ainda lembro quando a vi pela primeira vez. Eu morava com meus familiares na rua Dona Maria, em Vila Isabel. Ela chegara do veterinário e estava no quarto de minhas irmãs, deitada, bem "grogue". Como todas as outras, Mel era gata de rua. Alegro-me por ela ter vindo para o nosso lar. Desde então viveu feliz. E felizmente morreu cercada de carinho e amor.

Vá, Melzinha, viver agora junto de Quem, na Terra e no Céu, é Pai e Mãe de todos nós. Lamentamos que você não esteja mais conosco, porém nossos corações não a esquecerão.

quarta-feira, janeiro 13, 2010

ANJO DA MINHA VIDA

Carla, minha esposa, fez esse poema para mim. Minha resposta encontra-se na postagem anterior.

Anjo, amigo, amante...
Nada mais sou sem você...

Seu amor enche meu caminho de flores, meu coração de sorrisos,
Minha vida de lindas cores e ternos sabores.

Seu amor, tão gratuito, é caríssimo à minha alma.
Tão profundo e genuíno,
Preenche com a mais pura alegria meu coração pequenino.

Você excede o valor de tudo o que tem valor no Universo.
Faz fluir água em meus desertos, faz da minha vida poesia e verso.

Viver com você... Quanta paz e felicidade.
O opaco se faz brilho e vivacidade.

Tudo o que eu sempre sonhei, um amor singelo e imaculado,
Somente em você encontrei.

Cada momento ao seu lado é aprazível e belo.
Amar você é e será sempre meu maior anelo.

AGUARDO MINHA POETISA CHEGAR

Sua poesia é sentimento e dedicação
Da alma pura que é toda coração!

Suas palavras adoçam-me a vidência
E os ouvidos, enfim, podem enxergar sua voz
Mesmo que, em certos instantes entre nós,
As circunstâncias imponham alguma (e breve) ausência.

São as coisas que precisamos fazer,
E então você vai e eu permaneço.
Da solidão, porém, logo esqueço
Porque quando você chega tudo é prazer!

“[...] meu coração é pequenino” você dizia com carinho.
“Eu não existiria se não estivesses em mim”, orava Santo Agostinho.
Se Deus, que tudo contém, criou você para habitá-la, Coraçãozinho,
Fez-me ele a fim de encontrar também nesse Paraíso o meu cantinho.

Espero voltarem seus olhos água-marinha,
Abertos de sofreguidão e surpresa.
Quero roubar o mais belo sorriso da natureza,
Do qual seus lábios são fonte exclusiva, Esposa minha!

quarta-feira, janeiro 06, 2010

O QUE MINHA ESPOSA É PARA MIM

Jardim de flores de paixão,
Mosaico de pedrinhas de amor,
Alegria de sorrisos de humor,
Coral de vozes de canção.

Em uma vida ou em um segundo,
Você é tudo isso, um universo e um mundo
Coberto pelas águas do carinho,
Pontilhado de estrelas que orientam meu caminho:

Ser o homem da sua vida,
Assim como da minha você é a mulher, querida!

segunda-feira, janeiro 04, 2010

ABECEDÁRIO (Y?)

A benéfica capacidade de escrever favorece geralmente humanos inquietos, justapondo know-how, labor, maturidade nalgumas obras peculiares que ressaltam suas teimosias, urgências, vacilos, weltanschauungs, xingações, zoeiras.

MINHA CARLA, TERNURA, BEIJO, ALEGRIA, AMOR, DOÇURA

Ternura,
Minha gratidão é imensa
Porque me deram você
os sonhos, as estrelas, o Céu.
Seu beijo é chocolate e mel,
De seus braços aconchego encontro à mercê,
Sua alegria é intensa,
Inunda-me de amor e doçura.

segunda-feira, dezembro 28, 2009

EM 2010, OUVIR, (RE e ANTE)VER, CHAMAR

Apresentei esta "prédica" na Paróquia Evangélica Espírito Santo, da Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil (IECLB), em Novo Hamburgo (RS), no dia 27 de dezembro de 2009, convidado por minha querida e amada Esposa, a Pastora Carla Saueressig da Silva.


INTRODUÇÃO

Vai chegando ao fim o ano 2009. Nos últimos doze meses estivemos ocupados com muitas coisas em várias situações: preocupamo-nos com o bem-estar de nossos familiares, dedicamo-nos às nossas atividades profissionais (ou estivemos à procura de um emprego), estivemos atentos à nossa saúde, cuidamos de nossas casas, compramos, vendemos, negociamos, viajamos, sorrimos, choramos. Em nossa paróquia, fomos pastoreados pela Pastora Carla – a Pastora mais linda da IECLB –, participamos dos cultos, das reuniões de jovens, do Grupo Reviver, dos jantares dos homens e das mulheres. Talvez, muitas dessas coisas faremos novamente em 2010, porém, como diz a música, “o meu destino será como Deus quiser”.

