"Então, falando ele estas coisas em sua defesa, Festo disse em alta voz:
Estás louco, Paulo! As muitas letras te levam à insanidade!"
(Atos dos Apóstolos 26.24)

segunda-feira, julho 02, 2007

Sobre o Código Da Vinci

22.02.2007


Caríssima Luíza,


Tenho alguns comentários a fazer sobre esse texto:


1. Não acho que o livro de Dan Brown queira provar que Jesus não era divino e que constituiu família e deixou descendentes. Que o autor se aproveitou de um tema que ano após ano provoca a ebulição da curiosidade das pessoas, não há dúvida. Mas o autor deixa bem claro, se bem me lembro do prefácio, que o livro é uma obra de ficção. Só embarca na idéia de que é um documento científico ou uma prova quem não leu direito e não quer se dar ao trabalho de pesquisar os vastíssimos dados científicos disponíveis sobre o Jesus histórico, a diversidade dos cristianismos dos primeiros três séculos da nossa era e o processo de formação dos evangelhos canônicos.


2. Eu não diria que o livro reforça a incredulidade do mundo, mas certamente, devido a todo aparato midiático construído para divulgá-lo, pode reforçar a ignorância a respeito da matéria, na medida em que leitores desprovidos de consciência crítica não se dispuserem a pesquisá-la. Ou o inverso também pode ocorrer: o livro pode instigar algumas pessoas a quererem se aprofundar no conhecimento da vida de Jesus e do material dos evangelhos. Além do mais, não é preciso ser crédulo para agir com ceticismo diante de um livro como este: um erudito do Novo Testamento que não seja crente (e há gente assim) dificilmente não denunciaria as incongruências da obra. Se o livro é uma investida do diabo, foi extremamente ingênua, ainda mais se valendo desse assunto que envolve uma das ciências mais avançadas do mundo.


3. A afirmação de Paulo em Gálatas 1.6-8 não se refere a evangelhos gnósticos, mesmo porque o gnosticismo é uma tendência que se estabelece em ambiente cristão a partir do século II. O "outro evangelho" ao qual Paulo se refere é o ensino de missionários judaico-cristãos que insistiam na observância da lei judaica como instrumento de justificação diante de Deus (Cf. At 15).


4. Atualmente é arriscado falar de "Igreja primitiva", sugerindo que os cristãos fossem um grupo homogêneo. A pesquisa recente tem apontado para a provável coexistência de "cristianismos" no Mediterrâneo dos primeiros três séculos, a começar (partindo dos dados dos documentos canônicos do Novo Testamento) pelas comunidades judaico-cristã e cristã helenística. Além disso, conhecemos, de outras fontes, grupos variados: nazarenos, ebionitas, gnósticos e montanistas.


5. Não diria que Jesus sempre foi tido como divino. Os evangelhos sinóticos e a primeira parte dos Atos dos Apóstolos parecem descrevê-lo como enviado de Deus para anunciar o seu reino escatológico, servo de YHWH à luz de textos do Segundo Isaías (40 - 55). Ainda de acordo com os sinóticos, o próprio Jesus nem mesmo utiliza para si o título "Cristo" e procura deixar claro que há diferença entre ele e o Pai, o qual, e somente ele, é bom e o único que conhece a ocasião da consumação escatológica. Entretanto, as cristologias joanina e paulina já o representam como divino.


6. "E como ele era Divino, esta questão de casamento não lhe era própria". Eu seria cauteloso quanto à ênfase dada à natureza divina ao falar do Jesus histórico. É provavelmente fora de dúvida que, a partir da experiência com Espírito Santo vivida tão logo se tenha feito batizar por João, Jesus compreendeu a si próprio como eleito de Deus para anunciar a vinda do seu reinado. A teologia da divindade de Jesus, entretanto, é um desenvolvimento posterior a ele. Não se deve esquecer que os evangelhos não são biografias, mas memória histórica "e" teologia. A afirmação de Damy Ferreira, a meu ver, é problemática por três razões: Em primeiro lugar, pode sugerir que casamento e divindade são elementos mutuamente excludentes. Noutras palavras, uma união conjugal (por envolver a "carne") profanaria a santidade da divindade. Em segundo lugar, Deus não se casa, mas o ser humano sim. E por mais divino que Jesus fosse, ele não era menos ser humano. Afirmando a humanidade real de Jesus, penso que devemos encarar a questão do seu estado civil do modo como exigem as fontes disponíveis: informação não declarada. Em terceiro lugar, em nenhuma parte do Novo Testamento se afirma que Jesus 1) não se casou, e isso pode demonstrar que os autores não tinham interesse sobre esse assunto, mas também, claro, que Jesus não foi casado e 2) que Jesus não se casou por se considerar divino.


7. "O Evangelhos foram livros históricos, feitos por autores despretensiosos, inspirados pelo Espírito Santo". Os evangelhos canônicos nunca foram escritos por autores despretensiosos. Cada um deles tinha, sim, intenções teológicas ao escreverem as suas obras. Eles não apenas selecionam e organizam, mas também dão forma ao material que têm em mãos: combinam e modificam livremente não somente a tradição de Jesus, porém textos do Antigo Testamento utilizando versões conhecidas (tradições textuais hebraicas e gregas) e desconhecidas por nós, além de revestirem esses textos de novos sentidos, obviamente retirando-os do seu contexto original (procedimento exegético não pouco usual à época). Isso não significa, entretanto, que não tivessem reverência pela preservação e transmissão das tradições de Jesus. Evidentemente, enquanto imbuídos da compreensão religiosa de suas comunidades de fé, consideravam que o seu trabalho era feito sob a iluminação do Espírito Santo, também chamado nos Atos dos Apóstolos de "Espírito de Jesus". Isso, no entanto, não deve fechar os nossos olhos para o fato de que os evangelistas eram seres humanos que vivenciavam, compreendiam e transmitiam suas experiências religiosas através de linguagem humana e, por isso mesmo, não estavam isentos de "si próprios" na composição dos textos. Isso é razão suficiente para analisar os textos de modo crítico. Apenas uma informação nesse sentido para instigar a reflexão: apesar de Maria Madalena e outras mulheres terem sido testemunhas oculares da ressurreição, elas desaparecem completamente de cena já nos relatos da ascensão do Senhor, inclusive na abertura do livro dos Atos dos Apóstolos: no capítulo 1, menciona-se, já no ambiente do cenáculo, apenas "as mulheres" e Maria, mãe de Jesus. E apesar de os resultados das pesquisas recentes, pouquíssima atenção é dada à liderança feminina nas comunidades cristãs nos documentos do Novo Testamento. Por quê?


8. Com todo respeito, acho que o Pr. Damy se excedeu ao afirmar: "É lá [no inferno] o lugar de [Dan] Brawn (sic) e todo o seu elenco". Não é papel do cristão condenar as pessoas ao inferno, mas aproximá-las de Deus. E este é o único que tem o direito de julgar quem quer que seja. Diante de uma obra como essa, penso que devemos estimular a investigação científica e o debate inteligente, sem medo, considerando que temos colocado a nossa fé em Jesus Cristo por causa de nossa experiência com os testemunhos dos autores bíblicos, sob a orientação do Espírito Santo. E essa fé consiste na esperança das coisas eternas que os olhos não podem ver. Ela se apóia, no entanto, na tradição cristã que surge na história. E se a tradição cristã surge na história, deve-se assumir não só as suas realidades, porém, do mesmo modo, as suas ambigüidades. A fé se constrói dialeticamente.


9. Espero que minhas reflexões tenham sido úteis.


Um grande abraço!


Ruben Marcelino


Site original: www.batistacentralosasco.com. br

Pessoal, procurei o texto no site e não encontrei. Por essa razão, vou reproduzi-lo abaixo, tal qual está no e-mail que recebi.

O CÓDIGO DA VINCI À LUZ DA VERDADE

2 Co. 13.8 (NVI) “Pois nada podemos contra a verdade, mas somente em favor da verdade”. Tradução da Bíblia de Jerusalém: “Nada podemos contra a verdade, mas só temos poder em favor da verdade”. A idéia do texto é que a verdade triunfa. Ninguém consegue derrotar a verdade. Temos aqui um tema mentiroso, mas a verdade o derrotará.

Rm. 3.4. “...Antes seja Deus verdadeiro e todo homem mentiroso”. É o grande tema das Testemunhas de Jeová, mas que nós vamos usar no seu sentido correto.

Na década de 60, este autor pastoreou em Araguari, Minas Gerais, uma cidade próxima a famosa cidade dos garimpos, Estrela do Sul. Acostumei-me a visitar garimpos para evangelizar aqueles homens humildes, mas fascinados pela busca de pedras preciosas. Certo dia, observando aquele monte de cascalho, que era peneirado em três peneiras, contendo muitas pedras brancas, perguntei a um dos garimpeiros: “Ei, como você pode distinguir um diamante no meio de tantas outras pedras brancas semelhantes”. O humilde homem, cheio de sabedoria, respondeu rapidamente: “Bem, pastor, duas coisas: a primeira, como o diamante é uma pedra mais pesada do que as outras, ele vai sempre para o meio da peneiragem. A segunda, é que o diamante tem um brilho que não confunde; quando ele brilha lá no centro, qualquer um pode notar que é o diamante”. Maravilhosa sabedoria prática.

A verdade é assim: Primeiro, ela está no centro de tudo; segundo, ela tem um brilho inconfundível. Quando ela aparece, ela brilha e ninguém tem mais dúvida. Como disse o grande sábio Victor Hugo: “A verdade é como a túnica de Cristo; não tem costura”.

INTRODUÇÃO

Que seria do cristianismo se ficasse provado que os Evangelhos que temos não são autênticos e nem são as mais antigas fontes de informação sobre Jesus? Que seria do cristianismo se ficasse provado que Cristo não é divino; que Ele, como qualquer outro profeta ou líder religioso constituiu família e seus descendentes vivem entre nós, secretamente? Ainda mais: que seria do mundo se ficasse provado que Cristo, mesmo divino, constituiu família e gerou filhos de natureza meio-humana, meio-divina?

É isto, e muito mais do que isto, que se pretende fazer nestes últimos tempos com o livro intitulado: Código Da Vinci, que já virou filme e está vendendo horrores. O livro já vendeu quase 50 milhões de cópias e está traduzido em 44 idiomas diferentes. Seu autor, Dan Brawn, já foi classificado pela Revista Time como uma das 100 pessoas mais importantes do mundo.
O livro, escrito por Dan Brown , foi lançado em 2003.

O ENREDO

A trama começa com o assassinato do curador do museu de Louvre, em Paris, Jacques Saunière, morto pelo monge albino Silas, um integrante do Prelado Opus Dei. O cadáver foi encontrado nu, de braços e pernas abertos, à semelhança de um clássico desenho feito por Da Vinci, denominado Homem Vitruviano, ao lado do quadro de Mona Lisa. No cadáver, e ao seu redor, várias mensagens em código, escritas pela vítima, antes de morrer, com o seu próprio sangue.

O livro, para ter jeito de novela e cinema, vai revelando seus objetivos aos poucos, à proporção em que o leitor vai se envolvendo com os fatos, num clássico estilo policial. O resumo da história é o seguinte:

Quando Jesus estava sendo crucificado em Jerusalém, Maria Madalena, sua esposa, estava grávida. Para evitar problemas para os futuros cristãos, ela fugiu para um lugar da Europa chamado Gália naquele tempo, que mais tarde veio a se chamar Paris. Ali, Maria Madalena teve uma filha que se chamou Sara. Ela recebeu toda ajuda de judeus pois, ao contrário do que dizem os Evangelhos canônicos, ela não era ex-prostituta, mas uma importante mulher de linhagem nobre, da tribo de Benjamim. (Na verdade, a idéia de prostituta, é um erro evangélico da própria interpretação da Igreja Católica, que confunde Maria Madalena com outra Maria). Casada com Jesus, da linhagem de Davi, ela merecia todo apoio possível.

Maria madalena passou a viver escondida, em segredo e seus descendentes continuaram a se multiplicar. Mais tarde foi criada uma sociedade secreta, que passou a se chamar Prelado de Sião, da qual fizeram parte grandes luminares da arte e da cultura, como Newton, Leonardo Da Vinci e outros, que bancavam a proteção dos descendentes de Maria Madalena.

Ultimamente, a Igreja Católica, sabedora do segrego, procurava, também secretamente, eliminar os descendentes do grupo, para acabar com a história, que prejudicava os conceitos mais fundamentais do cristianismo.

