"Então, falando ele estas coisas em sua defesa, Festo disse em alta voz:
Estás louco, Paulo! As muitas letras te levam à insanidade!"
(Atos dos Apóstolos 26.24)

terça-feira, abril 28, 2009

PRECE NUM TEMPLO DE TRIPAS

Jonas 2. 1-11 (1.17 - 2.10)

2.1 (1.17)
[Aa] E então o SENHOR separou um peixe grande
[Ab] para engolir Jonas.
[Ba] Assim, Jonas ficou nas tripas do peixe
[Bb] três dias e três noites.


2.2 (2.1)
[Aa] Então Jonas suplicou
[Ab] ao SENHOR, seu Deus,
[ B ] das tripas do peixe.


2.3 (2.2)

[A] Ele disse:
Desde a minha angústia gritei
para o SENHOR e ele me respondeu.


[B] Desde a barriga do Xeol (o lugar dos mortos) gritei por socorro;
tu ouviste a minha voz.



2.4 (2.3)
[Aa] Então ele me lançou na profundeza, no coração dos mares,
[Ab] e um rio me cercou.

[ B ] Todas as tuas enormes ondas e todos os teus vagalhões
passaram sobre mim.



2.5 (2.4)
[Aa] Aí eu disse:

[Ab] Fui expulso
para longe de teus olhos.

[Ba] Como voltarei a olhar
[Bb] para o templo de tua santidade?


2.6 (2.5)
[Aa] Águas me envolveram até a garganta,
[Ab] um abismo me cercou;
[ B ] uma alga se enroscou em minha cabeça.


2.7 (2.6)
[Aa] Desci aos alicerces das montanhas,

[Ab] à terra
cujas trancas permaneciam atrás de mim
continuamente.


[ B ] Mas tu levantaste a minha vida da cova,
SENHOR, meu Deus.



2.8 (2.7)
[Aa] Ao desfalecer meu fôlego sobre mim,
[Ab] lembrei-me do SENHOR.
[Ba] Então, minha súplica chegou a ti,
[Bb] ao templo de tua santidade.


2.9 (2.8)
[A] Os que se apegam a bafejos de nada
[B] abandonam-se ao favor deles.


2.10 (2.9)
[Aa] Mas eu, com voz de gratidão,
te oferecerei um sacrifício;


[Ab] pagarei o voto que fiz.

[ B ] Ao SENHOR, a salvação.


2.11 (2.10)

[A] Então o SENHOR falou ao peixe
[B] e ele vomitou Jonas na terra seca.

* Tradução a partir da Biblia Hebraica Stuttgartensia





sexta-feira, fevereiro 06, 2009

Incidente em Antares: política brasileira em perspectiva fantástica gauchesca

VERISSIMO, Erico. Incidente em Antares. São Paulo: Círculo do Livro, 1975. 464 p.

A obra está dividida em duas partes, as quais, embora haja continuidade entre elas, diferem no foco. A primeira parte inscreve a cidade fictícia de Antares no cenário político brasileiro desde a primeira metade do século XIX até a década de 1960; a segunda narra o incidente propriamente dito que dá o título à obra.

“Antares”, a primeira parte, com 79 capítulos, prepara o leitor para a narração do incidente na segunda parte. O narrador expõe deste modo o plano de obra:

Melhor será contar primeiro, de maneira tão sucinta e imparcial quanto possível, a história de Antares e de seus habitantes, para que se possa ter uma idéia mais clara do palco, do cenário e principalmente das personagens principais, bem como da comparsaria, desse drama talvez inédito nos anais da espécie humana. (Capítulo 1, p. 10)

É nítida a ironia do fragmento, já que a comparsaria é o elemento fundamental (e nada inédito) de articulação da história, pois dá forma concreta às manobras que vinculam personalidades antarenses de prestígio aos movimentos da política e da economia nacional e sustenta a farsa orquestrada por essas mesmas personalidades a fim de encobrir-lhes as imoralidades denunciadas pelo incidente.

O leitor é inicialmente apresentado às duas principais famílias de Antares, os Vacarianos e os Campolargos, cuja rixa mortal marca a história da cidade até meados da década de 1920, época em que Getúlio Vargas, então deputado federal do Partido Republicano pelo Estado do Rio Grande do Sul, propõe a paz entre elas.