É claro que, segundo cremos, Deus realmente faz o que quer e é nos acontecimentos da vida que somos chamados a refletir sobre o que ele está fazendo e como podemos experimentar e participar disso. Santo Agostinho dizia que Deus muda as coisas sem mudar o seu plano.[1] Em outras palavras, ainda que nunca compreendamos como, é apenas diante de Deus que o tempo e a vida, absolutamente complexos e imprevisíveis, não podem esconder as cartas do seu jogo.

2010 é um mistério ao qual estamos prestes a passar. Não somos capazes (e ninguém é) de prever o que irá acontecer e que tipo de circunstâncias iremos enfrentar. Todavia, como cristãos, podemos adotar algumas atitudes através das quais seguir pelas estradas que a vida, e nós inseridos nela, for construindo diante de nós. Com a leitura de DEUTERONÔMIO 4.1-9, convido vocês a, em 2010, OUVIR, (RE)VER E CHAMAR.


Em 2010, o que eu devo ouvir?

1o) OUVIR A LEI E AS PROMESSAS DE DEUS (v. 1-2)

O livro de Deuteronômio, o quinto do Antigo Testamento da Bíblia cristã, é um conjunto de discursos de Moisés, através dos quais este repassa a trajetória dos israelitas desde o monte Horebe (em Êxodo, chamado “Sinai”) até às fronteiras da terra de Canaã. A geração que saíra do Egito, com a exceção de Josué e Calebe, morrera durante a peregrinação, visto que, tendo chegado já antes à beira da terra prometida, descreu da palavra de Deus que Moisés trouxera (Números 14.26-30). Uma nova geração surgiu (Números 14.31) e está prestes a entrar na posse que Deus havia prometido.

Moisés recomenda-lhes, pois, a OUVIR. Ouvir o quê? Os estatutos e os juízos de Deus que o profeta ensinava e a promessa de Deus que o profeta assegurava. É claro que o OUVIR não se refere apenas à decodificação pelo nosso cérebro das ondas sonoras que nos chegam aos ouvidos. OUVIR, como diz o texto, é APRENDER (“ouve os estatutos e os juízos que eu vos ensino”), CUMPRIR (“para os cumprirdes”) e CRER (“possuiais a terra que o SENHOR, o Deus de vossos pais, vos dá”). Segundo Moisés, quando ouvimos a Lei e a Promessa de Deus encontramos a VIDA (“ouve... para que vivais”). Antes de mais nada, devemos OUVIR para que VIVAMOS, isto é, não nos tornemos reféns das circunstâncias, para bem ou para mal, mas sim agarremos a esperança de que podemos, por Deus, VIVER apesar de tudo.


Em 2010, o que eu devo (re)ver?

2o) (RE)VER OS ERROS E OS ACERTOS E (ANTE)VER O QUE SERÁ CASO TENHAMOS DEUS CONOSCO (v. 3-6)

Por que (re)ver os erros? A fim de que lembremos a dor que nos trouxeram e não cometê-los novamente. Israel envolveu-se com o povo de Moabe e seu deus Baal-Peor e pagou um preço caro (Números 25.1-9).

Por que (re)ver os acertos? Para sentirmos a alegria, nossa e dos outros, pelo que nosso bom proceder trouxe e identificarmos mais este marco da estrada por onde Deus quer que vamos. Alguns de Israel não seguiram Baal-Peor, como Finéias, neto de Arão (Números 25.6-13), e puderam permanecer até aquele momento de entrar em Canaã.

Como assim antever o que será se tivermos Deus conosco? A questão não é o que vamos ganhar ou perder, mas como lidaremos com o que vier. Se procurarmos por Deus, priorizaremos a responsabilidade e a ética em nossos caminhos e extrairemos sabedoria da vida. Era o que Deus aconselhava e prometia a Israel: sabedoria e justiça.


Em 2010, por quem eu devo chamar?

3o) CHAMAR POR DEUS SEMPRE, POIS É CERTO QUE ELE SE ACHEGARÁ A NÓS (v. 7)

Embora tivesse passado por fracassos e sofrimentos, Israel podia dizer: “O SENHOR achega-se a nós todas as vezes que o invocamos!” É um engano achar que Deus não nos receberá porque pecamos. Lutero agradecia a Cristo por este tomar o pecado dele, dando-lhe em troca a sua graça.[2] Lutero sabia que, quando vamos a Cristo em pecado, este nos recebe para conduzir-nos à confissão, ao perdão e à transformação pelo poder do Espírito Santo.

É também um engano achar que não importa que pequemos, já que Deus nos receberá. Quem pensa assim, não achará Deus, pois de fato não o está procurando.