OS CÓDIGOS

No desenrolar do conteúdo do livro, permanece a busca frenética para decifrar códigos que vão surgindo. É uma espécie de caça ao tesouro, sofisticada. E então podemos resumir a questão dos códigos como segue:

- Da Vinci pertenceria a uma ordem denominada Priorado de Sião, similar à tão falada ordem Opus Dei, da Igreja Católica.

- Como Da Vinci era muito dado às ciências, além de artista, era olhado com cautela pelos líderes católicos, que o vigiavam.

- Assim, muita coisa que tinha na cabeça botava em código ou em termos de segredo em suas telas.

- Alguns acham que até o helicóptero aparece disfarçado em suas obras de arte.

- Dentre outras obras importantes, pintou Mona Lisa e o quadro da chamada Santa Ceia, que são a base do enredo do livro.

- Neste quadro teria posto, como que disfarçadamente, em código, Maria Madalena, ao lado de Jesus, no lugar em que normalmente se identifica o apóstolo João.

- O cálice usado por Jesus na Ceia, chamado Santo Graal, foi também usado para conter sangue de Cristo vertido na cruz. Mas para Da Vinci o cálice simbolizava o útero de Maria Madalena, e este cálice é o símbolo de todo o segredo.

Na verdade, a maioria dos críticos acha que Da Vinci jamais pensou em tal coisa. Tudo não passa de interpretação subjetiva do que seria Maria Madalena no lugar de João, ao lado de Jesus. Nem mesmo o sinal que Jesus faz com as mãos sobre a mesa, que seria a figura do útero de uma mulher.

A MONTAGEM DA HISTÓRIA

O autor juntou vários fatores, como segue:

1. Menção espúria de um Evangelho Apócrifo, que ele denomina “gnóstico”, chamado Evangelho de Filipe, em que se refere a Maria Madalena como companheira de Jesus, à qual Jesus freqüentemente beijava na boca (Nota: o beijo na boca naquele tempo não tinha o sentido sensual que tem home).

2. Usou também referências de outro evangelho apócrifo, denominado Evangelho de Maria Madalena, do qual existe apenas uma parte (faltam folhas) que, no entanto, não faz nenhuma alusão especial ao fato da união conjugal dela com Jesus.

3. Interpretação grosseiramente errada de João 2.1-12, que registra um casamento em Caná da Galiléia, dizendo que este foi o casamento de Jesus.

4. A suposta pintura de Maria Madalena, o quadro da “Santa Ceia”, do lado de Jesus, à mesa, no lugar que tradicionalmente se identifica com João.

5. A informação infundada de que o cálice único que Jesus usou e no qual beberam todos os apóstolos, foi usado por José de Arimatéia para conter o sangue de Cristo, e que passou a se chamar: “Santo Graal”. Este cálice passou a significar todo o conteúdo do segredo, de modo que passou a ser procurado por muitos ao longo da história.

6. A concepção de que Maria Madalena, ao contrário do que informam os Evangelhos Canônicos, não era uma prostituta, mas pertencente à linhagem nobre da Tribo de Benjamim e herdeira, com Jesus, que era da linhagem de Davi, do Reino Judaico.

7. Sua prole teria dado origem à dinastia merovíngia, que veio a fundar a cidade de Paris.

A montagem de tudo isto, resultou num enredo realmente fascinante, capaz de mudar a cabeça de muita gente. Mas um teólogo católico, Pedro Lima de Vasconcellos, em entrevista concedida à Revista Época, disse que o livro “é um queijo suiço, está cheio de buracos” (Revista Época no. 415, 1o de maio, p. 118).

A leitura do livro, e o filme montado à moda de Hollywood, causam impacto no povo de Deus, e reforça a incredulidade do mundo. Os cristãos menos avisados podem ficar estremecidos na fé.

Esta parece ser talvez a mais poderosa investida do Diabo contra o cristianismo nestes últimos tempos.

SERIA VÁLIDO ESTE CONTEÚDO?

1. Os Evangelhos denominados “gnósticos” realmente começaram a circular nos primórdios do cristianismo. Já o apóstolo Paulo dizia: “Admiro-me de que vocês estejam abandonando tão rapidamente aquele que os chamou pela graça de Cristo, para seguirem outro evangelho que, na realidade, não é o evangelho. O que ocorre é que algumas pessoas os estão perturbando, querendo perverter o evangelho de Cristo. Mas ainda que nós ou um anjo dos céus pregue um evangelho diferente daquele que lhes pregamos, que seja amaldiçoado” (Gálatas 1.6-8 – NVI).

2. Ademais, nenhum desses evangelhos eram aceitos pela Igreja primitiva, que só confiava, é evidente, em escritos que provinham daqueles que viveram com Jesus, principalmente dos apóstolos.

3. É claro que há duas citações na carta de Judas vs. 9 e 14, (meio-irmão de Jesus – filho de Maria, mãe de Jesus, com José), que aparecem também no livro apócrifo de Enoque. No entanto, entende-se que este conhecimento fazia parte das tradições orais que circulavam entre judeus e cristãos. Ademais, muitos desses livros apócrifos tinham muitas informações importantes, apesar de não terem sido aceitos pela Igreja. De qualquer maneira, a carta de Judas levou muito tempo para ser aceita no Cânon do N.T. Menciono isto por uma questão de honestidade intelectual, que nunca aparece no autor do livro Código Da Vinci. Afinal, mentira é mentira.

4. A respeito da figura de Maria Madalena ao lado de Jesus no quadro da “Santa Ceia”, é apenas uma interpretação subjetiva ou maliciosa do autor do livro em questão. Os melhores críticos asseguram que Da Vinci jamais teve tal intenção. Mesmo porque ele não deixaria de incluir também João, um dos discípulos mais queridos de Jesus que, juntamente com Pedro, Tiago, sempre estava com ele nas missões mais importantes, como foi o caso do Monte da Transfiguração. Portanto, a interpretação é tendenciosa e não faz sentido.

5. Sobre a figura do cálice, Santo Graal, que teria contido sangue de Cristo e que passou a ser o símbolo de todo o segredo, também não há nenhuma informação histórica fidedigna, muito menos nenhuma menção no N.T. Na verdade, no relato dos Evangelhos Canônicos, quando José de Arimatéria e Nicodemos conseguiram o corpo de Jesus para um sepultamento decente, Jesus já estava morto. O texto sagrado diz que, para comprovar que ele estava morto mesmo, um soldado enfiou uma lança no seu lado e saiu água e sangue, o que denuncia que seu sangue já estava totalmente decomposto (João 19.31-37; 38-42). Por outro lado, agindo apressadamente, para um procedimento demorado, pois já despontava o sábado, não tinham tempo para esses detalhes. E mais: teria José de Arimatéia tido tempo para buscar esse cálice? E, também, o texto do Evangelho de João não menciona nada sobre o assunto. Portanto, a idéia do Santo Graal é uma boa invencionice do autor do livro em questão.

6. Quanto a Maria Madalena, vamos escrever uma página especial intitulada: A Maria Madalena dos Evangelhos Canônicos.

OS SETE ERROS DO LIVRO

Evidentemente, muitos “scolars” americanos têm produzido críticas ao livro de Dan Brawn. Um deles, O Dr. Bem Witherington III, escreveu um livro 208 páginas, intitulado The Gospel Code, editado pela InterVarsity Press, de Illinois, Estados Unidos, onde, dentre outros argumentos contrários ao Código Da Vinci, apresenta sete erros do livro, que quero resumir aqui:

Primeiro erro: Os Evangelhos canônicos: Mateus, Marcos Lucas e João, não são os mais antigos evangelhos. Diz ele que os evangelhos ginósticos como de Filipe e de Maria Madalena são mais antigos.

1. Realmente, havia muitos evangelhos espúrios circulando já no tempo de Paulo. Por isso Paulo disse: Gl. 1.6-8.

2. Mas esses foram rejeitados pela Igreja Primitiva

3. Todos eles trazem mensagens que discrepam totalmente da realidade dos fatos do cristianismo.

Segundo erro: Jesus era apenas um profeta nos seus dias. Só foi proclamado divino no Concílio de Nicea.

1.Só mesmo para quem quer distorcer a verdade. Jesus sempre foi tido como divino. A leitura de 1 João 5.18-20 atesta isto.

2.O que o concílio de Nicéia fez foi oficializar esta verdade, uma vez que heresias estavam surgindo a respeito do assunto. Só se abala com isto quem não conhece nada de Bíblia.

Terceiro erro: O Imperador Constantino, ao se tornar cristão, suprimiu os evangelhos gnósticos, “mais antigos”, e impôs os evangelhos canônicos e a doutrina da divindade de Cristo.

1.os chamados evangelhos gnósticos na verdade nunca foram aceitos e reconhecidos pela Igreja.

2.Os canônicos eram reconhecidos por todos os eruditos cristãos desde 130 AD, muito antes de Constantino. É querer torcer a história.

3.Constantino, realmente, como Imperador, declarado cristão, à semelhança dos imperadores que eram o sacerdote principal do paganismo, convocou o concílio para decidir a respeito da polêmica sobre a natureza da pessoa de Cristo. Mas não foi ele quem decidiu. Foi o grupo de bispos presentes.

4.O personagem Teabing, inventado por Dan Brawn, diz que Constantino, depois do Concílio de Nicéia (325) fez uma Bíblia novinha, como ela é hoje, mas antes não era assim. Isto não é verdade. Mesmo porque seria impossível fazê-lo. O Novo Testamento, para não falarmos da declaração leviana do personagem da “Bíblia toda”, que incluiria o Antigo Testamento todo, provém de manuscritos antigos com idade devidamente testada pelos mais modernos recursos de averiguação na área, principalmente o sistema de carbono 14. É realmente uma irresponsabilidade fazer uma declaração destas.

Quarto erro: Jesus era casado com Maria Madalena.

1.Os Evangelhos Canônicos nunca falaram ou mesmo insinuaram nada sobre o assunto.

2.Os adversários de Jesus nunca levantaram o problema e, se assim fosse, tê-lo iam feito, uma vez que se preocupavam muito com as declarações de que Jesus era filho de Deus.

3.O Evangelho genóstico e apócrifo de Filipe só apareceria no final do terceiro século da nossa era. E esse Evangelho tem várias palavras apagadas que não dá para traduzir. Quando ele chama Maria Madalena de “companheira”, não quer dizer “esposa”. A expressão “beijo na boca” usada por esse falso evangelho é um beijo santo, como Paulo o chamou, e era comum naquele tempo (1 Co. 16). Portanto, a afirmação não procede e é mentirosa.

Quinto erro: Jesus deveria ser casado porque ele era um “judeu novo” – nova geração, deveria ser casado.

1.Não consta que um judeu tinha que ser casado. Apenas um membro do Sinédrio tinha que ser casado, mas não o cidadão comum.

2.Isto não prova que Jesus era casado

3.Se a história faz silêncio do fato é porque não era.

4.Como João Batista, na pior das hipóteses, Jesus seria celibatário

5.E como ele era Divino, esta questão de casamento não lhe era própria

6.O argumento, de qualquer maneira, é muito pobre.

Sexto erro: Referência aos manuscritos do Mar Morto como mais antigos do que documentos cristãos.

1.Menção a um documento chamado Nag Hammadi, que na verdade surgiu no IV século, descoberto no deserto do Egito em 1945, escrito em cóptico.

2.Os manuscritos do Mar Morto só têm documentos judaicos, do tempo do V.T. e não documentos cristãos.

Sétimo erro: Erro teológico. O autor diz que a Igreja Cristã Primitiva tinha que esconder o fato de que Jesus era casado porque “um filho de Jesus poderia prejudicar o conceito da divindade de Cristo e prejudicar também a Igreja cristã”

1.esta é apenas uma suposição para tentar fundamentar um falso argumento.

2.Este assunto nunca esteve em debate na Igreja primitiva. A divindade começou a ser debatida mais tarde.

3.Mas a Igreja cristã sabia das duas naturezas de Jesus, e isto era indiscutível.

