"Então, falando ele estas coisas em sua defesa, Festo disse em alta voz:
Estás louco, Paulo! As muitas letras te levam à insanidade!"
(Atos dos Apóstolos 26.24)

segunda-feira, junho 23, 2008

2º Soneto

ESPIRITUALIDADE

Ó coração, por que desobedeces
E do meu comando não fazes caso com astúcia
Para me afligires com insuportável angústia
Ignorando-me as tristezas, e as dores, e as preces?

O peito arde, pois, com minúcia,
Um verdugo acusa-me e diz: “Mereces!
De lentidões e inoperâncias te entorpeces!
Méritos de condenados barganhas sem renúncia!”

Uma perfeição fria o crepúsculo vaticina da esperança
No mundo dos vencedores, da escolha fracassada
Opção pela poesia, nau dos que desistiram da bonança

Ó Mãe Celeste, por que te ocultas da alma atormentada
Distante, Espírito Todo-Poderoso, desta reles brisa sem confiança
A descrer da vida e de por ti incondicionalmente amada?

quinta-feira, junho 12, 2008

1º Soneto

CARLA

Dos lábios encanta o sorriso
Por entre o brilho dourado dos cabelos
Histórias ardentes, fascinam os anelos
Do coração pequeno de um menino sem riso

As madeixas de longos e delicados fios amarelos
Velam pensamentos profundos de muito siso
Logo revelados quais sons de um guizo
Agitado de sonhos esmeraldas escritos em olhos singelos

Que ela não esconda deste pobre a doçura
Irreprimível do colo alvo e saboroso
Da solidão abandonando-o à loucura

Apenas ame ainda que moroso
Do infeliz o coração que lhe carece a cura
E ele adormeça esperando o amanhã ditoso
Para Carla Saueressig

segunda-feira, junho 02, 2008

Nostalgia

Não sei dizer o que é a felicidade.
Todavia estou certo de que a sentia
quando tomava café com leite
nas manhãs e tardes que passava
em casa de meus avós lá por Minas.
Parece que a felicidade
já carrega em si a sua própria antítese contudo,
pois esses tempos se foram
para nunca mais voltar.

sexta-feira, maio 30, 2008

Angústia

Chove no Rio.
E eu não tenho um raio no relógio de uma torre
Que me envie para o infinito,
A fim de que eu possa compreender tudo.

quarta-feira, maio 14, 2008

Bento e Romano

Bento: - Já imaginou como seria se Deus fosse uma mulher?

Romano: - "Deus não é um humano para que minta, nem um filho de humano para que volte atrás!"

Bento: - Essa sua cultura bíblica acaba com qualquer romantismo...

domingo, abril 20, 2008

Jesus é ou representa a verdade?

Não sei no momento, sinceramente. Há uma diferença entre dizer que Jesus é a verdade e representa a verdade.

O que se quer expressar é que Jesus é o crivo da verdade quando se diz que ele é a verdade. Jesus é o paradigma na solução do problema da existência humana no mundo se é certo que a religião se ocupa dessa matéria, como a filosofia, embora em outra perspectiva. Nenhuma verdade sobre o ser humano é consistente se não passa na avaliação das palavras que se atribuem a Jesus, acompanhadas dos testemunhos que se dão a respeito dele na literatura do Novo Testamento pois. Cabem duas perguntas sobre essa possibilidade de interpretação da figura de Jesus entre muitas outras: 1) Os testemunhos do Novo Testamento referentes a Jesus necessariamente coincidem com a percepção que ele tinha de si próprio? 2) As palavras e ensinamentos de Jesus poderiam sintetizar definitiva e exclusivamente todas as possibilidades de realização histórica e existencial da vida humana, sendo ele mesmo homem, submetido aos limites de percepção da realidade característicos da condição dos humanos portanto?

A verdade se expressa de muitas maneiras, em vários lugares e tempos, através de várias pessoas, concorrendo para a perpetuação da vida, em geral, e da existência humana, em particular, conquanto inalcançável uniformemente, se Jesus a representa por outro lado. Ele seria um divulgador da verdade, mas sem a reduzir ou monopolizar. Buda, Mohammed, Moisés, Lao-Tsé, Sócrates, filósofos, poetas, romancistas, cientistas, anciãos de tribos indígenas ao redor do mundo seriam todos divulgadores da verdade em sua pluralidade e historicidade. A verdade seria reconhecida naquilo que promovesse a vida em todas as suas formas, já que a vida é tudo o que temos concretamente. Duas perguntas podem ser feitas aqui: 1) A preservação da vida constituiria o critério mais elevado acerca da verdade? 2) A pluralidade dá conta da busca do ser humano pelo fundamento último do seu ser?

Passo a bola...

terça-feira, fevereiro 19, 2008

Rascunho de uma história dos cânones das Bíblias judaica e cristã

Há, pelo menos, duas edições da Bíblia atualmente: a Bíblia judaica e a Bíblia cristã. A respeito desta última, falaremos basicamente de duas edições, a católica e a protestante.

Vamos começar com a Bíblia judaica. Ela coincide, em número de livros, com o Antigo (ou Primeiro) Testamento da edição protestante da Bíblia cristã. Do ponto de vista hermenêutico, entretanto, a sua orientação visa, provavelmente, à reverência à Torá (os primeiros cinco livros) como revelação suprema, da qual as demais partes seriam comentários. Mas como estão organizados os livros da Bíblia judaica? Em Torá (palavra que significa "instrução"), Profetas e Escritos.

Da Torá fazem parte Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. Dos Profetas, os chamados Anteriores - Josué, Juízes, 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis - e os Posteriores - Isaías, Jeremias, Ezequiel, Oséias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias. Integram os Escritos: Salmos, Jó, Provérbios, Rute, Cânticos dos Cânticos, Eclesiastes, Lamentações, Ester, Daniel, Esdras, Neemias, 1 e 2 Crônicas. Passagens que introduzem e concluem estes dois últimos grandes blocos (os Profetas e os Escritos) sublinhariam a relevância da Torá atribuída a Moisés como fundamento da religião judaica (p. ex.: Deuteronômio 34.7-12; Josué 1.7-8; Isaías 2.1-5; Malaquias 4.4; Salmo 1.1-2).