Comunidade da região que abriga os Sete Povos das Missões (São Francisco de Borja, São Nicolau, São Lourenço Mártir, São João Batista, São Miguel Arcanjo, São Luís Gonzaga e Santo Ângelo Custódio), a noroeste do Rio Grande do Sul e próxima à fronteira com a Argentina, Antares – outrora Povinho da Caveira – era “um lugarejo pertencente à comarca de São Borja, [...] formado por uma escassa dúzia de ranchos pobres, perto da barranca do rio” (Capítulo 2, p. 11). Segundo o narrador, a descrição é tomada da obra de um naturalista francês, Gaston Gontran d’Auberville, que cruza o rio Uruguai e chega a esse povoado entre 1830 e 1831. O cientista narra o seu encontro com o proprietário das terras, Francisco Vacariano. Em uma noite, quando o francês lhe mostra a estrela Antares, “Chico” Vacariano – para quem a palavra significaria “lugar onde existem muitas antas” – considera-o um “Bonito nome para um povoado... melhor que Povinho da Caveira” (Capítulo 3, p. 14). Outro documento histórico, fornecido pelo narrador, é uma carta escrita em 1832 por um missionário católico argentino, Padre Juan Bautista Otero, o qual relata ao seu superior como obtivera permissão do dono das terras de Povinho da Caveira, Francisco Bacariano, para fazer casamentos e batizados.

Após situar Francisco Vacariano no contexto da Guerra dos Farrapos (1835 – 1845), em que fazia um jogo duplo entre revolucionários republicanos e tropas imperiais que favorecesse a manutenção de suas terras, e da elevação do Povinho da Caveira a vila em 1853, quando recebe oficialmente o nome de Antares, o narrador conta, no capítulo 6, a origem de sua rivalidade com Anacleto Campolargo, criador de gado que decide comprar terras nas proximidades por volta de 1860. Desse ponto em diante, o leitor é conduzido pelos embates sangrentos entre as duas famílias que atravessam momentos políticos importantes da História do Brasil – a Guerra do Paraguai (1864 – 1870), a assinatura da Lei Áurea (1888), a proclamação da República (1889) e a Revolução Federalista no Rio Grande do Sul (1893 – 1895). As inovações científicas do final do século XIX e princípio do XX – as estradas de ferro, o telefone, a luz elétrica e o automóvel – também servirão de pretexto para as rusgas entre os Vacarianos e os Campolargos.

As boas relações entre os representantes dos dois principais clãs de Antares, após a intervenção do “Homem de São Borja”, ocuparão a maior extensão da primeira parte da obra (do capítulo 24 ao 79), concentradas principalmente em torno do patriarca dos Vacarianos, Tibério, e da matrona dos Campolargos, Quitéria ou Dona Quita. Tanto um como a outra surgem como enérgicos analistas (e ativistas) políticos entre as turbulentas décadas de 1930 e 1960. É importante destacar a perícia com que Veríssimo, ao mesmo tempo que informa o leitor dos eventos marcantes da política brasileira no período – a Era Vargas (1930 – 1945), o governo desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek (1956 – 1961) e a administração, suspeita de comunismo, de Jango Goulart (1961 – 1964) –, tempera a narrativa com as reações das personagens, preocupadas sempre com a defesa de seus interesses de propriedade, perante os rumos que tomava a história nacional. Há tiradas de bastante humor, como esta:

Quando chegou a Antares a notícia de que as Forças Armadas, sob o comando do ministro da Guerra, tinham acabado de dar um golpe de Estado, Tibério Vacariano exultou, saiu para a rua, fez um comício mirim na praça, e bravateou durante o chimarrão das dez. O país estava salvo!

Sua alegria, porém, foi de curta duração, pois em breve se esclareceu que a finalidade daquele movimento militar fora a de garantir a posse dos candidatos eleitos [Juscelino Kubitschek como presidente da República e João Goulart, seu vice]. Tratava-se, em suma – alegavam os seus autores –, dum “golpe preventivo”.

Ao saber disso, Tibério soltou um palavrão, entrou no seu jipe e tocou para a estância, onde passou o verão inteiro no convívio das vacas que – segundo ele próprio agora dizia – lhe mereciam mais confiança que os políticos e os generais. (Capítulo 48, p. 97)


O capítulo 59 encerra com o fracasso de uma experiência parlamentar de 16 meses no Brasil e o retorno dos poderes presidenciais às mãos de Jango. O capítulo 60 introduz o episódio final da primeira parte, que dará ocasião ao narrador para responder a seguinte pergunta: “Que tipo de cidade era Antares e que espécie de gente a habitava e governava ao tempo em que ocorreu o macabro incidente que em breve se vai narrar?” (p. 124) Trata-se de uma pesquisa sociológica sobre o município gaúcho realizada pelo Prof. Martim Francisco Terra, da Universidade do Rio Grande do Sul, e um grupo de estudantes, entre os quais estava Xisto, neto de Tibério Vacariano.