4.Os Evangelhos foram livros históricos, feitos por autores despretensiosos, inspirados pelo Espírito Santo. Se houvesse algum problema desta ordem ele seria levantado, com certeza, ou pelo menos combatido. Imagine um Lucas, que escreveu o Evangelho de Lucas e o livro de Atos dos Apóstolos. No prólogo do Evangelho de Lucas, o autor que era também medico e companheiro de Paulo nas suas viagens missionárias, escreve: “Tendo pois muitos empreendido por em ordem a narração dos fatos que entre nós se cumpriram, segundo nos transmitiram os mesmos que os presenciaram desde o princípio, e foram ministros da palavra, pareceu-me também a mim conveniente descrevê-los a ti, ó excelente Teófilo, por sua ordem, havendo-me já informado minuciosamente de tudo desde o princípio, para que conheças a certeza das coisas de que já estás informado” (Lc. 1.1-4). Notem, por favor, que o texto inteiro fala de pesquisa diligente, de testemunhas oculares, de ordem dos fatos, com finalidade de ter certeza das informações. Ora, quem trabalha com crítica literária sabe muito bem da força desses dados. Como é que o mundo fica encantado com um livro que se baseia em declarações tão rasas e superficiais como as que aparecem no livro Código Da Vinci.

A QUESTÃO DAS BODAS DE CANÁ – João 2.1-12

Brawn diz que o casamento relatado em Jo. 2, é o próprio casamento de Jesus. Esta é mais uma declaração simples, sem qualquer tentativa de fundamentar. A novela trabalha sempre com uma espécie de narcótico para anestesiar a razão e o espírito inquiridor da assistência. Vejamos:

1. A mãe de Jesus estava lá porque a família deveria ser amiga dos nubentes (v. 1). O relato da presença dela é como convidada e não como mãe do noivo.

2. Jesus foi convidado também com os seus discípulos – (v. 2). Se foi convidado, não era o noivo, claro. Como poderia ele ter sido convidado para o seu próprio casamento? O argumento é bonito, mas não merece fé. É uma covardia intelectual.

3. O verso 12 diz que após a festa, Jesus desceu para Cafarnaum, ele, e sua mãe, e seus irmãos, e seus discípulos. Não fala de esposa. Não parece estranho?

4. Este é um erro grosseiro. Só mesmo para quem quer torcer a verdade.

A QUESTÃO DOS CÓDIGOS E DOS SEGREDOS

1. No episódio do Museu de Louvre, aparece uma especialista em códigos, a criptóloga Sophie Neveu, que é neta da vítima, e acaba sendo descendente do casamento de Jesus com Maria Madalena.

2. Os símbolos postos no quadro da “Santa Ceia”, nem deveriam ser mencionados.

a) Primeiro, porque ninguém viu a fisionomia de qualquer dos apóstolos, muito menos de Maria Madalena, para pintá-los. Portanto, nada original.

b) Sabe-se que Da Vinci teve que usar modelos humanos para pintar aqueles personagens. E que modelos!

c) Segundo, porque a Bíblia proíbe a reprodução de imagens, principalmente a imagem de Jesus, jamais poderia ter sido reproduzida.

3. Deus não deixou o Evangelho em códigos, mas em palavras claras e nítidas:

a) Jesus disse que tudo quanto ouvira do Pai, revelou aos discípulos

b) “Tudo o que ouvi do Pai vos tenho feito conhecer”

c) O apóstolo Paulo fala diversas vezes do “mistério” que foi revelado: Ef. 3.5.

d) E na ascenção de Cristo do Monte das Oliveiras, temos mais de 500 testemunhas da ida de Jesus para o Céu. O testemunho claro de dois Anjos que anunciaram sua volta – tudo foi dito em termos claros e não em código.

4. Deus não deixou sua verdade em código

5. Mentiras bem montadas começaram a surgir logo depois da ressurreição de Cristo: veja a mentira dos judeus sobre o corpo de Jesus, registrada por Mateus 28.11-15.

A MARIA MADALENA DOS EVANGELHOS

O sobrenome “madalena” provém de uma aldeia da Galiléia de nome Magdala. Poucas vezes seu nome aparece nos Evangelhos e, antes dos fatos da crucificação e ressurreição, a única menção aparece em Lucas 8.2, que diz que ela era uma das mulheres que serviam a Jesus com seus bens e dela haviam saído sete demônios. Marcos menciona o fatos dos demônios que saíram dela, quando relata sua ida ao sepulcro (Marcos 16.9). Muito se tem procurado identificar Maria Madalena com a mulher pecadora de Lucas 7.50, cujo nome não aparece no texto. Como é o mesmo autor, Lucas, que menciona Maria Madalena no capítulo 8.2, se se tratasse da mesma pessoa, com certeza Lucas te-la-ía identificado.

Mas a passagem talvez mais importante é a de João 19. 25, 26. Na hora da crucificação, João estava junto à cruz, com a Mãe de Jesus, a irmã da mãe de Jesus, Maria de Cleofas, e Maria Madalena. Aqui há dois aspectos interessantes. O primeiro é que o livro em questão diz que quando Jesus foi crucificado Maria Madalena fugiu de Jerusalém para Gália para não criar problemas. No entanto, João, que estava ao pé da cruz, testifica que ela lá estava com as outras mulheres. Um segundo aspecto importante é que Jesus tomou providências, antes de morrer, sobre sua mãe, entregando-a aos cuidados de João, o discípulo amado (vv. 26,27). Ora, se Maria Madalena fosse sua mulher ou esposa, já que o grupo era bem íntimo, não teria ele também dado providências sobre ela? Com certeza que sim.

No episódio da ressurreição, Maria Madalena vai alcançar proeminência. Todos os evangelistas falam dela. Mateus relata que ela e outra Maria foram ao sepulcro e ali viram a pedra removida da boca do túmulo e um Anjo lhes falou que Jesus havia ressuscitado, e mandou que elas avisassem aos outros. E indo elas, o próprio Jesus lhes apareceu (Mateus 28.1-10). O Evangelho de Marcos, igualmente, fala de Maria Madalena e outras mulheres indo ao sepulcro bem cedo. Vêem o Anjo e este lhes dá ordem para avisarem os outros (Marcos 16.1-8). Lucas começa antes da ressurreição, registrando que as mulheres que tinham vindo com ele da Galiléia observaram onde José de Arimatéia e Nicodemos haviam posto o corpo de Jesus. Relatando a ressurreição, Lucas informa que essas mulheres foram muito cedo ao sepulcro e ali constatam a ressurreição. Os nomes da mulheres só são especificados em Lucas 24.10, mas Maria Madalena aparece em primeiro lugar (Lucas 23.49-56; 24.1-12). João estende mais a narrativa. Menciona que Maria Madalena foi ao sepulcro de madrugada, viu a pedra revolvida e correu para avisar a Pedro e a João. Voltaram ao túmulo e ali constataram que o túmulo estava vazio. Quando Pedro e João se retiraram, o próprio Jesus aparece a Maria, que estava chorando e recebe dele a ordem para avisar aos demais. Ela, pois, foi a primeira missionária da ressurreição – uma mulher (João 20.1-18). Em Atos dos apóstolos, entre o grupo que ficou no cenáculo em oração esperando a vinda prometida do Espírito Santo, estava Maria, Mãe de Jesus, com as outras mulheres e os irmãos de Jesus (Atos 1.13-14).

À luz destes relatos dos Evangelhos canônicos, algumas observações são evidentes:

1. Maria Madalena teve uma conversão profunda ao Evangelho e por isso dedicou-se a Jesus e seu ministério, com outras mulheres e com a própria Mãe de Jesus. Essa dedicação era comum e nada há de anormal nisto.

2. A denominação de “prostituta” não é apropriada a ela, e nem aparece explicitamente nos Evangelhos. Esta qualificação acontece em alguns escritos, quando ela é confundida com a mulher pecadora de Lucas 7. Mas já dissemos que se essa fosse Maria Madalena, Lucas o teria informado, mas ele fala da pecadora no capítulo 7 e de Maria Madalena no capítulo 8, e pronto. Esta designação de prostituta só vai ser oficializada pela Igreja Católica, através do Papa Gregório, o Grande (590-604 DC), quando a mulher pecadora do capítulo 7 de Lucas passou a ser festejada como Santa Maria Madalena (Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, Vol. 4, p. 135, R.N. Champlin, Editora Agnos).

3. Pelos relatos dos Evangelhos, ainda, Maria Madalena, com outras mulheres, acompanhou todo o processo de julgamento de Cristo e teve coragem de estar ao pé da cruz no momento da Sua morte. Portanto, não fugiu para Gália, como quer Dan Brawn, em seu livro O Código Da Vinci.

4. Ainda mais: Maria Madalena foi a primeira a testemunhar a ressurreição de Cristo – sua fé era, realmente espiritual, e não conjugal ou marital. Sobretudo, ela foi a primeira pessoa a proclamar aos demais que Jesus havia ressuscitado.

5. É curioso observar, no entanto que, tanto a Mãe de Jesus, como Maria Madalena, não são mais mencionadas nos escritos Sagrados além de Atos capítulo 1.

Assim, se os Evangelhos são mais fidedignos relatos dos fatos sobre a vida de Jesus, uma vez que foram feitos por aqueles que conviveram com Ele, e se eles relatam as atividades de Maria Madalena dessa maneira, tudo o mais que corre por esta falsa literatura é falso.

CONCLUSÕES

1. Assim como o Diabo distorceu a Palavra de Deus no Éden para enganar Eva e Adão, assim ele continua distorcendo verdades para enganar hoje.

2. A novela de Brawn fundamenta-se em filosofias esotéricas, muito comuns nos primeiros séculos e muito comuns ainda hoje – a fascinação pelas coisas ocultas.

3. Jesus disse: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Pessoas que ainda estão presas ao erro, ao pecado, ao Diabo, precisam, isto sim, sere libertas por Cristo.

4. Não foi sem razão que o apóstolo Pedro nos advertiu contra “fábulas artificialmente compostas” (2 Pd. 1.16-21).

5. O objetivo de Brawn é destruir o conceito da Divindade de Jesus, destruir o conceito da necessidade de Salvação e desviar as pessoas do Céu, indo para o inferno. É lá o lugar de Brawn e todo o seu elenco.

Damy Ferreira

domingo, junho 24, 2007

Um gato abandonado...

Ele apareceu de repente, saído das grades do estacionamento do Extra Boulevard. Ele miou para mim. Voltei e fiz um afago em sua cabecinha. Difícil esquecer aquele olhar, ao mesmo tempo inocente e ávido. Estava um pouco sujinho. Gato de rua...

Prossegui em meu caminho, voltava da igreja para casa. Ele ficou lá. Um turbilhão de pensamentos inundou a minha cuca! Como eu quis ter condições de levar aquele gatinho preto e branco para casa! Fiquei pensando em como esses animais de rua se viram para sobreviver. E tive uma grande esperança de que o Pai dos céus cuide deles. Como seria bom, todavia, se mais pessoas se dispusessem a adotá-los! São seres vivos, criados por Deus também, e que sentem falta de amor. Não sei se havia muitos animais abandonados no tempo de Jesus, porém acredito que, para ele ter falado de Deus cuidando das aves, um gatinho de rua, assustado e com fome, sensibilizaria bastante o nosso mestre galileu.

Você nunca pensou em adotar um animal de rua? Posso dizer com experiência que eles sabem retribuir amor com amor. Das três gatinhas que temos aqui em casa, duas eram gatas de rua e uma nasceu de outra gata de rua que tivemos há muito tempo. Amo todas elas, dão muita alegria para nós. Além delas, temos uma cadelinha. Mais festa ainda!

Quem sabe algo assim não mudaria a sua vida? Decerto isso só lhe faria bem. Os animais são nossos irmãos. Por que deixá-los largados ou maltratá-los? Podemos ajudar o Pai dos céus a "cuidar das aves". Pense nisso! Adote um animal de rua!

sábado, junho 16, 2007

As virtudes teologais [7]: O amor

A mensagem central do Novo Testamento é a de que Deus ama. Os Evangelhos Sinóticos, os Atos dos Apóstolos, as cartas paulinas, as cartas católicas, a literatura joanina e o Apocalipse proclamam que o amor de Deus pelo ser humano se humanizou em Jesus de Nazaré. Em Jesus, afirma-se, conhecemos que Deus é o sujeito primeiro e original do verbo amar.