Essa divisão tríplice dos livros sagrados do judaísmo parece já ser conhecida no século II a.C. No prólogo do livro Eclesiástico (ou Sirácida), o qual data dessa época, encontra-se a expressão "a Lei, os Profetas e os outros escritores". Já no Evangelho de Lucas, que deve ter sido escrito pouco depois da década de 70 do século I d.C., fala-se de "a Lei de Moisés, os Profetas e os Salmos" (Lucas 24.44). Parece, contudo, que, antes do ano 70 do século I d.C., ainda não havia um único conjunto de livros sagrados entre as populações semitas da Palestina que fosse devidamente reconhecido e aceito por todos. Os diferentes grupos religiosos possuíam os livros de sua predileção. Os samaritanos aceitavam apenas os cinco livros de Moisés (cujo texto, nos manuscritos disponíveis, difere em alguns casos dos manuscritos hebraicos que serviram de base para as edições modernas). É provável que os saduceus aceitassem os livros que hoje fazem parte do cânon, dando maior relevância à Torá, isto é, aos cinco livros de Moisés. Os fariseus decerto aceitavam todos os livros incluídos atualmente no cânon, à exceção de Ester e Eclesiastes possivelmente. Esse grupo possuía, entretanto, um conceito de autoridade que envolvia a Torá escrita e a Torá oral, sendo esta última a coletânea das interpretações jurídicas e religiosas realizadas sobre a Torá escrita.

A biblioteca dos essênios, encontrada nas proximidades do Mar Morto, em Qumran, possuía cópias em maior ou menor número de todos os livros que hoje constam do cânon (à exceção de Ester). De igual modo, produziram comentários de alguns deles, tais como Isaías e Salmos. Os dados poderiam sugerir que os essênios atribuíam maior importância à Torá e aos Profetas. Só para constar: foram encontradas cópias de outros livros, por exemplo, o Eclesiástico (Sirácida).

Entre os judeus que viviam em terras gregas, por exemplo, em Alexandria, no Egito, certamente eram aceitos todos os livros do cânon de hoje, além de outros, como os livros dos Macabeus, do Eclesiástico e da Sabedoria de Salomão, embora isso provavelmente não fosse unânime. É preciso considerar também a recepção de acréscimos de material feitos em alguns livros, por exemplo, Ester e Daniel.

As distintas comunidades cristãs aceitavam os mesmos livros básicos do cânon judaico atual e certamente usavam mais alguns, pois não havia a concepção de um cânon fechado ainda. Podemos encontrar referências a alguns desses outros livros em citações do Novo Testamento: por exemplo, Judas 14-15 (citação extraída do 1º Livro de Enoque, conhecido também como Enoque etíope).

Após a devastação de Jerusalém pelos romanos no ano 70 do século I d.C., o sínodo realizado pelos fariseus na cidade de Yavné, na região costeira norte da Palestina, por volta do final da década de 90, apenas confirmou o caráter de Escritura Sagrada da maioria dos livros do cânon judaico de hoje, sendo que essa marca de autoridade provavelmente já remontava a meados do século II a.C.

Quanto à Bíblia cristã, falemos primeiro do cânon do Novo (ou Segundo) Testamento. Nenhum dos 27 livros que o compõem foi escrito com a pretensão de fazer parte de uma coleção ou ser considerado Escritura Sagrada. A referência às cartas de Paulo (embora não saibamos exatamente quais) em 2Pedro 3.15-16 apenas sugere que as coisas começaram a mudar no final do século I e início do século II d.C. O texto de 2Timóteo 3.16 está se referindo aos livros que formam hoje o Antigo Testamento (ou, pelo menos, boa parte dele).

A partir do final do século I d.C., alguns fatores como o desaparecimento da geração dos apóstolos de Jesus e a problemática de pensamentos divergentes dos ensinamentos comuns entre as igrejas começaram a impor a necessidade da formalização de um conjunto de escritos autorizados que preservassem as memórias da vida do Senhor, os seus ensinos e as instruções apostólicas. Nessa época, precisamente a partir do século II, tornara-se igualmente importante preservar o Antigo Testamento e a sua indiscutível posição de livro sagrado para a fé cristã.

Em relação às igrejas orientais (de idioma grego), o processo de reconhecimento de um cânon do Novo Testamento se estendera até a segunda metade do século IV d.C., quando Atanásio, o bispo de Alexandria, proclamou canônicos os 27 livros que temos hoje. A lista de Atanásio serviu de referência para as igrejas romana e africana (latinas), de modo que também ali a questão já estava resolvida até o final do século IV d.C. Entre os livros considerados aqui e acolá problemáticos até essa época estão Hebreus e o Apocalipse de João. Este último, entretanto, já aparece em um documento do século II d.C., conhecido, graças ao seu descobridor, como Cânon de Muratori.

Sobre a diferença entre as edições católica e protestante do Antigo Testamento, desde o século IV d.C., a Igreja ocidental (latina) reconhecera o cânon grego do Antigo Testamento (a chamada Septuaginta), mais extenso do que o cânon judaico, pois incluía, pelos menos, outros sete livros. O reconhecimento na Igreja oriental (grega) se deu no século VII d.C.

No século XVI, os Reformadores, interessados em retornar à ueritas hebraica (a verdade do hebraico), apegaram-se aos livros do cânon judaico. Isso significa que eles não admitiram como canônicos (embora alguns, como Lutero, necessariamente não desaprovassem a sua leitura) aqueles livros que não possuíam uma redação hebraica anterior. Desse modo, ficaram de fora do cânon protestante do AT: Tobias, Judite, 1 e 2 Macabeus, Baruque, Eclesiástico, Sabedoria e as adições gregas aos livros de Ester e Daniel.

Em 1546, contudo, o Concílio de Trento estabeleceu que, para a Igreja Católica Romana, esses livros deveriam vigorar como canônicos. Por isso, ficaram conhecidos como "deuterocanônicos", isto é, "uma segunda lista" de livros autorizados. No século XVII, a Igreja oriental aceitou os livros de Tobias, Judite, Eclesiástico e Sabedoria.

Para informações mais detalhadas, vocês podem consultar:

BARRERA, Julio Trebolle. A Bíblia judaica e a Bíblia cristã: introdução à história da Bíblia. Trad. Ramiro Mincato. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1999. 741 p.

KÜMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento. Trad. João Paixão e Isabel Fontes Leal Ferreira. 2. ed. São Paulo: Paulus, 1982. 798 p.

sábado, fevereiro 16, 2008

Chique

Ir à praia porque é chique é a maior tolice de todos os tempos!

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

22 de maio de 2008


Fonte:

http://www.omelete.com.br/cine/100009717/Indiana_Jones_e_o_Reino_da_Caveira_de_Cristal_tem_novo_poster_e_detalhes_da_trama.aspx

Ensaios sobre a expressão "Palavra de Deus" [1]

Gostaria de apresentar a vocês alguns apontamentos sobre a expressão “Palavra de Deus”. É uma expressão complexa, por isso vou tentar, a partir de hoje, apresentar alguns sentidos possíveis que podem ser percebidos nos textos bíblicos.