Em diálogo com o Prof. Terra sobre a reação desfavorável dos antarenses ao resultado do estudo, o livro “Anatomia de uma cidade gaúcha de fronteira”, Xisto se refere a um diário que seu mestre mantivera durante as atividades de campo na cidade, de cujos determinados trechos o narrador se serve, já que “[...] menciona ou comenta pessoas e lugares que viriam a ser envolvidos no controvertido 'incidente' de 13 de dezembro de 1963 [...]” (Capítulo 69, p. 146): Tibério Vacariano e Quitéria Campolargo, esta última presidente dos Legionários da Cruz, uma sociedade organizada para lutar contra o “esquerdismo” de Jango e Leonel Brizola e em prol da religião e da moral; a Praça da República e a Rua Voluntários da Pátria; os médicos rivais, Dr. Lázaro Bertioga e Dr. Erwin Falkenburg; o major Vivaldino Brazão, prefeito de Antares e “orquidófilo” amador; Lucas Faia (ou Lucas Lesma), diretor do jornal local, A Verdade, e seus acessores: o Ferreirinha e o Vitório Natal, o colunista social; Dominique, a mulata haitiana que “recebia santo”, mulher do gerente da Cia. Franco-Brasileira de Lãs, M. Duplessis; o maestro fracassado Menandro Olinda; o Padre Gerôncio, vigário da igreja matriz; o Prof. Libindo Olivares, diretor do Ginásio Nacional, que alegava manter correspondência com celebridades mundiais – Jean-Paul Sartre, João XXIII, François Mauriac e Marcel Proust – e recebia em sua casa quase todas as noites os seus “efebos” (seu nome sugere um divertido trocadilho com a palavra “libido”); e o Padre Pedro-Paulo, capelão da Vila Operária e adepto de um “[...] cristianismo militante e não apenas teórico, 'simpatizante'” (Capítulo 79, p. 183), desse modo, talvez, uma figura que aludisse à Teologia da Libertação, tipicamente latino-americana, que começava a florescer nesse período.

A segunda parte da obra, composta em 102 capítulos, tem início com a greve geral dos trabalhadores da indústria, do comércio, dos transportes e da energia elétrica em 11 de dezembro. Nesse mesma data, seis pessoas morrem, entre elas Dona Quitéria, vítima de um ataque cardíaco. Saindo do velório da matriarca dos Campolargos, o Dr. Cícero Branco, advogado, tomba em decorrência de um derrame cerebral.

Os grevistas, tendo à frente o líder operário Geminiano Ramos, interditam o cemitério local e impedem o sepultamento dos sete mortos, cujos caixões com seus corpos são deixados junto ao muro. Na noite de quinta para sexta-feira, os defuntos saem de seus esquifes e deliberam entre si descer até a Praça da República e exigir o enterro, sob ameaça de permanecer apodrecendo no coreto. Na manhã da sexta-feira 13, Dona Quitéria Campolargo, o Dr. Cícero Branco e os outros cinco mortos – o sapateiro “Barcelona”, o maestro Menandro Olinda, o jovem João Paz, a prostituta Erotildes e o ébrio “Pudim de Cachaça” – seguem para Antares e, entre sustos, visitas a pessoas conhecidas, advertências e intimações, defrontam-se com os representantes do poder público e rural e o povo da cidade ao meio-dia.

Percebendo que sua reivindicação não será atendida, os cadáveres, cujo aspecto nauseante o narrador vem descrevendo com uma crueza de impressionar, vociferam insultos e acusações contra os seus interlocutores – hipocrisia, peculato, abuso de poder, tortura, assassinato, adultério, fraude de laudo médico, pederastia –, provocando em alguns comoção e mal-estar, além de brigas e separações de vários casais.

Uma infestação de ratos e a suspeita de contaminação da água causam ainda mais pânico na população, carregando nas cores apocalípticas o pano de fundo para a lavagem de roupa suja que as famílias começam a fazer.

Ao raiar do sábado, Tranqüilino de Almeida, chefe dos guardas aduaneiros, e um grupo de quinze ou vinte homens atacam cadáveres e urubus a tiros, garrafas, pedaços de madeiras e tijolos. Acatando, então, uma proposta do Dr. Cícero Branco, os mortos voltam aos seus caixões. A assembléia geral do sindicato dos industriários aprovara na noite anterior suspender o cerco ao cemitério, razão pela qual os sepultamentos puderam ser feitos.

O livro termina com as autoridades de Antares desmentindo o ocorrido perante equipes da imprensa de Porto Alegre que vão até lá investigar e promovendo eventos para restabelecer a honra dos cidadãos que tiveram a sua reputação manchada pelas denúncias dos defuntos. A cena final da criança tentando ler a palavra “Liberdade”, um “palavrão” pichado num muro por um estudante, que os empregados da Prefeitura se apressavam para apagar, sugere que, ao contrário dos sete mortos, a podridão da impunidade insistia em permanecer insepulta em Antares.