Nos Sinóticos, vemos Jesus amando com o olhar, a compaixão, a surpresa, a ressurreição. Ele fitou e amou o jovem rico que se aproximara dele e alegara cumprir desde a juventude os mandamentos da lei de Moisés (Mc 10.21). Ao leproso que se arrastara até ele dizendo que podia curá-lo se quisesse, Jesus disse “Quero”, sem hesitar, sem exigir condição para que o fizesse (Mc 1.40-42). Uma mulher estrangeira chegara até ele pedindo por sua filha atormentada. Jesus recusou, dizendo aos seus discípulos que fora enviado a Israel. “Não fica bem tirar o pão dos filhos e atirá-lo aos cachorrinhos”, falou para ela Jesus. “Senhor, mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa de seus donos”, ela respondeu. Certamente surpreso, Jesus exaltou a fé que a mulher demonstrou e curou-lhe a filha (Mt 15.21-28). Comovido pelo sofrimento de uma viúva da cidade de Naim, a qual acompanhava os que levavam o seu filho morto, Jesus aproximou-se dela e quis consolá-la: “Não chores!” Dando uma ordem ao jovem morto, este voltou à vida. Jesus, então, o reconduziu à sua mãe (Lc 7.11-18). Um jovem com vestes brancas ordenou às mulheres que encontraram o túmulo vazio na manhã da ressurreição de Jesus: “Ide dizer aos seus discípulos e a Pedro que ele vos precede na Galiléia. Lá o vereis, como vos tinha dito” (Mc 16.7). Os céus não se lembravam do Pedro que negara Jesus, apenas queriam Pedro perto de Jesus novamente.


Nos Atos, dentre os exemplos de curas, exorcismos e outros milagres operados por mãos de apóstolos como Pedro, João e Paulo, a história de Tabita sobressai como um registro ímpar de manifestação concreta do Deus-Amor. Essa mulher, que morava na cidade costeira de Jopa, e cujo nome é traduzido para o grego no texto, Dorcas, é chamada de “notável pelas boas obras e esmolas que fazia” (At 9.36). Ela adoeceu e morreu. Então, alguns discípulos mandaram chamar Pedro. Fico comovido com a cena das viúvas chorando e mostrando a Pedro as roupas que Tabita havia feito para elas (v. 39). É como se dissessem daquela discípula de Jesus: “Era ela que cuidava de nós! O que será de nós agora sem ela?” A ressurreição de Tabita não foi só um sinal miraculoso, mas um testemunho do quanto o amor expresso pela solidariedade reflete o cuidado do próprio Deus.


Nas Cartas Paulinas, o hino ao amor (1Co 13) fundamenta de modo magistral as recomendações do apóstolo a respeito do exercício dos carismas ou dons dados pelo Espírito Santo. Por mais extraordinário que seja o carisma que alguém manifesta, se nisso falta o amor, isso é nada, não tem nenhum proveito (v. 1-4). O que o amor é revela o objetivo dos carismas: eles devem proporcionar a paciência, o serviço, o respeito, a humildade, o perdão, a justiça, a fé e a esperança (v. 4-7). Os carismas terminarão, mas o amor permanecerá (v. 8). É a maior das virtudes teologais (v. 13).


Nas Cartas Católicas, afirma-se que a lei régia segundo a Escritura é “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Tg 2.8). Isso está em completo desacordo com uma postura discriminatória, que acolhe os ricos e rejeita os pobres, e que é condenada por Deus (v. 9). Recomenda-se que os cristãos demonstrem amor uns pelos outros, perdoem-se, pois “o amor cobre uma multidão de pecados” (1Pd 4.8).


A literatura joanina ensina que foi Deus quem primeiro nos amou (1Jo 4.19), tendo enviado seu único filho ao mundo, para que o mundo fosse salvo por ele (Jo 3.16-17). Como Cristo deu a vida por nós, devemos dar a vida pelos irmãos (1Jo 3.16); não apenas morrer por eles, mas socorrê-los em suas necessidades (v. 17). Somente nasceu de Deus e conhece a Deus aquele que ama, pois Deus é amor (1Jo 4.7-8, 20-21).


O livro do Apocalipse encerra o Novo Testamento animando os cristãos de Éfeso a recobrarem o amor que outrora possuíam, agora apagado, decerto por causa da perseguição (Ap 2.1-5). As tribulações passarão e o Deus-amor enxugará as lágrimas dos seus santos e com eles habitará para sempre (21.3-4).


Que Deus me ajude a ser aquele que devo ser, alguém que ama. Amém!

quinta-feira, março 29, 2007

As virtudes teologais [6]: A esperança


Esperança: ocupei-me desta palavra no tópico anterior; ela representa uma das três virtudes teologais apresentadas em 1Co 13.13. Finalizo aqui o estudo sobre a esperança, que vocês poderão talvez prosseguir em suas reflexões bíblicas pessoais. Conforme já fizera, irei atrás de ocorrências de palavras que possuam esse significado para ver o que se pode descobrir sobre essa virtude.


No Antigo ou Primeiro Testamento da Bíblia cristã, a palavra tiqeváh [1] – sobre a qual falei a propósito de Rt 1.12-13aα e 4.14aβ-15 – reaparece várias vezes no livro de Jó. Pretendo destacar aqui a sua utilização em Jó 19.10: “Ele me quebrou por todos os lados e eu vou; ele arrancou a minha esperança como uma árvore.” Jó se refere a Deus. Pode-se constatá-lo no versículo 6: “Sabei, então, que Eloáh me torceu; ele fez sua rede cair sobre mim.” “Eloáh” [2] é a palavra hebraica para “Deus” nessa passagem. O protesto de Jó sempre me surpreende. Mostra o quanto dói ser vítima de uma fatalidade, ser acusado injustamente ou sentir-se abandonado. A mágoa de Jó é contra os seus amigos e contra Deus. De um lado, Elifaz, Bildad e Zofar punham em dúvida a integridade do sofredor. De outro lado, Deus o massacrava sem ele nem mesmo saber por quê. O livro de Jó pergunta pela justiça de Deus diante do sofrimento de um inocente. Não há a preocupação de desresponsabilizar Deus pela desgraça de algum modo, embora seja preciso levar em conta a ação direta de uma personagem que fica entre o Senhor e Jó tentando pôr à prova a credibilidade da devoção deste. Chamada de “o satã” (hassatân) [3], isto é, “o adversário”, essa figura se mostra hostil a Jó. “A permissão do sofrimento por Deus, contudo, atende à finalidade de refutar uma acusação levantada contra Jó, a saber, de que a religiosidade de Jó não seria desinteressada.” (1) – Cf. Jó 1 e 2. Todavia, o justo Jó crê num Deus ao qual se pode apelar, mesmo que com violência e ressentimento. E mais: a fé que Jó possui não admite que Deus fique impassível diante da injustiça. “Eu sei: o meu resgatador está vivo e por fim ficará de pé sobre o pó. Depois de destruírem minha pele, mesmo em minha carne verei Eloáh” (19.25-26). Esses versículos, muito difíceis de traduzir, parecem sugerir que Jó acreditava numa intervenção de Deus em seu favor, por pior que se tornasse o seu estado de saúde. O go'el [4] (resgatador), de cuja menção no livro de Rute já tratei, era, no antigo direito israelita, aquela pessoa que deveria comprar a propriedade de um parente endividado para evitar a alienação do bem e que também assegurava a continuação da descendência no caso de uma viuvez sem filhos (cf. Lv 25.24-25; Dt 25.5-10). Na compreensão de Jó, ainda que não sem choro ou revolta diante da calamidade, Deus não o deixaria desamparado.


O Salmo 40 abre-se com a forma verbal qaváh [5], que dá origem à palavra tiqeváh. O verbo é utilizado de modo intensivo e é repetido “[...] para intensificar a idéia verbal.” (2) Poderia traduzir, então, o primeiro verso assim: “Eu esperei, esperei YHWH e ele se voltou para mim e ouviu o meu grito por socorro” (40.2). A leitura pode nos ajudar a partilhar dessa atitude do salmista, isto é, a esperança de que o Senhor ouve e salva. Experimente, leia o salmo!


Notas:


(1) ZENGER, Erich. Introdução ao Antigo Testamento, p. 303.


(2) “Muitas vezes o infinitivo absoluto é colocado na frente de uma forma conjugada da mesma raiz para reforçar ou intensificar a idéia verbal.” KELLEY, Page H. Hebraico bíblico: uma gramática introdutória, p. 221.


Referências Bibliográficas:


KELLEY, Page H. Hebraico bíblico: uma gramática introdutória. Trad. Marie Ann Wangen Krahn. São Leopoldo: Sinodal, 1998. 456 p.


RÜGER, H. P. Biblia Hebraica Stuttgartensia. 4. ed. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 1990. 1574 p.


ZENGER, Erich. Introdução ao Antigo Testamento. Trad. Werner Fuchs. São Paulo: Loyola, 2003. 557 p. Coleção Bíblica Loyola, n. 36.


quarta-feira, março 07, 2007

Jogue!

16.10.2006

Um dia, enquanto falava com o Romão por e-mail, considerava que a Bíblia não se preocupa em decidir categoricamente sobre se a história humana toma os seus rumos apenas a partir daquilo que Deus determina ou daquilo que o ser humano escolhe. E aí me veio uma imagem interessante à mente. Talvez alguém já tenha pensado nisso, mas, de todo modo, foi algo que eu visualizei e é SOMENTE um ensaio de compreensão: A história é um jogo, cujas estratégias e possibilidades foram já determinadas por Deus. Só que Deus organizou o jogo de tal modo que o objetivo que ele quer atingir será inevitavelmente atingido. Entretanto, mesmo que o resultado do jogo já esteja definido, Deus disponibilizou no tabuleiro várias jogadas que, diferentes nos movimentos e nos desdobramentos, levarão aonde Deus quer. Aí é que está: Deus nos chama para fazer as jogadas! O movimento histórico que fizermos não vai impedir que o planejamento de Deus para ganhar o jogo alcance êxito, porém implicará em resultados favoráveis ou desfavoráveis a nós. Somos livres para fazer as jogadas que quisermos, pois as possibilidades são inúmeras. Mas Deus poderá ganhar e a gente se dar bem ou Deus poderá ganhar e a gente se dar mal. Deus propõe a cada um de nós: Jogue! A questão é: Que movimento(s) faremos?

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

As virtudes teologais [5]: A esperança



O que o Antigo ou Primeiro Testamento da Bíblia cristã diz sobre esperança? Com o objetivo de apresentar algumas respostas, utilizarei este procedimento: mapear as ocorrências de algumas palavras nos textos hebraicos que assinalem ou sugiram esse conceito.


A primeira palavra que desejo destacar é tiqevah [a]. Essa palavra é oriunda de uma raiz (qavah [b]), cujo significado seria “[...] esperar ou procurar com grande expectativa” (1). Entre outras passagens, ela aparece em Rute 1.12-13aα, nas palavras de Noomi dirigidas às suas noras Orpá e Rute, ambas estrangeiras, de Moabe: “Voltai, minhas filhas, ide, pois eu estou velha para ser de um homem. Ainda que eu tivesse dito: 'Há para mim uma esperança: nesta noite fui novamente de um homem e gerei filhos', por isso esperaríeis até que eles crescessem?”. A palavra “esperança” surge para enfatizar o contrário: Até então não restava a Noomi uma perspectiva de vida, já que perdera seu marido e filhos, e considerava assim que YHWH, o Todo-Poderoso, fizera-lhe um mal (1.21bγ). De modo surpreendente, contudo, a moabita Rute se recusa a abandonar a sua sogra judia Noomi, conjurando em prejuízo próprio a intervenção de YHWH caso não permanecesse com ela até a morte. Graças à fidelidade de Rute (nome cujo significado é “amiga”), após todo o desenlace da história com Boaz, um parente do marido de Noomi que se casa com Rute e exerce a função de go'el [c] – aquele que garantia o direito de propriedade e a continuidade da descendência (2) –, a outrora amargurada e desamparada judia pôde ouvir das mulheres de Belém: “Bendito seja YHWH que não fez cessar para ti um goe'l hoje; seja proclamado o seu nome em Israel! Ele será para ti um retorno de vida e uma provisão na tua velhice, pois tua nora que te ama o gerou. Ela é melhor para ti do que sete filhos” (4.14aβ-15). A passagem se refere ao nascimento de Obed, filho de Rute com Boaz. Reconhece-se, portanto, que YHWH trouxe para Noomi a esperança novamente porque a sua nora estrangeira, provinda de um povo que é estigmatizado em outros textos (p.ex. Nm 25), foi uma amiga leal, disposta a abdicar de sua identidade nacional e religiosa em favor de sua sogra. É possível que se costume enfatizar nesse texto a conversão de Rute ao verdadeiro Deus. Eu prefiro chamar a atenção para a idéia de que Deus não está limitado às fronteiras de um grupo social, podendo nos abençoar por meio de pessoas das quais menos esperamos. Além disso, quero notar que as pessoas podem ser mais do que os estigmas que colocamos sobre elas. Lembro-me de ter lido no livro de C. S. Lewis, “Cristianismo puro e simples”, um pensamento que jamais esqueci: de que há pessoas que, embora não confessando Cristo, podem estar mais próximas dele do que alguns que o confessam.