Outro equívoco é pensar que Deus não nos ouve porque nosso sofrimento não passou. Infelizmente, mesmo que esta seja uma questão que inquietará a mente humana enquanto esta existir, o sofrimento faz parte da vida e, em meio a ele, devemos fazer como Jesus: gritar para Deus do fundo do nosso ser (Marcos 15.34; cf. Hebreus 5.7-10). Ainda que se sentisse abandonado, o Nazareno gritou na cruz porque sabia que Deus iria ouvir seu grito. O sofrimento, assim como a satisfação, vai e vem, mas a proximidade de Deus nunca desaparecerá. Em 2010, e por toda a sua vida, sempre chame por Ele.


CONCLUSÃO

Em 2010, OUÇA a Lei e as Promessas de Deus; (RE)VEJA os erros e os acertos e (ANTE)VEJA o que será se tiver Deus com você; e CHAME sempre por Deus, pois Ele está pronto para achegar-se a você. Amém


Notas:
[1] SANTO AGOSTINHO. Confissões, Livro I, 4. In: http://www.veritatis.com.br/article/2887. Acesso em 28/12/2009.
[2] “Senhor Jesus Cristo, tu és minha justiça, eu, porém, sou teu pecado: Levaste sobre ti o que é meu, e deste a mim o que é teu. Tomaste sobre ti o que não eras, e deste a mim o que eu não era.” In: http://www.luteranos.com.br/categories/Quem-Somos/Nossa-Hist%F3ria/Martim-Lutero/Ora%E7%F5es-de-Lutero/. Acesso em 28/12/2009.


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

A BÍBLIA SAGRADA: ANTIGO E NOVO TESTAMENTO. Traduzida em português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada no Brasil. 2. ed. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.

terça-feira, dezembro 08, 2009

VÉSPERAS DO CASÓRIO

É gostoso reunir-se aos amigos
E observar os passarinhos briguentos
Disputando aguinha açucarada,
E, em um de raros momentos,
Avezinha lépida numa cordinha de varal empoleirada,
O beija-flor ansiando matar a sede, instinto dos mais antigos.


Já puderam ouvir o au-au de um cãozinho simpático
Ao pé da mesa de um casal fantástico,
cuja bondade e amizade convidaram-nos para o almoço?
Minha Gaúcha e eu nem sentimos o tempo passar
Aconchegados nas vozes e recordações que habitam aquele lar,
Da graça divina presenteados com o endosso.


Nesse tempo, o casório aguarda-nos com expectativa
Recomendando-nos à companhia das flores:
Azaleias, gérberas, amores-perfeitos, margaridas, um florilégio!.
As hortênsias abrem-se neste dezembro de emoção festiva
E, ao lado das irmãs, vivificam com suas cores
A estradinha dos noivos que vão alegres à igrejinha do relógio!

sexta-feira, novembro 27, 2009

FRAGMENTOS DE IDEIAS SOBRE TEMPO, ETERNIDADE E RESSURREIÇÃO

De vez em quando, penso nas noções de tempo e eternidade. Na relação do tempo com a matéria, esta sofre contínua transformação no transcorrer daquele. Essa transformação parece partir da organização para a desorganização, da agregação para a desagregação, da harmonia para o caos. Se considerarmos, inclusive, o pensamento, concluiremos que este também sofre mudança com o passar do tempo. O efeito do tempo sobre a matéria, portanto, é a deterioração, o desgaste, o colapso molecular.

Se algum físico ou biólogo ou teólogo ler esses apontamentos, não repare a minha ignorância. Trata-se de reflexões livres, abertas às correções de quem eventualmente entenda melhor esses assuntos.

Bem, se o tempo traz consigo a decrepitude, e a duração impõe às coisas um prazo de validade, a morte é resultado da passagem do tempo. Diante disso, ponho-me a questão da ressurreição de Jesus e, por extensão, a ressurreição prometida pelo Novo Testamento.

Não há dúvida de que, do ponto de vista natural, a transformação da matéria é uma lei irrevogável. O tempo nada mais é do que mudança, não-permanência. Desse modo, eternidade poderia ser entendida como permanência, não-mudança?

Acredito que a Bíblia judaica (e sua variante, o Antigo Testamento cristão) não conhece, em relação a este universo, a ideia de eternidade. A palavra עוֹלָם ('olam) seria talvez melhor traduzida por "perpetuidade", isto é, a permanência de um costume, de uma lei ou de uma etnia através do tempo pela transmissão ou pela renovação, sempre dentro da realidade humana, que é terrena e finita.

O Novo Testamento, por sua vez, trabalha com a noção de αιων (aion), porém, é claro, utiliza as categorias de tempo e espaço inscritas na linguagem humana. Aqueles que "vivem" ou "reinam para sempre", cantam, suplicam, são elevados da terra ao céu (1Tessalonicenses 4.13-18; Apocalipse 7.9-17; 11.3-14; 22.1-5) - imagens nas quais está incrustada a dimensão da duração.