“Incidente em Antares” demonstra a maestria com que Erico Verissimo, gaúcho de Cruz Alta, no interior do Rio Grande do Sul, domina não só a arte de escrever, mas também uma variedade de campos de conhecimento, desde a História do Brasil e do Mundo, a literatura da Bíblia e a fascinante tradição cultural, bem como o imaginário mitológico, do Rio Grande do Sul - menciona-se, por exemplo, no capítulo 6, a lenda da Salamanca do Jarau.* Desse modo, torna-se plausível considerar a obra, publicada em 1971, uma representante do realismo fantástico, tendência literária surgida no século XX como forma de reação às ditaduras implantadas em países da América Latina durante as décadas de 1960 e 1970. É uma leitura agradável e instrutiva, pela qual a Abril Cultural deve ser parabenizada ao fornecer aos leitores essa publicação.

Ruben Marcelino Bento da Silva
*Leia a lenda da Salamanca do Jarau:

quarta-feira, janeiro 28, 2009

Molequinha: amo você!


Minha Molequinha morreu hoje. Lamento não ter podido vê-la. Lamento a brevidade da vida. Embora grato por ter sido um animalzinho tão alegre e especial, que ofereceu à minha família tantas felicidades, e havermos recebido a honra de vê-la nascer e cuidar dela, lamento o fato de nossa gatinha não mais viver. Só posso me calar e aceitar.

Não sei se há vida após a morte para os animais. Se há, o Criador deve ter ficado muito feliz porque agora poderá brincar com a Molequinha. E há de sorrir ainda mais quando chegar a hora de brincarmos todos juntos: Molequinha, minha família e o SENHOR. Eu queria tanto acreditar! Eu queria tanto encontrar a minha Molequinha de novo um dia!

"Então louvei eu a alegria, porquanto para o homem nada há melhor debaixo do sol do que alegrar-se" (Eclesiastes 8.15)*
Notícia enviada por minha mãe sobre a Molequinha:
Ruben, a Nên morreu ontem às 18h30. Enviei duas msgs p o celular da Carla, vc viu? Hoje o seu pai levou-a à Mangueira para ser cremada. Chorei muito e estou morrendo de saudades dela, apesar de saber que ela agora não sofre mais. Até o final ela queria ficar comigo; nunca perdeu a fome, só não conseguia comer muito. Ontem sua última refeição foi um danoninho (é claro que comeu só um pouquinho!). Logo depois começou a passar mal e morreu na minha mão. A Brenda foi vê-la assim que ela morreu e ficou com uma cara de espanto. Acho que eles sabem o que está acontecendo.
* Almeida Corrigida e Revisada Fiel. Apud. http://www.bibliaonline.com.br/

terça-feira, janeiro 27, 2009

Da morte

Recebo ultimamente notícias de que uma gatinha que nasceu na casa de minha família está perto de morrer. Ela viveu cerca de 17 anos conosco, mas já vai partindo... Para alguns, isso eventualmente não terá a menor importância. Afinal de contas, diriam, é só uma gata. Isso sem contar que o gato há muito é bastante estigmatizado: dá azar, está relacionado à feitiçaria, não gosta de pessoas e outras idiotices do gênero. Todavia, quando se vive muitos anos com um animal de estimação, pode-se sofrer a sua morte tanto quanto a de um parente. Os gatos também amam. O seu amor e presença fazem falta para aqueles que com eles conviveram.

Agora ela vai embora e eu fico desconcertado. Novamente, a morte se impõe, tão certa quanto a vida. E como a gente não pede para nascer, também não pode evitar morrer. Só que, enquanto a vida é uma possibilidade (eu, como todo mundo, nasci por vontade alheia e, pela mesma vontade, poderia não ter nascido), a morte é um evento indubitável. Para morrer, basta estar vivo, dizia a minha avó Lucy, Érico Veríssimo e Machado de Assis. E os três já foram...

Por que a gente tem que morrer? No âmbito da biologia, a morte é perfeitamente natural e necessária para a sobrevivência das espécies e a manutenção do equilíbrio ambiental. No campo da física, ela é estabelecida pelas leis que regem a transformação da matéria. Na exegese bíblica (e aqui há muita discordância), ela pode ser o salário do pecado, mas também uma condição que acompanha o homem desde o seu surgimento. Nos mitos da criação e da trangressão em Gênesis (2 e 3), morrer não parece tanto a conseqüência de uma ação moral que provocou a decadência de seres outrora imortais e perfeitos, porém a pena capital para a desobediência ao mandamento do SENHOR Deus, uma antecipação de algo que naturalmente viria a acontecer, semelhante à pena de morte aplicada por alguns países a certos condenados pela justiça. Não acredito que um dia humanos, animais e plantas foram imortais. O texto sugeriria, na minha opinião, que morrer faz parte da vida desde que o mundo é mundo. O mais importante, contudo: nossas ações podem apressar a nossa morte e, mais do que numa morte por inconseqüência, Deus estaria interessado em que os seres humanos vivam e promovam a vida. Do contrário, não teria deixado de aplicar a pena capital, poupando o homem e Eva.