Nos Salmos há muitas declarações de esperança. Eu encontro no Salmo 146 a palavra sever [d], a segunda que desejo tomar em consideração aqui. Ela provém de uma raiz (savar [e]), cujo sentido mais intensivo seria o de “aguardar” ou “esperar”. (3) “Avante, os passos daquele cujo auxílio é o Deus de Jacó; cuja esperança está em YHWH, seu Deus” (146.5). Percorre um caminho direito a pessoa que crê no auxílio de YHWH em seu favor, porque o agir de Deus manifesta-se em justiça e salvação. Nesta esperança precisamos permanecer. Amém!


Notas:


  1. HARRIS, R. Laird; ARCHER, JR., Gleason; WALTKE, Bruce K. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, p. 1328.

  2. "Os membros da família em sentido amplo devem uns aos outros ajuda e proteção. [...] O go'el é um redentor, um defensor, um protetor dos interesses do indivíduo e do grupo. [...] Quando um israelita precisa vender seu patrimônio, o go'el tem direito preferencial na compra, pois é muito importante evitar a alienação dos bens da família. A lei está codificada em Lv 25.25. [...] O costume é ilustrado também na história de Rute, mesmo que aí a compra da terra se complique por um caso de levirato. Noemi tem uma posse que a pobreza a obriga a vender; sua nora Rute é viúva e sem filhos. Boaz é um go'el de Noemi e de Rute, Rt 2.20; mas há um parente mais próximo que pode exercer o direito de go'el antes que Boaz, Rt 3.12; 4.4. Esse primeiro go'el estaria disposto a comprar a terra, mas não aceita a dupla obrigação de comprar a terra e casar com Rute, pois o filho que nascesse dessa união levaria o nome do defunto e herdaria a terra, Rt 4.4-6. Boaz adquire então a posse da terra e se casa com Rute, Rt 4.9,10". DE VAUX, Roland. Instituições de Israel no Antigo Testamento, p. 43-44. Sobre a lei do levirato (do latim levir, "cunhado"), cf. Gn 38; Dt 25.5-10; Mc 12.18-27 par.
  3. HARRIS, R. Laird; ARCHER, JR., Gleason; WALTKE, Bruce K. Op. Cit., p. 1465.


Referências Bibliográficas:


DE VAUX, Roland. Instituições de Israel no Antigo Testamento. Trad. Daniel de Oliveira. São Paulo: Editora Teológica, 2003. 622 p.


HARRIS, R. Laird; ARCHER, JR., Gleason; WALTKE, Bruce K. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. Trad. Márcio Loureiro Redondo, Luiz A. T. Sayão e Carlos Osvando C. Pinto. São Paulo: Vida Nova, 1998. 1789 p.


RÜGER, H. P. Biblia Hebraica Stuttgartensia. 4. ed. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 1990. 1574 p.

domingo, fevereiro 11, 2007

As virtudes teologais [4]: A esperança


Começo a falar agora da segunda dentre as virtudes teologais, que é a esperança. Palavra tão difícil, à luz das circunstâncias com as quais temos nos deparado ultimamente: violências contra crianças e adultos, catástrofes naturais, ameaça de extinção de espécies animais e vegetais, conflitos religiosos. Todavia, é possível encontrar consolo nas palavras do Apóstolo: “Não fixando a nossa atenção nas coisas que se vêem, porém nas coisas que não se vêem; porque as coisas que se vêem são transitórias, mas as que não se vêem são eternas” [1] (2Co 4.18). E Paulo continua: “Assim que, se alguém está em Cristo, é uma nova criação; as coisas antigas passaram. Vejam! Tornaram-se novas!” [2] (2Co 5.17) O contexto mostra que as palavras de Paulo refletem uma situação presente e uma expectativa escatológica. Isso quer dizer que Deus, por meio de Cristo, renovou e renovará todas as coisas. Sim, somos de Cristo! Mas permanecemos, ainda que temporariamente, na realidade antiga que caracteriza a humanidade desde a sua condição transgressora. Entretanto, a nova criação que começa com e por Cristo é o anúncio do triunfo escatológico do reinado de Deus, isto é, o estabelecimento final do domínio de Deus sobre o universo, expelindo definitivamente aquilo que provoca o mal e se opõe à vida. Percebo no querigma apostólico que “estar em Cristo” é incontornavelmente pôr em atividade os poderes do reinado de Deus para a transformação da realidade. “Porque ele deve reinar até que coloque todos os inimigos debaixo dos seus pés” [3] (1Co 15.25). E do que Paulo diz em seguida – “O último inimigo a ser destruído é a morte” [4] (1Co 15.26) –, pode-se considerar que esses inimigos representam forças contrárias à vida, sejam elas naturais ou espirituais.


De fato, os processos naturais de transformação da matéria e a luta das espécies pela sobrevivência são realidades complexas que não podem ser tratadas de qualquer modo. A morte, a dor, a imprevisibilidade, a dificuldade e a adaptação são fatores que compõem o nosso universo. Entretanto, a mensagem bíblica refere-se a um desequilíbrio ontológico, isto é, algo nos fenômenos naturais e percebido com mais clareza nas manifestações da consciência e ação humanas que sugere uma revolta contra o Deus da vida e a harmonia da sua criação boa. Pode-se dizer que a maneira com que o Novo Testamento expõe a vinda do reinado de Deus ao mundo – presente já, mas ainda não completamente manifesto – indica que nós que temos sido tocados pelo Espírito Santo somos responsáveis por cooperar com Deus para abençoar o mundo pelo poder do reinado divino; porém, e nisso reside a esperança cristã de modo fundamental, a reversão da hegemonia do pecado para introduzir um domínio pacífico, fraterno, universal e eterno da vida só poderá ser realizada pela ação exclusiva do Senhor Deus. Tendo isso em perspectiva, Jesus de Nazaré orava e eu preciso orar com ele: “Pai, (...) Venha o teu reinado!” [5] (Lc 11.2).

domingo, fevereiro 04, 2007

As virtudes teologais [3]: A fé

Prosseguindo com as reflexões sobre as virtudes teologais – a fé, a esperança e o amor (1Co 13.13) –, gostaria de finalizar a abordagem sobre a fé dirigindo a atenção para dois exemplos tomados do Novo Testamento.


Primeiramente, quero me deter na carta aos Hebreus a fim de pensar na seguinte questão: do ponto de vista da religião cristã, como é que surge a fé? Faço a leitura de Hebreus 11.1-2: “Ora, a fé é uma convicção daquilo que está sendo esperado, uma certeza de coisas que não estão sendo vistas; pois os antigos foram aprovados por causa dela”. O autor anônimo desse livro faz uma relação da fé com a esperança. A fé existe a partir de uma esperança. E a esperança é efeito de uma promessa. A fé, então, nasce do encontro com Deus. Tal encontro é uma revelação de Deus, por meio da qual o ser humano se certifica da presença divina. A presença de Deus por si só já é promessa: promessa de companhia, de acolhimento, de amizade. Podemos lembrar das palavras de Deus a Moisés, quando este temia a missão de se apresentar ao Faraó: “E Deus* disse: Mas eu serei contigo” (Êx 3.12aα). Sentindo-se acolhida, a pessoa dirige o seu ser para Deus, e escuta, fala, age. E Deus, como é que ele lhe fala? No cristianismo católico fala-se do sensus fidei (0 bom senso da fé), isto é, uma iluminação do Espírito Santo por meio da qual os fiéis podem discernir o que conduz à verdade de Deus. Evidentemente, isso não pode estar dissociado da Bíblia e da dogmática da Igreja. O cristianismo protestante, por sua vez, estabelece a centralidade da Bíblia cristã enquanto testemunho da revelação de Deus. Hebreus 11, a meu ver, representa uma excelente definição do que é a Bíblia. Por que o Espírito Santo de Deus se comunica através das páginas da Bíblia? Porque a Bíblia é um livro que contém os diversos testemunhos de homens e mulheres que experimentaram a manifestação de Deus na sua história. Hebreus 11.2 conclui assim: “(...) os antigos foram aprovados por causa dela”, da fé. O verbo grego martiréo (μαρτυρέω) - “aprovar” - também tem o sentido de “dar testemunho”. Por meio dessas experiências, foi-lhes dado obter uma compreensão segura da natureza de Deus e de seus propósitos para a humanidade. É sobre isso que toda a Bíblia vai falar. O mais importante: a Bíblia cristã anuncia Deus tornado ser humano, Jesus de Nazaré, para a nossa salvação.


O segundo exemplo que desejo mencionar está em Efésios 2.8-9: “Porque pela graça fostes salvos por meio da fé;e isso não vem de vós, é o dom de Deus; não vem das obras, a fim de que ninguém se orgulhe”. A ação do verbo grego kaucáomai (καυχάομαι) - “orgulhar-se” - é expressa de modo absoluto. Isso indica que as obras, consideradas em si mesmas, podem levar o ser humano a rejeitar a salvação que Deus lhe oferece. Deve ficar claro: a salvação é pela graça. A fé conduz a pessoa, de modo que ela compreenda e acolha essa graça. Ninguém é salvo por aceitar um corpo de doutrinas. Somos salvos quando aceitamos que a salvação não se encontra em nós, mas procede somente de Deus. Não se trata, pois, de excluir as obras da experiência cristã ou condicionar a salvação àquilo que se crê. Trata-se de afirmar que a salvação é realizada unicamente por Deus que pode e quer salvar. Por isso, o testemunho bíblico reúne a fé e as obras no milagre da salvação: a fé anuncia a salvação e as obras concretizam o anúncio da fé, ainda que não de modo completo. No versículo 10, Paulo conclui: “Porque somos criação dele, tendo sido criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus preparou de antemão, a fim de que andássemos nelas”.


Nota:


* No texto grego acrescentou-se ὁ θεός (hó téos).

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Algumas palavras sobre o livro de Qohélet [2]: Qohélet e o ensino eclesiástico.

Eclesiastes 12.9-11

9
Qohélet, além de ter sido sábio,
ainda ensinou o conhecimento ao povo;
ele escutou atentamente e examinou
(corrigiu?) muitos provérbios.

10
Qohélet procurou
encontrar palavras agradáveis,
escrever corretamente palavras verdadeiras.

11
As palavras dos sábios são como os aguilhões,
e como pregos fincados pelos mestres das reuniões;
elas foram dadas pelo único pastor.


O texto é uma espécie de depoimento sobre o autor do livro de Eclesiastes e constitui um (primeiro?) epílogo da obra. Algumas considerações podem ser feitas sobre a prática do ensino na igreja:

A produção e a socialização do conhecimento precisam ser incentivadas (v. 9). Qohélet se dedicou a refletir sobre a cultura da sabedoria e da espiritualidade em Israel. Todavia, seu trabalho não estava restrito ao acúmulo, mas à transmissão do conhecimento ao povo. A atitude de Qohélet reforça a proclamação do Novo Testamento a respeito do sacerdócio universal daqueles que têm fé em Jesus: a todo o cristão devem ser garantidas as condições para uma aproximação pessoal e consciente de Deus, capaz de proporcionar a maturidade espiritual.

Para reflexão: O que poderia representar um obstáculo ao crescimento na fé? Que medidas poderiam ser tomadas para solucionar o problema?

A construção do conhecimento passa incontornavelmente pelo diálogo crítico de idéias (v. 9). Qohélet não quis apenas conhecer, porém também dialogar com a cultura do seu tempo. A sua avaliação dos provérbios que corriam na sociedade incluía conferi-los com o que realmente acontecia no dia-a-dia. Isso permitia que ele percebesse se o que se falava sobre Deus conduzia à vida ou ao engano das pessoas. O ensino na igreja precisa abrir espaço para o compartilhamento de opiniões enquanto se examina em conjunto os textos bíblicos, os quais são a referência para a fé em Deus no cristianismo.

Para reflexão: Que benefícios poderiam resultar do debate de opiniões em torno da leitura dos textos bíblicos? Haveria algum perigo nesta prática?

O objetivo do ensino teológico é orientar para a vida (v. 11). O autor deste testemunho a favor de Qohélet inclui a sua obra no grande conjunto da tradição e da fé israelita. Posteriormente esse patrimônio espiritual será herdado pelos cristãos, os quais o utilizarão para compreender a revelação de Jesus Cristo. A Bíblia cristã, portanto, é o referencial para o encontro dos cristãos com o seu Deus. Suas palavras são “os aguilhões” do pastor, Deus, com os quais ele guia o cristão no caminho; seus ensinos, os “pregos fincados”, o fundamento para uma vida próxima de Deus e abençoadora para o mundo.