A Palavra de Deus pode ser percebida, em primeiro lugar, na palavra da lei. Em Êxodo 20, há uma introdução aos mandamentos do Decálogo ético. Para efeito de esclarecimento, decálogo quer dizer dez palavras. É um termo técnico, nesse caso, para os conhecidos “dez mandamentos”. A introdução de que falei é a seguinte: “Deus pronunciou todas estas palavras, dizendo” (v. 1). Compreende-se que as dez palavras que foram ouvidas por Moisés e escritas em tábuas de pedra (de acordo com Êxodo 34.28) são palavras de Deus. Por extensão, as regulamentações do chamado “Código da Aliança” (Êxodo 20.22 – 23.19) são também consideradas palavras de Deus.

Em que sentido se pode dizer que Deus falou? Segundo penso, é preciso ir além da pura identificação da manifestação de Deus com o fenômeno da comunicação verbal, própria do ser humano. A experiência no monte Sinai, seja ela tomada ou não literalmente, representa uma percepção da conduta ética como reflexo da presença de Deus entre o seu povo. Evidentemente, essa percepção é humana, portanto sujeita àquilo que é próprio do contexto cultural em que a revelação se dá. No entanto, essa percepção, conquanto humana, é testemunha de que Deus se manifestou. Os códigos de leis são produtos da dinâmica social humana, contudo se crê que Deus se expressa neles. Essa observação é importante porque por ela se pode entender que esses códigos podem e foram discutidos ao longo da caminhada de Israel com o seu Deus. Situados no tempo e no espaço, não podem prever todas as situações possíveis à sociabilidade humana. Assim, podem ser adaptados ou revistos, sem perder necessariamente o seu caráter de testemunha da revelação de Deus. Precisamente porque é o ser humano quem os cria, precisam ser vistos e revistos em prol daquilo que é capaz de contribuir para a preservação da vida e da dignidade humana, o que realmente importa em última instância. No evangelho de Mateus, percebemos em Jesus um exemplo claro de reverência pela testemunha escrita da manifestação de Deus, a letra da Lei, ao lado de uma ampliação do alcance dos mandamentos. Experimente ler e refletir sobre Mateus 5, 6 e 7. De igual modo, Jesus é capaz de reinterpretar uma lei utilizando um princípio mais amplo. Um caso é o da mulher surpreendida em adultério, conforme narra o Quarto Evangelho (João 7.53 – 8.11).

Finalizo essa primeira parte do estudo esclarecendo que a experiência de encontro com a Palavra de Deus pode se dar de várias formas, como satisfatoriamente o atestam os variados textos bíblicos: sonhos, visões, audições, textos sagrados, ritos expiatórios e de consagração, etc. É importante, todavia, entender que esses elementos não são a Palavra, isto é, não devem ser identificados diretamente com a Palavra. Eles são, isso sim, mediadores do encontro com a Palavra. A Palavra de Deus é Deus mesmo manifestando-se ao ser humano para lhe trazer a salvação. Não é sem razão que o autor do evangelho de João dirá que a Palavra habitou entre nós e vimos a sua glória. Essa Palavra, segundo ele, é Jesus Cristo (João 1.14,17).


terça-feira, janeiro 08, 2008

Crianças e brinquedos

Acabara de ganhar alguns bonecos dos Transformers. Quais eles fossem – Bumblebee, Optimus Prime, Ratchet, Ironhide, Bonecrusher, Megatron, etc. – não importa tanto. Os olhos da mãe, que dera o presente, brilhavam de satisfação por causa da alegria da criança, que manuseava freneticamente os fantásticos robôs que se convertiam em veículos.


Alguns dias e notou o menino desanimado. Perguntou-lhe o que havia. Respondeu que não tinha com quem brincar. Os robozinhos eram bem legais, ele os queria há muito tempo. Todavia, seria mais divertido se outras crianças estivessem ao seu lado para recriar as histórias daquelas espantosas máquinas orgânicas vindas do decadente planeta Cybertron. Sim, ele conhecia muito bem a trama da TV e do cinema.


A mãe ligou e chamou as primas e os primos. Eles vieram e trouxeram os seus brinquedos. Foi uma festa! Gritos, gargalhadas e, claro, algumas brigas contagiaram a casa de vida. Travavam-se batalhas épicas de mentirinha, os bons e os maus se defrontavam numa ficção em que o que morria era apenas o tédio.

– Ué, o que está acontecendo? – indagou de si mesma a mulher, percebendo que, passado o tempo, o entusiasmo ia murchando. Chegou à porta do quarto do filho e viu a criançada espalhada, um pouco aqui, um pouco ali; havia quem estivesse sozinho.

– Por que não brincam todos juntos, como estavam fazendo antes? – quis saber ela.

– Ah, mãe – falou o filho – cada um começou a querer fazer do seu jeito. E aí eu disse que não era assim que se brincava de Transformers. Com muito custo, consegui que todos entendessem o que eu queria. Mas aí, aos poucos, foi cada um para um lado.

A mãe foi à cozinha e voltou com um belo lanche: cachorro-quente, bolo Pullman, suco e outras coisas gostosas que vocês queiram imaginar. Depois, para quem quisesse, ela traria sorvete. Meninos e meninas se reuniram todos ao redor do que a mulher oferecera. Comendo e bebendo, muito animados, voltaram a conversar.

Terminada a comilança e retirados os pratos, os copos, as tigelas e os talheres, a meninada voltou aos brinquedos. Agora, entretanto, havia uma novidade: a mulher queria se juntar ao grupo.

– Tia, a senhora vai brincar com a gente? – perguntou uma das crianças.

– Menina, você acha que eu vou perder essa chance de aproveitar que vocês estão todos aqui em casa?

Ninguém mais ficou pelos cantos. E a euforia e a felicidade não pararam mais!

sexta-feira, janeiro 04, 2008

A esmo

Acabo de ler no blog de meu amigo Fábio Aguiar uma sugestão interessante. Numa postagem de setembro, que intitulou "Escolhas" (confira no link aí ao lado: "Ordenador de idéias"), ele começa falando da dificuldade que escrever é algumas vezes. Dispõe-se, então, a simplesmente ir escrevendo para ver o que sai. Resolvi tentar, embora já tenha feito algo parecido (minha postagem anterior, a última de 2007, foi um pouco assim).