Aqui no Sul do Brasil, venho tendo a oportunidade de visitar alguns cemitérios. Eu já fazia isso em minha infância e adolescência lá em Rio Pomba, acompanhado de meu primo Marcos. Recentemente, acompanhei a Carla e o pastor de sua comunidade em um sepultamento num local parecido com o Jardim da Saudade no Rio. Voltei lá com ela outro dia e observávamos as placas para marcar as sepulturas na terra, os nomes e as fotografias que expunham. Estivemos por duas vezes em um outro cemitério que fica no terreno atrás de um templo cristão católico. Após a primeira vez, que foi à noite, comentava com a Carla uma idéia que tive. É possível que o medo causado por esse ambiente em tantas pessoas, seja um temor de almas do outro mundo, seja um mal-estar sem muita explicação, tenha a sua origem na consciência de que a morte é um caminho do qual não há desvio. O cemitério nos provoca pavor porque ali se revela a nossa transitoriedade. Morremos sempre porque mudamos a todo tempo. E, um dia, o tempo deixará de existir para nós, visto que passaremos pela última mudança: de vivos para mortos. Os fantasmas nos dão calafrios porque não queremos sê-los, intangíveis, gélidos, solitários, sem rumo, sem mundo, sem vida... O Qohélet, entretanto, é categórico: "É para a sepultura que tu vais" (Eclesiastes 9.10).

Não sei por que temos que morrer. É claro que a expressão "ter que" é metafísica. Do ponto de vista natural, não se trata de um "ter que", porém de um "quando" e um "como". De qualquer modo, a questão ontológica permanece: por que ser e não-ser? Mais teologicamente (cristão): Por que o Criador criou seres que morrem? Por que a separação definitiva e o sofrimento decorrente dela? (Minha mãe acaba de me dizer, via MSN, que uma senhora conhecida nossa de muitos anos faleceu ontem) Por que a dor, a saudade, apenas a lembrança? Na certa, quando o Quarto Evangelho diz que Jesus chorou a morte do amigo Lázaro (João 11.35), não há ali um teatro. "Por que chorou se iria ressuscitá-lo", perguntaríamos. Acredito que a narrativa queira sugerir que o leitor enfrente o fato da morte com a esperança da fé. É possível que para o próprio Jesus a morte fosse mais concreta do que supomos e um verdadeiro desafio à sua mensagem da chegada do Reinado de Deus. De que modo ele procede então? Vive o luto e, solidário àqueles que choravam, assume a esperança de que o Pai trará de volta o querido. Não vou dizer que é fácil acreditar nisso (Marta que o diga!), mais difícil, talvez, seja se conformar com a morte.

Será que a saída é cultivar as boas lembranças dos momentos que passamos com aqueles que se foram? E aproveitar a vida enquanto ainda estamos entre as pessoas, e os animais, e as naturezas que amamos? E duvidar, perguntar, discutir, pensar, repensar?

Por que a morte?

Para Molequinha

terça-feira, dezembro 02, 2008

Theology in Peanuts

Fonte: www.trincoll.edu/depts/csrpl/images/Peanuts.gif

segunda-feira, novembro 03, 2008

Karen Carpenter

Enquanto almoçava, após as aulas da manhã, tive o prazer de ouvir, pela rádio sintonizada na pensão, "Close to you", da saudosa dupla "The Carpenters". Logo pensei em Karen, de quem minha mãe me falava quando era menino. Lamentavelmente, a bela e talentosa Karen Carpenter fora vítima de anorexia nervosa, vindo a falecer em 04 de fevereiro de 1983, com apenas 32 anos.
A melodia doce da composição me abençoava, levando-me também a um estranhamento: um dia todos nós não seremos mais que uma voz gravada ou um texto escrito ou uma lembrança no coração de alguém. Ainda que as ondas sonoras que emitimos viajem eternamente pela imensidão do universo, nossas expressões escritas atravessem os séculos, as nossas biografias sejam divulgadas pelas bocas das pessoas, será apenas nessas coisas que estaremos.
Restavam-me alguns minutos antes da aula da tarde e fui pesquisar a letra da música. Uma das estrofes diz:
Why do stars fall down from the sky
Every time you walk by?
Just like me, they long to be
Close to you
A tradução é a seguinte:
Por que as estrelas descem do céu
Toda vez que você passeia?
Assim como eu, elas querem estar
Perto de você
Na letra de Karen, as estrelas descem do céu e uma pessoa caminha sobre a terra. Ela é considerada especial por uma outra que perto dela quer estar. É como se a maviosa voz de New Haven profetizasse que as estrelas e nós, outrora poeira cósmica, queremos mais: desejamos ser e ser uns para os outros. Karen não voltou a ser poeira: tornou-se música que adverte contra a indiferença que nos aliena de nós mesmos, dos outros, das estrelas, dos pássaros, das flores.
"Close to you" é um magnífico e atualíssimo capítulo do Evangelho de Karen Carpenter.
Curiosamente, 32 anos é a idade que tenho.