Para reflexão: Em que o ensino na igreja pode ajudar uma pessoa a compreender a natureza e a prática da fé?

As virtudes teologais [2]: A fé

Na postagem anterior, introduzi o tema das virtudes teologais – a fé, a esperança e o amor – que conhecemos a partir da leitura da Primeira Carta do Apóstolo Paulo aos Coríntios, capítulo 13, versículo 13 (1Co 13.13). Tomás de Aquino (1224 - 1274), um dos grandes pensadores da escolástica medieval, um período de intensa reflexão teológica e filosófica sobre os temas fundamentais da dogmática cristã católica, pronunciou-se desse modo acerca delas em sua "Summa Teologiae" (2ª parte, 1ª seção, questão 62, artigo I):

Ora, esses princípios se chamam virtudes teologais, quer por terem Deus como objeto, enquanto nos ordenam retamente para ele; quer por nos serem infundidos só por Deus; quer por nos serem essas virtudes conhecidas só pela divina revelação, na Sagrada Escritura.


Eu havia iniciado com a fé, apresentando a idéia hebraica de 'emunah – fidelidade – em Habacuque 2.4: “Eis o orgulhoso! O seu ser não é direito nele. Mas o justo por sua fidelidade será”. Em seguida, expus a noção da palavra grega pístis – fé – na releitura teológica que o apóstolo Paulo faz da passagem de Habacuque em Romanos 1.17: “Mas o justo viverá pela fé”. Em Habacuque, a fidelidade do justo é ressaltada pelo clamor do profeta contra o orgulhoso caldeu: ele faz pilhagens, usa de violência, destrói povos, confia em ídolos de madeira, pedra ou metal. A fidelidade, portanto, não é uma idéia: ela está indissociavelmente ligada à retidão, pois YHWH é “sobremodo puro de olhos para ver a maldade” (Hc 1.13aα). O manejo de Paulo com esse versículo, que ele toma a partir do grego, objetiva apresentar o evangelho como revelação da graça de Deus que aceita incondicionalmente os pecadores por meio da fé em Jesus Cristo.


Que outros sentidos o conceito “fé” pode assumir em textos do Novo Testamento da Bíblia cristã?


De acordo com Mc 1.14-15, Jesus inaugurou a sua pregação com uma declaração e uma convocação: completara-se o tempo e o reinado de Deus havia chegado; diante disso, o Nazareno clamava para as pessoas que elas convertessem o seu pensamento e o seu caminho e fizessem das boas notícias anunciadas por ele a substância da sua fé. Acredito que a noção de fidelidade está contida no imperativo do verbo pistéuo, da mesma raiz de pístis: comprometei-vos com as boas notícias, sede fiéis ao evangelho. Ter fé, segundo Jesus, é aderir ao seu anúncio. E o que Jesus anuncia? Que o reinado de Deus está presente entre os homens: o seu poder expulsa os espíritos impuros (1.21-29); a sua compaixão não apenas cura, mas toca o corpo do doente e do marginalizado (1.40-45); a sua terapia envolve os pecadores em celebrações de amor e amizade (2.15-17); a rigidez do jejum e do sábado são ultrapassadas pela fraternidade (2.18-22, 23-28); o serviço ao próximo substitui o governo de uns sobre outros (9.33-37); oferece-se um copo d'água ao discípulo sedento (9.41); homem e mulher se aproximam não para um tomar posse do outro, mas se unirem em um único ser, vivendo um para o outro (10.1-12); prenuncia-se a derrocada de um sistema religioso que colabora com a espoliação daqueles que vivem na penúria (13.1-2), ainda que o gesto de uma viúva de depositar no gazofilácio insensível tudo o que possuía tenha sido destacado como exemplo de confiança e desapego (12.41-44).

domingo, janeiro 21, 2007

As virtudes teologais [1]: A fé


“Agora, porém, permanecem fé, esperança, amor, estes três;
contudo, o amor é o maior deles”. (1Co 13.13)


Estas três palavras – fé, esperança, amor -, bem conhecidas de todos nós, foram chamadas de virtudes teologais. São virtudes porque, se exercitadas, inclinam o ser humano para o bem. E são teologais porque são orientadas totalmente para Deus, isto é, elas têm nele a sua fonte e o seu objeto.


Neste estudo, gostaria de falar sobre a fé, a partir tanto da Bíblia judaica quanto da Bíblia cristã. Só um esclarecimento: a Bíblia judaica consiste no texto em hebraico e aramaico que, em relação aos livros, mas não à sua estrutura e disposição teológica, corresponde ao Antigo ou Primeiro Testamento da Bíblia cristã protestante. As Bíblias cristãs, católica e protestante, têm em comum sua dupla divisão em Antigo e Novo Testamentos, embora divirjam, em relação à primeira parte, no número de livros e no tamanho de alguns deles.


Na Bíblia judaica aparece, no livro de Habacuque, uma palavra que, quando transposta para o grego, primeiro na tradução dos livros hebraicos (LXX) e depois no Novo Testamento grego, adquire um outro sentido. É a palavra hebraica 'emunah, que dá a idéia de algo confirmado, estabelecido, verdadeiro. Essa palavra é da mesma família de 'amen. Hc 2.4 faz parte da resposta de YHWH para a queixa de Habacuque a respeito da opressão dos caldeus sobre Judá. Por isso, a palavra pode ser traduzida por “fidelidade” – “Eis o orgulhoso! O seu ser não é direito nele. Mas o justo por sua fidelidade será”. O justo se estabelece por sua fidelidade à palavra de YHWH. Essa passagem é utilizada em Rm 1.17 por Paulo, o qual emprega o grego pístis: “Mas o justo viverá pela fé”. O apóstolo relê o texto de Habacuque como demonstração de sua tese sobre a justiça de Deus e o evangelho.


Mas qual a relação entre fé e fidelidade? Ambas, inclusive, provém da mesma raiz latina, fide. De certo modo, quem é fiel a YHWH, acredita, em fé nele. No verso de Habacuque o justo é comparado ao orgulhoso, de quem o ser, conforme diz YHWH, não é direito. Por quê? As sentenças pronunciadas a seguir dão a resposta: o orgulhoso (aqui, o caldeu) faz pilhagens, usa de violência, destrói povos, confia em ídolos de madeira, pedra ou metal. Em Habacuque, fidelidade não é uma idéia: ela está indissociavelmente ligada à retidão. Será isso também o que Paulo quer dizer com sua outra leitura da passagem? Não há dúvida que a intenção primeira de Paulo é provar pelas Escrituras judaicas que a justiça de Deus – entendida como aceitação incondicional de pecadores – é estabelecida pela fé em Jesus Cristo. Mas, assim como ser fiel a YHWH envolve aderir à conduta de retidão que YHWH exige, ter fé em Jesus Cristo também requer compromisso com a vida de retidão que teve Jesus de Nazaré. Certo! O Novo Testamento anuncia uma salvação gratuita, que não depende de créditos decorrentes de obras de justiça nossas. Mas como é que a fé que anuncia a graça salvadora irá se mostrar sem a concretização dessa mesma graça em ações? O Novo Testamento também demonstra isso.

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Homilia [3]: Jesus, o presente de Deus para você

O sermão abaixo foi apresentado por mim como modelo para elaboração de pequenos sermões de evangelização para cultos nos lares durante o PROMIBI, realizado por ITA no início de 2005.

TEMA – Jesus, o presente de Deus para você.
TEXTO – João 3.16-21.
IDÉIA CENTRAL DO TEXTO – Deus amou o mundo e por isso entregou o seu Filho único para salvá-lo. Todo aquele que crê no Filho único de Deus tem a vida eterna e anda na luz e na verdade.

INTRODUÇÃO – Todos nós gostamos de receber presentes. Eles são uma demonstração do carinho de nossos parentes e amigos por nós. Quando somos presenteados por alguém nos sentimos gratos e a nossa relação com essa pessoa é fortalecida. Deus também faz assim. Ele quer lhe dar o maior presente de todos. JESUS É O PRESENTE DE DEUS PARA VOCÊ. Gostaria de convidá-los a me acompanharem na leitura de João 3.16-21. Por que posso dizer que Jesus é o presente de Deus para você?

Jesus é o presente que Deus oferece...

1 – COMO PROVA DO GRANDE AMOR QUE TEM POR VOCÊ (v. 16).

Aplicação: Que resposta você pode dar a esse amor de Deus por você?

2 – PORQUE DESEJA QUE VOCÊ CONFIE EM JESUS (v. 18).

Aplicação: Em que você tem colocado a esperança de sua vida? Não gostaria de confiar em Jesus a partir de agora?

3 - PARA DAR A VOCÊ UMA NOVA VIDA (v. 19-21).
Aplicação: Você acha que precisa mudar algo em sua vida? Gostaria que Jesus o(a) ajudasse?

CONCLUSÃO – Jesus é o presente que Deus lhe oferece como prova do grande amor que tem por você. Ele deseja que você confie em Jesus, colocando nele a esperança da sua vida. Deus quer dar a você uma nova vida através de Jesus.

Homilia [2]: Quando o temporal se levanta...

O sermão abaixo foi apresentado por mim na Igreja Batista em Piracanjuba, Goiás, quando visitava meu amigo e colega de turma no seminário, Pr. Luciano Sardinha.


Piracanjuba - GO, 19 de maio de 2002.

Domingo (noite)

Tema: QUANDO O TEMPORAL SE LEVANTA...

Texto: Marcos 4.35-41.


INTRODUÇÃO

O cristão já participa antecipadamente do Reino de Deus através da fé em Cristo. No entanto, ele ainda vive neste mundo, em uma sociedade dominada pelo pecado, pelo mal e pela morte, onde as coisas podem, de repente, perder o controle e tudo ao redor ficar tumultuado. Talvez não haja imagem melhor para ilustrar isso do que o temporal. Esse fenômeno natural demonstra tremenda força e, por vezes, arrasta tudo pela frente desconcertando qualquer um.

E quando, na experiência do dia-a-dia, o temporal se levanta? O que pensar diante dos vultosos imprevistos com os quais a vida nos surpreende? Gostaria de pensar com os irmãos, nesta noite, sobre o tema: QUANDO O TEMPORAL SE LEVANTA...


Quando o temporal se levanta...

1º) Ele também atinge os que estão com Cristo (v. 36-37). Os discípulos de Jesus, que haviam deixado tudo para segui-lo, estavam com ele no barco quando o temporal começou. A tormenta apanhou tanto os outros barcos que também navegavam pelo mar da Galiléia como aquele em que eles e Jesus se encontravam. O fato de alguém ser crente em Jesus não o livra de passar por situações desagradáveis e momentos de angústia na vida.


Quando o temporal se levanta...

2º) É preciso contemplar a presença de Cristo pela fé para não fraquejar (v. 38). Debaixo da maior tempestade, com os discípulos desesperados, Jesus estava dormindo. Sim, ele estava dormindo, mas estava com eles ali. Aqueles homens temiam a força do vento e estavam admirados de Jesus não despertar, porém o Filho de Deus estava com eles ali. Eles deviam apegar-se à certeza da presença de Jesus com eles no barco e enfrentar seu medo, ao invés de se encolher diante da violência das ondas. Mesmo que a vida nos reserve circunstâncias tão duras, devemos concentrar a nossa atenção na presença de Jesus conosco. Isso se chama fé em Deus.


Quando o temporal se levanta...
3º) Faz-se necessário perseverar na esperança do socorro de Jesus, mesmo que de imediato a situação pareça não mudar (v. 38). Jesus estava no barco, porém os discípulos não viam as coisas melhorarem. Seus olhos estavam fixos na tempestade. Sua fé era pequena porque se orientava por aquilo que o instante lhes fazia sentir. Não conseguiam enxergar, para além disso, a proteção do Jesus com o qual há algum tempo andavam e que tantas coisas espantosas já tinha feito em presença deles. Se as circunstâncias ao nosso redor não mudam de imediato, isso não significa que Jesus está ausente, não tem poder ou nos esqueceu. A fé em Deus é provada na perseverança. Se os problemas persistem, a nossa fé também deve persistir. Deus certamente virá em nosso socorro.

Quando o temporal se levanta...