Há pouco conversava com meus amigos Romão e Allany pelo MSN. Na verdade, ainda estou com eles no ar. Bons amigos. Interessam-se pelo meu bem-estar e em bater papo comigo. O Romão, já conheço há muitos anos, porém sempre temos algo para conversar. A Allany, conheço há poucos anos, mas sempre temos algo para conversar. Como gostamos de algumas coisas parecidas, geralmente Allany e eu trocamos figurinhas sobre filmes, dinossauros, viagens no tempo, vida em outros planetas, Deus e a espiritualidade, livros, música (mesmo dentro do ínfimo conhecimento que tenho sobre este assunto), desenhos, super-heróis, etc. Muita gente acharia tais assuntos deveras estranhos e até bobos. Todavia, nós não ligamos. Adoramos falar sobre essas coisas. E que não nos aborreçam!

Vi no jornal agora, à noite, que um homem equatoriano caiu de um prédio de 47 andares em Nova Iorque e sobreviveu.1 Sofreu múltiplas fraturas (é claro), mas foi submetido a cirurgias e parece já poder falar. Deve levar mais um ano até que recupere os movimentos dos membros inferiores e ande novamente. Segundo o que o jornal mostrou, entre os médicos que cuidavam dele, a palavra "milagre" foi mencionada. Até para um profissional da ciência, acho que não há termo melhor para qualificar o incidente. Todavia, mistificar o acontecimento, pura e simplesmente, não muda a vida de ninguém. Graças a Deus, o homem sobreviveu. Seu irmão, infelizmente, não teve a mesma sorte. Não sei quem é esse felizardo, nem como vivia até então. Espero, contudo, que esse "milagre" lhe incentive a seguir em busca de um bem viver, ao lado da esposa e daqueles que o conhecem.

Por falar nisso, ontem a Globo exibiu, no "Festival de Sucessos", o filme "Sinais" (Signs, EUA, 2002), do cineasta indiano M. Night Shyamalan. Ele é conhecido por articular em seus longa-metragem tanto o mistério quanto o sentido das situações que envolvem a vida cotidiana, os quais se definem pela presença do sobrenatural ou do incomum (de fato ou arquitetada). Recomendo-lhes os ótimos "O sexto sentido", "Corpo fechado" (Unbreakable) e "A vila". Em "Sinais", Mel Gibson vive Graham Hess, outrora pastor de um condado da Pensilvânia. Com ele, moram seus dois filhos, Morgan e Bo, e seu irmão, Merrill, interpretado por Joaquim Phoenix. Graham Hess havia abandonado a igreja e a fé depois que sua esposa, Colleen, morrera em decorrência de um acidente de carro, vitimada por um motorista que dormira no volante. O próprio Shyamalan interpreta o motorista.

Na trama do filme, estranhos e gigantescos círculos aparecem da noite para o dia na plantação próxima à residência de Graham. Outras figuras começam a surgir em outros lugares, seguidas de luzes que pairam sobre algumas das principais cidades do mundo, a partir da cidade do México. Uma imagem em vídeo feita no Brasil fornece a prova que faltava: uma invasão alienígena estava prestes a ser desencadeada.

Shyamalan trabalha essencialmente os rumos pelos quais o sofrimento pode nos levar: perder ou recuperar a fé. E é da perda para a recuperação que a personagem de Mel Gibson evolui quando percebe que a combinação de situações infelizes do passado e do presente, aparentemente sem sentido, corroborava para preservar a sua vida e a de sua família ante aquela circunstância sinistra. Não pude deixar de pensar na história bíblica de José (Gênesis 37; 39-50). Estando próximo o desfecho, José, ora vizir do Faraó, revela-se a seus irmãos, que ficam aturdidos. Naquilo que diz a eles, pode-se perceber a noção de destino, isto é, as ações de seus parentes que lhe causaram sofrimento concorreram para a consecução de um propósito maior, relativo à sobrevivência de toda a família do, outrora, desafortunado semita (Gênesis 45.1-8):

Então José não pôde conter-se diante de todos os homens de seu séquito e gritou: "Fazei sair a todos da minha presença." E ninguém ficou junto dele quando José se deu a conhecer a seus irmãos; mas ele chorou tão alto que todos os egípcios o ouviram, e a notícia chegou ao palácio do Faraó.
José disse a seus irmãos: "Eu sou José! Vive ainda meu pai?" E seus irmãos não puderam lhe responder, pois estavam conturbados ao vê-lo. Então disse José a seus irmãos: "Aproximai-vos de mim!" E eles se aproximaram. Ele disse: "Eu sou José, vosso irmão, que vendestes para o Egito. Mas agora não vos entristeçais nem vos aflijais por me terdes vendido para cá, porque foi para preservar vossas vidas que Deus me enviou adiante de vós. Há dois anos, com efeito, que a fome se instalou na terra e ainda haverá cinco anos semeadura e sem colheita. Deus me enviou adiante de vós para assegurar a permanência de vossa raça na terra e salvar vossas vidas para uma grande libertação. Assim, não fostes vós que me enviastes para cá, mas Deus, e ele me estabeleceu como pai para o Faraó, como senhor de toda a sua casa, como governador de todas as regiões do Egito.
2

Após a morte de Jacó, o patriarca, e por causa do temor de seus irmãos de que quisesse se vingar, José lhes reafirma a convicção de que tudo o que lhe ocorrera até ali, não obstante as más intenções dos irmãos, fora conduzido por Deus na direção de um bem maior para a estirpe de Israel (Gênesis 50.15-21):

Vendo que seu pai estava morto, disseram entre si os irmãos de José: "E se José for nos tratar como inimigos e nos retribuir todo o mal que lhe fizemos? Por isso, mandaram dizer a José: "Antes de morrer, teu pai expressou esta vontade: 'Assim falareis a José: Perdoa a teus irmãos seu crime e seu pecado, todo o mal que te fizeram!' Agora, pois, queiras perdoar o crime dos servos do Deus de teu pai!" E José chorou ouvindo as palavras que lhe dirigiam.
Vieram os seus próprios irmãos e, lançando-se a seus pés, disseram: "Eis-nos aqui como teus escravos!" Mas José lhes disse: "Não tenhais medo algum! Acaso estou no lugar de Deus? O mal que tínheis intenção de fazer-me, o desígnio de Deus o mudou em bem, a fim de cumprir o que se realiza hoje: salvar a vida a um povo numeroso. Agora não temais: eu vos sustentarei, bem como a vossos filhos." Ele os consolou e lhes falou afetuosamente.3