domingo, novembro 02, 2008

Falar sobre Deus

Ao falar sobre Deus, estranho.
Este signo que uso, Deus,
É coisa que muda como muda tudo.
A gente muda, muda o deus da gente,
Ainda que haja muita gente dizendo haver sempre um só.
Deus, palavrinha que fala sobretudo de mim,
Da minha esperança que o Ser nunca se extingua
E os seres continuem a viver nele.
Todavia, se o Ser é o Deus do meu dizer
Permanecerei sem saber.
Minha teologia, com sua palavra Deus, é possível que toque o Ser.
O mais importante, porém, é que toque os seres.
O Ser permanecerá, a minha teologia e os seres passarão.
Que a minha teologia preserve os seres enquanto durarem
E eles sejam a sua inspiração o tempo que eu durar.
Desse modo, possa eu falar de fé, esperança, caridade e Deus.
Mas ainda me é estranho falar sobre Deus.

terça-feira, setembro 30, 2008

Hermenêutica

Após a morte só há o leitor.
Não há mais pranto, nem dor,
Nem mesmo do meu sentido a cor,
Pois o texto matou o autor.

Anseio abolicionista

Olho para esta Princesa Isabel
Em relevo prata na moeda de 1 Real.
E pergunto com o olhar no vil metal
Por que ser escravo do monetário papel.

segunda-feira, setembro 29, 2008

As mulas

Vejam só esta moda que se espalha geral:
As pessoas agora dão coices como mulas.
E como as mulas ruminando capim,
Deliciam-se fazendo assim,
Regurgitando palavras chulas.
Muito fashion: o mundo ficar que nem um curral!

domingo, setembro 28, 2008

Minha cabeça!

O caminho

Jesus andava pelo campo e pela cidade
E curava, disseram depois,
Para mostrar o único caminho da salvação.
Se, continuam a dizê-lo, ignorá-lo é a perdição,
Seus bons milagres revelaram, pois,
À gente [des]encaminhada
Da humanidade pluralizada
Que o inferno é a única verdade?

Para Carla Saueressig

terça-feira, setembro 16, 2008

Condição

Meio dia e trinta;
É cedo ainda.
Vou indo [saborear],
Sob chuva e sina,
[Antes de] competir
E recrear
A orgulhosa mediocridade moderna de produzir[,]
Uma saborosa massa fina.

quinta-feira, julho 31, 2008

Escatologia realizada no Rio Grande do Sul

Os dias têm sido muito felizes, estes que venho passando ao lado da Carla. Visito o Rio Grande do Sul pela primeira vez. O frio está intenso (para alguém acostumado ao clima do Rio de Janeiro), porém o acolhimento da família de minha namorada não me deixa congelar. Instantes grandemente significativos, com muita alegria e chimarrão!

Lembrei que hoje é o último dia do mês, razão pela qual não poderia deixar de escrever, e a ocasião é das mais propícias. Carla e eu passeamos, rimos muito (ela acaba de comentar algumas gafes minhas, caindo na gargalhada), debatemos várias questões teológicas com muita imaginação e toques de ironia. Conhecer sua família e amigos neste belo lugar me faz pensar que, se somos nós que damos sentido à vida, este pode ser um dos bons. Já que somos cristãos, os dias que passo aqui, marcados pelo carinho do Sr. Ilmo, da Dona Marlize e da sua filha, representam uma realização existencial bem nítida do reinado de Deus. Tive ainda o prazer de conhecer a outra irmã da Carla, Rose, o esposo dela, Hamilton, e o filho deles, Jessé. Nos sinóticos, Jesus fala da escatologia em termos de um banquete familiar: sentar-se à mesa com Abraão, Isaque e Jacó no reinado de Deus. Carla e os seus concretizam essa escatologia. Isso sem falar em outras pessoas ligadas a eles a quem fui apresentado. Refiro-me a uma grande amiga de infância da Carla, a Marlova. Juntamente com seus pais, Sr. Ivar e Sra. Helmi, recebeu-me com muita amabilidade em sua casa. Rimos, conversamos, ceamos: nada diferente do que Jesus proporcionava aos que atendiam ao seu convite a uma vida de pregação itinerante e caridade.