4
º) Deus poderá agir, ainda que nossa fé seja menor que o temporal (v. 38-39; Mt 8.26). Mesmo com a pequena fé dos discípulos, Jesus realizou o milagre e o mar se acalmou. É verdade que Deus exige que tenhamos fé nele. Entretanto, seu poder não está limitado ao tamanho de nossa fé, tampouco a sua misericórdia. Deus nos ama, e tudo o que Ele faz por nós é por pura bondade e não porque merecemos alguma coisa. O Senhor dá provas do seu amor, mostra que podemos confiar nele em toda ocasião, qualquer que seja a imensidão do nosso problema. A única resposta, pois, que podemos dar a Ele é entregar as nossas vidas em suas mãos.

Quando o temporal se levanta...
5º) E, logo após, a bonança chega, devemos avaliar a nossa fé diante da exigência de Jesus a respeito da confiança absoluta em Deus (v. 40). Jesus perguntou aos seus discípulos por sua fé. A experiência do temporal deve, portanto, levar-nos a refletir sobre a nossa própria fé. A mensagem de Jesus aos seus discípulos era: “Tenham fé em Deus” (Marcos 11.22). A fé declara que Deus é verdadeiro (Jo 3.31-36). Quando cremos em Deus, acreditamos que tudo o que Ele nos diz é verdade e temos a garantia de que Ele fará conosco tudo o que prometeu (Hebreus 11.6). Ainda que tenhamos fraquejado diante da tempestade, devemos lembrar do que Deus fez, como nos ajudou, agradecer e procurar recorrer a Ele “quando os tempos mudarem” daqui por diante. Na Bíblia sempre encontraremos mensagens para fortalecer a nossa fé. A oração será o meio de contarmos a Deus tudo o que está acontecendo e pedir ajuda. Os irmãos da igreja também poderão nos consolar e amparar. Deus está sempre perto, e será achado por aqueles que o buscarem (Mateus 7.7-11).


CONCLUSÃO


Quando o temporal se levanta ele também atinge aqueles que estão com Cristo. Nesse momento é preciso contemplar a presença de Cristo pela fé para não fraquejar. E faz-se necessário perseverar na esperança do socorro de Jesus, mesmo que de imediato a situação pareça não mudar. Ainda que nossa fé seja menor que o temporal, Deus poderá agir em nosso favor. Então, com a chegada da bonança, devemos avaliar nossa própria fé diante da exigência de Jesus a respeito da confiança absoluta em Deus. Amém!

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Homilia [1]: Igreja, por que e para quê?

O texto abaixo é um pequeno sermão que apresentei no retiro ITA-Mendes 2004 (30/10 a 02/11).

TEMA: IGREJA, POR QUE E PARA QUÊ?
TEXTO: EVANGELHO SEGUNDO MATEUS, CAPÍTULO 16, DO VERSÍCULO 13 AO 23.

A pergunta que tematiza o nosso encontro é, na verdade, duas perguntas. A pergunta "Igreja, por quê?" tem a ver com possibilidade - O que é que torna a Igreja possível? A pergunta "Igreja, para quê?" diz respeito à finalidade - O que é que orienta a existência da Igreja? Com o exame da passagem de Mateus 16.13-23, procurarei sugerir algumas respostas a essas perguntas.

I. IGREJA, POR QUÊ?

Por causa dos dois movimentos que caracterizam a história da salvação:

1. A REVELAÇÃO - O movimento divino (v. 16-17). Nas palavras de Jesus, de acordo com o evangelista, o seu Pai celeste foi quem revelou a Pedro o que este acabara de dizer: Jesus é o Cristo, o Filho de Deus! O Filho de Deus no mundo, Deus no mundo, Deus com os homens.

2. A CONFISSÃO - O movimento humano (v. 16). Deus revelou que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e Pedro assim o confessou. A Igreja é uma comunidade confessante, conquanto responde à revelação que Deus faz de seu Filho. E, na medida em que responde, compromete-se com o para quê de sua existência.

II. IGREJA, PARA QUÊ?

1. PROCLAMAÇÃO (v. 19). A Igreja deve dizer às pessoas que elas são convidadas a participar do reino dos céus por meio de Cristo.

2. COMPREENSÃO (v. 20-21). A Igreja precisa continuamente compreender o Cristo que proclama. Jesus não autorizou os discípulos a proclamarem-no como o Cristo sem antes explicar-lhes o que isso significava.

3. TRANSFORMAÇÃO (v. 18, 21-23). A Igreja deve identificar-se com a mensagem de Cristo, procurar nela o sentido para a vida. Os homens e as mulheres que compõem a Igreja falham, equivocam-se. O propósito de Cristo é reorientar o foco de suas preocupações, levá-los a pensar em e a esperar por "as coisas que são de Deus". Deus nos quer para nos transformar.

CONCLUSÃO

A Igreja encontra o seu porquê nos dois movimentos que caracterizam a história da salvação: a revelação de Jesus como o Cristo, o Filho do Deus vivo (o movimento divino) e a confissão de fé nessa revelação (o movimento humano).

A partir de sua confissão, a Igreja defronta-se com o seu para quê: proclamação (da salvação em Cristo), compreensão (do significado de Cristo) e transformação (pelo propósito de Cristo).

Que Deus a todos e a todas abençoe! Amém!

terça-feira, dezembro 12, 2006

Paralelismo concêntrico em Daniel 3.31 (4.1) – 4.34 (37).

(A) COMUNICADO DE NABUCODONOSOR AOS POVOS. LOUVOR AO DEUS ALTÍSSIMO: 3.31-33 (4.1-3).

1. Endereço do comunicado: "O rei Nabucodonosor, a todos os povos, nações e línguas que habitam sobre toda a terra: Que vossa paz se multiplique!" 3.31 (4.1)

2. Propósito do comunicado: Narrar os sinais e maravilhas que o Deus Altíssimo fez em seu favor. 3.32 (4.2)

3. Louvor do rei: O reino do Altíssimo é um reino eterno. 3.33 (4.3)

(B) A PROSPERIDADE DE NABUCODONOSOR. A NARRAÇÃO DO SONHO PERTURBADOR: 4.1-15 (4-18).

1. O acontecimento do sonho e o decreto do rei: Os magos, os adivinhos, os caldeus e os astrólogos são chamados à sua presença. Nenhum consegue dar a interpretação do sonho. 4.2-4 (5-7)

2. A apresentação de Daniel: Daniel, indicado "chefe dos magos", é posto em destaque como o portador do espírito dos deuses santos e conhecedor de segredos. 4.5-6 (8-9)

3. A narração do sonho a Daniel:

a) Uma grande árvore, no meio da terra, crescia garbosamente e seus frutos e folhagens forneciam a todos os seres vivos alimento e abrigo. 4.7-9 (10-12)

b) Um Vigilante, também chamado "um santo" e vindo do céu, ordena a derrubada da árvore, deixando na terra apenas o toco com as raízes. Nela, o coração seria mudado de coração de homem para coração de fera. Sobre ela passariam sete tempos (provavelmente anos). 4.10-13 (13-16)

c) O propósito da sentença é declarado: "(...) a fim de que todo ser vivo saiba que o Altíssimo é quem domina sobre o reino dos homens: ele o concede a quem lhe apraz e pode a ele exaltar o mais humilde entre os homens" (Cf. 4.22, 29 [25, 32]). 4.14 (17)

(C) DANIEL INTERPRETA O SONHO: 4.16-24 (19-27).

1. A grande árvore: Representava Nabucodonosor e o esplendor do seu reino. 4.17-19 (20-22)

2. As palavras do Vigilante: Nabucodonosor seria expulso para viver junto aos animais do campo durante sete tempos até que reconhecesse o domínio do Altíssimo sobre o reino dos homens. Após isso ele
seria reconduzido à realeza. 4.20-23 (23-26)

3. O apelo de Daniel: O rei deveria reparar os seus pecados pela prática da justiça e as suas iniqüidades usando de misericórdia para com os pobres. 4.24 (27)

(B') AS PALAVRAS ORGULHOSAS DE NABUCODONOSOR. O SONHO TORNA-SE REALIDADE: 4.25-30 (28-33).

1. As palavras de Nabucodonosor: Babilônia, a glória do rei. 4.27 (30)

2. Ultimato celeste ao rei: O reino ser-lhe-ia tirado. 4.28-20 (31-32)

3. Realização da sentença: Nabucodonosor é expulso de entre os homens e passa a viver no campo como um animal. 4.30 (33)

(A') NABUCODONOSOR RECUPERA A RAZÃO. LOUVOR AO DEUS ALTÍSSIMO: 4.31-34 (34-37).

1. Nabucodonosor recupera a razão: Bendiz o Altíssimo e reconhece o seu domínio sobre o exército dos céus e os habitantes da terra. 4.31-32 (34-35)

2. Nabucodonosor é reconduzido ao reino. 4.33 (36)

3. Louvor final: Nabucodonosor glorifica o Rei do
céu por suas obras. 4.34 (37)

sábado, dezembro 09, 2006

O livro de Daniel.

O livro de Daniel é o único livro apocalíptico da Bíblia Judaica e do Primeiro Testamento cristão. Estima-se que ele tenha surgido no século II a.C. Para situá-lo em seu contexto histórico é preciso começar do conquistador macedônio Alexandre, o Grande.

Alexandre pretendia libertar os gregos do domínio dos persas. Suas conquistas foram desde a Ásia menor até as fronteiras da Índia. Quando Alexandre morreu (na segunda metade do século IV a.C.), o seu império foi dividido entre os seus generais. Somente dois deles interessam para a história bíblica, a saber, Ptolomeu e Seleuco. Ptolomeu assumiu o território do Egito e logo se apossou da Palestina. Seleuco tomou o controle da Babilônia e da Síria. Mais tarde, no início do século II a.C., a dinastia de Seleuco arrancou a Palestina das mãos dos governantes egípcios ptolomeus.

Posteriormente derrotado pelos romanos na Europa e na Ásia, o poder dos selêucidas entrou em decadência. As dificuldades financeiras, as pressões do Egito no sul e a constante ameaça de Roma levaram à adoção de medidas desesperadas para manter a unidade política entre os territórios dominados e providenciar sustento econômico. O governante selêucida na ocasião, Antíoco IV (175 – 164 a.C.), promoveu a cultura e a religião gregas e saqueou os tesouros de vários templos nativos. A resistência dos judeus diante das inovações de Antíoco (que deu a si mesmo o título “Epífanes” – o deus manifesto, o representante visível de Zeus) fez explodir uma perseguição violenta. As práticas religiosas judaicas, tais como a circuncisão, o sábado e as festas, foram proibidas sob pena de morte. O Templo de Jerusalém se tornou um local de sacrifícios para deuses estrangeiros.

O livro de Daniel foi escrito para os judeus que sofriam por causa da sua fé naqueles dias difíceis. Na primeira parte do livro (capítulos 1 a 6), o autor narra as experiências de Daniel, um judeu que vivera na Babilônia durante o exílio de seu povo no século VI a.C. Daniel e alguns companheiros têm a sua fé duramente testada pelos babilônicos e persas, mas superam as provas confiando no seu Deus. A esperança apocalíptica na soberania de Deus sobre a história dos reinos humanos está presente em todas as narrativas: “(...) o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens, e o dá a quem quer, e até o mais humilde dos homens constitui sobre eles” (Dn 4.17).

Na segunda parte (capítulos 7 a 12), são relacionadas com Daniel profecias sobre o plano da história que vêm a ele na forma de sonhos e visões. As revelações são feitas com o uso de vários símbolos. Eles descrevem a ascensão e a queda de quatro impérios sucessivos – babilônico, medo, persa e grego (capítulo 7), a vitória de Alexandre sobre os persas e a divisão do seu reino (capítulos 8 e 10), as medidas repressivas de Antíoco IV Epífanes (capítulo 9), as guerras entre os ptolomeus e os selêucidas, o fim de Antíoco IV Epífanes (capítulo 11), a libertação final dos judeus e a ressurreição dos justos (capítulo 12). A obra quer trazer consolo e paciência, assim também manter viva a fé na vitória definitiva do Deus judaico e seus eleitos. A mensagem de liberdade e ressurreição antecipa a proclamação do reino de Deus por Jesus e os seus apóstolos no Segundo Testamento cristão.

A versão do livro de Daniel conservada na Bíblia judaica foi elaborada em duas línguas. Os trechos 1.1 – 2.4a e 8.1 – 12.13 estão escritos em hebraico. O trecho 2.4b – 7.28 é apresentado em aramaico. Essa versão mais curta foi também adotada pelos cristãos protestantes.