Não sei se destino existe. Por que coisas ruins acontecem a pessoas boas? Por que uma pessoa se torna um bandido? Por que pessoas desaparecem e suas famílias nunca mais as vêem? Por que uns se tornam bem-sucedidos e outros fracassam? Por que há pessoas que confiam em Deus e permanecem pobres e outras, que também confiam, adquirem um padrão de vida invejável? Por que alguns que têm tudo destroem as suas vidas em vícios e promiscuidade e outros, com muito pouco, vivem felizes? Por que alguns que não têm nada decidem permanecer no ócio e na precariedade e outros que têm tudo não se cansam de trabalhar e empreender ações altruístas? Por que alguém se casa com essa e não aquela pessoa? Por que, entre pessoas doentes, uns e não outros (ou todos) se curam (ou são curados)? Por que duas crianças nascem e uma vive e a outra morre? Ou as duas vivem? Ou as duas morrem? Por que há pessoas que gostam tanto de estudar, outras que se esforçam porque não gostam, mas sabem que precisam, e outras que nem gostam e nem se esforçam? Por que, numa mesma família, duas pessoas se tornam professores, e uma é mais considerada do que a outra? Por que a vida parece tão fora de nosso controle e continuamos a insistir que sabemos e podemos controlá-la?

A infelicidade do homem é grande, pois ele não sabe o que vai acontecer:
quem pode anunciar-lhe como há de ser? (Eclesiastes 8.6b-7)
4

Minha tempestade de idéias, por hoje, termina aqui.


Notas:

1 Veja em http://oglobo.globo.com/mundo/mat/2008/01/05/327894093.asp

2 A Bíblia de Jerusalém, p. 95s.

3 Ibid., p. 104.

4 Ibid., p. 1176.


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA


A BÍBLIA DE JERUSALÉM. Nova edição, revista. São Paulo: Paulus, 1985. 2366 p.





segunda-feira, dezembro 31, 2007

Antes de o Ano Novo chegar...

Desde ontem tenho estado a fim de escrever um texto hoje por ser o último dia do ano. Acredito ser a primeira vez que faço isso. Mas, sabem como é, essa mística toma conta da cabeça da gente, fazendo com que não deixe passar em branco a chance de fechar legal um ciclo mais na vida. E preciso me apressar, pois os fogos já estão estourando!

Admito, no entanto, que não está sendo fácil. O que vou dizer nessa ocasião que todo mundo já não saiba? Talvez elaborar resoluções de Ano Novo seja uma boa pedida. Convenhamos, todavia, que ninguém deve estar muito disposto a ficar lendo uma lista de metas que alguém fez, tendo em vista o ano que entra, quando cada um deve estar muito ocupado escrevendo a sua. Claro, o outro sempre pode dar umas idéias para a gente. Entretanto, acho que vocês querem ler algo mais interessante do que um punhado de coisas que estou querendo para 2008.

Em 2007, falei bastante sobre o que mais sei falar e o que mais complica a minha vida: a teologia. Sim, porque "teologar" é estabelecer referências que auxiliem a tornar a vida mais centrada e equilibrada. Bem, pelo menos deveria (?) ser assim. O que acaba acontecendo é que a teologia costuma trazer conflitos por mexer com o fundamento do ser. Trocando em miúdos, a teologia tenta pensar sobre aquilo em que a gente crê. Só que é perigoso pensar sobre isso, uma vez que, quando se trata da fé como uma referência de vida, há grande dificuldade em admitir que a realidade, de um modo geral, seja bem mais complexa do que a experiência particular de cada um. Quero dizer com isso que pensar teologicamente, ou seja, articular racionalmente a experiência da fé, significa descobrir que nossos referenciais se fazem de uma dobra do Sagrado sobre a existência humana mutável. E é da experiência que o Sagrado emerge, sendo percebido no(s) horizonte(s) de compreensão da(s) pessoa(s). Mas há muitas coisas que percebemos e inúmeras outras que nos escapam. Pelo que a teologia, se não a própria fé, surge como atividade dialética: as compreensões do que seja(m) o(s) sentido(s) da(s) existência(s) deveriam se iluminar mutuamente. Surge logo um porém: o problema da verdade. O modo como compreendo o que julgo ser o fundamento da existência se apresenta como a verdade para mim. Como a minha compreensão pode ser "a" verdadeira, no entanto, se há a compreensão do outro que ele sugere ser verdadeira da mesma forma? Perceberam a dificuldade?

Caso tenha aprendido direito do Hans Küng, teólogo alemão católico, se a fé tem a ver com a vida, então a verdade da religião deve estar relacionada com o modo pelo qual ela cuida da vida. Não se iludam: toda pessoa que crê acaba sistematizando essa fé de modo que possa viver a partir dela. Aí nasce a religião. Pois bem, praticar uma religião é acreditar. Acreditar que a vida tem sentido(s) e procurá-lo(s). Mais: fazer dessa procura um projeto de preservação da vida, em todas as suas formas. Para a consciência humana crente, portanto, a vida surge como um milagre proveniente de uma Consciência maior do que ela própria. E, para a consciência, o que há de mais elevado na existência do que uma consciência, oras?

A teologia trata de vida, de esperança. A esperança é aquilo que aposta no triunfo final da vida. Essa, talvez, seja a missão mais fundamental da fé: fazer-nos esperar, mesmo contra a esperança. A esperança, em grau maior ou menor, é que possibilita a preservação da vida. O que poderia ser, por exemplo, a luta das espécies pela própria sobrevivência que não uma manifestação de esperança, ainda que em menor nível de complexidade psicológica?

Bem, se tenho algo a dizer a mim mesmo e também a vocês é que, em 2008, a gente tente manter viva a esperança. Se temos fé, qualquer que seja ela, demos as mãos. Só é possível ter esperança quando a gente sabe que alguém nos acolhe. Crer não é, no final das contas, estar certo de que se é acolhido por Deus?

Feliz 2008!

domingo, dezembro 30, 2007

2008, tempo e Deus


Prestes a entrar o novo ano, “tempo” é uma idéia que, com freqüência, ocorre-nos. “Será que dará tempo de concluir essa atividade antes de acabar o ano?” “Quanto tempo precisarei investir para realizar tal projeto no ano que vem?” “Nossa! Falta pouco tempo para o réveillon!” Pensando ser assim, resolvi comentar a palavra “tempo” a partir da literatura bíblica, especificamente o livro de Eclesiastes.


No versículo 1 do capítulo 3, duas palavras hebraicas que podem ser traduzidas por “tempo” – zeman1 [1] e ‘et [2] – são usadas em paralelo, uma definindo a outra: a primeira, zeman, “tempo determinado”2, define a segunda, ‘et, “tempo”.3


Para tudo há um tempo determinado;

há, para todo desejo, um tempo sob os ceús. [3]


A idéia sugerida é a de ocasião própria. É significativo que a versão grega traduza ‘et por καιρóς (kairós), “época”, “tempo apropriado”.