Até agora fico impressionado com as coisas que a Carla fez para possibilitar que eu estivesse aqui, já que não tirei férias do meu estágio. Para poder ficar esses dias em Novo Hamburgo, precisava de acesso à internet em horários complicados, dificilmente oferecidos por lan houses. Ela conseguiu esses horários... em uma lan house! E não foi só isso: o frio e a chuva não a impediram de me acompanhar nos plantões, mesmo nas horas mais impensáveis! E se vocês pudessem experimentar o olhar terno e sereno dela...

Vai ser duro partir...

Para Carla Saueressig, família e amigos

quinta-feira, julho 24, 2008

Não adianta!

Não adianta tentarem me convencer do contrário! Qualquer pessoa, de qualquer idade, em qualquer lugar, seja adepta da religião que for (ou não tenha religião nenhuma e não creia em divindade alguma), que use de misericórdia e amor para com outro ser vivo - gente, animal ou planta - anuncia com as suas ações a presença do reinado de Deus. E Deus reconhecerá esses gestos diante de todos. Eu acredito nisso!

sexta-feira, julho 18, 2008

Disse

Faz algum tempo tenho tentado me convencer de que por mim já não há mais nada para ser dito. Quando pessoas me contam suas experiências, suas esperanças, suas crenças, ajo melhor (venho acreditando) ao ficar calado. O que move o ser humano me assusta, embora eu jamais saiba o que é. Não sei ao certo, porém acho que em uns e outros momentos quis negar isso. Negar que a energia está em todas as pessoas, de igual modo o gatilho que a põe em ação. Não se trata de ser abençoado ou não, de receber algo de fora ou não, de uma questão de adquirir isso ou aquilo, de herdar ou transmitir isso ou aquilo. A força com que o ser humano vive é a mesma que faz de quaisquer outros seres vivos batalhadores incansáveis em prol da existência de si mesmos e da perpetuação da própria espécie. Há, no entanto, em toda a constituição humana algo que ela mesma é e nunca pode deixar de ser: vontade! Esteja são ou doente, seja rico ou pobre, escravo ou pessoa livre (?), cada representante da humanidade não pode fugir da escolha.

O que é a fé? Acreditar? Em quê? Que um morto saiu vivo do túmulo? Onde reside a importância de uma coisa como essa? Da mesma maneira, qual o valor de pensar que botos viram rapazes para seduzir moças em arraiais, ou que o Anticristo já esteja entre nós, ou que Deus dará o pão amanhã, ainda que hoje não tenhamos um centavo no bolso? Sejam tais coisas possíveis ou impossíveis, a cada dia as pessoas se lançam e são lançadas em novas situações que as porão mais uma vez sob teste. A provação de ontem foi portentosa, mas ela se foi com o ontem, como folhas secas se vão ao soprar a ventania. Nossa decisão perante aquela situação também desapareceu, sendo nós chamados a decidir de novo. Decidir é tal qual avançar contra um precipício esperando encontrar uma ponte ou recuar para um terreno mais seguro. Uma e outra coisa não duram muito, pois para qualquer direção que nos dirijamos encontraremos o abismo novamente como se nunca houvéssemos prosseguido e milagrosamente (persistentemente?) encontrado (construído?) uma ponte ou então tornado atrás.

Há alguma certeza na fé? Racionalmente nenhuma. Ir atrás daquilo que não pode (e talvez nunca possa) ser visto, seja um reinado nos céus ou um paraíso na terra: pode haver alguma racionalidade nisso? A única razão que existe na fé é a razão da escolha. De uma maneira ou outra, sempre sabemos que temos que decidir. E por mais irracional que possa ser aquilo de que vamos atrás, não vamos porque nos mandaram, mas porque queremos. Não há certeza alguma na fé. O que há é a vontade. Quem quer crê, com ou sem comprovação, pois a comprovação de hoje se desfará perante o desafio de amanhã. Quem não quer não crê, com ou sem demonstração, pois esta semelhantemente o vento vai levar.