Todavia, se eternidade for permanência, não-mudança, logo, dentro das categorias deste universo, isso implicaria um congelamento, isto é, ausência de movimento, transformação e, no caso humano, pensamento. Caso eternidade seja o contrário do tempo, não pode haver vida na eternidade. Contudo, caso liguemos o conceito à promessa neotestamentária, restará compreender a eternidade como algo que não faz parte desta realidade e, por conseguinte, não tem nada a ver com movimento, ou tempo, ou espaço, ou sentimento! A metáfora que ouvi certa vez, segundo a qual, quando um passarinho terminasse de levar o último grão de areia da Terra à Lua, seria o começo da eternidade, é completamente inadequada para descrever o conceito. Eternidade e tempo não são noções antitéticas, já que, até onde sabemos, no universo não existe o contrário do tempo, um antitempo. Eternidade não é tempo sem fim. O tempo é a realidade que conhecemos. A eternidade é, em nossa experiência, apenas abstração.

Jesus ressuscitou e tornou-se eterno? Supondo que isso tenha acontecido, não teria sido o caso de um cadáver que voltou à vida nesta realidade. É provável que o túmulo vazio seja uma imagem a indicar que, após a sua morte, Jesus não pertence mais a este mundo. Entretanto, as suas aparições representariam a convicção de que Jesus continua a ser uma presença viva e atuante entre aqueles que crêem nele e, para estes, também no mundo. Na experiência de seus adeptos, Jesus teria se tornado um poder que transcendera a realidade de um defunto numa tumba: "(...) um jovem (...) vestido de branco (...) lhes disse: Não vos atemorizeis; buscais a Jesus, o Nazareno, que foi crucificado; ele ressuscitou, não está mais aqui; vede o lugar onde o tinham posto." (Marcos 16.5, 6)

Não se trata de defender qualquer visão gnóstica. Não estou dizendo que outro morreu em lugar de Jesus. Estou admitindo que o homem Jesus morreu. Também não estou afirmando que um Cristo cósmico desligou-se do ser humano Jesus no momento da morte deste. Assumo o que diz o Novo Testamento: o Crucificado é o Ressuscitado!

Por outro lado, o que aconteceu historicamente com o corpo de Jesus não dá para saber. Deteriorou-se? Caso admitamos a lei incontornável da transformação da matéria, sim. Foi sepultado num túmulo desconhecido? É curioso que a tradição do túmulo vazio foi preservada nos quatro evangelhos canônicos (Mateus 28.1-10; Marcos 16.1-8; Lucas 24.1-12; João 20.1-10). Sim, preservou-se a tradição do túmulo vazio (que não aparece fora dos evangelhos), mas a localização do túmulo, não. Localizar o túmulo de Jesus para verificar se ele realmente não está lá negaria a crença no que Deus fez com ele.

O cadáver de Jesus negaria a fé em sua ressurreição? Se a ressurreição for assumida como evento historicamente literal de revivescência de um cadáver, sim. Se for confessada como esperança acerca da entrada numa forma de existir em relação à qual "as antigas coisas" deste cosmo (o tempo e seus efeitos de mutação sobre a matéria) passaram, não. É como se a imagem da tumba sem o cadáver fosse um sinal da fé: não se procura o Jesus que se crê onde termina a vida humana, já que ele não pode ser detido por aquilo que põe um ponto final à existência dos seres orgânicos. Nem mesmo se deve tentar achá-lo na mente humana, já que a fé não teria sido criada por esta. A fé surge do encontro. A Igreja crê que Jesus, após sua morte, voltou a encontrar-se com seus seguidores. Ele fê-lo (e, na fé, certamente o faz) numa modalidade de existência completamente diferente, que não é deste universo, porém, de algum modo, toca-o.

A ressurreição imortalizou Jesus, por ela Deus fez dele eterno. E, sendo eterno, não é deste mundo, não está no tempo, mas apresenta-se aos seres humanos temporais. Somente seres temporais têm fé. A fé espera por aquilo que será quando tudo mais deixar de ser. Contudo, como será aquilo que a fé espera é um mistério. Tampouco é possível perguntar quando será, já que o tempo, conforme foi dito, não está incluído nesse mistério. A vida, a partir do que sabemos, está ligada ao tempo e à mudança. A eternidade está ligada à fé. A fé espera por Deus, embora o que quer que ele venha a fazer (e como quer que queira fazer) continue desconhecido.


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
A BÍBLIA SAGRADA: ANTIGO E NOVO TESTAMENTO. Traduzida em português por João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada no Brasil. 2. ed. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.