Nos sete versículos seguintes são justapostas, sempre com a palavra ‘et, séries de circunstâncias opostas. Parece que se quer indicar com isso que as condições de possibilidade de cada uma delas impõem que cada qual possua uma ocasião própria de realização.


Importante chamar a atenção aqui para algumas circunstâncias, tais como as que aparecem no versículo 8a: Tempo para amar e tempo para odiar [4]. Por mais que a raiva, e mesmo o ódio, seja uma reação natural do ser humano em face de certas situações, não é razoável que tal sentimento dure indefinidamente. Poderíamos interpretar a menção do amor em primeiro lugar como intenção de destacar uma virtude preferível ao ódio e limite necessário para este. A raiva, ou o ódio, possui um tempo, pelo que deve ser contrabalançada pelo amor. Oportuno é trazer à memória Jesus de Nazaré: “Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; desse modo vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus, porque ele faz nascer o seu sol igualmente sobre maus e bons e cair a chuva sobre justos e injustos”4 (Mateus 5.43-45).


Este tempo, do qual fala o autor de Eclesiastes, por conseguinte, assinala o momento adequado para se fazer cada coisa durante a vida. Isso significa que, em nosso poder e vontade, haverá sempre um limite. A existência e o tempo são maiores do que nós. Quanto mais cedo se compreender isso, menos tempo se gastará procurando fazer aquilo que está fora do alcance, visto que ainda esteja distante o tempo de fazê-lo.


No versículo 11 do mesmo capítulo, diz-se que há beleza quando as coisas acontecem nas ocasiões oportunas para as quais Deus as fez.


Tudo ele faz belo em seu tempo;

também dá ao coração deles a noção de duração do tempo,

sem que o ser humano descubra a obra que Deus faz

desde o princípio até o fim. [5]


A noção de duração do tempo, da qual Deus dotou o entendimento humano, impõe à pessoa que, embora seja desejável que se lance em direção a essa reflexão, ela não poderá compreender tudo o que Deus faz. A palavra ‘olam [6], nas acepções possíveis de “antigüidade”, “perpetuidade”, “eternidade”, poderia estar sugerindo, ao mesmo tempo, a idéia de tempo decorrido, de tempo que ainda resta e, talvez, de tempo psicológico, no âmbito do qual o ser humano medita sobre a sua experiência no mundo.


Há uma nítida relação entre discernir o tempo de que dispomos para viver e discernir a incognoscibilidade de Deus no que se refere ao nosso entendimento. Em outras palavras, o nosso curto tempo de vida é absolutamente desproporcional ao que há para ser conhecido em Deus. A noção de tempo que temos, se realmente levada a sério, obriga-nos a admitir que Deus permanecerá um contínuo mistério para nós, pois dele sempre saberemos pouquíssimo. Não foi Jesus, segundo o autor do livro de Atos dos Apóstolos, quem disse aos seus seguidores que não lhes competia “conhecer os tempos e os momentos que o Pai fixou com sua própria autoridade”5 (1.7)?


O que se pode concluir daí? Quando pensamos nosso tempo e o que faremos com ele, é necessário reverenciar Deus, cujos ser e obra são por demais elevados para nós, porém perpassam continuamente nossa própria existência para nos abençoar. Reverenciar Deus é recolher nosso ínfimo conhecimento à nossa condição temporária e abrir-se para o amor e a solidariedade, virtudes que, por Jesus de Nazaré, revelaram-se eternas.


Feliz 2008!


Notas:


1 A palavra zeman é um empréstimo lingüístico do aramaico (HARRIS, R. Laird; ARCHER JR., Gleason L.; WALTKE, Bruce. Dicionário internacional de teologia do Antigo Testamento, p. 1141).


2 Ibid., p. 396.


3 Ibid., 1141.


4 A Bíblia de Jerusalém (1985), p. 1847.


5 Ibid., p. 2046.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS



A BÍBLIA DE JERUSALÉM. Nova edição, revista. São Paulo: Paulus, 1985. 2366 p.



ELLIGER, Karl; RUDOLPH, Wilhelm. Biblia Hebraica Stuttgartensia. 4. ed. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 1990. 1574 p.


HARRIS, R. Laird; ARCHER JR., Gleason L.; WALTKE, Bruce. Dicionário internacional de teologia do Antigo Testamento. Trad. Márcio Loureiro Redondo, Luiz A. T. Sayão e Carlos Osvaldo C. Pinto. São Paulo: Vida Nova, 1998. 1789 p.


quarta-feira, dezembro 26, 2007

Fé e dúvida

Dizem-me que o que preciso é apenas acreditar.
Porém, não consigo não duvidar.
Não duvido por pedantismo
ou para bancar o diferente.
Duvido porque, desde a infância,
houve quem me desse motivos.
E a teologia nunca foi vilã de nada.
Pelo contrário, a sua pluralidade me abriu os olhos
para ver que a fé não pode ser reduzida a uma dogmática
e que a dúvida só destrói a fé que se esconde de si mesma.
Reconheço que, em relação à dúvida,
esteja sendo qual Fox Mulder, do Arquivo X:
"Eu quero acreditar".
Talvez eu queira acreditar na dúvida
e duvidar da crença.
Mas não será a fé também isso,
acreditar na incerteza
e duvidar da certeza?
Só lhes peço paciência, amigos e amigas,
caso, em minhas palavras, vocês encontrem vários "e se...?"
É possível que seja mais conveniente para mim duvidar.
É provável que me seja mais favorável acreditar.
Pode ser que as afirmações sobre Deus sejam justificáveis,
ou que tais assertivas não passem de esboços de um desenhista,
o qual retrata o seu modelo a partir de um ângulo determinado.
Todavia, alguém dirá: "Só que o modelo está lá!"
É verdade! Para quem está vendo,
o modelo existe e ele só pode estar lá.
"Andamos por fé e não por vista."
De fato! A fé está inevitavelmente envolvida
quando os nossos sentidos trabalham:
acreditamos naquilo que nossos olhos nos dizem,
que nossas mãos tocam,
que nossos narizes cheiram,
que nossos paladares degustam,
que nossos ouvidos ouvem,
que nossos corações sentem;
estímulos que nossos cérebros interpretam...
E voltamos à velha (e sempre nova) hermenêutica!
Absolutos,
relativos,
palavras,
olhares...
Talvez eu queira acreditar na dúvida
e duvidar da crença.
Mas não será a fé também isso,
acreditar na incerteza
e duvidar da certeza?
Sabem? Quero (re) encontrar a mim mesmo.

quinta-feira, dezembro 20, 2007

Textos, sentidos, idos... idos...