Em que você crê? Por que crê? Deram-lhe (ou você mesmo se deu) alguma certeza? Se está certo do que crê, você perdeu a fé faz muito tempo! Se a fé fosse certeza, ela não esperaria mais nada neste mundo, uma vez que, geração após geração, as pessoas são obrigadas a admitir que tudo (inclusive elas mesmas, por mais que se coloquem no centro do universo) está destinado a desaparecer. Se quisermos ser cientificamente corretos e respeitar o princípio da conservação da matéria e da energia: tudo inevitavelmente é transformado em outra coisa. Os dinossauros dominaram o planeta por milhões de anos. Onde eles estão? Viraram pedra. O que resta dos grandes impérios da antiguidade? Apenas pedaços do que já foram e cada um desses pedaços não pode responder por essas civilizações, visto que elas já foram varridas pelo tempo e seu significado morreu com elas. Tornaram-se bibelôs em exposições ou sítios arqueológicos ao redor do mundo.

Se a sua fé é fabricada de certezas, deixe-me lhe dizer que está construindo um castelo sobre areia. Por melhor que pareça o seu projeto, as condições do terreno é que vão determinar a durabilidade dele. De pó, terra, matéria somos todos feitos. Em atitude reverente perante essa condição, de inevitável transitoriedade (que nada mais é do que mutabilidade), de incômoda imprevisibilidade e de incontornável pluralidade, é que entenderemos que viver é escolher. E toda a escolha é um risco. Risco de alcançar ou de nunca encontrar o que se busca.

Qual é a vantagem, portanto, de crer em Deus ou negá-lo? De acreditar em si e trabalhar duro ou cruzar os braços e ficar lamentando a própria miséria? Enquanto quisermos ter a certeza de que Deus existe e nos receberá no seu reino após a morte, levaremos chapuletadas da vida que cedo ou tarde minarão essa certeza. E chegaremos perante o vazio que precede a escolha como sempre acontece, mas sem referência. O referencial nunca deveria ter sido Deus como certeza, porém unicamente esperança. Você nunca vai saber se Deus existe ou não, nunca vai saber em que o seu potencial vai dar, a menos que arrisque, admitindo vislumbrar no horizonte da sua visão apenas a si mesmo e deixando o coração apenas esperar por alguém que não o deixará só. Todavia, ainda que encontre Deus, você terá que procurá-lo sempre novamente, já que uma vez mais parecerá que ele não está lá. Fé é viver sem ter que constranger Deus a coisa alguma. É encontrá-lo sabendo que se vai perdê-lo novamente. É não querermos que ele nos pertença, no entanto oferecê-lo ao mundo transfigurado em corpos e paixões nossos. Quando deixamos Deus desaparecer, a fim de que tornemos a procurá-lo, ganhamos a nós mesmos. Confiar em Deus não é ter certeza da sua existência, mas arriscar ser tudo o que podemos ser, não porque isso vai nos levar a algum lugar, mas porque queremos chegar a algum lugar, ainda que nunca cheguemos ou saibamos se vamos chegar.

Deus não é certeza, só esperança. E a vida só dá uma certeza: você só pode escolher.

Arrebentem...

quinta-feira, julho 10, 2008

Mágoa

Insuportável dor
É a que dói no peito!
Será o coração?
Mais que um músculo denotativo
É o sentimento
Este, sim, asfixiado!

segunda-feira, julho 07, 2008

Geração 21

RESPEITO
RITO
ESPERO
SER
RETO
TER
PEITO
TORPES
TIRO
ESPETO
RIO
PISO
ESTRIPO
ESTIRO
TIPO
RESTO
POSE
PORTE
OPTEI
ESPREITO
REPITO

terça-feira, julho 01, 2008

Ternura à distância

Se nesta minha vida breve
Amo-te sem que estejas ao meu lado,
O teu amor
Que é intenso ainda que eu não esteja em ti
Dá-me a certeza de que a distância inimiga que nos separa
Não poderá reunir contra nós
Forças capazes de enfraquecer
O anseio desses amores distantes e predestinados
De se interpenetrarem e gozarem deliciosamente
O prazer perpétuo da ternura
Que os tornará para sempre um só.

Para Carla Saueressig
Em 26 de maio de 2008

segunda-feira, junho 23, 2008

2º Soneto

ESPIRITUALIDADE

Ó coração, por que desobedeces
E do meu comando não fazes caso com astúcia
Para me afligires com insuportável angústia
Ignorando-me as tristezas, e as dores, e as preces?

O peito arde, pois, com minúcia,
Um verdugo acusa-me e diz: “Mereces!
De lentidões e inoperâncias te entorpeces!
Méritos de condenados barganhas sem renúncia!”

Uma perfeição fria o crepúsculo vaticina da esperança
No mundo dos vencedores, da escolha fracassada
Opção pela poesia, nau dos que desistiram da bonança

Ó Mãe Celeste, por que te ocultas da alma atormentada
Distante, Espírito Todo-Poderoso, desta reles brisa sem confiança
A descrer da vida e de por ti incondicionalmente amada?