A versão da Bíblia grega (a Septuaginta – LXX) destaca-se por conter material adicional: a oração de Azarias (3.24-45), uma perícope de transição (3.46-50), o cântico dos três jovens na fornalha (3.51-90), a história de Susana (capítulo 13) e a narrativa sobre Bel e o dragão (capítulo 14). O cristianismo católico considera canônicas essas adições gregas.

Sugestão de leitura:

NIEHR, Herbert. O livro de Daniel. In: ZENGER, Erich et alii. Introdução ao Antigo Testamento. Trad. Werner Fuchs. São Paulo: Loyola, 2003. Págs. 448-460. Coleção "Bíblica Loyola", n. 36.

sábado, novembro 04, 2006

Sobre maus tratos aos animais.

Ao passar pelas ruas, já me deparei com animais em situações lamentáveis e a minha pergunta, sempre acompanhada de uma profunda angústia existencial, era: Qual o sentido disso? A gente sente um misto de revolta e tristeza, pensando que o animal sofre e sem entender por quê. Mas sabe o que mais me aborrece e acho o cúmulo da contradição? Pessoas que se dizem cristãs e que tratam mal os animais.

A pequena história de Jonas é emblemática em relação a essa questão. O livro termina com YHWH dizendo a um Jonas contrariado o seguinte (4.10-11, BJ):

"Tu tens pena da mamoneira, que não te custou trabalho e que não fizeste crescer, que em uma noite existiu e em uma noite pereceu. E eu não terei piedade de Nínive, a grande cidade, onde há mais de cento e vinte mil homens, que não distinguem entre direita e esquerda, assim como muitos animais?"

YHWH tem piedade dos animais! E como é que gente que confessa a graça de Jesus, o enviado de YHWH, pode ser capaz de agir com crueldade e cinismo para com os animais? Segundo o Evangelho de Mateus, Jesus afirmara que o Pai celeste alimenta as aves do céu (6.26). Insistimos que o ser humano é imagem e semelhança de Deus. De fato, a antropologia bíblica coloca a coisa nesses termos (Gn 1.27). Todavia, essa declaração pode ser, contra nós, uma condenação, na medida em que optamos pela dessemelhança divina ao maltratar as outras criaturas do Senhor.

Para aquele(a) que é cristã(o), mas por alguma razão está acostumado(a) a usar de violência gratuita contra os animais, digo com toda a franqueza: ESSA PESSOA ESTÁ NEGANDO O CRISTIANISMO! E não adianta vir com a história de que se garante é na "graça" de Deus. Declarações, na fé cristã, não valem NADA se não vierem acompanhadas do devido compromisso interior QUE SE EXPRESSA NO EXTERIOR: "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, que limpais o exterior do copo e do prato, mas por dentro estais cheios de rapina e de intemperança! Fariseu cego, limpa primeiro o interior do copo para que também o exterior fique limpo!" (Mt 23.25-26)

Na carta de Tiago (2.24) se diz de modo bem claro: "Estais vendo que o homem é justificado pelas obras e não simplesmente pela fé". Sugiro a leitura de Tiago 2.14-26.

Ao dizer que não me convence alguém dizer que se garante na graça de Deus, levo em consideração um eventual interlocutor que, empunhando esse discurso, queira justificar uma atitude inconseqüente em relação ao trato com os animais. Sinceramente, se uma pessoa cristã maltrata os animais, mas considera que a salvação pessoal é outra questão, que absolutamente não passa por um sentimento de indignação e uma postura diferente em relação à vida das diversas espécies de animais e vegetais que habitam o planeta, penso que ela possui uma deficiência gravíssima em sua compreensão tanto das exigências teológicas relacionadas à criação quanto à questão da salvação. O discurso de justificação pela fé somente não justifica nunca qualquer atentado arbitrário contra qualquer forma de vida. Pelo contrário, justificação pela fé significa que Deus aceita incondicionalmente o ser humano e não exige deste menos do que a aceitação incondicional da vida alheia, seja humana, seja animal. Paulo diz que o destino da criação está relacionado à manifestação dos filhos de Deus (Rm 8.19-23). Não é possível, pois, que passe em branco a nossa responsabilidade como cristãos de demonstrar, sim, pelas nossas obras, a presença de Deus no mundo e o seu amor em relação a toda a sua criação. Sabemos que muitas espécies animais e vegetais, além da própria atmosfera do planeta, sofrem as agressões de sistemas políticos e econômicos difundidos ao redor do globo, cujos representantes não se importam com nada que não seja a consecução de seus próprios interesses. Como o profeta João, que lutou contra semelhante sistema de alienação - os cristãos destinatários do Apocalipse estavam sendo perseguidos por um sistema ideológico preocupado exclusivamente com a manutenção da opressão representada pelo imperialismo romano -, é necessário que concretizemos a manifestação de Deus no mundo por meio de atitudes diferenciadas que promovam a vida, a dignidade e o respeito para com todas as criaturas. Em termos práticos (e por isso citei Tiago), que valor tem uma fé que não muda em nada as condições de existência aqui? Por mais espiritual que seja o discurso da justificação, ele não pode ficar restrito a uma perspectiva vertical e escatológica, a respeito da qual, inclusive, no que se refere à sua consecução, não podemos fazer absolutamente nada. O que deve acontecer quando o reinado de Deus se estabelecer definitivamente é de competência exclusiva de Deus. Todavia, o que acontece em nossa atual dimensão de existência diz respeito principalmente a mim. Creio, sim, que Deus está ao meu lado para me ajudar. Porém, os desafios teológicos e práticos que a realidade social contemporânea põe, põe-nos diante de mim, não diante de Deus. Sou desafiado por Deus para resolvê-los com ele ao meu lado, mas quem tem de se posicionar sou eu.

Como os homens se aproximam de Deus? Acredito que os textos bíblicos sustentem uma realidade essencialmente misteriosa, mas que admite tanto que Deus os atraia como que eles respondam fazendo uso de suas faculdades de cognição e volição. Os textos bíblicos, a meu ver, estão preocupados em testemunhar a intenção e o poder de Deus de salvar, como também querem desafiar o ser humano a se posicionar, a um só tempo, diante de Deus, de si mesmo e do próximo. "Ninguém vem a mim se o Pai não o trouxer", mas também "Retornem (ou "mudem a sua mente") porque o reinado de Deus está próximo".

Ao citar Tiago, faço-o para destacar que a espiritualidade bíblica não separa fé e obras. A ponto desse autor indagar: "Meus irmãos, se alguém disser que tem fé, mas não tem obras, que lhe aproveitará isso? Acaso a fé poderá salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã não tiverem o que vestir e lhes faltar o necessário para a subsistência de cada dia, e alguém dentre vós lhes disser: 'Ide em paz, aquecei-vos e saciai-vos', e não lhes der o necessário para a sua manutenção, que proveito haverá nisso? Assim também a fé, se não tiver obras, está morta em seu isolamento" (Tg 2.14-17, BJ). Logo, a fé só demonstra a sua eficácia como salvadora se ela se concretiza em ações que beneficiem o necessitado; em outras palavras, se ela mesma, por meu intermédio, uma vez desafiado inicialmente por Deus, salva aqueles que estão "perdidos", seja qual for a qualidade de sua desorientação. Paulo percebeu a indissociabilidade de fé e obras, e também João. O primeiro considera que a graça de Deus significa que "fomos criados em Cristo Jesus para as boas obras que Deus já antes tinha preparado para que nelas andássemos" (Ef 2.10, BJ). O segundo afirma categoricamente: “Se alguém disser: 'Amo a Deus', mas odeia o seu irmão, é um mentiroso: pois quem não ama seu irmão, a quem vê, a Deus, a quem não vê, não poderá amar" (1Jo 4.20, BJ). Hebreus 11, penso, poderia ser sintetizado na fórmula: "Pela fé, fizeram..." E Jesus, "(...) que passou fazendo o bem e curando a todos os que estavam dominados pelo diabo, porque Deus estava com ele" (At 10.38, BJ), segundo os sinóticos, ensinou o amor estendido ao necessitado como caminho da felicidade e certeza de fé: "Ao dares um almoço ou jantar, não convides teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem teus vizinhos ricos; para que não te convidem por sua vez e te retribuam do mesmo modo. Pelo contrário, quando deres uma festa, chama os pobres, estropiados, coxos, cegos; feliz serás, então, porque eles não têm com que te retribuir. Serás, porém, recompensado na ressurreição dos justos" (Lc 14.12-14, BJ). Citei aquela outra passagem, de Mt 23.25-26, para mostrar também essa indissociabilidade. Não se diz “limpe-se o interior do copo e do prato”, mas sim, “limpe-se o interior do copo e do prato, para que o exterior também fique limpo”. Salvar as baleias e os pandas pode não acrescentar nada à salvação do ponto de vista vertical ou metafísico, mas do ponto de vista horizontal ou histórico é concretização da esperança à qual a fé se refere, esperança da qual a fé não pode ser separada. A salvação de Deus, conforme entendo a Bíblia, é um cruzamento das linhas vertical e horizontal, nas quais consiste a experiência religiosa humana. E fé só vertical ou metafísica não muda realidade nenhuma. De igual modo, fé simplesmente horizontal ou histórica, mais dia menos dia, vai desagüar no desespero.

Em relação ao fato de que há cristãos que, lamentavelmente, maltratam animais (e pessoas), já vi gente citar tradições medievais e lendas absurdas para justificar maus tratos. Está mais do que na hora dos cristãos romperem com esse tipo de coisa, que nunca fez bem algum em toda a história do cristianismo, e assumirem um compromisso incondicional com a vida.

Não considero que a graça de Deus não baste. Basta que eu "pense" para perceber que ou Deus me aceita incondicionalmente ou eu estou perdido. Quero enfatizar, porém, é que um discurso sobre a graça de Deus não faz sentido se essa graça não se traduz em atitude graciosa do ser humano para com o ser humano. Conforme disse acima, a respeito do que Deus vai fazer comigo na, digamos, "consumação", é algo sobre o qual, absolutamente, eu não tenho domínio nenhum. Nem mesmo posso provar racionalmente que haverá uma consumação. Diante da proclamação bíblica, só tenho duas opções: arriscar-me, aceitando-a até as últimas conseqüências, ou arriscar-me, rejeitando-a, com todas as implicações que isso venha a ter. Entretanto, posso e devo, aqui, lutar para que as coisas se tornem melhores do que são. Não acho que Deus requeira menos de mim.

Em relação ao nosso papel no mundo enquanto cristãos, creio que devemos pensar como os reformadores: "Que Deus me ajude!"

Construir a história com Deus.

“No princípio, Deus criou os céus e a terra” (Gn 1.1). O sentido desse verso inicial da Bíblia é inequívoco: o universo (os céus e a terra, isto é, a realidade visível na concepção dos antigos hebreus) foi formado por Deus. O tempo cronológico aqui é o que menos importa. “No princípio” tem muito mais a ver com a mitologia, isto é, a descrição imaginária com a qual se representa a transcendência de Deus, do que com fatos históricos. Porém, é indiscutível a crença comunicada nessa frase de que o Deus que se representa por meio de linguagem mítica interage com a história humana, de modo que Ele mesmo é origem e sentido de tudo o que existe.

Na narrativa inicial do Gênesis, a ação divina governa os fenômenos naturais (o vento, os movimentos das águas, os ciclos dos astros, a fecundidade da terra e dos seres vivos) e, assim, o mundo adquire a sua forma. A ordem percebida na natureza inspira no ser humano observador a fé em um Deus elevado sobre essa harmonia de todas as coisas. Mas, “esse Deus não é um deus qualquer”, diriam os israelitas na antiguidade. “É o Deus da minha experiência, com a companhia do qual venho construindo e compreendendo a minha realidade histórica”. Pode-se dizer, então, que fé é isso: construir a história com Deus e perceber Deus na história.

Por essa razão, talvez, seja dado um destaque à formação do ser humano. É com o homem e a mulher que Deus pretende governar o mundo, preservar a beleza da dinâmica dos processos naturais, fazer história. Em sua existência no mundo, pois, o ser humano busca compreender a si mesmo. As pessoas de Israel, na antiguidade, ao perguntarem pelo sentido de sua história, sentiram um Outro presente e reconheceram essa presença que lhes soava como uma voz: “Façamos o ser humano (...)”. Ao indagar, então, a respeito de minha própria pessoa e dos rumos de minha história, sou convidado pelo texto bíblico a interpretar essas questões à luz da voz do Outro que me diz que sou uma criação divina, com quem Deus deseja escrever uma história neste mundo e a favor deste mundo.