A leitura de textos e a preocupação com o seu sentido vêm provocando inquietações em mim desde que me envolvi de modo mais consciente com a religião. Inicialmente, minhas reflexões sobre os documentos bíblicos não se apercebiam da necessidade de um rigor literário-científico que orientasse o contato com as letras, embora não fosse ignorante em relação à utilidade e à indispensabilidade de algumas ferramentas metodológicas para uma leitura analítica e especializada. O princípio religioso-confessional de que a iluminação divina ajudaria a descobrir a verdade contida nos textos sagrados era suficiente, não obstante a investigação crítica desses documentos – primeiramente através de um exame nas línguas originais, inclusive – fosse, de igual modo, condição fundamental para encontrar o sentido, de acordo com os pressupostos teológicos oriundos da Reforma Protestante.


A experiência no Seminário e, depois, como professor iniciante de teologia, aproximou-me significativamente da hermenêutica, mesmo que minha compreensão de interpretação de textos bíblicos permanecesse restrita (mas não por muito tempo) à idéia de busca de um único sentido legítimo, a saber, aquele pretendido pelos autores. Evidentemente, a leitura de exegetas católicos e protestantes mais receptivos às metodologias modernas de análise literária (por exemplo, o método histórico-crítico), de cunho filosófico racionalista, despertava a minha curiosidade quanto às implicações de se admitir a Bíblia como um produto das mãos de seres humanos historicamente comprometidos.


Uma passagem pelo Mestrado em Teologia, ainda que não tenha culminado na conclusão do curso, sedimentou algumas percepções: a) É impossível atingir a intenção do autor, porém apenas efetuar aproximações e elaborar hipóteses de interpretação, as quais serão sempre passíveis de falseamento por ocasião de novos argumentos; b) A hermenêutica não é, de modo algum, somente uma etapa final do trabalho de análise dos textos, com vistas à contextualização de sua mensagem, todavia um processo inerente ao desenvolvimento da tradição bíblica, de cujos livros raramente se pode falar de um autor, visto que a sua transmissão envolvia o fenômeno das releituras que agregavam novos sentidos, adequados aos horizontes de compreensão contemporâneos, mediante acréscimos, omissões e atualizações dos documentos recebidos; c) Segundo a filosofia heideggeriana, o leitor, enquanto ser-no-mundo, está imbuído de “prés” – com toda a carga geradora de significação de que seu patrimônio cultural e existencial é capaz –, os quais condicionam a interpretação; d) O texto é incontornavelmente polissêmico, ou seja, portador de uma reserva de sentido que torna possíveis tantas leituras quantos forem os leitores. A polissemia do texto faz com que sua interpretação independa do sentido pretendido por seu autor.


Meu interesse pela habilitação Português-Literatura do curso de Letras da Universidade Estácio de Sá se deveu à ambição de adquirir mais conhecimentos no campo da Hermenêutica. A exposição das múltiplas correntes de análise literária fez com que eu aprendesse a ver a Literatura enquanto manifestação da dialética do ser consigo e com o mundo. Sobretudo, o texto literário, venha ele revestido de uma estrutura religiosa ou não, é linguagem(ns) de (res)significação da realidade, uma vez que o ser humano e as percepções que este constrói acerca do mundo são essencialmente linguagem.


Lembro-me de que a Profª. Angela Fabiana (de Teoria da Litetarura III) costumava dizer que já trazemos algo conosco a partir do momento em que passamos a existir no mundo. Isso me faz recordar, embora os pressupostos metodológicos-existenciais sejam distintos, da teoria gerativa de Noam Chomsky, segundo a qual o ser humano nasce com uma capacidade inata de adquirir linguagem e desenvolver competência comunicativa entre os falantes do grupo social no qual está inserido. Essa relação intrínseca entre linguagem e existência ficou bastante nítida nas aulas: os formalistas russos, interessados em estudar a forma do texto, chamavam a atenção para as funções da linguagem no processo da comunicação; os teóricos da Nova Crítica norte-americana entendiam a narrativa como um mundo em si, no qual cada elemento possuía um papel inequívoco e fundamental para a compreensão do texto; a Estilística tentava descobrir o elo entre o sentido do texto, o estilo do autor e o espírito de sua época; a Sociologia da Literatura sinalizava o caráter libertário do texto literário – por exemplo, o romance, que trataria do contraste entre valores autênticos e a degradação social; a Fenomenologia apresentava o texto literário como representação da realidade, tal qual ela aparece diante dos sentidos; a Estética da Recepção irá valorizar a experiência do leitor com a obra literária.


A leitura de textos e a preocupação com o seu sentido continuam a provocar inquietações em mim. A diferença é que, a partir dos estudos em Literatura, percebo que não há exatamente textos sagrados. Há textos. A vida é sagrada, em suas infinitas possibilidades. A Literatura dá conta dessa sacralidade da vida, na medida em que afirma esta é sempre um vir-a-ser e, portanto, pode ser sempre mais do que tem sido, abre-se continuamente para o mistério da existência.


terça-feira, dezembro 18, 2007

Natal

E se, em vez de Jesus, menino,
Nascesse uma garotinha, digamos, Ana,
Lá nos recantos tristes de Nazaré?
Tivesse, tal qual Estrela,
Refulgido a criança-mulher naquela semana,
Apareceria o Sagrado mais terno, feminino?

sábado, setembro 01, 2007

A lua

Eu estava saindo da biblioteca do seminário, ontem. Já viera de outra biblioteca, a da faculdade, e havia andado muito. No caminho, pensava, falando para mim e para Deus sobre o meu cansaço, as minhas dúvidas e as minhas insatisfações com a religião, comigo mesmo e o ser humano. Apenas da natureza não tinha ressentimentos. Parecia-me a única realidade pura e legítima neste planeta (Não obstante, a luta das espécies entre si para sobreviver, freqüentemente violenta, deixa-me perplexo. É a violência humana, porém, que me causa repulsa e indignação!). E foi a natureza que me surpreendeu, quando eu estava assim, o coração tão dolorido.

A lua estava grande, um pouco coberta pela escuridão, contudo emitia um brilho cor-de-âmbar. Uma visão incrível, belíssima, da qual eu desfrutaria algumas outras vezes até entrar em casa. No caminho, um gato (novamente preto e branco, só que, dessa vez, do lado de dentro de uma casa, o portão devidamente protegido por uma tela, sinal evidente do cuidado dos donos pelo seu animal). Ele miou para mim, só então o vi. Imagine só! E nem me conhecia! Certamente nunca me havia visto! Aproximei-me e, mesmo por entre a proteção, ele não hesitou em se mostrar amigo.

Minutos antes disso, vi que uma conhecida, adolescente, vinha pelo outro lado da rua. Tive a impressão de que ela me identificara, todavia ficou na dúvida. Embora houvesse passado, ela olhou para trás e, agora segura, acenou para mim, sorridente. Retribuí. Foi legal aquilo.

Eventos únicos, ainda que circunstanciais. Não sei dizer se foram gestos de Deus, se bem que houvesse pensado nisso. Deus, aliás, à semelhança do narrado na lenda de Jó, não deu resposta objetiva às minhas indagações, mesmo soluções para as minhas dores. Isso não é uma reclamação, apenas uma percepção (que é uma ao lado de outras igualmente possíveis). E quer saber? Os personagens dos textos bíblicos não são exatamente conhecidos por se dirigirem a Deus cheios de "não-me-toques". Basta lembrar de Moisés, farto dos israelitas que conduzia pelos desertos; de Jeremias, explodindo de raiva, disposto a abandonar tudo; de Jó, ressentido porque tudo de ruim acontecera com ele; da mulher de Jó, que dissera ao seu marido para amaldiçoar a Deus e morrer; de Jonas, aborrecido, já que o seu anúncio (sem compaixão nenhuma, é verdade) não se realizara; de Jesus, desesperado diante do abandono da última pessoa de quem ele esperaria isso; de Paulo, arrasado porque Epafrodito estava à morte.

Ao chegar em casa, a dor permanecia. Contudo, essas experiências que vivi foram significativas. Deus apenas me ouviu. Todavia, a lua cor-de-âmbar foi um espetáculo muito bonito de se ver!

segunda-feira, julho 09, 2007

O curupira

Um homem decidiu entrar numa floresta próxima para procurar alimento. Abria caminho na folhagem densa, andava com dificuldade e sujava os pés em trechos de muita lama, olhava atentamente ao redor na esperança de avistar alguma árvore com frutos ou animal que pudesse abater.

Depois de algum tempo, frustrado e ressentido porque não obtivera sucesso, amaldiçoou aquela floresta que se lhe mostrava tão hostil. Subitamente, ouviu detrás de si um barulho. Virou-se e percebeu um movimento em alguns arbustos ali perto. Aproximou-se devagar. Quando afastou os ramos, não viu nada. Inclinou-se ainda um pouco e notou marcas de pés que seguiam mata adentro. "Talvez seja alguém procurando comida também", disse consigo. E sem pensar muito mais, começou a acompanhar as pegadas.

Não entendia o que estava acontecendo. Já caminhava há bastante tempo, todavia não alcançara o autor das marcas. Curiosamente, as pegadas desenhavam uma trajetória confusa, que parecia levar mais para o interior da floresta. A vegetação se fechava ameaçadoramente em cima do homem, seu fôlego estava no fim. Para piorar, escurecia. Então, vencido pelo cansaço, faminto, em pânico, desmaiou.

Sentiu um calor no rosto, levantou-se com um grito. Uma fogueira! Cheirou algo que fê-lo desviar avidamente o olhar. Ao seu lado, um pouco acima de onde estivera apoiada a sua cabeça, havia um animal assado, talvez um porco do mato. Sobre as folhas que acomodavam a carcaça, encontravam-se algumas lascas de pedra, polidas, pontiagudas. Pegou-as e foi logo cortando pedaços de carne, os quais punha na boca com sofreguidão.

Quase engasgou! Um vulto no canto de seu campo visual chamara a sua atenção. Uma coisa o fitava, tinha olhos grandes, amarelos, esbugalhados. Possuía forma ligeiramente humana, baixa estatura, pele grossa como o tronco de uma árvore. O corpo era todo coberto de pêlos esverdeados, espessos, feito musgo. A cabeça precipitava até o chão uma longa cabeleira vermelha, na qual embolavam-se várias folhas secas. Da boca entreaberta, pendiam dentes enormes.

– Beba um pouco d'água, balbuciou a voz rouca. O homem permaneceu mudo. Um instante infinito, e esticou o braço para recolher o líquido das mãos espalmadas do bicho, que avançara em sua direção.

A água aliviara a garganta seca, o homem permanecia com a vista cravada naquele ser, de alto a baixo. Seus pés eram virados para trás! Entendeu tudo! Topara com o curupira!


– Vo-você é... é o curupira! Um demônio das matas!


A coisa baixou a cabeça, soltou um grunhido.


– Demônios não habitam florestas. Eles odeiam a vida. Costumam infestar lugares desertos e os corações dos homens.


O sujeito ficou surpreso com a resposta. Antes que pensasse em dizer algo, o bicho continuou:


– Amaldiçoaste a mata, certo de que ela te negava o que precisavas. Porém, a tua própria espécie, ainda que da natureza provinda, perpetrou contra ela traição cruel, negando-lhe o direito à vida.


Atordoado, o homem começou, trêmulo:


– Não tinha o que comer... entrei aqui... meu Deus...


– Deus? explodiu a coisa. Que sabes dele? Nosso Pai, de quem vós, homens, usurpastes a criação? Amada Mãe, cujos seios de amor tendes secado com vossa ganância, esgotando a terra, supliciando animais e plantas, matando os vossos semelhantes, reduzindo tudo aos interesses de vossas relações de compra e venda? Não! Não conheces a Deus! Tudo o que enxergas são os teus próprios demônios e por isso proferes maldições com a tua boca!


Um choro convulsivo ecoou por entre as árvores. O homem soluçava. Ali, sentado, sentiu o ser tocá-lo. Ergueu o olhar e foi confortado por um semblante terno. O curupira estava com pena dele.


– Essas lágrimas umedecem o teu interior. Reconheces que tu e os teus precisais reconciliar-vos com vossos irmãos?


O sujeito assentiu. A coisa o convidou a servir-se novamente da carne assada, a fim de que saciasse a fome. Adormeceu aos pés da criatura.


A claridade da manhã, que se esforçava por penetrar a mata fechada, despertou-o. Levantou-se. Olhou ao redor, o curupira desaparecera. Só restaram as cinzas da fogueira e os restos do animal que comera. Chegou a cogitar a possibilidade de ter sonhado, mas experiência alguma lhe parecera tão real. Adiante de si, havia uma trilha aberta na floresta. Seguiu por ela e logo encontrou uma clareira, na qual o sol forte fazia doer a vista. Alguns poucos minutos e avistava a civilização. Sentia-se revigorado. No corpo e no espírito.